Uma garota nos meus sonhos
2 O acordo
Notas iniciais
Boa leitura!
#2 O acordo
9:30 a.m
Acabei de passar pela placa, “bem vindo a Windville”. Depois de um ano sem pisar nessa cidade, ainda não sentia falta de nada.
Talvez seja a hora de explicar um pouco o porquê eu não suporto esse lugar, e bem... Tudo se resume as pessoas, eu e as pessoas nesse caso. Até os 14 anos eu tive aulas especiais no Saint Edwiges, então meu avô me pegou beijando uma garota mais velha na biblioteca, e decidiu que seria perfeito se eu tivesse professores particulares e enquanto isso eu ficaria bem trancada em casa, até que eu entrasse em alguma faculdade. Foram tempos difíceis, mas como eu não tinha como fugir tudo o que eu podia fazer era estudar. E então o plano era me formar com 16 anos e me emancipar e nunca mais ter que obedecer aquele velho. Só que um dos meus professores era o Will, com 18 anos. Will estudava na cidade vizinha e para conseguir uma grana fácil e bancar a faculdade, me ensinava física e matemática. E mais do que isso ele estava sempre do meu lado quando eu precisei. Só na época eu não entendia o porquê meu avô ficava tão feliz quando nos via juntos.
E de repente ele era tudo que eu precisava, o meu melhor e único amigo. Um dia antes da minha avaliação nós decidimos comemorar, pegamos as garrafas que meu avô tinha qualquer coisa que tivesse álcool e fomos para a colina, na entrada da floresta e da onde se via todo o vilarejo.
E então só me lembro de tudo em flashes, Will dizendo que me amava eu surtando dizendo que ele era um irmão pra mim. E quando ele tentou me beijar... eu corri, ouvindo ele gritar um monte de coisas que eu não entendia. Eu tropecei em algum galho, e quando eu abri os olhos os bombeiros estavam me levando para a ambulância.
E então descobri que aquele foi o ultimo dia que veria o Will... O ultimo dia que qualquer pessoa o veria...
9:45
Perfeito, me atormentar com as minhas lembranças foi um jeito eficiente de passar o tempo. Deixei o carro estacionamento do Saint Edwiges e caminhei em direção ao portão. E de longe já conseguia ver a única arvore do jardim interno. Meu avô sempre contava que ele se apaixonou pela minha avó assim que a viu embaixo daquela laranjeira. Ele era legal comigo quando eu era criança. Era.
Bom, eu sempre vi uma arvore velha e mal cuidada. Na verdade aquela construção pra mim sempre pareceu mais um museu. Pessoas velhas, ideias velhas...
E depois de 3 anos eu tinha que voltar para esse lugar...
Respirei fundo enquanto atravessava a recepção do Centro Cultural Saint Edwiges e fui direto para o pátio chegando ao jardim interno. E claro, como eu esperava a arvore ainda estava lá... mas a garota deitada na grama era algo novo. E eu não pude acreditar no que eu via.
-Um anjo...
E alguém tossindo atrás de mim.
— Bom dia Celine, como tem passado?
Droga, eu tinha pensado aquilo alto. E agora a Madre Su, estava me olhando com o maior olhar de reprovação que já tinha recebido na vida, e olha que não foram poucos.
-Oi Madre Su, como você tem passado? — Eu escolhi o meu melhor sorriso e ainda assim ela me olhou como se eu devesse ser crucificada. Foi ai que eu lembrei...- eeer... quer dizer Irmã Susanna.
Madre Su, todo mundo a chamava assim, pelo fato dela ser a freira mais velha do lugar, e como ela odiou o apelido, agora todos só a chamavam assim. Mas veja bem todos não significava que eu podia, e eu não ia tacar mais lenha na fogueira.
- Seu avô a está esperando na sala dele, se você puder vir comigo...
- Claro, claro, vamos nessa! – Ela me olhou mais uma vez desconfiada e seguiu pelo corredor lateral na minha frente para mostrar o caminho, como se eu não tivesse crescido naquele lugar.
Aproveitei para olhar mais uma vez pelo jardim, e ela ainda estava lá. Tudo que eu via era um monte de cabelos cacheados, brilhando no sol. A garota tinha a pele realmente branca, o que fazia um contraste com a blusa preta que ela estava usando. Que cor seriam os olhos dela? Eu queria ver mais de perto... Só que agora já estava quase contornando o jardim e ela não levantou a cabeça para olhar pra mim. E ai eu percebi que ela estava lendo um livro. E cara eu estava me segurando para não ir lá. Eu não sei por que mais eu queria saber quem era aquela garota.
E foi ai que quase atropelei a Madre Su, e vi que já estávamos na frente do escritório do meu avô.
-Desculpa, eu estava...olhando a paisagem- Droga escolha errada para fazer piadinhas. Madre Su, olhou diretamente para o lado e mesmo já um pouco longe, eu sabia que ela estava olhando na direção da garota. Ela sabia exatamente do que eu estava falando.
- Eu vou deixar você aqui. Tenha um bom dia.
Madre Su saiu andando, e eu num pensei que uma senhora de 70 anos pudesse ser tão rápida. Claro eu era um baita incentivo.
Respirei fundo. E abri a porta.
- Bom dia Celine! Por favor, sente-se para que eu possa ver você de perto. – Meu avô indicou a cadeira que estava na frente dele.
- E ai vô? – Ele franziu a testa na hora. Escolha errada de palavras de novo, acho que diretores de escola, vestidos com terno e acostumados a ouvir “ E ai?”.
Maximilian du Mas, um senhor de 60 e poucos anos, diretor do Saint Edwiges. Estava agora naquela sala com seu terno alinhado e o chá ainda quente na mesa. E agora encarando a neta adolescente desajustada e com uma jaqueta de couro surrada. Quase tive dó dele por um momento, o velho merecia pelo menos uma garota que usasse saias. O que não era o meu caso.
- Que bom que você veio, não gostaria de ter que te arrastar de volta – É, eu não duvidaria que ele fizesse isso. – Você trouxe suas malas?
- Oi? Malas, eu pensei que íamos discutir a minha herança, já que eu me emancipei o ano passado. – Eu não estava entendendo, Max tinha um plano, controlador como só ele conseguiria ser, um plano e a certeza de que conseguiria.
- Bom, o acordo no testamento é que o dinheiro deveria ser usado para faculdade...- Ele me olhou esperando alguns segundos enquanto tomava um pouco do chá.- E você não está na faculdade, e nem perto disso. Logo você vai vir e se formar aqui.
- Tá eu não passei na faculdade ainda, mas... PERAE, o que você quis dizer com ‘ nem perto disso’?
Ah, ele tinha dado um sorriso que arrepiou minha espinha.
- Minha querida, você precisa se formar no colégio antes da faculdade...
- Eu já me formei, eu só não fiz a ultima avaliação, mas já tinha nota suficiente eu só preciso da autorização...- E eu perdi a voz. Pelas regras daquele Estado, um aluno poderia se formar com aulas particulares, porém ele precisaria de um tutor educacional, para supervisa-lo e assinar o diploma, confirmando que tudo tinha sido realizado sem fraudes.
- ...do seu tutor que é...- Max nem escondia a satisfação enquanto me olhava entrar em pânico.
- O senhor, vovô.
Ah merda, o velho tinha me pegado nessa. Agora eu tinha que escutar qual seria o trato.
Fale com o autor