Uma estranha no ninho - Vol. I
23 Uma estranha melancolia.
Notas iniciais

Achou prudente levar jasmins naquele dia, a cor clara da flor parecia aquietar um pouco sua dor. Ela gostaria daquelas, mas as suas favoritas eram as cerejeiras, mas ali naquele lugar elas jamais sobreviveriam ao clima quente. Keiko suspirou dolorida ao ver as flores que sua irmã tanto amava estampadas em sua yukata* branca e rosa claro. Nos cabelos os adornos de kanzashi* enfeitavam o coque frouxo, deixando o rosto marcado por olheiras à mostra. Mais uma olhada e constatou que nunca estivera tão magra em toda sua vida, mas também pudera: perder a irmã e única família não era nada fácil.
A garota respirou fundo pegando um pequeno cestinho com alguns incensos e as flores, e a passos lentos e dolorosos caminhou devagar até Aiolos. O grego pensou que mesmo diante de toda a tristeza da amada, Keiko nunca havia estado tão linda.
— Está linda, parece um anjo. – Confessou dando um beijo leve na testa dela. Ela sorriu fraco pegando na mão dele. Sentia-se mais segura assim.
— Não quero me atrasar, vamos! – Disse. Aiolos concordou e saiu com a mesma.
Ao chegarem a casa de gêmeos várias pessoas já esperavam sua vez para depositar suas flores sob os pés do esquife onde Kyoko mais parecia uma boneca de porcelana dentro de um cristal ao estar realmente morta a exato um ano. Sim! Aquele era o aniversário da morte dela.
Keiko observou o senhor Bruno fazer uma reza silenciosa, depositando um pequeno vasinho com margaridas. Ele tinha um semblante calmo, porém triste. Logo depois Shaka e Afrodite tomaram a vez.
— Sobe devagar.
— Taboum. — Respondeu o pequeno Luy a sua mãe enquanto esticava as perninhas para alcançar o último degrau.
Keiko sorriu amarga. Nos primeiros dias odiou saber que sua irmã e única família tinha enfrentado a fúria de Hiroaki para proteger Luy o que fez com que a moça transferisse sua revolta para o pequeno sem saber que ele era um dos mais prejudicados na história toda. Com o passar dos dias, acabou por presenciar o pequeno junto com seu primo Dionísio e ninguém menos que Saga. Ambos choravam aos pés do túmulo de Kyoko; Saga pela dor de Luy e sem saber o que fazer enquanto o pequeno dizia entre lágrimas que os deuses não atendiam a seu pedido: queria sua amiga de volta.
Keiko se aproximou de ambos para receber um abraço de Lena. Em seguida voltou-se para Luy e observando com admiração o brinquedo que ele tinha em seus braços.
—Oi Luy.
O menino apertou o amiguinho e meio sem jeito respondeu:
— Oi!
—Veio visitar a Kyoko também? — Indagou sorridente. Luy só acenou positivamente.
A youkai trocou um olhar com Lena e em seguida mirou o brinquedo muito bem protegido pelos bracinhos pequenos.
— Olha só, uma raposinha de pelúcia. Que linda! Ela se parece muito com a Kyoko, será que eu posso ver?
—NÃO!!! NÃO COLOCA A MAUM ELHE É MEU!!!!
Keiko levou um susto com o berro dado pelo garoto, ele saiu em disparada, passando no meio das pessoas em direção ao esquife.
— Luy!!! — Lena chamou. Trocou um olhar triste com a garota e indo logo depois atrás do filho.
Bufou pesarosa pela cena. Não era só ela que se sentia mal ou triste, haviam pessoas ali que também amargavam aquela perda e o pequeno Luy não fazia a menor questão de esconder sua dor mesmo com o passar do tempo...
...E como o tempo passara rápido, só era uma pena ele não levar toda a dor e angústia que sentia junto com cada segundo daquele ano infernal, principalmente para Saga. O cavaleiro pareceu morrer junto com Kyoko, e mesmo prometendo que a vingaria, a dor da perda unida a culpa que sentia por conta de seus pecados fora demais para ele suportar. Era como se o grande cavaleiro de gêmeos, Saga, imponente e altivo fosse tragado para o buraco mais fundo e escuro da alma de um ser humano e ali sentado em sua poltrona negra ele terminava de degustar o último cigarro do maço. Um copo de whisky descansava sobre o vidro da mesinha de canto, os olhos verdes mirando o nada, enquanto sua mente vagava pelas lembranças gostosa que tinha com Kyoko...
“Eu te odeio Saga de Gêmeos, eu nunca mais vou voltar, NUNCA! –Berrou Kyoko a plenos pulmões e saindo a passos duros.
Eu sei que você não me odeia. – Respondeu o geminiano. O sorriso jocoso e uma alegria indescritível. ”
Saga sorriu melancólico com as lembranças. Ah! Kyoko como fazia falta.
“—Eu te amo, por favor, me desculpe. – Confessou em meio ao choro.
Saga sentiu como se seus pés saíssem do chão ao ouvir aquela confissão. A sensação de saber que os sentimentos eram recíprocos era inexplicável. Já tinha ouvido falar que não existia sensação maior do que amar e ser amado, e agora naquele momento ele estava tendo aquela confirmação.
Apertou o abraço, puxando sua Kitsune para mais perto, aspirando o aroma das frutinhas que exalavam dos cabelos e da pele com carinho.
—Saga, você...você ainda quer que eu vá embora?
— Você quer ir? — Indagou.
Kyoko fungou, ficando em silêncio por alguns segundos até enfim menear a cabeça negativamente. Seus olhos coloridos emitindo um brilho cristalino por conta das lágrimas que se formavam no canto externo como pequenas pérolas, as bochechas rubras, o nariz vermelho e os lábios inchados e convidativos. Como ela podia ser tão irritante e ao mesmo tempo tão...linda e adorável?
—Eu não quero ir, quero ficar aqui. Me deixe ficar.
Saga lhe deu um beijo na testa e sem dizer mais nada, tomou-a nos braços e seguiu de volta a seus aposentos. ”
Os olhos verdes marejaram presos no vazio, e sua mente na dor de sabe que cada dia que passava a realidade o massacrava mais e mais. Kyoko não estava mais ali e isso era um fato que ninguém podia mudar. A tristeza corroendo seu coração e definhando seu corpo como uma chaga. Por que os deuses pareciam cismar com sua pessoa? Se o odiavam tanto pelo que tinha feito a Atena, porque não o matavam de uma vez?
Zeus, Atena...matem-me, eu imploro!, pensou cobrindo o rosto com ambas as mãos na tentativa inútil de conter as lágrimas. Uma dor horrível o afligia até os ossos.
— Por que não existe um único dia que eu não me culpe. – Balbuciou, a voz abafada pelas próprias mãos.
— Saga...- O mais velho quase deu um pulo ao ver seu igual ali. Ele estava tão perdido em pensamentos que nem notou quando o outro entrou em seu quarto.
— Kan...
— Desculpe, eu...bati, mas você não respondeu e eu fiquei preocupado.
Saga passou as mãos no rosto de forma nervosa, afastando as lágrimas que ainda caiam.
— Atena está aqui e gostaria de vê-lo.
Saga fechou os olhos. Não queria ver ninguém naquele dia e mesmo sendo sua deusa ainda assim aquele fato não mudava. Bufou, mas antes de retrucar a voz doce de Saori se fez presente de forma educada e pacífica.
— Atena, eu...- Saga começou passando as mãos nas madeixas afim de se recompor.
— Não Saga, tudo bem. Eu...só achei que devia vir aqui...- A mão pequena da deusa tocou de leve o rosto cansado de seu guardião.
— Desculpe!
— Não precisa se desculpar, eu já devia ter vindo aqui antes e mais vezes. Imagino como esteja se sentindo. O tempo passou tão rápido, já faz um ano que ela se foi. — Saga mirou os próprios pés e se afastou no intuito de esconder os olhos marejados. — Saga...quero que saiba que todos nós estamos ao seu lado e só queremos o seu bem, eu sei que não é nada fácil perder quem amamos, mas por favor...- Saori tocou o rosto do homem de leve o virando para si. Seu coração pareceu rachar ao meio pela sensação de impotência. Ela não podia intervir naquele acontecido mesmo que desejasse.
Saga fixou seus olhos verdes e cansados de tanta dor nos verdes da jovem deusa.
— ...não me peça mais para deixá-lo morrer ou para tirar a vida que custei tanto a lhe dar. Sei que pode não parecer, mas eu sempre ouço suas orações.
Kanon que ainda estava no quarto empalideceu.
Um sorriso amargo curvou os lábios do mais velho. Atena ergueu um pouco os pés dando um beijo singelo e carinhoso na testa de Saga. Sorriu para ele e saiu depois.
O mais novo dos gêmeos se aproximou do irmão e tocou seu ombro dizendo:
— Que história é essa? Ahh Saga...
— Kan, por favor, não venha me passar sermões sobre algo que você não entende.
— Não entendo?! Porra Saga, eu estava lá, eu vi ele matar a Kyoko com esses olhos que a terra há de comer! Tudo bem que nossos sentimentos são completamente diferentes, mas...poxa... – Kanon aproximou-se mais segurando o rosto do irmão com ambas as mãos e o erguendo para si. O rosto de Saga se torceu na esperança de conter o choro fazendo Kanon rachar ao meio. — Ahhh meu irmão, não faz isso.
— Eu...não consigo Kan. — Resmungou já sem conseguir conter o choro.
— Desse jeito a Kyoko nem vai conseguir descansar. Pensa em como ela iria se sentir se visse você assim. Imagina!
— Mas...eu a deixei morrer.
E com aquela última frase Kanon não disse mais nada, não tinha nem forças ou sequer palavras para consolá-lo. Agarrou o outro com força deixando que ele colocasse para fora toda a dor que sentia.
♊oOoOo♊
O céu do Makai parecia ainda mais escuro e sem vida como era de costume a cada dia que passava. Uma calmaria estranha dando margens sobre o maior comentário que rolava por lá: A morte de mais um kage. Não que os boatos não fossem verdadeiros, não! Pois era do saber de muitos que agora somente Hiroaki e Naomi tomavam conta das fendas. Tinha anos que ela já não vivia mais sobre o mesmo teto que o seu, coisa que jamais se acostumou. Ter de “abandoná-la” a própria sorte, se isentar de suas responsabilidades mesmo a contragosto era algo que nunca conseguiu se acostumar, e menos ainda com a morte dela.
Parou por alguns instantes observando carrancudo o imenso portão de madeira se abrir para lhe dar passagem. Respirou fundo buscando forças de onde não tinha para cumprir com seu novo papel.
— Olá Yamoto.
— Kamiya...– Cumprimentou com a voz baixa.
O outro ninja observou o visitante com desdém, pensando se devia ou não intervir na entrada daquele que julgava ser um falso na residência de seu senhor, mas infelizmente não podia. Agora com a morte de Kyoko seus shinobis e servos eram obrigados a reportar tudo que faziam e descobriam diretamente a Hiroaki e era somente por conta desse motivo que Yamoto estava ali. Odiava Hiroaki, sempre o odiou, mas agora seus sentimentos por ele estavam ainda mais amargos depois que sua querida Ohime-Sama* foi morta pelo...miserável.
—Hiroaki-Sama ordenou que fosse direto para a biblioteca. – Informou o outro esnobe.
Bufou ao passar pelo guarda, seguindo logo para o lugar indicado. Não queria demorar. Passou por um extenso corredor com algumas servas que limpavam o lugar, em seguida viu uma delas sair da sala indicada antes, mas de uma forma inusitada ele não estava ali? Respirou fundo pela enésima vez pensando em como aquele idiota poderia ter lhe indicado o local errado, mas sentiu-se mais idiota ainda por não imaginar que ele faria aquilo justamente de propósito.
— Ahh...kuso (Merda).- Rosnou. Deu meia volta e se dirigiu ao escritório, cozinha, até por fim a sala e não achando ninguém além de um velho servo a organizar alguns apetrechos.
— Ei.
O velho youkai mirou Yamoto dos pés à cabeça com descaso.
— Hiroaki- Sama está no laboratório.
Yamoto congelou. Laboratório? Mas que diabos de laboratório era esse? Nunca em toda sua existência havia escutado falar que dentro da mansão de Hiroaki havia um...
— Laboratório?!
— Sim idiota, não lembra que ele pediu para que entregasse a encomenda diretamente lá?
— Ah! Sim! É verdade...- mentiu — Onde estou com a cabeça? Hahahaha... obrigado! – Disse saindo em seguida em busca do tal laboratório.
♊oOoOo♊
Hiroaki abriu os olhos devagar. Sorriu ao lembra-se do sonho que tivera; sonhou com Kyoko. Foi tão bom! Em seus sonhos ela corria por um campo florido, sorrindo da forma única que só ela sabia fazer. Ele a observava de longe com admiração até que ela o viu e seu sorriso se iluminou ainda mais. E como uma criança feliz ela correu em sua direção para pular em seus braços. Uma dor forte no peito o paralisou e o que era um olhar meigo se tornou diabólico e no lugar do abraço um punhal perfurava seu coração.
— Eu nunca vou amar você!!
Seu sorriso morreu ao se dar conta do porquê havia acordado. Por mais que o tempo passasse o espírito de Kyoko ainda clamava por seu sangue, atormentando seus sonhos e pensamentos dia a após dia.
O inugami vestiu um robe negro de cetim sem desviar seus olhos felinos de seu reflexo.
— Ouji-Sama*... – Chamou a voz de alguém ao bater na porta.
— Eu já sei. – Respondeu imponente saindo com o outro em seguida.
Passaram por vários locais conhecidos dentro de sua mansão até chegar em seu jardim, onde um pequeno lago, árvores de médio porte e uma pedra grande mais ao fundo escondia uma porta falsa. Hiroaki ostentava um sorriso diabólico que fez Yamoto tremer. O youkai escondeu-se em meio a escuridão do local observando a figura imponente do outro sumir naquele corredor extenso e escuro. O Shinobi ao ver que a rocha se fecharia correu o mais rápido que pode, passando por ela a centímetros de fechar.
—Ufa! – Resmungou passando a mão na testa. Quase havia sido cortado ao meio.
Depois de alguns segundos Yamoto resolveu que já era hora de continuar. No fundo estava morrendo de medo, pois se Hiroaki o visse ali estaria morto com toda certeza. Caminhou bem devagar e sorrateiro, escondendo-se na escuridão até seus ouvidos alcançarem vozes. Engoliu em seco quando reconheceu de quem era.
Continuou caminhando no mesmo ritmo, mantendo-se oculto e bem alerta. Dobrou no próximo corredor até enfim avistar uma porta semiaberta. Apressou o passo como um gato ficando próximo o suficiente e assim pôs-se a ouvir o diálogo.
♊oOoOo♊
— Uaah! – Bocejou Milo. — Isso aqui ficou um porre depois que aqueles youkais desapareceram.
— Você é louco em dizer uma coisa dessas, escorpião. – Ralhou Afrodite cruzando os braços. — Nada vale meu sossego. Estou muitíssimo satisfeito com o sumiço daquelas coisas.
— Acho que você está esquecendo que aquelas “coisas” só sumiram porque a Kyoko não está mais entre nós. – Informou Shaka sentando em posição de lótus.
E como sempre Shaka tinha razão. Após a morte de Kyoko os youkais simplesmente desapareceram do santuário e de toda Grécia. Nada mais sobre eles foi ouvido e nenhum, nem os menores foi visto por ali. Shion ainda estudou muito sobre as fendas entendendo que elas reagiam como uma espécie de leitor de código de barras que só permite a passagem de monstros com nível de força muito abaixo do normal, tirando aquelas feitas pelos Kage, lógico. Essas sim permitiam a passagem de monstros fortíssimos e em quantidade bem maior como foi o caso do ataque de Naomi. Sem Kyoko para dar acesso ao Makai nenhum deles conseguia passar pelas fendas que existiam e muito menos sair dele com vida.
— Ei pessoal! Eu estava pensando: estamos em um novo momento de calmaria, então eu pensei em fazer uma reuniãozinha lá em casa, nada demais; um churrasquinho, umas cervejinhas e aproveitamos também para dar aquela animada no nosso amigo, Saga. — Animou-se Aldebaran.
— Isso sim é uma ótima ideia. Falou tudo Aldebaran.- Milo entusiasmou-se como sempre.
— Verdade, uma ótima ideia até porque o aniversário dos gêmeos está chegando também. O Saga ainda está muito tristinho e isso parte meu coração. – Afrodite fez um biquinho apoiando o rosto em uma das mãos.
—Vocês já pensaram que o Saga pode non querer festejar nada?! – Camus se pronunciou.
— Mas já se passaram dois anos desde que ela bateu as botas. – Máscara tragou seu charuto e em seguida bebericou de sua cerveja. Estavam reunidos na casa de touro.
— Então primeiro vamos conversar com Kanon, ele com certeza vai adorar. Não se preocupem, eu mesmo conversarei com ele.
— Ótimo Aldebaran, então ficamos esperando. – Afrodite quase pulou.
— Cara...dois anos sem dar uma transadinha?! Puta que pariu! — Milo passou ambas as mãos nas madeixas.
— Isso se chamar amor mon ami, e um dia quem sabe você possa entender esse sentimento.
— Sabem o que io acho?! Que o imbecille do Milo tem razão. Talvez o nostro amigo esteja precisando de uma bela e boa noite de sesso...hahahaha... nada melhor pra curar dor de cotovelo.
— Ai Carlo, você é um idiota mesmo. Não se esqueça que se não fosse por você e pelo Shura a Kyoko ainda estaria viva.
— Gracias Afrodite. – Resmungou o espanhol dando as costas e saindo.
— Olha aqui seu afrescalhado de merda, io no estava em meu juízo perfeito, capisce?! – Afrodite cruzou os braços birrento. — Então vê se para de falar merda e me deixa em paz, cáspita!!
Máscara da Morte jogou a latinha longe e saiu pisando duro. Sentia vontade de matar um sempre que o acusavam de ter sido um dos “responsáveis” pela morte de Kyoko, mesmo tentando parecer indiferente a aquele acontecimento. Já havia se passado dois ano e três meses desde a morte da kitsune, Saga não podia ficar de luto para sempre, então que mal havia em dizer que ele precisava de uma bela trepada?!
Os presentes ficaram em silêncio observando Máscara se retirar como um touro bravo.
— Pegou pesado em Dite. – Milo se pronunciou saindo em seguida junto com os outros para suas respectivas casas.
Depois disso quinze dias passaram em um piscar de olhos deixando mais próximo ainda o aniversário dos gêmeos. Aldebaran fez como prometido, conversando com Kanon que logicamente adorou a ideia. Prometeu fazer de tudo para convencer Saga.
Respirou fundo batendo na porta do escritório três vezes antes de entrar. Saga observou o irmão por baixo das sobrancelhas e o cumprimentou com um sorriso singelo. Uma música clássica se fazendo ouvir no ambiente de forma calma e baixa. Kanon pensou que poderia dormir se ficasse ali por muito tempo.
— Às vezes eu fico sem saber se estou entrando no escritório do Camus ou no nosso.
Saga sorriu.
— Não é à-toa que eu e Camus sempre nos demos bem. Temos gostos parecidos.
— Até as músicas de enterro?! – Zombou o mais novo.
— Isso meu irmãozinho é uma obra prima, mas como você nesse quesito é da banda do Milo e Máscara entendo que não consiga entender o que isso significa.
Kanon apertou os olhos sorrindo maroto.
— E se eu lhe disser que das canções de Beethoven, Moonlight Sonata na minha opinião é a mais bela?
O mais velho gargalhou surpreso. — Eu diria que agora sim você me deixou bemmm supresso já que você comparou a própria a uma música de enterro.
Kanon caminhou até uma pequena mesinha de canto, depositou em dois copos duas pedras de gelo cada e em seguida o whisky mais caro que o irmão possuía. Aquele tinha sido dando a ele por Shura.
— Mas mesmo gostando dessa canção, ainda prefiro Chopin.
Entregou um dos copos ao outro fazendo um pequeno brinde. Sentou-se ao lado do irmão deixando somente o som da música se fazer no ambiente por alguns minutos.
— Posso saber porque brindamos? – O mais velho indagou fechando o livro que lia.
—À nós...ou você já esqueceu que nosso aniversário é amanhã?
— Não Kan, eu não me esqueci não. E se você está pensando em fazer alguma coisa...
— Eu não, Aldebaran. – Interrompeu o marina. — Olha! É só uma coisinha simples entre nós. Nada demais, é só pra socializar. Tem tempo que não fazemos nada desse tipo e você sabe o quanto Aldebaran gosta dessas coisas.
Saga nada disse. No entanto ficou pensativo sobre a possibilidade daquela festinha ser na verdade uma verdadeira orgia feita pelos amigos a fim de o animarem em sua data de aniversário, até porque seria aniversário de Kanon também o que deixava tudo ainda mais duvidoso. Se fosse a mais ou menos três anos atrás aceitaria o convite sem a menor dor na consciência, mas agora não havia mais motivo para participar daquele tipo de festa e muito menos ânimo. Milo já havia jogado suas piadinhas vez por vez em relação a seu luto o que o deixava ainda mais desconfiado daquela comemoração. Realmente dois anos era bastante tempo...pra eles! Mas para Saga era algo que parecia que não acabaria nunca. Sua dor era algo que não passava, que não esquecia. Estava ali como um fantasma ao seu encalço, uma doença degenerativa que o matava pouco a pouco de forma silenciosa e agonizante. Realmente era notável sua melhora; já havia voltado aos treinos e seus afazeres, mas os sorrisos gentis do homem comparado a um deus por sua benevolência era algo que quase não se via mais.
— Ahh Saga não me olha desse jeito. É meu aniversário também.
— E por isso mesmo estou preocupado. Kan, eu não quero...
— Saga é na casa de touro. É o Deba quem está nos convidando. Ele mesmo quis fazer tudo porque já sabia que se fosse outro você não aceitaria.
O mais velho mirou as pedras de gelo dentro de seu copo e o líquido caramelo lembrava um dos olhos de Kyoko, e da lembrança dos olhos o sorriso dela veio logo a seguir...
“Estavam na sala, sozinhos; Saga sentando no sofá sustentava um livro grosso com a mão direita e com a esquerda afagava os cabelos macios de Kyoko enquanto ela dormia com a cabeça em seu colo. Não percebeu quando ela acordou preguiçosa e os olhos coloridos prenderam-se na sua expressão concentrada.
—Tenho a sensação de que o seu deus usou a cor de seus olhos pra criar o Mar de Creta, e que cada pétala de rosa teve sua macies inspirada em seus lábios, e o sabor deles deu inspiração para o mais doce mel já criado em toda Terra. – Kyoko sentou-se de frente a Saga mirando todos os detalhes que o rosto dele possuía. — Eu sempre me questiono no que eles estavam pensando quando deram forma a você.
Saga sorriu singelo. Dobrou a ponta da página que lia e depositou o objeto no braço do sofá. Aproximou mais o rosto do de Kyoko, vendo dentro dos olhos dela o reflexo de sua própria face.
— Em você. ” ...
— Saga!
A voz grave de Kanon despertou o irmão de suas lembranças. Os olhos iguais se encontraram e ele teve a certeza de que os pensamentos do outro estavam em algum lugar com Kyoko. Sem jeito Saga passou a mão nos cabelos como se aquele ato pudesse levar embora aquelas sensações. Observador como ninguém Kanon levantou de onde estava e abaixou ao lado do irmão, enfiou a mão nos fios azulados e pouco diferente dos seus, alcançando a nunca dele e o puxando para si, e colando suas testas. Saga fechou os olhos e suspirou. Tinha que admitir: a atenção e o carinho extra que vinha recebendo do irmão era muito bom e o fortalecia. Era como se Kanon fosse a sua parte forte que estava ali, o guiando e sustentando para que se mantesse de pé.
— Você sempre foi mais forte que eu Kan, desde criança.
— Não irmão, você sempre foi o mais forte de nós dois. Você sempre foi justo e bom, lutou contra o mal até suas últimas forças, já eu sucumbi a ganancia e arrastei você comigo. – Confessou o mais novo fechando os olhos também.
— Obrigado por estar aqui comigo. Obrigado por não desistir de mim. – Saga desabafou.
— Nunca! Você é meu irmão, meu amigo. Já errei demais com você no passado. Sei melhor do que ninguém o quanto você sofreu e ainda sofre, por isso faz o seguinte: guarde somente o que foi bom meu irmão.
— Tudo foi bom Kanon, tudo!
— Eu sei...- Os gêmeos ficaram em silêncio por alguns segundos sem sair da posição. — Lembra no dia que ela roubou o elmo do Aiolia e o trocou por CINCO CAIXAS de amoras com 10 Kg cada!!!
Os gêmeos se separaram, mas foi o mais velho a sorrir primeiro. Lembrou da cara de fúria do leão e a desculpa esfarrapada dela, e seu sorriso se alargou mais virando uma gargalhada alta e gostosa. Kanon desatou a rir também.
— Eu nunca tinha visto Aiolia tão...furioso em toda minha vida. – Gargalhou Kanon.
— E eu nunca tinha ouvido uma desculpa tão...cara de pau quanto a que ela deu. – Saga tapou o rosto com uma das mãos enquanto ria alto. — Você acredita que ela ficou espionando os mercadores por dias e dias seguidos, observando todas as cargas que chegavam no porto e eram distribuídas não só no santuário, mas em outras vilas até descobrir o responsável pela distribuição e SUBORNOU o homem com o elmo da armadura de leão. Por todos os deuses!!!
— Então isso foi sorte, imagina se ela tivesse roubado aquilo tudo.
— O pior foi convencê-la a desfazer aquela loucura. – Saga se levantou pegando um pouco mais da bebida. — Você acredita que ela ainda tentou trocar o elmo de leão pelo de gêmeos bem nas minhas fuças?!
— Ta de brincadeira? Não eu não vi essa parte. Onde eu estava? Que Droga! – Kanon indignou-se ainda sorrido.
— Se mijando de rir na sala.
— E o que você disse?
— Eu disse a ela que se tocasse no elmo da minha armadura, ou se sequer tocasse na caixa dela eu arrancaria suas delicadas mãos e faria delas cinzeiros igual fazem com os gorilas. – Voltou a sentar.
— Deixa eu adivinhar: Ela cagou pra você.
— Hãn?!! Acertou em cheio! Ela olhou pra mim com aquela cara de deboche e aquelas orelhas abaixadas e disse:
“Hãn! Até parece, você não tem coragem e outra recebeu ordem diretas de Shion para me manter sã e salva o que significa que não-pode-tocar-um-dedo-em-mim...cavaleiro de gêmeos. ”
—...olha eu nunca senti tanta vontade de esganá-la como naquele dia. Minha vontade era...fazer com ela a mesma coisa que o Milo fez com Camus: segurar aquele pescoço fino com as duas mãos e...apertar até aqueles olhos...lindos saltassem pra fora. – Confessou Saga gesticulando.
— Isso sim é uma boa lembrança. – Ditou o mais novo.
— É...- Saga concordou ainda sorrindo.
—E então, o que vai ser? Amanhã, às 20:00 na casa de touro? Vai...quebra essa pro seu irmão.
Saga fitou o irmão de soslaio sem desfazer do sorriso, estendeu a mão para ele. Kanon a aceitou de bom grado.
— Está bem Kan, eu irei. – Rendeu-se.
— Isso!! Sabia que ia aceitar. – Caçoou abraçando Saga ainda sentado.
— Não sei como você consegue ter esse...poder de persuasão tão forte.
— Fazer o quê? Nem todo mundo tem lábia suficiente para enganar um deus. – Disse Kanon ficando de pé e caminhando em direção a porta.
— Cretino! Não acredito que disse isso.
Saga sussurrou com um sorriso incrédulo e uma das mãos na testa vendo o travesso no rosto igual ao seu sumir porta a fora.
♊oOoOo♊
Já se fazia quase quarenta minutos que Saga estava de molho na banheira. Os cabelos colados nos ombros desciam até boiarem na água turva, os músculos do peitoral e dos braços pareciam ainda mais evidentes com as gotículas que deslizavam pelos caminhos que definiam seu corpo moldado por anos de treinamento. A respiração calma fazia o peito subir e descer lentamente e o som da gota que ainda caia insistente da torneira ecoava pelos azulejos e mármores do lugar. Saga franziu o cenho somente um pouco e mordeu os lábios bem de leve. Um calor súbito subiu por suas pernas até se concentrar no meio delas graças ao pequeno sonho erótico que tinha bem no meio de um cochilo.
Respirou fundo e um leve suspiro saiu de seus lábios. No sonho seu órgão era engolido com ânsia, gulodice. Os cabelos prateados tocavam suas coxas sempre que ela voltava a enfiar o membro rígido até na goela sem se intimidar nenhuma vez. Gemeu mais alto, levando a mão até os fios macios e segurando-os entre seus dedos, intensificando as investidas com movimentos de vai e vem com os quadris. As correntes elétricas e a fraqueza típica nas pernas, o tremor e a tensão indicavam que o gozo estava próximo e que não tardaria. E estava certo. O nome da amada fora invocado em um urro quase animalesco, agarrando ainda mais os fios entre os dedos, mantendo a boca dela ali, presa em seu membro que pulsava, expulsando o líquido esbranquiçado e abundante, quase a afogando em meio a seu prazer. Quando se deu conta do gesto bruto, afrouxou os dedos com carinho, sentindo a sensação pós gozo o fazendo quase flutuar. Sorriu. Ela sabia satisfazê-lo como nenhuma outra e com o sorriso de satisfação emoldurando o rosto bonito, voltou os olhos verdes para baixo. Olhou seus dedos e os fios que antes eram prateados agora eram negros. O sorriso morreu em seus lábios quando finalmente pode ver o rosto de quem havia realmente lhe dado aquele prazer.
— Kyoko?! Nunca mais!
Saga deu um pulo dentro da banheira e um urro de susto. Os olhos arregalados olhando todo o ambiente, tentando identificar o real do imaginário. A respiração ofegante parecia fazer seu coração bater ainda mais rápido do que já batia – se é que aquilo ainda era possível. Demorou alguns segundos até se dar conta de que novamente seu sonho com Kyoko se tornava um pesadelo.
Passou as mãos molhada nos fios e devagar voltou a recostar na banheira.
— Inferno! – Rosnou.
Estava cansado daqueles sonhos. Saga já tinha perdido as contas de quantas vezes sonhara com Kyoko e no fim ela era substituída por ninguém menos que Naomi. Seu ódio parecia fazer seu sangue ferver nas veias sempre que despertava dos pesadelos, pois em seu íntimo, mesmo sabendo que não tinha controle algum sobre seus sonhos, ainda assim sentia-se pior do que já estava. Nem em sonhos ele tinha a paz de estar com Kyoko e era sempre aquela maldita youkai que a arrancava de si. Se já não bastava tudo que sentia, toda dor e saudade ainda tinha mais aquilo. Nunca havia conseguido sequer sonhar com Kyoko de verdade. A única coisa que o confortava era saber que suas lembranças quando acordado era real e que sonhos eram somente sonhos...e os seus eram ainda mais infernais.
— Saga! Como é que é Cinderela estamos atrasados. – Informou Kanon batendo na porta.
Saga respirou fundo berrando um “já estou indo” bem mal-humorado. Afundou na banheira mais uma vez para enfim sair dali.
Escolheu uma calça jeans escura e uma camisa de gola alta justa, os cabelos soltos e ainda molhados ficaram soltos e penteados como de costume. Um pouco de perfume e um sapato também preto. O céu estava bastante estrelado o que deixava a noite de outono ainda mais fria e linda naquele dia.
— To pronto! – Informou ao chegar na sala e ver Kanon o aguardando com um cigarro entre os dedos.
O mais novo usava um jeans claro, camisa branca também de gola alta e um paletó pra se aquecer mais. Kanon odiava sentir frio.
E por incrível que pudesse parecer Saga e Kanon foram os últimos a chegar na casa de touro. Todos os outros golds e até mesmo Seiya, Hyoga, Shun e Ikki estavam presentes. Havia muita comida gostosa e típica da cozinha brasileira como: farofa, arroz branco, molho à campanha, batata frita, o famoso pão de alho na brasa e dentre outros. No quesito churrasco e festinhas Aldebaran sempre ganhava em disparada; uma pela animação e outro pela fartura deliciosa de alimentos.
Uma música alegre brasileira embalava o ambiente deixando o grupo de homens ainda mais animados.
Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta e não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer
Saga e Kanon sorriram para o grandalhão que veio para recebe-los, dando um abraço super caloroso nos dois ao mesmo tempo. Saga resmungou ao ser imprensado contra o peitoral de Aldebaran e quase sendo forçado a beijar seu irmão por conta da proximidade dos corpos.
— Ei Deba, eu não estou afim de beijar o Saga agora. – Retrucou Kanon fazendo o grandalhão rir mais.
— Feliz Aniversário meninos!! – Berrou
— Meninos? Fala sério touro. – Kanon riu sem jeito.
—Obrigado Aldebaran. – Saga sorriu singelo dando um aperto de mão no amigo.
— Estou muito feliz que tenha vindo Saga, fiquei com medo de você desistir no meio do caminho.
— Acredite, eu não pensei nisso nenhuma vez.
— Que bom! Eu pedi a Maria pra fazer aquele bolo de fubá com coco bem molhadinho que você adora. – Informou o anfitrião.
— Sério?!! Hummmm...podemos bater parabéns com ele? – Perguntou o mais velho sorrindo.
—Se você quiser... Hoje o dia e a noite é toda de vocês.
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar
Um pouco mais afastado Seiya, Milo e Máscara conversavam de forma animada até Dohko informar a todos de forma bemmm animada que os aniversariantes haviam chegado finalmente. Todos os presentes seguiram com os cumprimentos e a entrega de vários presentes como: livros e uma bela garrafa de The Glenlivet 12 anos para total felicidade de Kanon.
— Uall! Não acredito!! Tinha que ser você Shura. – Disse o gêmeo mais novo todo empolgado.
— Ei, ei, ei...sai fora maninho, esse aqui é meu.
— O quê? Sai pra lá você. – Kanon esticou a mão tentando pegar a garrafa das mãos de Saga, mas sem sucesso.
Todos começaram a rir da briga infantil dos irmãos. Era bom ver Saga interagir e sorrir outra vez, lógico que seria bem melhor se a amada estivesse presente, mas todos sabiam que com aquele ato Kyoko estava feliz seja lá onde ela estivesse.
— Ohhh mon dieu, non briguem mon petit.
—Como não Camus? Essa sua calma me irrita sabia?! – Kanon rosnou rabugento.
Ahhh, mas se Saga pensava que ele não colocaria os dedos naquela preciosidade ele estava muitíssimo enganado. Ele teria que dormir em algum momento.
— Puxa vida Kanon, então é assim que trata um amigo? – Kanon cruzou os braços como uma criança birrenta. — Eu até combinei com Milo de lhe dar isto.
Camus pegou das mãos de Milo algo embrulhado que parecia uma caixa comprida. Os olhos de Kanon brilharam só de imaginar o que seria. E se fosse o que pensava daria um beijo na boca daqueles dois malucos de tanta felicidade. O francês sorriu singelo entregando o presente pro outro. Ele nem pensou duas vezes, rasgando o papel de presente de qualquer maneira.
— Puta que pariu! Não acredito!!!! – Kanon quase pulou de felicidade. — Puta merda! Um Hibiki 21 anos! Cara eu estava louco por esse.
Milo se aproximou sorrindo: — Não esqueça de ME agradecer tá?!
— Ahhh eu vou! Lógico que vou.
Kanon quase jogou o presente nos braços do irmão e praticamente pulou nos braços de Milo. O escorpião recebeu o amigo de braços aberto, ganhando vários beijos pela bochecha em agradecimento. Todos riam da situação cômica entre eles. Kanon e Milo juntos tinham uma animação fora do comum. Alguns diziam que se um dos dois tivesse nascido mulher eles já teriam se casado a muito tempo. Outros até chegavam a arriscar o palpite que Milo e Kanon já haviam experimentado de tudo em meio as orgias, mas ambos destacavam aquela possibilidade. O marina afirmava com todos as letras que “chupar rola” não era com ele e que se Milo gostava disso, isso não era um problema seu. Lógico que Milo odiava aqueles comentários, pois gostava e muito de exibir com orgulho o título de segundo conquistador do santuário. O primeiro era de Máscara da morte e seu lindo sotaque italiano.
— O próximo é você Camus de Aquário, e nem pense em fugir. – Apontou Kanon ainda agarrado ao pescoço de Milo
Camus virou um pimentão só de pensar ter de passar por aquela cena totalmente constrangedora.
— Non precisa agradecer. – Falou sisudo saindo de perto dos malucos.
— Ei, volta aqui não foge não. – E lá foi Kanon atrás do francês.
Todos riam de a barriga doer com a cena e mais presentes foram entregues aos gêmeos: Shaka deu uma imagem de buda feita de ouro e bronze para que ele pudesse olhar pelos gêmeos, Afrodite encomendou uma cesta cheia de cremes e afins para ambos com os aromas que gostavam, Dohko entregou um lindíssimo bonsai de flor de cerejeira rosa para o mais velho dos gêmeos.
— Uall! Dohko, que lindo bonsai.
— Achei que seria bom pra você, é uma ótima terapia. Fique tranquilo que eu lhe ensinarei a cuidar dessa menina.
Máscara dera uma caixa de charutos cubanos para ambos junto com um isqueiro de ouro para cada, mas o presente que Saga mais gostou fora o de Aiolos e Aiolia – por mais incrível que pudesse parecer.
Os irmãos mandaram confeccionar na melhor joalheria da Grécia um cordão feito de ouro branco trançado, não muito grosso, onde um pingente em forma de uma pequena raposa com um minúsculo olho feito de âmbar e o outro uma safira. Tudo esculpido da forma mais delicada e à mão. Mas se aquilo ainda não era o suficiente para fazer Saga chorar, o fato de saber que a pequena raposinha fora construída a partir das lágrimas de Kyoko levou o geminiano aos prantos, mas não de tristeza e sim de gratidão e felicidade. Ele já havia se esquecido daquele fato e daquelas pedras, mas Aiolos e Aiolia não e ambos fizeram questão de dar a ele pelo menos uma parte palpável de quem ele tanto amava. Aiolos sabia e entendia muito bem a dor de Saga mesmo sem nunca ter passado por algo semelhante, mas só de imaginar estar no lugar dele e perder Keiko já sentia suas pernas fraquejarem.
Depois da entrega de todos os presentes a animação voltou ainda mais forte na casa touro. A música animada parecia agitar o amago de todos entre as conversas animadas, bebidas e muita gargalhada. Aldebaran animado como sempre puxou Maria para dançar, mostrando aos amigos como é que se sambava na sua terra. Milo, Kanon e Aiolos ariscaram alguns passos desengonçados na tentativa de acompanhar o amigo brasileiro, mas nada se comparava ao gingado original da terrinha.
Em um canto um pouco mais afastado Saga conversava amenidades com Mu, Camus, Shaka, Shura e Dohko. Falavam sobre livros, algumas lutas e até reportagens de TV. Os meninos de bronze interagiam entre si, Aiolia, Máscara e Afrodite.
E foi nesse meio entre muita diversão, música e comilança que Mu de Áries sentiu o sangue gelar nas veias. Todos imediatamente sentiram o oscilar do cosmo do tibetano, alertando mesmo sem querer que algo não estava certo dentro da primeira casa zodiacal. Contudo nenhum deles fez alarde, tampouco se excedeu, pois, o próprio Ariano informou que investigaria sozinho já que a casa era sua.
— Mu espere! Está vindo em nossa direção. É melhor esperar aqui, estamos todos reunidos, se for um inimigo ele jamais passará por todos nós juntos. – Camus avisou.
Mu concordou e fez como o amigo indicara. A música foi desligada e um silêncio apreensivo tomou conta da casa de touro.
Máscara da morte acendeu um de seus charutos, fechou os olhos por alguns segundos e soltou pela boca a fumaça que pareceu dar forma a algo ou alguém na entrada casa de touro. Aldebaran aprumou o corpo e Milo e Kanon também. Saga crispou ainda mais o cenho. Não tomaria a frente de Touro naquele lugar, mas se a coisa encrespasse iria sim se meter. Aldebaran era um amigo querido e não o deixaria sozinho.
O taurino passou pelos amigos e seu cosmo acendeu, iluminando a parte escura da casa como uma forma de aviso. O visitante pareceu não se intimidar, dando a eles o som de seus passos arrastados. Aldebaran apertou os olhos tentando identificar o que se aproximava. Manteve a posição por alguns segundos até finalmente a silhueta de algo...não! Alguém começar a ganhar forma em meio a penumbra. Aldebaran pensou se deveria ou não vestir seu traje dourado como forma de precaução, mas quem avançava por sua casa não demonstrava agressividade e a energia diferente que vinha daquele ser era fraca demais para ter de provocar um alarde. Achou conveniente esperar mais um pouco, um ato que não lhe causou nenhum arrependimento assim que o visitante finalmente chegou até a luz.
A respiração cansada fazia jus a aparência também igual. Ele era alto e magro, mas não raquítico. Possuía longos cabelos vermelhos, mas só do meio da cabeça para o lado esquerdo, o direito era raspado bem baixinho, quase careca. A pele de tom pálido deixava os olhos escarlates ainda mais intensos, a orelha a mostra exibia um brinco longo com um pequeno brilhante, a roupa negra não dava bem para identificar se estavam rasgadas ou se eram como tiras. Isso! As roupas eram como tiras de tecido negro, parecido com uma múmia, onde somente os olhos ficavam em evidencia. Também dava pra notar que ele carregava duas espadas menores que formavam um X em suas costas e alguns apetrechos que pareciam facas pequenas em torno do quadril.
— Quem é você? – Inqueriu o dono da casa de forma autoritária.
O visitante respirou fundo fechando os olhos por alguns instantes, como se pegasse o fôlego que faltava para responder à pergunta. Em seguida movimentou a mão, mas o ato acabou por assustar alguns e fazendo o outro também se assustar. Preocupado em ser atacado, o homem ergueu ambas as mãos e caiu de joelhos como forma de demonstrar que não tinha nenhuma intenção de lutar.
— Por favor, eu não vim lutar. – Falou finalmente. A voz grave e levemente rouca abafada pela máscara de pano.
— Se não veio lutar, então o que veio fazer aqui? – Indagou Aiolia em toda sua autoridade. Ele não conseguia se conter.
O visitante movimentou a mão esquerda em direção ao rosto, com o dedo indicador e médio segurou o pano que cobria metade de seu rosto e o puxou devagar para baixo, revelando seu rosto tão andrógeno quanto o de Afrodite; os lábios bem desenhados e finos assim como o nariz.
— Saga! Saga de Gêmeos.
— O que você quer com ele? – Aldebaran indagou.
— Tenho algo que preciso dizer a ele, e acredite é importante.
Saga então mostrou-se ao visitante; imponente, sério, altivo. Caminhou com passadas lentas, ficando cara a cara com o outro. Ambos eram quase da mesma altura, sendo o outro pouco mais alto que Saga, mas mesmo assim ele manteve a postura. Aquele cara era um youkai e isso era notável na íris fina como de um felino e a pele de coloração estranha. No fundo, Saga não contava com aquilo. Não imaginava receber a visita de um youkai depois de tanto tempo. Foram dois anos e meio sem que nada de anormal acontecesse e agora bem no dia de seu aniversário recebia uma daquelas?! Ahhh...mas se aquele maldito tocasse no nome de Hiroaki ele faria questão e arrancar sua língua com as próprias mãos.
— Espero que diga as palavras certas meu caro, porque se você errar uma letra se quer advirto que não voltara para casa. – Saga advertiu entre os dentes.
O youkai olhou ao redor. Todos os olhos estavam voltados para sua pessoa e isso era meio constrangedor. Não que se incomodasse com aquilo, mas não sabia se o que tinha ido fazer ali podia ser feito e dito na presença de todas aquelas pessoas.
— Eu não vim aqui para lutar.
—Você já disse isso. – Saga deu mais um passo. Seu ódio por aqueles youkais ficou milhares de vezes pior depois da morte de Kyoko. Se ela tinha receio das coisas feitas pelos humanos, Saga, agora, era sua versão ao contrário.
—Podemos ir para um lugar mais...tranquilo pelo menos? O que vim lhe dizer e...consequentemente pedir não pode...
—Me pedir?! – Saga quase berrou e em um ato instintivo sua mão direita voou no pescoço do youkai, agarrando o membro com força e o tirando do chão.
Kanon e Mu correram na direção de ambos. Saga estava visivelmente transtornado. O youkai não parecia querer lutar, e se o que tivesse ido fazer ali fosse importante de verdade matá-lo antes de contar não seria uma boa ideia.
O gêmeo mais novo segurou no pulso do irmão a fim de fazê-lo libertar o indivíduo, mas a mão de Saga parecia um imã preso ali. O youkai começou a tossir, segurando o pulso do geminiano de forma desesperada.
— Saga não faz isso! Solte-o! – Pediu Mu. — Você não é assim.
Os olhos do youkai se arregalaram presos nos verdes faiscantes do mais velho. E em seu praticamente último fôlego balbuciou:
— Se...se me matar...nunca vai saber...saber por quem eu vim.
Aquela frase pareceu despertar o cavaleiro de sua fúria e ele soltou o outro, deixando ele quase cair sentando para recuperar a respiração. Mu foi até ele para ver se estava tudo bem.
Saga deu as costas a ambos e saiu a passos duros em direção a sua casa, mas antes ordenou que o visitante o seguisse até a casa de gêmeos. Mu, Kanon e Camus seguiram com o mais velho e acharam melhor ficar por ali afim de saber mais sobre o que realmente estava acontecendo. Os demais seguiram para suas respectivas casas para manter a guarda. Estavam preocupados se mais daqueles monstros pudessem voltar a aparecer no santuário.
Na casa de gêmeos todos se posicionaram na sala. O youkai pediu um copo d’água para tentar recuperar o fôlego e molhar a garganta seca, pois agora sim vinha a parte realmente difícil. Estava ensaiando aquela frase o caminho inteiro e mesmo assim ainda não sabia exatamente como proferir. Se ele mal havia conseguido acreditar em toda aquela história, imagina como Saga não reagiria ao saber dela. O geminiano estava visivelmente incomodado com sua presença e sua primeira reação não foi das melhores.
—Quem é você e o que está fazendo aqui? Espero que seja realmente sério, pois acho que você já notou que meu irmão não está de bom humor hoje.
O youkai sorriu de lado: — É...já percebi. – Fez uma pausa. — Você é bem forte, agora entendo porque ela o escolheu.
Os cavaleiros presentes sentiram como se a execução aurora de Camus lhes acertasse em cheio, congelando até os ossos tamanha a surpresa. Saga pensou em avançar contra ele outra vez, mas alguma coisa que ele não sabia explicar o mantinha ali, parado no mesmo lugar e com seus olhos estatelados.
O youkai respirou fundo. Estava na hora de jogar a bomba de uma vez. Só esperava que a explosão dela não causasse tanto estrago.
— Saga eu sei que pode parecer loucura o que vou dizer, porque acredite não é. – Respirou fundo outra vez.
— Desembucha de uma vez! – Camus bradou.
— Eu vim por causa da Kyoko...Saga, a Kyoko...ela está viva e ela nunca precisou tanto de alguém como precisa de você agora.
Continua...
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