Uma estranha no ninho - Vol. I

33 Uma estranha revelação sobre nós dois - Parte II


Notas iniciais
Oiiiiii povo, e aí como vocês estão? Espero que tudo bem pq comigo...ta fodaaaa!!! Demorei pencas para conseguir terminar esse capitulo, aff... Gente, antes de tudo eu peço desculpar pela demora, minha irmã está para se casar daqui a 15 dias e minha vida está de cabeça para baixo. A mente não para um segundo e a paz já não reina no meu lar a meses, então...conseguir sentar e me concentrar em cada capítulo está sendo um desafio. Mas podem ficar calmos que eu não vou abandonar não tá?! Deve demorar alguns para saírem por conta desse motivo, mas que vão sair vão. Kkkkkkkkkkkkkkkk Já de antemão quero agradecer de coração os comentários kawaii que vcs me deixam sempre. Eu adoro ler e responder cada um deles. Desejo a todos boa leitura e bom divertimento com mais esse capítulo revelador!!! Perdão por todos os erros e tudo mais que tiver nessa bagaça aí doida que tô escrevendo. Se tiver alguma coisa muito bizarra me avisem que eu conserto, okay?!!! Bjs no kokoro!!! ♥ ♥ *Imagem do capítulo não me pertence. Eu a encontrei no Pinterest e a editei para que ficasse de acordo com a fic. Todos os direitos são reservados ao artista que inclusive assina a obra.

Alguns deles querem te usar

Alguns deles querem ser usados por você

Alguns deles querem abusar de você

Alguns deles querem ser abusados.

(Emily Browning — Sweet Dreams)

No chão frio do quarto lindíssimo e sob o olhar indecifrável de Cheshire, Saga chorou como um menino. As lembranças do shinobi se mesclando a sua, fazendo a realidade de sua vida horrível desabar sobre sua cabeça como uma avalanche mortal.

Quando mais novo, cheio de afazeres e o treinamento penoso para se tornar cavaleiro, Saga nem tivera tempo de raciocinar sobre seu suposto "acidente" e ainda mais no fato da recuperação mais do que milagrosa de seu irmão, Kanon. Para uns, milagre de Athena; para outros, apenas a vontade gigantesca do menino de sobreviver.

— Eu nunca consegui saber o que houve comigo. Julieta me disse que pescadores me encontraram e que provavelmente eu me perdi na floresta por conta da chuva enquanto procurava ajuda para Kanon. Fiquei internado por quase dois meses. Quando voltei para casa as vozes começaram: Primeiro nos sonhos, depois no dia a dia. Minhas brigas com Kanon pioraram e consequentemente as vozes também. Sempre que ele me acusava de ser mau como ele a voz na minha mente confirmava aquilo. — fez uma pausa. — Por todos os deuses! Ela estava lá. Porque ela nunca me disse nada?

— Por que ela não lembra. — O shinobi caminhou de volta a poltrona e sentou. —Hiroaki- Sama levou Kyoko direto para o Ventríloquo. Ela estava quase morta e ele tinha que fazer alguma coisa para não deixar isso acontecer e ainda mais...prevenir que ela nunca mais sequer cogitasse em ter contato assim com outros humanos outra vez, principalmente você.

—Maldito! E quanto a mim? Ele sabia que eu não tinha morrido. Você ficou lá no lugar dele e forjou um acidente. O que aconteceu? O que houve depois daquilo tudo?

Cheshire sorriu de lado. Respirou fundo de olhos fechados e depois os abriu. Devagar virou a palma de sua mão direita para cima sem desprender o olhar do de Saga.

— As pessoas...acreditam em qualquer coisa quando estão desesperadas, Saga. E com Hiroaki-Sama não é diferente.

Saga nada disse. Eram tantas perguntas sem respostas que sua mente parecia dar mil voltas. Ao mesmo tempo em que queria saber a verdade sobre tudo, também sentia medo. Medo daquilo se tornar pior do que já estava. Se ele que sabia boa parte da verdade estava em choque, não queria nem imaginar o que seria de Kyoko quando tivesse que contar tudo a ela.

Manteve o silêncio por alguns segundos mirando o olhar soberbo e naturalmente sarcástico de Cheshire. A mão estendida indicando a Saga o restante do caminho para o final de tudo aquilo. O caminho para as respostas de todas as suas dúvidas.

—Entendo suas dúvidas. São muitas...e com razão. — cruzou os dedos das mãos mantendo os cotovelos apoiados nos braços da poltrona. — São tantas...perguntas, portas trancadas e você se questiona: Será que devo continuar? E se for pior do que tudo que já descobri? Será que vou suportar? — sorriu.

Saga respirou fundo e caminhou devagar até o Shinobi, parando a centímetros, mas não o tocou...ainda!

—Bom garoto!- estendeu novamente a mão, sorrindo. — Você sabe o que tem que fazer.

Saga fixou seus olhos verdes nos de Cheshire e sem mais segurou sua mão.

O que não foi surpresa, Saga foi absorvido para a mente do shinobi, mas dessa vez para um lugar desconhecido. Tudo estava escuro, silencioso, medonho. Caminhou dois passos olhando de um lado para o outro, mas nada viu. Caminhou um pouco mais e nada. Olhou ao redor outra vez, dando um passo para trás e virando. Engoliu em seco tamanho foi o susto que levou ao sentir algo atravessar seu corpo. Um tremor o sacudiu dos pés à cabeça. Saga mal conseguiu processar aquela informação, mas por instinto fez o que qualquer um ali faria: Girou nos calcanhares rápido. Já estava em outro lugar. Um lugar amplo, com chão de tatame de madeira e algumas velas acesas em castiçais. Saga observou três homens caminharem até o centro dela e por fim se prostrarem de joelhos diante de alguém que antes não estava ali, mas soube distingui-lo muito bem na parca luz; Hiroaki.

Caminhou até próximo dos homens se dando conta de quem eram. Não eram homens e sim youkais, mas não uns quaisquer. Ali diante de seus olhos estavam Yamoto, Ookami e Águia. Ambos os três usavam as máscaras de raposa, deixando somente os olhos desafiadores à mostra. Provavelmente teria sido um deles a passar antes por si.

—Hiroaki-Sama perdoe nosso atrevimento, mas...estamos preocupados. Desde que Hime-sama retornou do Nigenkai nós não tivemos notícias. – começou Yamoto.

Hiroaki ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos fechados enquanto degustava de algum líquido que Saga julgou ser saquê. Teve de admitir, Hiroaki era tão ou até mais imponente e ameaçador do que ele mesmo, mesmo parecendo tão jovem.

Os cabelos negros, lisos e muito longo estavam presos em uma espécie de coque frouxo onde várias mechas caiam por seus ombros e rosto. A pele branquíssima, levava um tom bem leve rosado que era destacado ainda mais por conta da cor dos cabelos. Ele estava sentado no chão de tatame, de pernas cruzadas, mas mesmo assim Saga conseguia perceber o quanto ele era alto. Não era musculoso, porém esses eram muito bem delineados. Prova de todos os milhares de anos que se empenhou em moldá-los com seus treinamentos árduos. O kimono negro deixava o braço direito e uma parte do dorso a mostra, enquanto o esquerdo ainda estava coberto pelo encorpado e belíssimo tecido. O nariz longo, mas sem exageros, fino combinava perfeitamente com o rosto jovem e sem nenhuma cicatriz. As sobrancelhas ralas e longas, tensas e angulosas, os lábios finos e com o contorno muito bem desenhado.

Hiroaki manteve o silêncio o que deixou os shinobis ainda mais tensos. Eles sabiam que Kyoko não estava bem e que algo de ruim havia acontecido, mas não sabiam quem ou o que havia causado aquilo. A única pessoa que estava tendo acesso a ela era o Inugami. Nem mesmo Baa-san podia se aproximar de Kyoko.

— Entendo a preocupação de vocês...- iniciou Hiroaki, abrindo os olhos puxados e incrivelmente azuis. —...mas, infelizmente no momento a Kyoko não pode ser perturbada.

— Mas...Hiroaki-sama...- tentou Ookami.

— Sem, mas, Ookami. Não vou deixar que ninguém atrapalhe na recuperação dela. – intimou frio. Os shinobis engoliram em seco.

— Pode, pelo menos, nos dizer o que houve com ela? – Yamoto pediu ainda de joelhos.

O Kage respirou fundo, bebericando de seu saquê. Por mais irritação que aquele ato dos guardiões de Kyoko estivesse lhe causando, admitia que ela os havia escolhido bem. O zelo dos três era tão grande que chegava quase a veneração. Eles mereciam uma resposta, mesmo que esta não fosse a verdade.

— Às vezes eu questiono se Kyoko aprendeu alguma coisa com o sofrimento que os...humanos causaram a ela. – fez uma pausa. — Ela me desobedeceu e sua desobediência quase lhe custou a vida...

Saga crispou o cenho já antevendo o que aquele maldito faria. Não era possível que ele faria aquilo, faria?!Sim...faria sim!

—...Kyoko se meteu com os humanos e acabou por ser ferida gravemente por um deles.

Nani!! (O quê?!) – exclamou os três de uma vez.

— Ela está em uma incubadora, se recuperando. Vocês não têm com o que se preocupar.

Temeeee (Cretinos!) – rosnou Águia. Os olhos mudando de cor por conta da fúria.

—Sim, mas não se preocupem. Eu...jamais deixaria em pune alguém que sequer tentou se aproximar de Kyoko. — completou Hiroaki para a maior irritação de Saga. Sua vontade era mata-lo ali mesmo.

Hiroaki abriu novamente os olhos e estes seguiram para o fundo da sala. Saga percebeu o ato e mesmo com toda vontade de arrancar fora a cabeça daquele mentiroso, seguiu também seus olhos para o mesmo lugar.

— Saiam! – ordenou frio.

Os três shinobi berraram por dentro de ódio daquele maldito Inugami. Aquela história estava muito mal contada. Kyoko era forte demais para ser ferida tão gravemente por humanos ao ponto de ficar quase em coma. Era mais do que óbvio que Hiroaki estava escondendo algo sério. Mas o que podiam fazer? Hiroaki era absoluto e sem Kyoko por perto era impossível questionar qualquer coisa que ele dissesse. Hiroaki não era do tipo explosivo e sim sádico e frio o que tornavam suas reações difíceis demais de decifrar, e quando o assunto era Kyoko as coisas pioravam. O inugami era completamente obcecado pela kitsune e não escondia isso de ninguém. Yamoto nunca conseguiu entender como ele podia alegar amar Kyoko. Se aquilo era realmente amor, então não desejaria nunca amar alguém.

Sem muita alternativa, ambos os três ficaram de pé, fazendo uma pequena reverência e saindo dali. Saga acompanhou a saída deles somente com os olhos, voltando logo para Hiroaki.

Ele então ficou de pé sem parar de olhar a escuridão no fundo da sala. Tinha alguma coisa ali naquele canto, escondido como as assombrações dos filmes de terror, e tanto Saga quanto Hiroaki sabiam disso. Os olhos azuis do vilão mudaram de cor, e em seu belo e intocado rosto veias arroxeadas subiram do pescoço até a testa, denunciando a irritação dele, e o que antes era uma expressão angelical, agora estava mais para a de um demônio.

De repente um par de olhos azuis luminosos surgiu no meio da escuridão e passos puderam ser ouvidos. Daquele meio, o que não foi surpresa alguma, Cheshire surgiu. Caminhando até a parte clara do lugar. Ele estava sem a máscara deixando à mostra o rosto igualmente jovem e o sorrisinho sarcástico. Saga o olhou da cabeça aos pés, observando agora o quanto os olhos deles e as feições se pareciam. A diferença era que Cheshire estava mais para uma versão aborrecente de Hiroaki enquanto o outro já era um homem feito.

Continuou observando ambos, até enfim parar no objeto estranho que o mais novo segurava. Apertou os olhos tentando identificar. Empalideceu dos pés à cabeça ao confusamente identificar o que ele segurava. Será que era realmente aquilo que estava vendo?

—Trouxe o que lhe mandei? – indagou Hiroaki entre os dentes.

Cheshire abriu mais o sorriso e sem aviso arremessou na direção de Hiroaki o objeto que segurava como uma bola de basquete. Saga esquivou para o lado, saindo da frente mesmo sabendo que ele não o acertaria. Hiroaki esticou o braço na frente do corpo, segurando o que lhe foi jogado na palma da mão, para o pânico total do cavaleiro de gêmeos.

Não era possível. Aquilo era um absurdo! Grotesco! Um pesadelo bem diante de seus olhos. Como? Como aquilo podia estar ali na mão de Hiroaki? Será que...

—Ahhh...

Sussurrou satisfeito o youkai. Um sorriso perverso mostrou os caninos pontiagudos que despontaram sobre os lábios, os olhos brilhando num misto de azul e verde florescente, as unhas pontiagudas perfurando o crânio que ainda sangrava. O crânio que ainda mantinha seus pequenos olhos verdes abertos e o sangue que escorria pela boca miúda de forma aterrorizante. Hiroaki segurou com ambas as mãos observando com satisfação o crânio arrancado do pequeno Saga. Era como se toda sua ira se esvaísse em êxtase e o prazer total de ter aquilo entre seus dedos era quase palpável para Cheshire e Saga. Mas se aquilo não fosse horror suficiente ele então aproximou a cabeça pequena de sua boca, projetando a língua grande e encharcada de saliva, deslizando a mesma pelo sangue seco grudado no canto da boca e nas bochechas do menino.

Saga enguiou com a cena, sem conseguir acreditar no que estava vendo. Como podia Cheshire ter sua cabeça quando ele mesmo o havia salvado? E como aquela podia ser sua cabeça se estava vivo?

—...você fez muito bem. AB+. Han! Se soubesse teria pedido o corpo inteiro. – falou ainda mirando os olhos arregalados da cabeça que segurava. — Me daria um belo jantar.

Cheshire então sem dizer mais nada, deu as costas a seu maior e começou a caminhar. Não tinha mais nada o que fazer ali. Hiroaki queria a cabeça do pequeno Saga e agora ele a tinha. Já não lhe devia mais nada. Precisava urgente voltar para as sombras de Kyoko-sama, pois ela sim precisaria de si mais do nunca. Não conseguia parar de pensar no que Hiroaki havia feito a ela e mais ainda no que estaria ainda fazendo com ela, mas o que mais lhe entristecia era o fato de saber que aquilo aconteceria e por amor a ela, não conseguiu evitar.

Ao dar as costas a cabeça se incinerou na mão de Hiroaki, incendiando e queimando até sobrar somente os ossos, e depois dos ossos só o pó.

O cavaleiro de gêmeos ficou observando a cena por alguns segundos, odiando Hiroaki com todas as forças que tinha. Pensou em avançar sobre ele, mas lembrou-se de que aquilo era só as lembranças de Cheshire. Cheshire! Lembrou do outro e sem parar de fitar o Kage mais velho, caminhou para trás, passo a passo até enfim sair daquele lugar.

E o que não foi surpresa nenhuma tudo estava novamente diferente. A escuridão que tomava conta da parte externa daquele salão, agora não estava mais ali e sim era um corredor. Um corredor longo e parcamente iluminado por vários castiçais. Saga observou mais, forçando as vistas pelo local e identificando no fundo a imagem de duas pessoas. Saiu correndo até elas parando quando se deu conta de quem eram e quando julgou suficiente.

Ali, bem diante de seus olhos estava Naomi, ou melhor, Suzuki. Seu semblante sério observava a sombra de Kyoko. Este estava de costas, como se tivesse acabado de ser interrompido de seu caminho.

—Como teve coragem? – gruiu Suzuki. A voz feminina que enganaria o mais sábio dos homens. Cheshire sorriu virando um pouco o pescoço.

—Como disse? – ironizou.

— Você entendeu muito bem o que eu disse, seu...mentiroso. Maldito! Eu deveria ir agora mesmo até Hiroaki-Sama e contar a ele sua...mentira. – Suzuki prostrou-se na frente do outro, falando com ele quase com os rostos colados.

—Ahhh...você não teria coragem, até porque... você quer tanto Hiroaki-Sama na cama com você, quanto o quer bem longe de Kyoko-sama.

— Não nego o que sinto por ele e é por isso mesmo que não deixarei você enganá-lo assim.

— Então vai lá, conta pra ele que eu menti. Conta pra ele que eu...- ergueu a mão tirando a luva e mostrando a própria mão. —...o enganei usando um dedinho mindinho.

—Não me interessa quais truques você usou! – rebateu furioso.

—Mas lhe interessará quando o menino crescer. — Suzuki estancou, entendendo enfim onde Cheshire queria chegar. — Imagine...se você contar ao “Chatoaki-sama” sobre meu pequeno...truque ele ficará furioso e vai voltar ao Nigenkai para matar o menino, e aí...- fez uma cara de triste. —...quem afastará Kyoko-Sama dele para você?

Suzuki deu um mísero passo para trás. Não era possível que aquele miserável o estava chantageando.

— Ele...ele...é só...um menino.

— Um menino que se tornará um homem forte...- se aproximou mais. —...e viril.

Os punhos de Suzuki foram apertados com tanta força que o sangue começou a pingar no chão. Estava furioso, mas também encurralado. Pensou que talvez Cheshire só estivesse mentindo para se proteger, mas e se não estivesse? Se o tal...menino fosse realmente o único capaz de afastar Kyoko de Hiroaki? E se não fosse? E como saber se aquilo iria dar certo? Não sabia e era exatamente isso que o enfurecia. O fato de não saber o que fazer e acabar ficando a mercê do outro.

Cheshire percebendo a confusão explicita na face do outro sorriu satisfeito. Havia conseguido mexer com os parafusos de Suzuki mais fácil do que imaginou. E com o mesmo sorriso se aproximou mais ainda dele. Os corpos sentindo o calor um do outro enquanto os olhos se digladiavam.

— Você deveria ser um pouco mais paciente, afinal...- se aproximou do ouvido do outro. —...a vingança é um prato que se come frio...oniichan (irmãozinho).

Suzuki ficou imóvel mesmo depois do leve tapinha recebido nas costas. Por todas as forças existentes em qualquer universo. Se existia alguma coisa que ele odiava mais do que Kyoko era Cheshire. Porquê? Uma por ele ser a parte mais sádica e protetora de Hiroaki e sempre, sempre dar um jeito de manter Kyoko viva, e segundo por ter como consequência o maldito como seu irmão mais novo. Sim! Cheshire fora modelado pelo ventríloquo da mesma forma que ele, o que como resultado o tornando seu querido e amado meio irmão mais novo. Seu maldito, seu calcanhar, sua ferida, seu...câncer.

Virou em um pulo, furioso, deixando meio que sem querer sua face bela e feminina se misturar com a face amadeirada e horrível de sua real forma.

— Você...foi o maior erro que papai fez na vida! Amaldiçoo o dia que ele aceitou dar vida a você, aberração!

Cheshire nada disse, somente saiu caminhando despreocupado com ambas as mãos na nuca. O sorriso sarcástico enfeitando o rosto jovem, tendo a certeza de que agora, nada mais nos dois mundos colocaria Kyoko em risco. Hiroaki só era um perigo a ela quando o assunto era os humanos e sem humanos não havia perigo. Ela jamais se lembraria de Saga e Saga jamais lembraria dela. Tudo estava em seu devido lugar, de onde nada devia ter saído. Não aprovou em nenhum momento a relação dela com o pequeno e isso era um fato que nunca mudaria mesmo que Saga cumprisse com sua palavra: Crescer e se tornar um grande cavaleiro. Ele sempre seria humano e isso era algo que nunca iria mudar. Não importava o tamanho do amor de Kyoko por Saga ou quantas pessoas ele teria que matar ou enganar, para Cheshire a prioridade era a segurança dela, a vida dela, e não deixaria nada e nem ninguém ameaçar sua amada Hime-Sama.

O geminiano ficou paralisado ao saber de toda aquela informação. Cada hora que pensava já ter se surpreendido demais, Cheshire vinha e lhe provava que ele ainda tinha psicológico para aguentar mais revelações. O maldito havia manipulado todos! Todos sem exceção. Até mesmo Hiroaki caíra no plano dele e isso era o cúmulo. Cheshire não tinha o direito de decidir o que era melhor para Kyoko ainda mais daquela maneira tão suja.

De repente tudo voltou a ficar escuro outra vez. Saga tentou ver suas próprias mãos, mas nem isso conseguia, então resolveu fazer como da primeira vez: caminhar sem rumo. Estava tão furioso que só pensava em acabar logo com aquilo tudo. Quando voltasse mataria aquele shinobi nem que fosse na base das dentadas.

Mas dessa vez a caminhada não fora tão bem-sucedida. Saga andou, andou e andou sem saber por quanto tempo e muito menos para onde. Suas pernas já começando a enfraquecer, a sensação de agonia e solidão em um lugar onde não sabia estar era horrível. Era como dar voltas e voltas no mesmo lugar por horas infindáveis. Parou ofegante e suado, por fim olhando tudo ao redor, tentando encontrar um caminho ou algum sinal dele pelo menos.

“Onde estou? ”, pensou.

Disparou em uma corrida sem rumo. Parou outra vez, virando de um lado para o outro e voltando a correr.

— CHESHIRE!!! SEU MALDITO! ONDE ESTOU? – berrou furioso. — Droga!

Uma nova corrida e Saga caiu de joelhos.

—Hime-sama como se sente?

Saga estancou ao ouvir a voz do Shinobi. Levantou em um pulo e saiu correndo, ouvindo o diálogo aumentar em cada passo. Uma luz miúda no fundo começou a surgir e aumentando mais e mais junto com as vozes. E quando se deu conta, a pequena luz ficou enorme, engolindo o cavaleiro e o levando até...

— O santuário?! – sussurrou Saga reconhecendo o lugar

— Hime-sama como se sente?

A voz jovem chamou a atenção de Saga e ele viu enfim sua amada e o Shinobi conversando. Eles estavam no mesmo templo abandonado onde a havia encontrado junto com Fukuro e Luy da outra vez. Ficou em silêncio, observando a raposa e prestando detida atenção a conversa.

—Não estou melhorando, Cheshire.- Kyoko sorriu triste.

— Maldito cavaleiro de Aquário, eu queria quebrar o pescoço dele por ter ameaçado você. – resmungou o shinobi flutuando até Kyoko.

“Aquário?! Camus?! Como assim?! Ameaçar?! Que história é essa? ”, pensou Saga perplexo. Será que Camus sabia de alguma coisa?

—Deixa de ser bobo...- deu-lhe um cascudo. Cheshire se afastou com um muxoxo. — Cheshire, eu...quero lhe pedir uma coisa.

O shinobi se aproximou curioso.

— Não importa o que aconteça comigo, eu quero que você...

— Não Hime-sama, isso não...

—...quero que você continue nas sombras. – completou a Kitsune.

—Mas...Hime-sama, eu...

—Se acontecer alguma coisa comigo...

— NÃO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ! – ele berrou choroso. —Vamos fugir, eu posso tirar você daqui...

—Não posso fugir, Cheshire! Não posso fazer isso com o Saga. Sei que é difícil para você, mas...- os olhos de Kyoko lacrimejaram e Saga que até então observava tudo de boca aberta sentiu-se morrer um pouco mais. —...você é minha única esperança. – chorou enfim.

—Hime-sama...

—Me prometa, prometa que não irá tentar nada. Prometa! Me prometa que continuará nas sombras e só agirá quando for a hora. Prometa! Por favor, prometa que não tentará me salvar. Por...favor, Cheshire. Você...você é minha única esperança. – ordenou mais do que pediu.

Cheshire ficou mirando os orbes coloridos de sua amada Hime-sama, até enfim menear a cabeça positivamente.

— Ótimo! – sorriu. — Agora preste a atenção em tudo que direi okay?! – Cheshire concordou. — Se acontecer alguma coisa comigo, eu quero que você procure por...- e assim tudo sumiu.

A imagem de Kyoko se misturando com a de Cheshire como se uma onda levasse ambos embora, cessou o diálogo. Saga gritou desesperado, correndo até ela sem acreditar no que tinha ouvido e visto. Caiu de joelhos em meio a lágrimas. Então Kyoko sabia que morreria e pior, havia praticamente forjado a própria morte.

Ela sempre soube que sem se adaptar ao ar do Makai e sem Adamantine ele nunca conseguira vencer Hiroaki, então teve de optar e fazer a escolha mais difícil de sua vida.

— Nãoooo, Kyoko!! Por quê? – gemeu Saga.

Um nova luz e mudança de ambiente despertou Saga outra vez. Ele levantou o rosto rápido e vendo ao seu lado o shinobi de Kyoko. O semblante aterrorizado, molhado por lágrimas, as unhas cravadas no chão de pedra. Seguiu para onde Cheshire olhava e então Saga viu o que ele não tinha visto: A morte de Kyoko.

Saga gritou desesperado e Cheshire estremeceu quando a lâmina da masamune de Hiroaki rasgou a garganta de Kyoko. O sangue saindo em pequenos jatos pelo corte, levando a vida tão preciosa de quem amava embora sem dó. O Shinobi tremia em pânico, massacrando as pedras entre os dedos na tentativa inútil de controlar seu corpo a desobedecer pela primeira vez sua programação original. Ele fora criado para salvar e obedecer qualquer ordem de Kyoko e por isso ficar ali, parado e observar Kyoko sendo morta era pior do que o maior sofrimento que pudesse imaginar. Era como se mil facas atravessassem seu corpo todas de uma vez.

E foi aí que Saga conseguiu entender finalmente a raiva que o Shinobi sentia de si. Ele fizera de tudo para afasta-los por saber não ser seguro para ela, mas mesmo assim falhou. Por sua causa Cheshire falhou miseravelmente e fora obrigado pelo amor que Kyoko sentia pelo cavaleiro a vê-la morrer e não poder fazer nada. Estar ali presente e não poder protegê-la, cuidar dela, era demais para ele.

Novamente tudo mudou. Um vórtice sugou todas as imagens, o levando agora para um quarto estranho, mas conhecido. Saga engoliu em seco ao reconhecer tudo ali já que um dia ele mesmo fora o dono daquele lugar.

Estava escuro e somente a luz da lua não deixava tudo um breu. No canto, próximo a cama, em uma poltrona vermelha e dourada o Grande mestre jazia ali, sentado com o olhar perdido. O semblante triste e os olhos lacrimosos. Provavelmente pelos mesmos motivos que deixava o santuário inteiro de luto.

"Shion?! Não...", sussurrou Saga.

De repente ele ergueu os olhos. Sentia uma presença estranha, mas não agressiva. Olhou para a parte escura próximo a janela e viu. Engoliu em seco pela surpresa; ele era tão jovem que Shion sentiu pena.

Não era de hoje que Shion já sentia alguém rondar o santuário, ronda Kyoko. Uma presença sinistra, forte, mas não agressiva. Era como se só estivesse ali para observar. Shion sempre sentiu curiosidade, ainda mais pelo fato de nenhum cavaleiro parecer ter notado o estranho por ali, então achou por bem esperar. E como sábio Grande Mestre, não errou.

—Não precisa ter medo de mim- disse Shion com toda sua calma.

Uma risada sarcástica e baixa pareceu soar por todas as paredes daquele quarto imenso, mas Shion não se intimidou. A sombra deu alguns passos, até a luz da lua iluminar todo seu corpo. Um sorriso de lado e as íris iluminadas pelo brilho prateado do satélite natural.

—Vai precisar de muito mais do que essa carinha de anjo para me assustar não acha, Grande Mestre? — volveu o shinobi.

Shion achou por bem não responder. Por mais que aquele ser tentasse parecer durão ou amedrontador, Shion sabia que naquele momento ele não era nada além de um garoto sozinho. Conseguia notar no tom de voz, mesmo sarcástico, e no brilho dos olhos a tristeza que ele sentia.

— Diga-me o que veio fazer aqui, criança. — perguntou Shion ficando de pé.

Um silêncio estranho pairou pelo ambiente. Cheshire desviou o olhar para seus próprios pés afim de não deixar que aquele humano o visse tão frágil. Ele nunca havia sabido o que era a dor da tristeza antes, e era sim uma das piores dores que alguém podia sentir.

—Ela disse que eu poderia procurar você. Disse...que você me ajudaria.

— Suponho que seja de Kyoko quem está falando.

—E de quem mais seria?- ironizou. Shion respirou fundo.

—E o que você deseja, criança?

— Hãn! Criança...

♊oOoOo♊

Saga levou um susto ao ouvir um grito. Olhou de um lado para o outro a fim de se localizar. Não estava mais no quarto do Grande Mestre e sim na casa de gêmeos. Um novo berro pode ser ouvido e dessa vez ele reconheceu sem dificuldade: Era a si mesmo. Estava gritando com Kanon enquanto este tentava tirar o corpo de Kyoko de seus braços. Um silêncio se fez ouvir e da porta Kanon surgiu, carregando o corpo de Kyoko com cuidado e o depositando no altar onde deveria estar a armadura de gêmeos. O mais novo olhou triste para a Kitsune por alguns segundos e depois saiu, deixando-a sozinha e a própria sorte.

Saga se aproximou. Engoliu em seco com aquela imagem. Era horrível pensar ter Kyoko morta. Ainda se lembrava perfeitamente da sensação que sentiu quando a viu daquele jeito.

— Kyoko...- sussurrou acariciando os cabelos dela.

Levou um baita susto ou ver uma outra mão atravessar a sua. Era Cheshire. Ele nem precisava dizer nada. Era notório até para uma criança o sofrimento dele ao ver Kyoko daquele jeito.

— Vocês a deixaram morrer. Ele disse que a protegeria. – Cheshire gruiu, os olhos marejados e tristes.

—Saga fez o melhor que pode. – respondeu Shion se aproximando.

— NÃO FEZ NÃO!!! – berrou.

— Todo mundo erra.

— ELE NÃO TINHA ESSE DIREITO! ELA O AMAVA! MORREU POR ELE. – Cheshire berrou dessa vez caindo de joelhos chorando.

Ao ouvir a gritaria Kanon correu para ver, dando de cara com ninguém menos que Shion. Cheshire ficou do mesmo jeito, abstraindo a presença do irmão de Saga e a forma como ele o olhava sem entender nada ali.

—Shion?! O que está acontecendo aqui? Quem é você? – indagou o marina nervoso.

O shinobi não moveu um músculo. Shion ergueu uma das mãos, ordenando em silêncio que ele não tentasse nada.

— Hime-sama...ela...ela sabia que morreria. – sussurrou Cheshire sem parar de olhar para Kyoko.

—Só posso ajuda-lo se me disser o que quer. – falou Shion.

—Eu preciso levá-la.

— Como é que é?! – Kanon quase berrou, já pensando em se aproximar do outro, mas Shion o interrompeu com uma mão.

—Não posso permitir isso. Saga enlouquecerá se o corpo dela sumir. Ele já sofreu demais e...

—Não se eu deixar outro no lugar. – interrompeu para a surpresa de Shion e Kanon.

— Como?

Cheshire se aproximou de Kyoko, devagar e com uma pequena kunai abriu uma das feridas dela, arrancando um pedaço da carne. Depois se afastou, agora vinha a pior parte. Com uma katana ele então apoiou a mesma sobre o próprio braço e de uma só vez arrancou o membro, para o desespero maior de Saga, que via tudo perplexo, e Shion e Kanon que também estavam ali de verdade. Cheshire prendeu o grito na garganta, usou sua energia para estancar a ferida, colocando o braço arrancado no chão junto com o pedaço da carne arrancada do corpo de Kyoko. Shion e Kanon ficaram paralisados. Não conseguiam dizer uma só palavra e muito menos impedir qualquer ato que fosse daquele youkai.

E usando de seu youki o braço arrancado começou a se fundir com a carne arrancada de Kyoko e de forma sinistra a ganhar a forma. O braço começou a se esticar, crescendo e dando forma ao corpo falso de Kyoko.

— Por...todos os deuses.- resmungou Kanon. Os olhos arregalados e a boca aberta.

— Incrível! É...idêntica. – sussurrou Shion se aproximando.

— Ele nunca vai...perceber a diferença. O truque dura um dia no máximo, mas se a enterrarem antes disso...

— Será congelada. – informou Shion.

— Melhor ainda. – gemeu de dor. — Não posso sair daqui sem ajuda.

Shion entendeu perfeitamente. Caminhou até o corpo original de Kyoko e a tirando do altar, em seguida colocou o falso. Era tão idêntico que fazia até Shion duvidar.

— Shion, isso não está certo. Estamos enganando o santuário inteiro. E o Saga?! Quando ele souber irá...

—Ele não vai descobrir Kanon. – interrompeu Shion ajeitando o corpo da kitsune. —Agora vamos, não posso fazer isso sozinho.

E muito a contra gosto, Kanon assentiu. Com cuidado, ajudou Cheshire a ficar de pé e o encostou em uma pilastra, voltou correndo para ajudar Shion com o sangue que saiu do braço amputado do outro. Ao terminar pegou o shinobi com cuidado e Shion o corpo de Kyoko, usando de sua maior habilidade, o teletransporte, e assim sumindo da casa de gêmeos.

Longe dali Shion surgiu com Kanon, Cheshire e Kyoko em uma floresta longe do santuário. Colocou o corpo dela no chão.

— Eu preciso me alimentar antes de ir.

Kanon e Shion se entreolharam cumplices.

—E do que você precisa? – perguntou Shion. Cheshire sorriu de lado. Será que Shion era tão burro assim?

—Fique com o corpo dela, eu já volto. – fez uma pausa. — Kanon, venha comigo.

O marina assentiu com um aceno e depois de mais um olhar por cima do ombro ele seguiu o grande mestre.

Cheshire ficou ali por uns minutos, observando o corpo dela. Ouviu um rosnado e identificou o que era; um lobo. Sorriu da própria sorte. O animal nem tivera tempo de gruir de dor, pois o ataque do outro fora certeiro. Ele precisava urgente se alimentar ou então morreria antes de voltar ao Makai. Devorou como um monstro todo corpo do lobo, recebendo pelo menos em parte sua força de volta e assim fazendo seu braço novamente crescer.

Saga só fazia observar, perplexo e uma dor no peito que não sabia explicar. Estava completamente sem ação com tudo aquilo. Então, fora Shion e Kanon! Shion, o grande mestre e Kanon, sangue do seu sangue, seu irmão e amigo quem ajudaram Cheshire a sair do santuário com o corpo de Kyoko. Realmente, era óbvio que ele havia recebido a ajuda de alguém. Era impossível sair das dozes casas sem que ninguém tivesse visto, mas Kanon?! Porque ele não o contou? E por que fingiu não saber de nada quando Yamoto os visitou?

O som de passos despertou Saga e ele virou. Viro e viu o shinobi se ajoelhar diante do corpo de Kyoko. Saga então fungou passando a mão nas lágrimas que marcavam seu rosto, ficando de pé e se aproximando. Os olhos marejados de Cheshire deslizavam sem querer acreditar que ela estava realmente morta. Puxou o corpo de Kyoko para seu colo e a abraçou com força, enterrando o rosto na curva do pescoço dela e chorando. As lágrimas saindo em abundância e os gemidos de dor, mas não dor física e sim, a dor da alma. Ele nunca havia perdido alguém que amava e não havia ninguém mais que ele amasse tanto quanto Kyoko, mas ela amava Gêmeos, mas Gêmeos não a amava igual, era o que pensava, pois se amasse tanto não a teria deixado morrer.

Urrou como um animal feroz, berrando com toda força que tinha, odiando tanto Saga que não cabia dentro de si, arrependendo-se do dia que o deixou vivo. O dia que deixou o menino Saga viver para crescer e matar sua Hime-sama assim como Hiroaki havia previsto a anos atrás.

— HIME-SAMAAAAAAA!!! AHHHHHHHHHHHH....- Berrou outra vez e outra vez.

Saga caiu de joelhos, o arrependimento corroendo até a alma. Não tinha como culpar Cheshire, ele amava Kyoko e era fiel a ela e por ser fiel a ela estava sofrendo por sua fraqueza. Ele havia feito tudo que podia para mantê-la segura, anos e anos de mentira e zelo em vão.

O shinobi então ficou de pé, segurando o corpo de Kyoko nos braços. Olhou para o santuário e sem esperar por Kanon e Shion, ele dera as costas, começando a caminhar e desejando nunca mais ter de voltar ali outra vez. A imagem de ambos começou a se desintegrar, assim como tudo ao redor. Saga ficou em pé num salto, começando a se desesperar. Para onde ele iria agora?

— Não! Cheshire, espera! – tentou, mesmo sabendo que ele não o ouvia. — Para! Não! – tentou, usando as mãos para manter ambos ali, mas nada adiantou.

Kyoko e seu shinobi sumiram totalmente, deixando somente ali Saga caído de joelhos tomado por toda sua dor.

♊oOoOo♊

No saguão principal vários Youkais conversavam, dançavam, comiam e bebiam sem nenhuma preocupação. Alguns bonitos, ricos e poderosos, outros...nem tanto. Os olhos bicolores de Kyoko observava a agitação do lugar com curiosidade e atenção de uma das várias sacadas dali. As dançarinas rebolando no grande palco, sacudindo seus corpos em sincronia com a música, causando ainda mais alvoroço nos beberrões que não sabiam se conter. No fundo admirava a falta de preocupação daqueles ali. Como queria sentir-se assim. Não sentir o peso das cobranças e das obrigações de seu posto.

Respirou fundo, enfiando a mão em um dos bolsos e tirando de lá o isqueiro de ouro roubado de Saga. Ela sorriu, pegando também um dos cigarros no maço, também roubado, e levando a boca. Esfregou o dedão na pequena rodinha, fazendo a faísca sair e acender a chama azulada. Devagar acendeu o cigarro, dando o primeiro trago para soltar a fumaça pelos lábios carnudos.

Então era assim que Saga se sentia? Deu um sorriso triste ao lembrar-se do humano. Fechou os olhos, tragando mais uma vez. Não conseguia parar de pensar em tudo que acontecera consigo até ali. Por que tinha que ter se apaixonado por ele?

“Lindo...”, pensou de olhos fechados, a imagem dos olhos verdes sérios e ao mesmo tempo doce do humano que roubou seu coração.

E foi bem aí nesse meio tempo que sentiu um frio na espinha, seus olhos mudaram de cor e o cenho franziu fortemente. Devagar ela virou e mesmo na parca luz ela conseguiu com perfeição reconhecer o sorriso e os olhos azuis de seu algoz.

—Hiroaki-sama não vai esperar você para sempre.

Kyoko sorriu. Já era hora dele aparecer, estava demorando até.

—Eu não tenho a pedra...ainda. – respondeu virando-se para a sacada. Um vento fresco sacudiu seus cabelos prateados.

—Deixa eu adivinhar: você não teve coragem de roubar a Adamantine dele porque está apaixonada. Que ironia! Apaixonada pelo humano que a matou.

—Ao contrário de você, meu coração não é feito de madeira...Suzuki. – disse Kyoko observando o pátio do lugar.

—É...eu sei, mas acredite, sua vida seria bem mais fácil se fosse.

Kyoko nada disse, mas admitiu concordar com Suzuki. Mesmo depois de ter sido advertida por Hiroaki sobre os humanos ela não conseguiu enquadrar Saga naquele meio que seu mestre tanto odiava. Saga era diferente e isso era algo que nunca conseguiu deixar de notar desde que o vira pela primeira vez. Tirando o fato de ter sonhos com um humano que Hiroaki nem fazia ideia. Sentiu-se fraca como nunca havia sentido. Havia sucumbido a seu coração, deixando sua obrigação de lado e se entregando a Saga...outra vez. Havia prometido a Hiroaki que encontraria a Adamantine e a entregaria, mas não foi bem assim.

A marionete sorriu satisfeita. Ele sabia que Kyoko nunca, mesmo depois de ter tido uma lavagem cerebral, teria coragem de machucar o geminiano. O que a raposa sentia pelo cavaleiro ia muito além do que qualquer coisa que Hiroaki pudesse entender e isso era ótimo. A oportunidade perfeita.

— Eu não vou falhar. – ditou a raposa entre os dentes.

—Ahh eu sei que não. – caminhou até próximo a Kyoko. — Eu vou esperar você no monte da Pedra quebra. – sussurrou no pé do ouvido. — Traga pelo menos uma espada descente dessa vez caso não tenha coragem de... arrancar aquele coraçãozinho do peito másculo dele.

Kyoko ficou imóvel sentindo Suzuki se afastar até sumir na escuridão. Olhou para a palma de sua mão e observando a isqueiro de Saga. E agora?! O que faria? Não tinha sua espada e muito menos Adamantine. Saga jamais aceitaria lhe entregar a pedra sem um motivo óbvio, não que aquele não fosse um excelente motivo, mas ele nunca iria lhe entrar, ele iria em seu lugar encontrar Hiroaki, com toda certeza se soubesse daquela informação e não era isso que queria. Porque diabos não havia mandando Saga embora logo assim que ele chegou? Inferno! Não que não quisesse sua ajuda, mas não queria e nem achava justo envolve-lo em seus problemas mais do que ele já estava.

—Hime-sama?!

Kyoko virou devagar. De joelhos Ookami e Águia a reverenciavam como sempre.

— Faremos o que for preciso. – informou Ookami.

—Afrodite ainda está muito mal. Parece que seu braço ainda não se recuperou, não será um problema para nós. – agora foi a vez de Águia se pronunciar.

A raposa branca respirou fundo, olhou para trás e sentiu o vento gélido na pele de seu rosto. Não tinha jeito, teria que fazer aquilo mesmo no fundo não querendo. Estava desesperada antes, agora depois da visita de Suzuki ficou mil vezes mais. Guardou o isqueiro de Saga e voltou para seus shinobis.

— Ookami, de um jeito em Camus. – ordenou tentando não parecer nervosa.

Hai (sim) – falou Ookami sorrindo de lado, satisfeito.

—Águia, cuide de Áries.

—Farei tudo que eu puder, Kyoko-sama.

Kyoko observou o isqueiro e seus olhos brilharam. Não sabia de onde iria tirar coragem, mas ela precisava da Adamantine e se Saga não entendesse por bem, o faria entender por mal.

Próximo dali, mais especificamente atrás das cortinas Ume levou ambas as mãos a boca quando seu irmão e Ookami pularam como duas sobras, sumindo na escuridão. Ela mal pode acreditar que Kyoko tinha realmente mandado Águia e Ookami para matar Mu e Camus. Ela havia ido até ali a pedido de Baa-san para chamar a raposa e acabou por sem querer ouvir toda a conversa.

Com jeito e muito devagar, saiu do lugar. Precisava avisar Mu e Camus antes dos shinobis chegarem até eles. Águia e Ookami eram muito poderosos e no estado em que ambos os cavaleiros estavam seriam presa fácil para os dois. Precisava correr o máximo que pudesse, mas será que conseguiria?!

♊oOoOo♊

Em um dos quartos luxuosos do lugar, Camus estava deitado de olhos fechados enquanto Baa-san lhe dava alguns pontos no peitoral. A ferida no ombro causado por Saga ainda estava muito dolorida. Também pudera, ele quase havia arrancado seu braço fora com uma única mão.

—Ahhh...- resmungou quando a agulha espetou sua carne.

—Ownnn não faça essa cara de novo senão não resisto. – brincou Baa-san. Camus riu.

Fechou os olhos só por alguns instantes tentando relaxar, mas a cada picada daquela agulha maldita, Camus se contraia. Não gostava de admitir, mas odiava aquelas coisinhas. Baa-san riu outra vez fazendo o cavaleiro abrir os olhos e quando assim ele o fez levou um susto. Camus mal teve tempo para pensar. Só teve tempo de se jogar para o lado, puxando Baa-san e rolando no chão com ela para que não fossem pegos pela espada.

— Mas o que é isso? – questionou a anciã.

Camus aprumou o corpo observando Ookami sorrir por cima do ombro enquanto retirava sua katana do colchão. Devagar o shinobi virou, agachado como o lobo assassino que era, os olhos brilhando e os dentes pontiagudos fizeram Baa-san se assustar. Nunca o havia visto daquele jeito e...o que deu nele? Onde estava Kyoko? Será que Ookami havia bebido demais? Será que ele não sabia que Camus era tão protegido de Kyoko quanto Saga.

—Ora Ookami! O que deu em...

Um som oco se fez presente quando o corpo inerte de Naomi batei no chão. Ela gruiu de dor ao sentir a shuriken enfincada em seu ombro. Camus ferveu de ódio, mirando o shinobi de Kyoko como se não houvesse amanhã. Ele nem havia conseguido ver quando a arma tinha sido jogada contra Naomi.

— Desgraçado! — gruiu Camus.

O lobo sorriu mais, chamando o cavaleiro com o indicador, dizendo...

—Vem cá. Hora de morrer, Florzinha.

♊oOoOo♊

Ume corria pelos corredores, esbarando nas pessoas, derrubando bandejas e tudo que via pela frente. Subiu o lance de escadas de dois em dois, passando por mais uma sequência de corredores até ver de longe o quarto onde havia deixado Mu dormir. Seu coração batendo tão forte que parecia retumbar em sua garganta. Sem pensar abriu a porta de uma só vez. Engoliu em seco, seus olhos marejaram com a cena e diante do que via só teve uma única reação.

— Mu-sama!!! – gritou se jogando na frente dele bem na hora que a espada de seu irmão descia em direção ao peito do cavaleiro.

♊oOoOo♊

Cheshire observava a neve voltar a cair o vento frio cortar sua pele como pequenas navalhas. Respirou fundo, seus olhos mudaram de cor e ele sentiu o cheiro. Cheiro de morte, cheiro de dor, o cheiro de quem sabia ser o único capaz de exalar aquele odor. Ele estava ali, em algum lugar. Sorriu.

— Todos mentiram para mim. Kanon...- virou começando a caminhar. — Shion, Camus...- parou de frente a cômoda. — Minha vida foi uma mentira...- olhou para Cheshire. — Você transformou minha vida em uma mentira.

—Sabia que me culparia. Você causou todos os problemas da vida da Kyoko, Saga. Por sua causa ela perdeu a memória duas vezes. Por sua causa ela morreu. Eu a peguei e a levei direito para meu pai. Eu não sabia o que fazer, só sabia...que tinha que fazer alguma coisa. E se tinha alguém que podia dar vida a ela eu sabia que esse alguém era ele...

"— Onde conseguiu isso? — inqueriu surpreso o ventríloquo.

— Eu a roubei deles. Pai, por favor, traz ela de volta.- pediu chorando.

O ventríloquo ficou parado um tempo, observando o corpo morto de Kyoko. Com cuidado a pegou do colo de Cheshire. Pobre menino...será que ele sabia mesmo o que estava fazendo? Sorriu maldoso acariciando os cabelos do menor.

— Não se preocupe minha criança, terá sua Hime-sama de volta. ”

—...levou dois anos e meio Saga. Dois anos e meio para ela voltar a vida e olha onde nós estamos de novo.

— Nada do que você ou Hiroaki fizer irá me separar da Kyoko. – gruiu Saga.

— Eu sei que não, hoje eu tenho certeza disso e por mais que eu...deteste, só me resta aceitar. – confessou Cheshire sorrindo desgostoso.

— Que bom! Ainda há mais alguma coisa que eu deva saber? – indagou Saga, mas logo espantou-se. — Cadê meus cigarros?

Cheshire sorriu e foi nessa hora que Kyoko entrou no quarto. Saga virou rápido por conta do barulho, mas não se surpreendeu. No fundo até gostou de ela ter chego naquele momento. Eles tinham muito o conversar, mas antes deu um sorriso de lado tentando acalmar os ânimos. Caminhou até ela, puxando-a pela cintura e com todo seu ardor beijou os lábios que tanto amava. De início Kyoko fechou os olhos, delirando no beijo bom que ele tinha. Maldição! Saga tinha mesmo necessidade de fazer aquilo justo agora? E por que tinha que gostar tanto daquela boca macia que ele tinha?

Com muito custo Saga separou os lábios, os olhos verdes deslizando pela face rubra de sua amada raposa. Ela tinha um gosto tão bom, tão único que era impossível não notar a diferença.

— Estava fumando? – perguntou com o cenho crispado.

A raposa sorriu, levando uma das mãos aos bolsos e pegando os cigarros e o isqueiro. Saga crispou o cenho estranhando.

— Só queria saber como você se sentia. – confessou mordendo os lábios

Saga então pegou ambos e tirando do maço um cigarro, colocou na boca e se afastou de Kyoko devagar em direção a sacada.

— Você não devia fumar...- acendeu o cigarro no canto dos lábios. —...gosto do gosto da sua boca do jeito que ela é. Não quero que fume, me ouviu?!

Virou ao mesmo tempo que tirava o objeto dos lábios. Engoliu em seco em dar de cara com a mudança brusca na postura de Kyoko e principalmente em sua face. Os olhos doces de antes modificados, com íris felinas e amarelas, na mão direita uma wakizashi. Saga empalideceu; virou o rosto na direção de Cheshire e ele somente abriu os braços como que dissesse: Você não perguntou? Está aí a mentira que você queria saber.

E num estalo Saga pareceu adivinhar o motivo daquela mudança. Kyoko não era do tipo que aceitava ceder algo que era seu por direito. Era óbvio que ela iria querer aquilo de volta e Saga não era nenhum tolo a ponto de pensar que ela não tentaria pegar de volta nem que fosse a força.

Sorriu seu sorriso lindo e naturalmente sexy, causando um tremor no corpo inteiro de Kyoko. Ela lógico não demonstrou, mantendo a postura séria e intimidadora que não afetou em nada o cavaleiro de gêmeos.

—Desculpe Saga, mas eu preciso da Mythrill e da Adamantine, e você terá que me devolver por bem, ou por mal.

Continua...

Notas finais
Manoooooooo...porque esses youkais malditos não podem deixar a Kyoko e o Saga em paz hein?! Aiii gente chata, né?! E simmmm pessoallll....Foi o Shion e o KANON, KA-NON quem ajudou o Cheshire a roubar o corpo da Kyoko. Simmmmm!!! Mas...Angelll porque o Kanon mentiu para o Saga? Isso será uma revelação só mais para frente, então relaxem e gozem com o que ainda está por vir e com esse surto doido da Kyoko. Dúvidas, sugestões, críticas construtivas são mega, super bem-vindas!!!!! Estou de braços abertos a vocês. Bj grande da Angell e atééééééé!!!!!!!!!!!!!!!!