Uma estranha no ninho - Vol. I

29 Uma estranha manhã de primavera.


Notas iniciais
Olá pessoas tudo bom com vocês? Ai, ai...(corre das pedras)... Então gentemmmm, primeiramente venho pedir mil desculpas pela demora. Sei que to demorando muito pra postar os capítulos, mas é que eu estou com um problema de família e isso está tomando muitooo meu tempo. Mas não se preocupem que mesmo que eu demore, não irei abandonar a fic e muito menos vocês. Agradeço muito pelos comentários fofos do capítulo anterior e a aqueles que me acompanham com carinho. Espero que vocês gostem e curtam muito esse capitulo que está fofo, louco e engraçado, tudo junto e misturado. Perdão pelos possíveis erros. Se tiver alguma coisa muito bizarra ou que incomode por favor, me avisem que eu acerto para vocês okay?! Faço tudo sozinha de fã para fã. A foto do capitulo não me pertencente, achei ela no google. CRÉDITO TOTAL AO ARTISTA que não sei quem é, só sei que é do Final Fantasy X. Bjs e no kokoro e boa leitura!!!

Ume corria de um lado para o outro pegando frutas, pães, leite e tudo que sabia ser do gosto de Saga e Kyoko-Sama. A Kitsune teria um compromisso logo cedo e já havia deixado ordens na noite anterior para que levasse seu desjejum bem cedo.

— Ahhhh...Hime-sama ficará furiosa! Como fui perder a hora justo hoje?

Colocou tudo em uma bandeja bem arrumada, depois voltou correndo até um armário tirando de lá duas xícaras de porcelana fina e dois pires. Pegou também talheres e um pequeno potinho cheio de cubos de açúcar tudo de uma só vez. Levou um baita susto ao se virar e dando de cara com Mu.

No susto acabou por deixar quase tudo cair de seus braços, mas de uma forma impressionantes o ariano aparou todos os objetos com uma badeja de prata antes deles tocarem no chão.

— Opa! Cuidado! – disse Mu sorrindo doce. Ume enrubesceu como de costume.

A...arigatou!(Obrigada!)

Mu manteve o sorriso e depositou a bandeja onde havia outras: um carrinho. Ume aproximou-se e começou a ajeitar tudo como de costume, mas sem encarar o homem. Sentia-se envergonhada sempre que o via. Não conseguia deixar de pensar no dia que banhou Mu e em como ele era encantador. Nunca imaginou que pudesse existir humanos tão educados daquela forma, até porque tudo que sabia sobre eles era o que ouvia de outros youkais. Mu contrastava totalmente com o perfil dado pelos youkais a humanos; principalmente por Kyoko.

— Saga gosta muito de café forte e de preferência sem açúcar. – informou Mu ao ver Ume depositar somente Chá ali.

Ela olhou para o bule e sorriu. Agradeceu outra vez e correu para preparar o café bem rápido. Tinha ordens de Baa-san para agradar o geminiano tanto quanto Kyoko, e Mu sabia disso. Seus olhos não se desviavam da figura de Ume. Era impossível não se encantar com seu jeito exageradamente meigo e fofo. O andar de passos curtos por conta do kimono azul floral, os cabelos negros presos em um coque frouxo e a maquiagem bem leve; batom rosa e um pouco de delineador era suficiente. As mãos pequenas e delicadas combinavam com sua estatura baixa e corpo magro, mas não menos atrativo.

Mu olhou ao redor e viu quando um dos últimos servos saia com uma badeja de comida. Provavelmente o desjejum dos shinobis. Era sua chance.

— Deixa que eu pego isso para você. – disse Mu pegando o bule com o café quente. — Você não deveria fazer isso sempre sozinha.

— Já estou acostumada. E também, Hime-sama é tão boa para mim. Faço com prazer. – sorriu ajeitando os guardanapos.

— Entendo.

Um silêncio constrangedor se instalou ali. Ume era tão diferente das mulheres gregas que ficava difícil manter um diálogo por muito tempo. Quando a via de longe pensava em várias coisas, vários assuntos, mas quando raramente se aproximava as palavras simplesmente sumiam de sua mente.

— Você tem mãos de trabalhador. – Mu se surpreendeu ao sentir o toque dela em sua mão. — Você...parece tão diferente dos homens...que Hime-sama falou. Ela sempre disse para eu ficar longe se visse algum. Disse também que eles são maus e que...

— Eu pareço mau para você? – interrompeu.

— Não! Mu-sama parece tão...

—Não precisa ser tão formal comigo. Só Mu está bom.

Ume corou com o sorriso meigo e os olhos verdes fixos nos seus. Algo dentro dela dizia que não devia permitir aquela aproximação com humanos, mas com Mu, ela não conseguia evitar. Prendeu a respiração na garganta ao sentir a mão dele cobrir a sua. O calor e o carinho contrastavam e muito com a aspereza dos calos causados por anos e anos de treinamento e principalmente pelo trabalho de ferreiro. Mu passava muito mais tempo reparando armaduras do que lutando, mas mesmo assim aquilo não deixava o ato menos delicado.

E Mu pediu a todos os deuses existentes e até mesmo Buda para manter seu autocontrole no lugar. Aquela era a primeira aproximação real deles e estava com medo de assustar Ume. Não queria que ela saísse correndo pelos corredores, gritando que ele era um tarado. Mas –incrivelmente — para sua total surpresa, Ume deu um mísero passo em sua direção e bem devagar a ficar na ponta dos pés.

O ariano entendeu muito bem o recado; devagar tocou o queixo dela e mais sutil ainda uniu os lábios em um beijo suave, doce e respeitoso que foi aos pouco se aprofundando, desejando o sabor um do outro.

Estremeceu inteiro. Nunca pensou que seria tão bom saborear os lábios de alguém. E com Ume não foi diferente. Não conseguia acreditar de onde havia tirado tanta coragem para fazer algo do tipo. Estava curiosíssima em saber como seria provar um humano e ainda mais aquele humano, mesmo sem saber que Mu não era bem humano. Sentiu seus pés saírem do chão, flutuando em uma brisa que aquecia seu corpo e seu coração de maneira avassaladora. Aquilo não era só bom, era maravilhoso! Incrível! O melhor beijo que já provara em toda sua existência. Só era uma pena ele ter de acabar.

E com muito custo Mu findou o beijo. Sabia que se continuasse perderia o controle e não era isso que queria, e sabia que Ume também não. Os olhos se encontraram novamente e um sorriso bobo curvou os lábios do ariano ao ver o rubor no rosto da youkai.

— Eu...

— Ume!!

Mu de imediato soltou a mão da gueixa, mas não se afastou mesmo com o susto. Virou o rosto na direção da voz. Sentiu um frio subir por sua espinha ao ver o olhar assassino que Águia observava a cena. Engoliu em seco. Será que ele já estava ali a muito tempo? Será que ele havia visto?

O shinobi mirou a gueixa com o olhar ainda mais assassino, fazendo a moça se encolher como um coelho assustado.

—O desjejum de Kyoko-dono está esfriando. Você não quer que ela tome chá frio, quer? Sua irresponsável!

Ume estancou. Havia se esquecido completamente daquilo.

— Saia! – o shinobi ordenou.

Mu não gostou nem um pouco do tom usado por ele. Quem ele pensava que era para falar daquela maneira? Mas quando pensou em abrir a boca para rebater as ofensas dele, Ume disfarçadamente segurou em sua mão, maneando a cabeça em negativa. Mu achou melhor acatar, pois se fosse o que realmente estava desconfiado, Águia tinha toda razão para estar furioso.

Os olhos possessos seguiram a youkai até ela sair do ambiente, para enfim voltar ao cavaleiro. Mu não se intimidou e devolveu o olhar na mesma medida. Águia, como um predador, caminhou até ficar frente a frente; os olhos iluminados e as íris felinas, evidenciando seu total desagrado.

—Eu só vou avisar uma vez, Áries: fique longe dela. Não pense que não arrancarei sua cabeça só porque Hime-sama pagou caro por você.

— Já vi coisas piores do que seu olhar, Águia. – rebateu no mesmo tom.

Águia riu debochado.

—É mesmo? Então porque você está com medo?

Mu estancou. Por mais que tentasse se controlar, a ofensividade no olhar do shinobi era muito pior do que de qualquer juiz do submundo. Era como estar literalmente diante de um predador mortal. Não conseguiu entender como ele havia conseguido fazer aquilo, mas odiou o fato de Águia estar certo. Por mais difícil que fosse admitir ele estava sim com medo do shinobi.

Um sorriso maquiavélico mostrou os dentes pontiagudos e brilhantes pela saliva. Águia não dissera mais nada, somente deu as costas a Mu e saiu do lugar. Uma dor de cabeça e um enjoo pegou o cavaleiro de surpresa, mas a surpresa maior fora o sangue vivo que escorria de sua narina.

♊oOoOo♊

Ambos caminharam por quase uma hora até chegarem a tal caverna dos mambaratis. No caminho Saga fora bombardeado por milhares de perguntas ao qual teve que majestosamente se esquivar...

— De onde você veio?

— Do Nigenkai, lógico.

— É claro que foi de lá, mas...de que lugar de lá.

— Sou da Europa, Grécia.

— Hummm...e o que você fazia lá?

Saga respirou fundo a fim de formular uma resposta cabível, mas não mentirosa. Não queria e nem gostava de mentir para Kyoko.

— Eu era...segurança.

Kyoko franziu o cenho sorrindo de lado. Olhou para ele de cima a baixo; realmente Saga possuía um belíssimo porte, além de ser elegante, educado e principalmente imponente. Tinha que admitir que aquele humano tinha o poder de intimidar qualquer um sem dizer uma só palavra.

—E quem você protegia? — indagou enquanto passava por baixo de um galho de árvore. Saga fez o mesmo para depois responder.

— Uma mulher.

Kyoko ficou em silêncio. Não iria admitir, mas não gostou em nada de saber daquilo. Imaginou de cara que talvez ele não fosse só um segurança daquela tal moça e sim, quem sabe, um amante também. Saga era bonito demais para seu gosto, e se ela que não gostava da aproximação com humanos sentia desejo por ele, era então impossível uma mulher humana resistir.

Com a resposta silenciosa Saga entendeu muito bem o quanto ela não havia gostado de saber daquilo. Foi assim na primeira vez. Kyoko era possessiva demais para simplesmente...aceitar que algo "seu" fosse compartilhado com outra pessoa. Na cabeça dela Saga era seu por direito. Ela havia ganhado ele como presente, mesmo odiando no início, isso não importava; Saga era seu! E pronto!

— Ela é muito importante em nosso mundo. – Saga completou na tentativa de amenizar.

—Entendo. E o que ela tem de tão importante? — Kyoko tentou disfarçar a irritação, mas sua vontade era estapear aquele humano por ter chegado perto de outra mulher.

—Ela protege pessoas inocentes, assim como você.

— Ohhhh que comovente! Tão prestativa! — zombou. —E pelo seu tom de voz já deu pra notar que ela é ainda mais importante para você.

— Não vou mentir, ela é sim muito importante para mim.

— Imagino o quanto. — ironizou olhando-o por cima de um dos ombros.

Saga não gostou nem um pouco do tom sarcástico e malicioso da kitsune referente a sua deusa.

—Não é dessa forma que você está pensando. — ditou firme, mas sem se alterar.

—Ah não?! Deixa eu pensar então...- cruzou os braços. — ...seria talvez o mesmo tipo de gostar que você se refere a mim?

Saga se aproximou olhando bem dentro dos olhos dela. Não estava gostando da comparação. O que sentia por Kyoko era completamente diferente de sua devoção por Atena, mas ela não sabia e nem lembrava, o que tornava normal a desconfiança. Na verdade, era até bom; se ela estava batendo tanto naquela tecla era sinal de que estava sim enciumada —mesmo que não dissesse.

Se dando conta disso, Saga não perdeu a oportunidade, alfinetando Kyoko bem em seu calcanhar:

— Com ciúmes, Vossa Alteza?

Kyoko paralisou na hora. Engoliu em seco ao se dar conta do quanto havia extrapolado, deixando o homem perceber seus sentimentos. Sua raiva por aquilo tudo cresceu ainda mais ao admitir para si mesma que estava interessada em Saga mais do que devia. Sua mente então começou a imaginar diversas situações; uma em que ele podia sim ser amante daquela mulher e estar tentando lhe enganar. No fundo até entendia, mesmo que não quisesse aceitar. Era mais natural e mais correto. Ela não tinha que gostar dele até porque haviam coisas que nunca mudariam como sua união com Hiroaki.

Cravou as unhas nas palmas das mãos afim de não deixar transparecer nenhum sentimento a mais do que já havia deixado. Saga era só um homem humano e teria de voltar para casa o quanto antes, e isso era um fato que ninguém poderia mudar. Por mais que quisesse saber como era o calor do abraço dele ou o conforto de seus carinhos, a frustração da ciência do impossível doía demais. Independe de quem amasse ou com quem se deitasse, ela estava presa a Hiroaki para sempre.

Kyoko então endureceu a face, dando as costas a Saga e disse da forma mais fria que podia:

—Nem em duas vidas.

— Sério?! Não foi isso que eu senti. – volveu Saga.

Kyoko virou o rosto somente um pouco, olhando de soslaio para Saga por cima dos ombros.

— Quando voltarmos, providenciarei para que você nunca mais sequer lembre que eu existo.

E saiu caminhando.

O cavaleiro ficou parado um tempo, remoendo aquelas palavras, pois esquecer dela era um feito que sabia ser impossível.

♊oOoOo♊

A entrada do lugar era muito estreita. Entre duas rochas gigantescas, uma fenda minúscula mal cabia uma pessoa. Saga sentia suas costas e seu peitoral reclamar pelo atrito com o pedregulho. Fora obrigado a tirar a blusa de seu kimono naquele frio horrível para conseguir entrar ali, assim como Kyoko. Ela conhecia aquele caminho como a palma de sua mão e por isso enrolou sua cauda na cintura de Saga para que ele não ficasse para trás. A sensação de estar quase sem ar era agoniante e para ele devia ser muito pior. O ar já era pesado naturalmente, mas ali até para ela era difícil respirar.

— Respire devagar. – sussurrou Kyoko ao notar a palidez dele.

— Ainda está longe?

— Não, vem...

Em um ato instintivo, Kyoko segurou na mão esquerda de Saga, o puxando mais rápido. A palidez excessiva dele alertou a Kitsune que se não andasse mais depressa ele não chegaria ao final. Saga estava quase perdendo os sentidos.

—...estamos quase chegando.

— Não...consigo respirar. – Saga começou a se desesperar. Sentia as pernas fracas e a visão escurecer.

— Saga...olhe para mim!

A respiração do cavaleiro ficou ainda mais acelerada. Ele sabia que estava perdendo os sentidos e ali naquele beco miseravelmente apertado era ainda mais desesperador.

Kyoko enrolou a cauda ainda mais firme na cintura dele enquanto o puxava pelo braço, mas agora o mais veloz que podia. Se Saga desmaiasse ali, poderia ficar entalado e morrer sufocado. Saiu puxando o homem de qualquer jeito, cravando as unhas da mão livre nas pedras para ganhar mais impulso. De uma só vez Kyoko foi “cuspida” para fora do beco, puxando Saga pelo braço e deixando metade do corpo dele para fora do beco. No impulso a Kitsune caiu sentada no chão. Levantou o mais rápido que pode, pois com o corpo relaxado pelo desmaio, Saga não conseguiu sair, ficando preso na saída da cintura para baixo.

— Mas que porcaria! – gruiu vendo ele pendurado com metade do corpo para fora da fenda.

Segurou o braço dele novamente e puxando, mas sem conseguir sucesso. Kyoko era forte e exatamente por ser forte é que precisava tirar ele dali com cuidado para não o machucar ainda mais, afinal...ela queria ele inteiro, não é?! O que faria somente com um braço? Se usasse a força de maneira errada era capaz de arrancar o braço dele e ainda assim o corpo não sairia.

Caminhou um pouco até uma árvore, bateu nela com as unhas causando um rasgo no tronco. Dali uma gosma azul começou a escorrer como sangue de uma ferida. Kyoko lambrecou as mãos e voltou correndo até Saga. Com jeito e extremamente encabulada – já que ele estava sem camisa – passou um pouco daquilo no peito e nas costas dele a fim de facilitar as coisas. Apoiou um pé de cada lado da fenda resmungando todos os palavrões que conhecia e em todas as línguas que sabia. Onde estava com a cabeça para levar aquele idiota...lindo! Até ali? Era óbvio que Saga não caberia naquele buraco minúsculo.

— Seu imbecíííl! Eu odeio você! – gruiu Kyoko puxando Saga pelo braço.

De repente Saga acordou, puxando o ar com força e consequentemente encolhendo a barriga e o peito, alargando o espaço e desentalando de uma só vez. Kyoko deu um grito, rolando com ele a pequena descida e acabando no fundo do lago.

Ambos levantaram juntos, buscando o ar que seus pulmões necessitavam, batendo os braços e balançando a cabeça.

— Mas que merda! Você está querendo...

Saga perdeu a voz ao finalmente notar o lugar onde estava. Devagar começou a olhar tudo ao redor e se deslumbrando com tamanha beleza. Ele jamais poderia imaginar que um lugar como aquele pudesse existir e ainda mais ali. Era mágico demais! Agora sim entendia o motivo de tanta dificuldade.

— Por...todos os deuses. – sorriu.

O lugar era enorme, cheio de árvores grandes com troncos retorcidos onde bolhas luminosas pareciam enfeites de natal. Pequenos vagalumes voavam, bailando uns com os outros de forma magnífica e aleatória. O teto brilhando intensamente, como um céu artificial. Alguns pedaços de rocha saiam do fundo do lago, brilhando como um diamante azul. Quem estivesse ali jamais poderia imaginar que lá fora ainda era dia. A água quente e cristalina refletia sua imagem ao mesmo tempo que seus pés ficavam visíveis.

— É lindo! – sussurrou

Kyoko se afastou um pouco; os olhos presos no semblante impressionado de Saga. E como ele era bonito; e como seus olhos pareciam ainda mais intensos na parca luz. Engoliu em seco ao se dar conta de que já não conseguia mais esconder o quanto se atraia por ele.

“Por que me sinto assim? O que tem de errado comigo? Isso não devia acontecer! Eu...não posso estar me apaixonando. Não! Eu...”

Piscou aturdida dando as costas para ele. Agradeceu mentalmente por Saga estar mais impressionado com os pontos luminosos do lugar do que com sua cara de idiota.

— Eu vou pegar os mambaratis, você me espera aqui. – disse saindo sem olhar para trás.

Saga não disse nada, mas achou por bem obedecer naquela hora. Já havia quase morrido entalado e não queria provocar mais nenhum desastre. Estava em um lugar inóspito, cheio de perigos, um mundo completamente diferente do seu, então era melhor acatar as ordens de Kyoko.

Enquanto observava Kyoko de longe, algo ainda mais brilhoso e bonito chamou sua atenção; crispou o cenho ao notar que ele vinha em sua direção; devagar, pomposo. Sorriu erguendo a mão onde o pequeno brilho pousou delicadamente. Saga olhou bem de perto: era um tipo de inseto, semelhante a uma borboleta ou mariposa com asas extremamente luminosas e azuis, detalhes em preto e os pequenos olhinhos brilhavam como gotas de orvalho.

Ficou assim durante alguns segundos deixando o brilho das asas do pequeno refletir em suas íris. Ele não parecia perigoso, só tão curioso quanto ele. E entretido com o anfitrião não notou quando mais um saiu de uma árvore próxima e foi em sua direção também, pousando em seu ombro.

—Ei! Olá amiguinho! Você não vai tentar me devorar, vai?! – falou observando o inseto em seu ombro.

E de repente mais um surgiu da mesma árvore, voando até ele e agora pousando em seu braço. Aquilo fazia cócegas. Sorriu. Será que estava doce?

Mas distante, Kyoko tentava farejar e encontrar os tais mambaratis, mas tudo indicava que eles não estavam muito afim de serem encontrados naquele dia. Bufou irritada. Só faltava essa. Queria ir ali e voltar antes da neve voltar a cair. Saga estava encharcado e se saísse dali assim poderia congelar antes de chegarem a cidade.

“Mas porque estou me preocupando com ele? Eu deveria me preocupar comigo mesma já que também posso morrer congelada. ”, refletiu irritando-se mais.

— MICHÊ! SE VIR ALGO BRILHOSO VOAR ME AVISE, OKAY!

A raposa ainda mantinha os olhos fixos na árvore, mas estranhou quando não ouviu a resposta de Saga. Bufou aborrecida. Não estava com coragem de olhar para ele, mas pelo visto não teria jeito.

— Michê você está...

Kyoko paralisou ao finalmente entender o motivo de Saga não responder seu chamado. Como não havia pensado naquilo antes? Um riso contido saiu de sua garganta. Se aproximou devagar e observando de perto o semblante assustado do homem e com razão.

Era impossível não achar graça da cena. Saga estava parado como uma estátua; os braços levemente abertos onde vários mambaratis cobriam seu corpo. Saga mais parecia uma árvore de Natal do que um homem. Até em seus cabelos, peito e na ponta dos dedos os bichinhos se espremiam por um lugar.

— Parece que eles encontraram você primeiro. – gargalhou Kyoko.

—Eles não são venenosos, são? –indagou receoso da resposta.

— Não! São inofensivos. – se aproximou pegando um dos bichinhos com cuidado e colocando dentro de uma caixinha. — Como sou burra! Devia imaginar que seu cheiro os atrairia.

Assim que Kyoko pegou o segundo um acabou se assustando e voou, rodeando por cima da cabeça de Saga, mas por pouco tempo. O bichinho se direcionou ao rosto dele e sem cerimônia pousou bem na ponta de seu nariz.

Kyoko riu ainda mais. Ver alguém como ele passando por situações como aquela era um privilégio e por demais engraçado.

O mambaratis caminhou um pouco até bem para ponta do nariz de Saga, causando cocegas ali. O cavaleiro até tentou, mas foi impossível segurar. Um espirro altíssimo ecoou pelo local, assustando e espalhando os insetos em um show de luzes azuis.

Kyoko deslumbrou-se com aquilo, pois nunca havia visto tantos mambaratis juntos de uma só vez. Era lindo e impossível não se emocionar.

E não se admirar com aquele espetáculo luminoso refletido nos olhos de Kyoko era ainda mais impossível para Saga. O sorriso sincero em meio as covinhas enchiam ainda mais seu coração de saudades.

Por que as coisas tinham que ser difíceis? Porque a vida cismava em fazer seu coração sangrar com tantas dores?

Já havia perdido as contas de quantas orações havia feito antes de dormir. Saga estava cansado de tanta coisa, de tanta perda, de tanta guerra, e principalmente daquela que travava com o coração de Kyoko.

— Parece que eles gostaram de você. — Kyoko ergueu a mão direita, deixando um dos pequenos pousar em seus dedos.

Saga ainda se manteve em silêncio por alguns segundos. Não conseguia parar de admirar a cena e sonhar ter Kyoko em seus braços outra vez. Ela estava tão perto e tão longe como nunca esteve. Talvez nem quando não sabia que ela existia, estavam tão longe um do outro.

— É, mas parece que foi só eles, não é?! — confessou triste enfim.

O sorriso da raposa morreu instantaneamente com a frase e o tom deprimido de Saga. E por mais que Kyoko lutasse para não sentir nem mesmo compaixão por ele, a melancolia pareceu exalar por todos os poros do geminiano contaminando o seu. Os olhos deles se encontraram e novamente ela ficou sem palavras.

— Será que algum dia ganharei sua confiança? Será que algum dia eu vou poder chegar perto de você sem que você se afaste de mim?

Kyoko estremeceu. Desviou os olhos para a água encarando seu próprio reflexo.

— Talvez...se você me desse uma chance. – Saga completou.

— De quê? Para quê? — inqueriu sem olha-lo. Por deus! Porque seu coração batia tão rápido? — Eu...nem conheço você. — Olhou para ele finalmente. — Porque você insiste? Eu...nem sou humana.

Saga deu um riso triste. Como queria contar a ela tudo que sentia, tudo que era, tudo que tinham mesmo que ela não soubesse, mas não podia. Kyoko não acreditaria. Seria um choque para ela saber de tanta coisa de uma vez. Saga lutava com todas as forças que ainda tinha para não sucumbir a necessidade de possui-la sem medir as consequências. Era notável a atração e a curiosidade dela para com ele e justamente por isso não podia meter os pés pelas mãos e afasta-la ainda mais; precisava ganhar a confiança dela mais do que tudo!

— Ah Kyoko...

De modo instintivo ergueu a mão em direção ao rosto dela e o que não foi surpresa nenhuma, Kyoko se afastou um passo. O coração de Saga pareceu se partir em milhares de pedacinhos, causando uma dor tão grande que refletiu em Kyoko. Ela fechou os olhos e gemeu baixo, sentindo finalmente a dor e a tristeza de Saga na própria carne. Lágrimas vieram a seus olhos e ela usou de toda força e autocontrole que tinha para não gritar e desabar ali mesmo. Se já não bastasse suas próprias dores...

Percebendo a hesitação dela, Saga achou por bem encerrar o assunto. Não queria deixar Kyoko triste e muito menos faze-la chorar. Odiava ver aquelas pedrinhas, pois sabia que elas nada mais eram do que a dor palpável de sua Kitsune.

— Você já terminou? — inqueriu.

—Como assim? — volveu confusa. A mudança de postura de Saga não condizia em nada com a enxurrada dolorosa de seus sentimentos.

—Os mambaratis. Ainda precisa de mais?

—Ahn...não! Esses já são suficientes.

—Bom, então melhor irmos. Já estou ficando enrugado dentro dessa água e além do mais ainda vou ter de encarar aquele beco.

Kyoko achou melhor não dizer nada. Era melhor assim. Estava por um fio de perder o controle ainda mais depois de se deixar sentir as dores de Saga. Se já estava triste e confusa antes com seus próprios sentimentos, agora, depois disso sentiu-se morreu um pouco mais.

♊oOoOo♊

Saga e Kyoko não tiveram tanta dificuldade em sair da caverna dessa vez, mas como ela já esperava a neve voltara a cair forte outra vez. Correu com ele o máximo que pode, sentindo o corpo tremer de frio. Saga pensou que morreria ali mesmo, congelado pela nevasca. Lembrou-se de Camus e em como ele conseguia gostar tanto daquilo.

— Já estamos quase chegando. – disse Kyoko ajudando Saga a ficar de pé.

Se para ela que estava em plena forma o frio era quase insuportável, imagina para ele? Por mais forte que Saga fosse seu corpo era humano e sem ter todo seu cosmo como antes e principalmente sua armadura, congelar naquele frio seria coisa de criança.

Kyoko o puxou com força, mas paralisando ao se dar conta de que tinha algo errado na cidade. Crispou o cenho com força, engolindo em seco só de imaginar ser quem poderia ter feito aquilo. Não era possível que ele tivesse ido até lá antes do prazo. Ela ainda tinha quinze dias e não fazia o menor sentido Hiroaki ter ido até lá antes do prazo acabar.

— O que foi? – Saga indagou abraçado ao próprio corpo.

— Tem alguma coisa errada. – fez uma pausa. — Vem!

Saga acatou, tirando forças de onde podia para sair correndo com Kyoko no meio daquela neve. Em dado momento acabou por cair ajoelhado. Os lábios arroxeados e a pele extremamente pálida. Estava difícil demais se manter aquecido ainda mais por estar com as calças molhadas.

— Minhas pernas estão...dormentes. – sussurrou tremendo.

Kyoko sentiu o coração apertar. Onde estava com a cabeça para leva-lo naquela aventura? E o pior: o que faria se Hiroaki estivesse mesmo ali? Onde esconderia Saga? Se ele o visse com toda certeza o mataria sem pensar duas vezes. Não tinha a menor condição – ainda- de enfrenta-lo por si mesma, imagine para proteger alguém. Sem Adamantine e a Mythrill enfrentar Hirokai ou Suzuki era suicídio.

Ela então ajudou Saga a ficar de pé. Enrolou a cauda na cintura dele, emanando um pouco do seu youki e aquecendo o corpo dele, mas não muito. Não queria matá-lo de choque térmico.

Kyoko entrou na cidade arrastando o cavaleiro consigo. A mesma estava deserta. Todos trancados em suas casas sem ter coragem de sequer olhar pela janela. Continuou caminhando. Uma caloria estranha chamou sua atenção. Devagar e completamente atenta caminhou com Saga em direção. Estremeceu da cabeça aos pés ao dar de cara com a escola em chamas. Alguns guardas caídos, mortos com ferimentos de espada e moradores que tentavam apagar o fogo. As crianças choravam e tossiam, sendo amparas pelos guardas.

— Mas o quê?!

— Fomos atacado! — respondeu um dos guardas.

— Onde ele está?

— No casarão.

Kyoko saiu correndo desesperada. Era como se mais nada a sua volta existisse. Paralisou ao ver enfim o que estava acontecendo ali. Engoliu em seco; Camus e Afrodite estavam de joelhos, enquanto Águia, Ookami e Yamoto estavam de mãos atadas já que Baa-san também era feita de refém por um comparsa do invasor. E pela aparecia de seus shinobis eles haviam lutado muito.

Yamoto exibia um corte no lábio superior e um no supercílio do mesmo lado. Suas espadas estavam jogadas bem longe. Ookami também estava de joelhos com alguns ferimentos no rosto e sem armas. Águia estava terminando de se reergue bem na frente de Mu e Ume. Ao que tudo indicava ele estava protegendo os dois. A gueixa chorava muito agarrada a Mu, sem desprender os olhos de Águia.

— Camus! Afrodite! – berrou Saga ao ver os amigos. Ambos aparentavam estar exausto e sujos de fuligem.

— Não! – Kyoko o segurou.

A raposa sentiu o ódio crescer como nunca, mas também um grande alívio. Sabia que eles apareceriam ali, mas não imaginou que fosse antes da hora e muito menos que fariam um estrago daqueles. Malditos! Como podiam ser tão covardes?

— Ora, ora! Parece que meu informante estava realmente certo. A raposa de Hiroaki-sama está novamente metida com os humanos. Que desperdício! Me dá nojo!

Kyoko crispou o cenho. “Informante”, pensou.

—O que pensa que está fazendo Kazuia? — rosnou.

O shinobi abriu os braços como se aquele gesto deixasse óbvio o que tinha ido fazer ali e mais ainda por quem ele estava ali.

— Ora Hime-sama, você melhor do que ninguém sabia que apareceríamos. Se não queria que encontrássemos os humanos deveria ter escondido eles no esgoto ao em vez de deixá-los tão à vontade em sua cidade. Hiroaki-sama dera ordens especificas para...cuidarmos de você. Ele ficará muito triste quando souber disso. – sorriu — Mas pensando bem, eu sei de algo que o deixará extremamente contente...- aprontou a espada para Saga. —...a cabeça dos humanos. Principalmente desse fracote aí.

O shinobi começou a caminhar ao redor dos cavaleiros. Nunca se sentiu tão poderoso na vida, mesmo diante o olhar assassino de Kyoko. Um arrepio subiu por sua espinha, mas não se deixaria abalar. Kyoko não era mais a mesma, desarmada e sem Adamantine ela não era nada além de uma Kitsune qualquer, e ainda mais: com a vantagem dos reféns era óbvio que ela não faria nenhuma burrada.

De repente e muito antes de qualquer um deles perceber um segundo shinobi surgiu das sombras, disparando um soco potente na direção de Saga. No instinto Kyoko se jogou na frente, recebendo o golpe em cheio no rosto. Ambos foram jogados um para cada lado.

—Kyoko!! – Berrou todos ali.

Saga se reergueu como pode, olhando sua amada caída e com sangue no rosto. Seu ódio fez o sague ferver em suas veias, lembrando do dia em que viu Kyoko morta no chão do santuário. Não! Aquilo de novo, não! Sem pensar acendeu seu cosmo o quanto pode e avançou contra o shinobi pegando o mesmo desprevenido e lhe acertando um soco tão potente que o mesmo voou por metros.

—Seu miserável! – Saga berrou furioso.

Saiu correndo em direção a ele sem se preocupar se estava com armadura ou não, ou se tinha cosmo suficiente naquele momento. Seu ódio por aquele youkai estava indo além de qualquer compreensão. Todos ficaram de boca aberta, vendo a ira implícita no brilho do cosmo refletir nas íris verdes.

—MORRA!!!

Hidaka arregalou os olhos ao ver o punho poderoso de gêmeos vir em sua direção mais rápido do que podia desviar. Se aquele soco o acertasse não sobraria nada de sua cabeça.

De longe Águia viu o que estava prestes a acontecer. Saga estava tão possesso de ódio que jamais notaria o avanço do outro em sua direção. Só teve tempo de berrar:

— SAGA!! ATRÁS DE VOCÊ!

E o som metálico do tilintar e o brilho da faísca das espadas se encontrando fez todos paralisar pela segunda vez. De uma forma inesperada, Kyoko estava novamente de pé, segurando sua espada com ambas as mãos para aparar majestosamente o golpe certeiro de Kazuia em direção ao pescoço de Saga.

O olhar macabro dela fez o shinobi tremer dos pés a cabeça. Engoliu em seco refletindo se aquilo tinha sido realmente uma boa ideia. Kyoko estava notavelmente mais fraca, mas isso não mudava o fato de que ainda era um Kage.

— Quem você pensa que é para invadir minha casa e achar que pode fazer o que quiser?

Devolveu a pressão do golpe, empurrando Kazuia para longe. Ele caiu de pé. Levou um baita susto ao ver todos os seus comparsas, exceto Hidaka, explodindo em uma combustão azul causada pelo fogo de Kyoko. E ela nem precisou mover um dedo para matar aqueles insolentes. Yamoto e Ookami aproveitaram a brecha para tirar Baa-san e os cavaleiros do que agora seria uma arena. Águia aproveitou a chance para se mover tão rápido quanto um raio, pegando sua espada no chão, mas quando se posicionou para atacar Kazuia um gesto de mão de Kyoko o fez parar.

Yamoto e Ookami que também já se posicionavam para atacar pararam obedecendo a ordem de Kyoko.

— O que? Como assim? Vocês não vão fazer nada? – indagou Afrodite ao ver os três recuar.

Ookami sorriu devasso dando um berro extasiado como um animal no cio. Sabia que não devia, mas iria gozar ao ver Kyoko arrancar a cabeça daquele desgraçado. Fazia anos e anos que não via Kyoko matar alguém. Não perderia isso por nada no mundo.

—Essa luta não é nossa. – Yamoto disse.

—Eu não to acreditando nisso. – sussurrou Afrodite sentando-se indignado.

— Ookami! – Kyoko chamou. O shinobi sumiu e reapareceu ao lado dela com um dos joelhos no chão. —Proteja-o!

Saga mal pode acreditar no que ouvia. Se Kyoko tivesse ideia de como odiava quando ela fazia aquilo era capaz de se esconder em um buraco e não sair nunca mais. Estava farto de toda aquela encenação e de depender daqueles malucos. Estava ali por Kyoko e não a deixaria sozinha como eles estavam fazendo.

Antes de Ookami conseguir colocar a mão em Saga um buraco negro sugou o youkai, fazendo ele aparecer junto dos outros. Mal conseguiu acreditar naquilo. Como ele havia conseguido teletransportá-lo tão rápido? E pior, como aquele lerdo de Áries havia conseguido erguer uma muralha sem que percebessem.

— Filho da puta! – berrou Ookami para ambos.

Kyoko ficou observando a ação daqueles homens abobalhada e só então lembrou-se do feito de Saga com a pequena esfera estelar na noite anterior. Como ela não havia se ligado que para fazer algo do tipo Saga precisava de muito poder? E como ela teve coragem de sair sozinha com ele?

— O que...O que pensa que está fazendo? – gruiu Kyoko para Saga.

— Não me olha assim, eu não vou sair daqui. – respondeu no mesmo tom.

—Não acha que já tem gente suficiente aqui para me atrapalhar?

Saga franziu o cenho ainda mais puto. Se não amasse tanto Kyoko com toda certeza a enforcaria ali mesmo.

— Eu vou fingir que nem ouvi isso. – rebateu ainda mais irônico.

— Escuta aqui seu...

Kyoko não conseguiu terminar com sua malcriação, pois a gargalhada debochada de Kazuia chamou a atenção de ambos. Era uma forma típica dele de intimidação, coisa que não surtiu efeito em nenhum dos dois. Muito pelo contrário, Kyoko e Saga só ficaram ainda mais enojados e irritados.

— Até que ficam lindos juntos.

Kyoko arregalou os olhos, piscou algumas vezes e corou. Apontou para Saga com o polegar.

— O que? Eu e ...ele? Juntos? Ora...Como ousa me ofender assim? Você é lixo Kazuia. Não é digno nem do ar que respira. Como se atreve a vir aqui e apontar sua arma manchada de sangue inocente para meu povo? — gruiu Kyoko.

— Seu povo? Agora esses humanos são seu povo? Eles foderam seu rabo até sangrar por anos e anos e você continua os protegendo, e ainda com a ajuda de Naomi e esses Shinobis traidores.

"Naomi?!", pensou os três cavaleiros juntos.

—Cale-se imundo! Você não devia estar aqui! — vociferou

—Estou aqui para cumprir a ordem de Hiroaki-sama e a ordem dele era tomar conta de você, coisa que seus shinobis fizeram muito mal. — ironizou sorrindo.

A Kitsune riu debochada, balançando os ombros e mostrando todos os dentes. Por um segundo sentiu pena deles. Pobre Kazuia e Hidaka mal sabiam que Hiroaki os havia mandado para lá para morrer.

— Ahhh! Eu quase consegui sentir dó de vocês. Caiam na real! Hiroaki só mandou vocês para cá, pois sabia que cometeriam um erro e minha paciência não lhes daria uma segunda chance. — Kyoko cuspiu as palavras. Hidaka empalideceu.

—Isso é bem típico dele. – Saga cruzou os braços.

— Basta! Hiroaki-Sama, jamais faria isso. Ele é um deus e não merece traidores como você kitsune. Eu vou levar você e a cabeça desse humano para Hiroaki-sama. Quero ver você manter esse seu sorrisinho quando vir ele arrancar a cabeça desses humanos. — Hidaka gruiu quase como um animal. Estava tão furioso quanto Kazuia.

Kyoko nada disse, somente o observou pelo canto dos olhos e segurou o cabo da katana com ambas as mãos, erguendo e deixando a lâmina na horizontal na frente do rosto. Saga ficou atrás dela e de frente a Hidaka. Kazuia e Hidaka fizeram o mesmo, cada qual em sua postura: Kazuia segurando o cabo na altura do rosto e com o braço esquerdo esticado apoiava a ponta da lâmina na própria mão, e Hidaka que segurava a espada com ambas as mãos na frente do corpo.

—Será que o Saga vai conseguir? – Afrodite indagou nervoso.

— Ele terá que conseguir. Foi para isso que ele veio, proteger a Kyoko e essa é a melhor chance que ele tem de convence-la que tem essa capacidade. Se ele perder para Hidaka será a prova de que não está nem a altura dos germes que rodeiam Hiroaki-sama.- ditou Yamoto cruzando os braços.

— Eu aposto que ela vai degolar eles. – disse Ookami.

— E eu já acho que ela vai corta-los ao meio. — Águia apostou também cruzando os braços.

— Parem de falar seus maricas, eu quero ver a luta. — Baa-san se pronunciou, sentando no chão de madeira e cruzando os braços.

E como todos já esperavam Kazuia atacou primeiro, disparando vários golpes com a katana. Kyoko desviava de alguns e outros usava a espada. O outro shinobi avançou com tudo, para cima de Saga, atacando com vários golpes. Ele desviou para trás duas vezes vendo Hidaka erguer a espada, mas antes de abaixa-la Saga girou o corpo rápido, desviando dele e o chutando pela esquerda. Hidaka voou até a muralha, urrando quando a acertou. Logo ficou de pé outra vez e avançou ainda mais furioso.

Kazuia urrava em cada investida. Kyoko era muito rápida e mortal. Ela abaixou desviando da sequência; de um lado para o outro, e saltou, girando o corpo em espiral e já caindo com a espada de encontro a dele. Um som metálico incomodou todos os presentes por conta da força do impacto das lâminas.

O cavaleiro de gêmeos derrapou de joelhos em direção a Hidaka para fugir de um golpe, mas quando preparou um soco, algo o acertou por trás. Saga berrou de dor, sentindo a pele das costas arder pela energia se dando conta finalmente que lutava sem armadura. Rolou no chão para desviar de um corte de Hidaka, mas sendo pego de novo por uma nova descarga de energia, ainda mais forte.

— Saga!!! – gritou os três cavaleiros.

De longe Kyoko segurava a espada de Kazuia com a sua. O berro de Saga e o clarão da energia chamou sua atenção e ela viu por cima dos ombros de Kazuia a covardia de Hidaka contra ele.

— Você não pode me derrotar humano. Eu vou...

E Hidaka não terminou, uma descarga elétrica fortíssima caiu bem em cima dele acertando o shinobi em cheio. Kazuia se afastou na hora exata em que percebeu o que a fúria de Kyoko faria, pulando em mortais e derrapando no fim.

Kyoko ainda aproveitou a chance para concentrar uma grande quantidade de eletricidade na mão esquerda, criando uma bola de energia ainda mais forte e acertando a barriga de Hidaka antes dele terminar de cair. O shinobi trincou os dentes, se contorcendo e caindo de joelhos diante de Saga. Kazuia irritou-se com aquilo e não esperou para dar outra chance a ela. Kyoko era muitíssimo perigosa e não podia deixar que ela contra-atacasse daquele jeito outra vez.

Com toda força deu um salto em direção a Kyoko, caindo em cima dela com sua espada em mãos. Hidaka ainda tentou se levantar, mas Saga fora mais rápido, acertando a jugular do Shinobi e o deixando no chão outra vez. Kyoko ergueu a sua mais rápido ainda, segurando o golpe de Kazuia para devolve-lo em seguida e afastando-o. Ele era o mais perigoso e por isso tinha que ser rápida.

Para Kazuia enfrentar Kyoko era um sonho. E um sonho maior ainda era vence-la e agora que ela estava sem suas duas armas principais esse tal sonho estava mais perto do que nunca de se tornar realidade. Kyoko podia ser forte, mas ele também era.

Kyoko rolou no chão para escapar de um golpe, ficando de pé em um salto e caindo com a espada na direção de Kazuia, estocando a mesma na direção da jugular dele. O shinobi sentiu um frio na espinha. O golpe por um fio não o acertou.

Mas afastado, Saga suou frio ao ver um comparsa de Kazuia se reergue e investir contra Kyoko. Nenhum deles tivera tempo de reagir. A espada do mesmo acertou a Kitsune, atravessando o corpo dela de uma vez. Todos prenderam a respiração com a cena; Kyoko piscou algumas vezes, dando um passo para trás, sua respiração presa na garganta por conta da dor.

Kazuia começou a rir, mas parou, pois, o rosto perplexo de Kyoko mudou para um diabólico. Um sorriso fez o ajudante do shinobi não entender e se aquilo não fosse ruim o suficiente Kyoko agarrou o cabo da espada atravessada em seu corpo, puxando de uma vez e a cravando no queixo dele até sair pela cabeça.

— Você é um covarde mesmo, Kazuia. Tem tanto medo assim de morrer? – a Kitsune ironizou, virando de frente para ele como se nada tivesse acontecido.

Ookami berrou eufórico. Aquilo tinha sido o máximo, mesmo que tenha quase matado todos eles ali do coração. Saga soltou o ar que havia prendido e um alivio sem igual quase o fez desmaiar.

— Ai meu coração! – sussurrou Afrodite com uma mão no peito e apoiado a Camus.

— Por essa eu non esperava. – ditou Camus erguendo uma das sobrancelhas.

Kyoko e Kazuia começara a devagar girar na arena; os olhos presos sem piscar, os passos leves e movimentos precisos. Kazuia sentia a vitória cada vez mais perto ainda mais depois daquele feito, sabia que ela não poderia fazer de novo, então só bastava acertar um único golpe e ela já era! Mas então...

Kyoko abaixou a cabeça, colocou a espada novamente na bainha, posicionando as pernas e colocando a mão direita na altura do rosto do rosto enquanto a outra se mantinha segurando a bainha.

Estava na hora...

Os cavaleiros engoliram em seco. Era a mesma postura que Kyoko usou para cortar a garganta de Yuriko no santuário.

Kazuia sorriu. Ele conhecia muito bem aquela postura, até porque, fora Hiroaki quem ensinara a ela, e consequentemente a ele também.

— Aaaaiiii eu vou ter um troço. – gemeu Afrodite escondendo o rosto no braço de Camus.

Por Athena! Kyoko...”, pensou Saga quase entrando em parafusos. O coração martelando dentro do peito quase partindo as costelas.

Yamoto sorriu de lado enquanto Águia observava sem piscar, assim como Camus, Mu e Baa-san. A tensão tomando conta de todos ao redor. Era a hora decisiva. Eles sabiam que Kyoko não estenderia aquela luta por muito tempo ainda mais tendo Saga naquele meio. Quanto mais ela demorasse, mas ele estava em risco. Admitiu ter ficado impressionada com a coragem e a força dele, mas mesmo assim não queria arriscar mais.

—Pedirei perdão a Hiroaki-sama depois. – fez uma pausa. —SHINU!(Morra!) KYOKO-SAMA!!

Ambos correram na direção um do outro em uma velocidade impossível para olhos comuns. Afrodite prendeu a respiração e Saga sentiu as pernas falharem. As espadas se encontraram ferozmente no meio de ambos ecoando um som alto de metal. No mesmo instante Kyoko e Kazuia puxaram as espadas, girando rápido e contra-atacando ao mesmo tempo.

Mas para desespero de todos, Kazuia fora mais rápido, desviando do golpe para acertar a espada de Kyoko por cima e partindo a mesma em duas.

Um sorriso de orelha a orelha se alargou no rosto de Kazuia. Ele havia vencido. Sim! Kyoko, a grande Kyoko Asano estava finalmente derrotada.

— Kyoko! – Saga sussurrou. Na posição em que ela estava nunca teria chance de defesa. Com um só movimento Kazuia poderia arrancar a cabeça dela sem qualquer dificuldade. Nenhum deles ali teria tempo suficiente para impedir o pior.

A franja farta cobria os olhos dourados da Kitsune mais poderosa do Makai. Um dos joelhos encostados no chão e o outro dobrado, as mãos ainda seguravam o cabo da espada partida com força, como se aquilo fosse o que a mantesse no lugar. Ela não disse nenhuma palavra. Não era necessário, ainda.

—Uma espada tão fraca. HAHAHAHAHA... Um Kage não é um Kage sem sua espada de verdade, e você não é mais. – vangloriou-se o Shinobi.

— E um Kage não é um Kage sem seus shinobis.

E foi nessa hora que o tempo pareceu parar. Todos prenderam a respiração, e Kazuia não soube explicar nem quando e muito menos como fora acertado. Das sombras de Kyoko, flutuando bem atrás dela, Cheshire disparou um golpe certeiro, degolando o shinobi sem dar a ele chance de revidar. O sangue esguichou do pescoço conforme a cabeça se desprendia, manchando seu rosto e uma parte dos cabelos e do ombro de Kyoko.

Os olhos azuis brilhavam intensos e o sorriso enorme faria qualquer um tremer de medo. A cabeça de Cheshire virou devagar na direção de Hidaka e este pareceu congelar de medo. Aqueles olhos...aqueles olhos...

Um suor frio escorreu de suas têmporas e o horror daquele olhar mesclado ao vermelho vivo era demais para controlar. Ele conhecia aquele olhar, ele sabia a quem pertencia aquele olhar e sabia melhor do que ninguém que não tinha a menor chance contra o dono dele.

Levantou desesperado e correu.

Kyoko ficou de pé. Os olhos frios e sem nenhum arrependimento mirou a espada quebrada e depois a cabeça de Kazuia, vendo os olhos dele ainda se remexerem e o sangue sair pela boca. Sentiu mais nojo ainda dele, e muito maior foi o que sentiu pela covardia de Hidaka. Onde será que Hiroaki encontrava aquela gente?

Afrodite, Camus, Mu e Saga ficaram de boca aberta. O golpe fora tão rápido que nem eles conseguiram ver. Aquilo era um absurdo! Quem era aquele de nome Cheshire e porque Hidaka sentiu tanto medo dele?

—Hime-sama...- Cheshire falou sorrindo.

—Ele sempre estará lá...- Yamoto disse sério.

—...o que quer que eu faça com ele? – completou o gato sorridente.

—...nas sombras dela como nenhum de nós jamais estará. – completou Yamoto.

Kyoko soltou a espada quebrada, deu as costas para enfim dar seu veredito:

— Mate-o como desejar.

Cheshire sorriu ainda mais, desaparecendo na forma de fumaça.

Kyoko passou por todos eles sem olhar. Precisava urgente de um banho e se possível desaparecer eternamente. Não conseguia parar de pensar no que fizera. Hidaka e Kazuia não eram nada perto do problema real. Do mesmo jeito que foram eles a fazer aquela baderna, Hiroaki poderia destruir tudo em um piscar de olhos. E como impediria? Nunca conseguiria! Se não fosse por Cheshire com toda certeza estaria morta agora. Não dava para lutar contra ele. Não tinha como. Hiroaki era forte demais, não podia e nem queria massacrar seu povo em uma guerra onde só ela sobreviveria por mero orgulho dele. Não era justo.

Saga não ficou para ver o que aconteceria com Hidaka, seguindo sem pensar atrás de Kyoko. Estava desesperado.

Enquanto isso, Cheshire caminhava de volta, cantarolando e sorrindo satisfeito enquanto arrastava Hidaka pelo pé direito. O shinobi berrava, se debatendo, implorando para que ele não o matasse. Afrodite, Camus e Mu nem se quer piscavam.

Cheshire abaixou, pegando um lança no chão e a enfincando no chão. Em seguida começou a flutuar, subindo até certa altura, segurando Hidaka pelo rosto até quando achou suficiente.

— NÃO POR FAVOR! NÃO ME MATE!

— Mas eu não vou matar você...– respondeu sorrindo irônico.

Tudo fora muito rápido, pois o gato soltou o shinobi, fazendo o mesmo cair de forma que fosse empalado. Afrodite cobriu a boca com uma das mãos para não vomitar, e Mu virou o rosto para não ver a lança entrar pelo anus de Hidaka. O youkai se debatia, sentindo as entranhas rasgarem pela lança enquanto Cheshire caminhava despreocupado, assobiando em direção a eles.

— A lança vai. — completou sumindo na escuridão.

♊oOoOo♊

Kyoko se jogou de qualquer jeito embaixo do chuveiro, lavando o corpo e levando embora o sangue e a sujeira da luta. Vestiu uma calça larga e uma blusa de manga longa, deixando um dos ombros nu. Quando saiu, Saga já parecia ter se banhado e a aguardava com o semblante extremamente preocupado e triste.

— Você está bem? – Saga se levantou e caminhou até ela. Kyoko reagiu como sempre.

— Estou ótima, só...preciso ficar sozinha. Por favor, deixe-me. – pediu cansada.

Saga riu triste. Estava exausto de toda aquela situação. Estava na hora de pôr um ponto final naquilo tudo: ou Kyoko o aceitaria ou o odiaria de uma vez.

—Por que? Porque você tem que ser desse jeito? Porque você...sempre se esconde atrás dessa ...máscara de indiferença e segurança mesmo quando eu sei que você está em pedaços?

Kyoko crispou o cenho. Que história era aquela? Era só o que faltava. Depois do problema que passou ainda tinha mais essa. Não queria discutir com Saga agora, aliais não queria discutir com ninguém, se possível queria só sumir. Sentia-se tão triste, tão...sozinha que não tinha nem forças para rebater qualquer acusação que ele fizesse, muito menos o fato dele ter quase quebrado o pescoço de Hidaka com um soco.

—Michê eu não estou com paciência agora então, por favor, saia do meu quarto! – ordenou mais do que pediu.

— Eu não vou sair Kyoko! – ditou firme.

— SAGA... – fez uma pausa prendendo o choro. Sua vontade era se atirar nos braços dele e pedir colo, consolo, proteção, mas não podia. Não queria envolver Saga ainda mais em seus problemas. — ...por favor, me deixa sozinha.

Kyoko deu as costas a ele, caminhando até a porta de acesso ao engawa. Encostou ali e ficou a observar a neve cair. O lago congelado e a árvore que antes era rosa, agora estava branca. Não adiantava ficar arrependida ou triste agora, sabia que teria que tomar aquela decisão e o quanto antes ela fosse feita mais chances eles teriam de sobreviver.

— Junte suas coisas, pedirei a Águia para levar você e seus amigos até o outro lado assim que a nevasca diminuir. Lá existe uma fenda segura por onde vocês podem voltar para casa. Depois do feito de hoje...tenho certeza de que o Makai inteiro sentiu o poder daquele soco.

Saga respirou fundo. Caminhou devagar em direção a ela que dessa vez não se afastou. Estava exausta demais para isso. Pensou que se talvez deixasse Saga se aproximar ele desistiria e iria embora depois de conseguir o que tanto queria.

— Olha pra mim, Kyoko. – pediu, depois de um tempo ela acatou. —Você quer realmente que eu vá? Olhe dentro dos meus olhos e diga: Você quer que eu a deixe? Que deixe você mais sozinha do que já está?

A raposa ficou em silêncio, encarando os olhos verdes compenetrados daquele homem misterioso e tão atraente. Saga tinha o poder de mexer com seus sentimentos de uma maneira que nenhum outro ser conseguira. Estava lutando horrores para não sucumbir a aqueles olhos, mas estava no fim. Seu tempo estava acabando e sua tristeza e vazio parecia crescer a cada minuto, a cada segundo. Cheshire sempre esteve ao seu lado, zelando por sua segurança, mas não era disso que carecia. Carecia de um afeto, de uma saudade que nem ela mesmo sabia explicar, mas sabia, e agora tão frágil, admitia que precisava dele. Talvez fosse isso que Baa-san e Yamoto queriam lhe mostrar, mostrar que ninguém vive sozinho, que ninguém luta sozinho e que as vezes de onde menos esperamos a ajuda vem.

Seus olhos coloridos brilharam embaçados e o cenho tremeu. Ela tentou prender o choro, mas já não tinha mais forças nem para sequer ficar de pé. Kyoko desabou em um choro forte, cobrindo o rosto com as mãos para que Saga não a visse tão fraca.

— Ah Kyoko...

E por todos os dias que esteve naquele lugar, Saga talvez nunca desejou tanto o abraço de Kyoko quanto naquela hora. Ele estava em tão péssimas condições psicológicas quanto ela e resistir em não a tocar era agora impossível. Deu um passo a mais e finalmente conseguiu. Conseguiu seu tão sonhado, tão desejado abraço. O rosto dela afundou no peito dele, agarrando a blusa do kimono com força, buscando todo o apoio e proteção que podia naquele ato. As mãos de Saga envolveram Kyoko com força, apertando ela contra seu corpo a fim de fundir os corpos de tanta saudade. As pernas dela fraquejaram junto com as de Saga, fazendo o cavaleiro de Gêmeos sentar naquele chão de madeira tendo Kyoko encolhida entre suas pernas.

Kyoko ergueu o rosto e dessa vez apoiou o queixo no ombro direito dele. O choro escorrendo pelo tecido e pelos cabelos dele, caindo pelo chão em forma de lágrimas de pérola.

— Shiiiii...eu não vou deixar você. – Saga sussurrou, encostando o queixo na testa dela enquanto se inebriava com o cheiro e a macies dos cabelos de sua amada Kitsune.

—Por favor, me diz...me diz quem é você. Porque me sinto estranha? Porque me sinto desse jeito? O que tem de errado comigo? Porque? Porque essa dor não passa? Porque me sinto tão vazia?

Saga apertou Kyoko ainda mais dentro do abraço, desejando mil vezes mais a morte de Hiroaki. Nunca em toda sua vida odiou tanto um inimigo como odiava aquele.

Esperou ela respirar um pouco. A cabeça de Kyoko repousou em seu ombro, deixando sua respiração bater no pescoço de Saga. Ele tinha um cheiro tão bom! Nunca imaginou que o abraço dele seria tão...aconchegante, tão caloroso e...seguro. Sim! Seguro! Sentia-se segura ali, sendo amparada por ele mesmo sem saber porquê.

Saga então se afastou somente um pouco, deixando ela apoiar a cabeça em seu bíceps e agora de frente para si. Os rostos tão próximos que respiravam o mesmo ar.

Ficaram assim durante alguns minutos, somente se observando até Kyoko começar a falar.

— Eu tive um sonho uma vez.

—Ah é?! E você quer me contar?

Ela meneou a cabeça positivamente para então continuar:

— Eu sonhei que...eu estava em um lugar amplo, escuro e eu estava sozinha. Eu corria sem saber bem para onde ir. Eu estava com medo. Muito medo, porque...tinha uma fera. – segurou uma mecha do cabelo de Saga. — Essa fera me atacava e eu...gritava, mas não conseguia reagir porque estava morrendo de medo. A única coisa que consegui fazer foi me encolher em um canto. A fera então veio para cima de mim e aí foi quando tudo parou. Ficou silêncio. Eu não conseguia olhar porque estava com muito medo. De repente...eu senti alguém me tocar...- Saga engoliu em seco. Não! Não era possível! Será que... — Eu abri os olhos e a fera não estava mais lá, mas tinha alguém e olhei para ele, mas eu não conseguia ver seu rosto...- Kyoko começou novamente a chorar. — Eu não via seus olhos, mas eu sabia que ele...olhava dentro dos meus. Eu não ouvia sua voz, mas entendia e sabia o que ele dizia. Ele dizia que...iria ficar tudo bem. Eu sei que não era real, porque nunca ficou tudo bem, mas...mesmo assim eu ainda lembro. Lembrou que ele...sorriu pra mim e o seu sorriso era...como uma linda manhã de primavera.

“— Adoro ver você sorrir sabia? – disse Kyoko debruçando sobre o peitoral de Saga.

— Ah é?! – indagou sorrindo mais.

— Sim! É tão lindo quanto uma manhã de primavera. ”

Saga prendeu a respiração e seus olhos encheram de lágrimas. Aquilo não era um sonho. Era uma lembrança. Ele tocou o rosto dela e sua lágrima se misturou as dela. Agradeceu aos deuses, pois ela não havia esquecido dele totalmente. Seu sorriso se alargou como no mesmo dia em que a protegeu de Jack. No mesmo dia em que a mandou embora e depois a trouxe de volta. Os olhos de Kyoko fixaram-se em seu semblante como se estivesse diante de seu maior tesouro. Saga tocou os cabelos prateados com a ponta dos dedos, descendo até os lábios dela e sem se desfazer de seu sorriso amoroso, disse:

— Vai ficar tudo bem, Kyoko. Eu vou estar sempre com você. Você não está mais sozinha, nunca mais.

A Kitsune prendeu o ar na garganta, completamente perplexa. Ainda não havia visto Saga sorrir, não daquele jeito, e sim! Ele estava ali. O homem humano que a protegeu de seu maior inimigo, a Fera, estava ali. Ele era real. Yamoto estava certo. O homem humano bom que lhe estendeu a mão em seus sonhos era tão real quanto o ar que respirava, e estava ali com seus olhos verdes refletindo sua imagem, com seu cheiro bom e sua voz doce, e seu sorriso; a única lembrança real que tinha de Saga.

Se jogou novamente nos braços dele, apertando o abraço com toda força. Saga começou a chorar, mas dessa vez de alivio. Estava quase perdendo as esperanças.

—Não posso acreditar. Era você. O tempo todo, estava aqui. Por favor, que eu não esteja sonhando agora.

Saga se afastou somente um pouco. Roçou seu nariz pelo rosto dela, sentindo a macies da pele o cheiro gostoso que ela tinha. Como sentira falta daquilo. Sorriu satisfeito como a tempos não sorria fazendo Kyoko sorrir também.

—Acha que não sou real? – segredou sem parar de olhar nos olhos dela.

— Sim...

—Então, acho que terei que lhe mostrar que não é um sonho dessa vez.

Kyoko não disse nada, muito menos se opôs. Muito pelo contrário. Agora, não havia mais motivos e nem vontade de fugir dele. Somente vontade de sentir, de mergulhar de cabeça nos lábios macios e apaixonados que tomaram os seus.

Continua...

Notas finais
Até que enfimmmmmmmmmmmmmmmm... Ahh gente, sei que ainda não é o que vocês estão esperando, mas...acho que já dá pra ter uma noção do que virá no próximo né?!! Por favor, não me matem por ter parado logo nessa parte. Bjus para todos e obrigada por me acompanharem até aqui. またね!!!! =D