Uma estranha no ninho - Vol. I
2 Uma estranha invasão.
Notas iniciais

— Dá para segurar direito?! – Shaka estava completamente irritado pela incompetência de seus companheiros.
— Droga! Estou tentando — Rosnou Aiolia.
— Porra... Como pode ser tão forte?! Que merda! Está se batendo muito. Eu mal consigo... Aaaaaiii!!! — Gemeu Kanon que havia sido chamado por Saga através do cosmo. — Filha da mãe me arranhou, essas unhas são mais afiadas que a espada do Shura.
— Deixe de ser frouxo Dragão marinho, nunca foi arranhado antes? — Ironizou Aiolia arrancando mais um palavrão de Kanon que voltou a sua posição.
— Eu não estou conseguindo suturar, está se balançando demais. Segurem com força, vocês nem parecem cavaleiros de ouro. — Ditou Shaka tentando se concentrar no que fazia. — Aproveitem e coloquem uma mordaça antes que morda alguém ou acorde o santuário inteiro por conta desses barulhos.
— Mas que barulheira é essa? Vocês fazem uma festinha e nem....- Milo que havia descido com Camus por causa dos barulhos quase deu um pulo de susto e surpresa com o que viu. — Uhhhh...Ohhh minha nossa, por Atena, mas...mas que diabos é isso?!
Curioso era o segundo nome de Milo e isso muitas vezes era motivo de problemas para si e para seus companheiros. Não que isso o tornasse um irresponsável, muito pelo contrário, mas nada em excesso era saudável, e isso Camus já tinha cansado de dizer, só que Milo parecia não entender. Seus olhos pareciam estar na ponta dos dedos e tudo o que via e despertava sua maldita curiosidade fazia questão de tocar, ver com a ponta dos dedos, e foi exatamente por conta disso que o escorpião guardaria como recordação uma das maiores dores de sua vida.
— Milo, não!
Saga nem teve tempo de terminar, pois a mordida certeira pegou em cheio a coxa direita do escorpião. Milo deu um grito tão alto que Shion, que até então dormia no quarto do grande mestre, deu um pulo da cama e levantando exaltado sem saber nem onde estava.
— Droga que merda! Milo! — Gritou gêmeos soltando um dos braços que chacoalhavam sem parar em uma reação instintiva em "acudir" Milo, arrependendo-se logo em seguida, pois a mão que havia soltado voou direto em seu pescoço segurado com força sem dar tempo para reação o arremessado contra a pia da casa de virgem.
Milo caiu sentado com Camus que tentou segurá-lo.
— Cuidado! – Shaka mais do que rapidamente abaixou se esquivando de um ataque que com toda certeza lhe daria um irmão gêmeo, assim como Aiolia que quase teve a garganta cortada pelas garras em um novo ataque.
— Está fugindo! — Gritou Saga.
Aldebaran tentou ir à trás, mas a mesa da cozinha foi arremessada na direção de Kanon o jogando com mesa e tudo em cima do taurino que teve que aparar ambos.
Mas quando o "ser" estava finalmente alcançando a porta da saída uma pancada forte em sua cabeça fez o corpo inerte despencar no chão. Todos ficaram em silêncio e perplexos com a cena, observando Afrodite com metade de um jarro na mão.
— Meu...jarro. — Sussurrou Shaka completamente chocado por seu ver seu lindo jarro de barro, vindo diretamente da Índia ser espatifado na cabeça do indivíduo.
— Por todos os deuses que algazarra é essa? – Falou o peixinho ajeitando as madeixas.
— Por que você usou um jarro idiota? – Kanon indagou irritado.
— E porque vocês não usaram o cosmo? E eu é que não ia usar minhas mãos para tocar nessa... — Jogou o resto do jarro em qualquer canto quase dando um pulinho ao se dar conta do que havia acertado. – Ohhh por todos os deuses e deusas...não posso acreditar! De onde....de onde... como vocês...- O peixinho andava de um lado para o outro, rodeando o corpo largado no chão. Os golds se entreolharam sem entender o motivo da reação de Afrodite.
Camus havia conseguido estancar o sangramento na perna de Milo, mas sem saber bem o porquê do escorpião estar parecendo... um tanto...estranho.
— Milo! Milo! Você está bem mon ami? — O escorpião sorriu letárgico, olhando de Camus para Aldebaran como se estivesse em câmera lenta.
— Hehehe...eu amo vocês. — Disse Milo com a voz enrolada. Olhando de Camus para Aldebaran e acariciando o rosto de ambos. — Eu amo taaannnto vozeisss! — Completou desmaiando em seguida.
— O que houve com ele? — Perguntou Aiolia com uma sobrancelha erguida.
— Acho que foi a mordida. Ela deve ter algum tipo de droga ou coisa do tipo. — Respondeu Shaka ajudando Saga a pôr a mesa de volta no lugar.
— Minha nossa olha isso! – Afrodite exclamou deslumbrado com o que via. Kanon ainda tentou pegar o corpo do chão, mas o outro lhe deu um tapa na mão e lançando um olhar feio. Kanon o fuzilou com os olhos gemendo um “Foda-se” e se afastando em seguida. – Ohh por Zeus como ela é linda. Eu nunca em minha vida pensei que viveria para ver uma assim tão de perto. – Pegou o corpo nos braços com todo amor e carinho. – Ahh não está ferida. – E o pôs de volta a mesa.
— E então Shaka é muito ruim? — Saga apoiou as duas mãos na mesa olhando fixamente para virgem que mantinha os olhos fixos no que fazia.
— Sim! Não vou mentir. Essas feridas estão bem profundas. — Saga franziu o cenho, mas nada disse. — Mas se isso te consola... elas não foram feitas por você.
— Não?!- Perguntou surpreso.
— Ah Shaka diz que ela não vai morrer?! – Pediu Afrodite visivelmente aflito. Saga ergueu uma das sobrancelhas e os outros se aproximaram.
— Então, essas feridas não foram feitas por mim?! – volveu admirado.
— Bom...a não ser que empunhar uma espada agora seja um hobby novo para você, Saga. — Shaka deu um leve curvar de lábios. — Esses ferimentos foram provocados por algo cortante. Uma espada talvez. Pela profundidade, ela entrou quase atravessando o corpo, os outros foram mais superficiais.
— Entendo. — Respondeu somente. Aiolia e Kanon que olhavam atentamente Shaka terminar os curativos trocaram um olhar cúmplice, mas o leão resolveu se pronunciar primeiro.
— Agora me responde uma coisa Afrodite: Você sabe o que é essa coisa? Não porque, eu já enfrentei de tudo na minha vida, mas nunca vi nada parecido.
— Mas é claro que eu sei. – Afrodite tocou os cabelos prateados com carinho como se fosse uma das rosas de seu jardim. – É uma Kitsune. Uma linda youkai Kitsune está aqui bem diante dos meus olhos.
— Kit o quê? – Perguntou Aiolia erguendo as sobrancelhas
— Está falando sério?! – Agora foi a vez de Kanon perguntar.
— E eu lá vou brincar com essas coisas?! – Retrucou peixes.
Todos voltaram a observar o corpo inerte sobre a mesa.
— E o que raios uma Kitsune estaria fazendo bem aqui no santuário? — Perguntou Aldebaran.
— É uma boa pergunta. — Respondeu Afrodite. – Que teremos que esperar ela acordar para nos responder.
— Ei, ei, ei como assim esperar que acorde?! Você está louco? — Contestou o marina. — Por que não fazemos melhor: Pegamos essa coisa, levamos de volta para o beco onde o meu querido irmãozinho encontrou e deixamos isso lá?! Quem sabe quem tentou matá-la antes não volte e termine o serviço.
— Está louco, dragão marinho? Não podemos fazer isso. – Rebateu Afrodite.
— Podemos sim. Vocês viram o que ela fez. Não podemos deixá-la tão perto de Atena assim. É perigoso demais. Não podemos correr o risco.
— Mas Atena já pode estar em perigo. — Aiolia interrompeu deixando Kanon em silêncio. – De onde saiu essa aqui pode sair muito mais. Essa foi encontrada em Rodório, mas eles podem aparecer em qualquer lugar. — Completou.
— Aiolia tem razão. É melhor mantê-la o mais perto possível de nós. Ela pode ser forte, mas jamais poderia vencer 12 cavaleiros de ouro de uma vez. — Disse Aldebaran cruzando os braços sobre o peitoral musculoso.
— Não estamos em doze, Aldebaran. Mu está em Jamiel, Shura e Máscara da Morte ainda não retornaram da Espanha. Aiolos também não está aqui. Estamos em tempos de paz e eu não estou nem um pouco a fim de confusão. Que diabos! Essa coisa tinha mesmo que vir para cá?!- Grunhiu o dragão marinho se afastando irritado.
— Independente de onde tivesse aparecido, se a segurança de pessoas inocentes e principalmente de Atena for ameaçada nós temos que intervir, é nossa obrigação mantê-la segura. — Saga fez uma pausa voltando a observa o rosto agora sereno da youkai dormir tranquilamente sobre a mesa. — Se essa Kitsune apareceu isso já é um péssimo sinal.
— Devemos avisar Shion. Ele saberá exatamente o que fazer. — Camus se aproximou mais, também observando o corpo.
Um minuto de silêncio se fez presente no meio dos dourados. Os olhos observando atentamente cada detalhe do corpo sobre a mesa.
— Até que olhando bem...ela não é tão ruim. — Todos os olhos se fixaram em Aiolia, o fazendo engoliu em seco e sentindo suas bochechas esquentarem pelo constrangimento. — Digo...não parece tão perigosa.
— Sei...- Ironizou Kanon com um sorriso malicioso.
— Acalmem-se rapazes. Nem todas as Kitsunes são más. – Disse Afrodite afastando uma mecha do cabelo prateado do rosto adormecido.
— Jura?! Non me pareceu o caso dessa. – Camus concluiu cruzando os braços.
— Ahh, por favor, cavalheiros por Atena o que vocês queriam?! Que ela acordasse em cima de uma mesa rodeada por um bando de marmanjos a segurando por cada membro de seu corpo enquanto um loiro budista tenta costurar sua barriga e ela aceitasse assim como a mais doce das criaturas?! Tenha dó. Ela nem é humana! – Falou Afrodite pegando o corpo desmaiado no colo.
— Onde pensa que vai? – Saga franziu o cenho.
— Vou levá-la comigo ora essa. Não vou deixar essa belezinha nas mãos desses malucos, selvagens que querem matá-la sem mais nem menos.
— Ou ou ou nem pensar peixinho. – Falou Aiolia indo em direção a Afrodite e tentando tomar o corpo das suas mãos. – Você não vai levá-la para o décimo segundo templo onde ela ficaria tão perto da Saori. Se ela acordar de mau humor não conseguiremos chegar a tempo.
— Nem vem com essa leão. – Afrodite tomou o corpo de volta das mãos do outro. – Eu não vou deixar ela sozinha e indefesa com um... pervertido como você ainda mais sozinhos na casa de leão. – Aiolia sentiu as bochechas esquentarem pela ofensa do outro.
— O quê? Como ousa me ofender assim? Eu não sou pervertido e jamais faria algo com alguém indefeso.
— Ah é mesmo?! – Ironizou peixe. – Então me diga, porque senti seu cosmo agitado quando olhou para as lindas e compridas pernas da nossa bela raposinha adormecida?!
Aiolia ergueu as duas sobrancelhas engolindo em seco com o descaramento do outro.
— Afrodite...
— Já chega!!! – Shaka quase berrou para que ambos se calassem. Já estava com a paciência por um fio com tudo aquilo. – Se querem brigar que seja fora de minha casa. Mas...deixem a youkai aqui e não a envolvam em suas discussões.
Afrodite e Aiolia trocaram um olhar cúmplices e o peixinho não iria perder isso por nada.
— Deixá-la aqui?- Perguntou com a voz carregada de ironia. – Tá! Tudo bem. Então me responda uma coisa Shaka de Virgem: porque esses lindos olhinhos azuis estão tão “abertos”? – Perguntou malicioso, afinal quem ali não gostava de irrita o virginiano?!
Shaka arregalou ainda mais as orbes azuladas se sentindo constrangido quando todos os olhares se voltaram para ele. Afinal, ver o discípulo de Buda com os olhos aberto não era uma coisa que se via todos os dias.
— Eu...eu precisei...abri-los para enxergar melhor a ferida. – Justificou-se tentando não parecer nervoso.
— Uhun sei...para enxergar a ferida melhor ou...por causa das lindas pernas que você não conseguiu deixar de “admirar” mais de perto, Virgem? – Ironizou novamente. Afrodite conseguia ser insuportável quando queria.
— Como ousa me ofender assim dentro de minha própria casa, Afrodite? – Shaka ficou vermelho como um pimentão tamanho o atrevimento do outro.
— Ora não vi atrevimento nenhum. Você é um homem jovem, bonito e completamente sadio, assim como todos nós aqui. Não vejo atrevimento em dizer que se sentiu atraído pela nossa visitante.
— Eu sou um ser sagrado e ela também para que você...blasfeme dessa maneira. Eu jamais me atreveria a...a sequer...tocá-la.
— Mas você tocou. – Kanon se intrometendo na conversar.
Camus rolou os olhos sem acreditar que àquela hora da madrugada enquanto poderia estar dormindo ele estava bem ali, na cozinha da casa de virgem presenciando Milo praticamente babar de tanto dormir enquanto Shaka, Afrodite, Aiolia e agora Kanon entravam em uma discussão sobre quem olhou mais para a raposa.
— Basta! Fora da minha casa Kanon e Aiolia. – Ordenou o budista apontando para a saída de seu templo.
— Eu?? Mas o que foi que eu fiz? – Reclamou Aiolia se fingindo de inocente.
— Por enquanto nada, mas antes que comece já estou o colocando para fora. E Afrodite ponha a youkai de volta na mesa e saia da minha casa.
— Está me expulsando? – Se fez de ofendido.
— Estou! Agora ponha ela de volta na mesa antes que eu faça vocês irem dar um passeio em um dos meus seis infernos.
— Hahahaha...Faça-me rir virgem! Eu vou embora sim, mas ela vai comigo. – Afrodite deu as costas para Shaka que apertou os punhos e pedindo a todos os deuses existentes para que não perdesse a paciência.
Aldebaran ria baixinho enquanto ajudava Camus com Milo.
— Afrodite você não vai sair daqui com ela! – Rosnou Shaka com o cenho tão franzido que seu tilake quase desapareceu.
— Ah não?! Eu quero ver quem é que vai me impedir.
Todos ficaram em silêncio quando o som dos passos de Saga quase fez Afrodite tremer. O mais velho lançou um olhar tão sério que peixes engoliu em seco já se imaginando vagar como um asteroide perdido pelo espaço.
— Me entregue. – Ordenou. Afrodite ainda ficou parado um tempo, olhando o rosto plácido de quem dormia sossegada em seus braços. Respirou fundo e entregando muuuuiiito a contra gosto a moça nas mãos de Saga.
— Eu ia cuidar bem dela. – Resmungou choroso.
— Eu nunca disse que não ia, mas Aiolia tem razão. Não sabemos do que ela é capaz e se caso ela acorde e você não consiga detê-la ela estará a um passo de Shion e Atena. Eu a levarei comigo. Se ela acordar de “mau humor” e conseguir passar por mim e por Kanon ainda terá todos vocês para impedir. – Saga fez uma pausa respirando fundo. – E também... eu a trouxe para cá, então eu tenho que arcar com a responsabilidade pelo menos por essa noite. Amanhã conversaremos com Shion e ele decidirá o que fazer.
— Mas Saga... – Afrodite bem que tentou...
— Sem mais Afrodite, acho que fui bem claro. – Cortou como a Excalibur de Shura os protestos o fazendo cruzar os braços como uma criança birrenta.
— Tão claro como água.
— Ótimo. Shaka desculpe o transtorno e obrigado por tudo. – Disse saindo em seguida.
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Camus saiu bufando da casa de virgem por ter que carregar Milo até Escorpião, arrependendo-se amargamente por ter saído de sua cama aconchegante para presenciar aquela baderna. Aiolia ainda saiu fazendo gozação com a cara de Afrodite por ter tremido na base para Saga e não ter conseguido levar a raposinha consigo para casa de peixes. Aldebaran, Kanon e Saga desceram de volta as suas respectivas casas enquanto conversavam amenidades.
— E então irmãozinho como faremos? – Kanon questionou dentro de um bocejo. – Quem ficará acordado primeiro vigiando essa...youkai?
— Não será necessário, o labirinto fará o serviço caso ela acorde. – Kanon deu de ombros seguindo em direção a seu quarto.
Saga caminhou até seu quarto e colocando o corpo escultural com cuidado sobre a cama. Ela soltou um resmungo que pareceu de dor e um barulhinho engraçado. Seus olhos se prenderam sem autorização no rosto pálido e sereno. Aiolia tinha razão. Até que naquele estado ela não parecia tão perigosa. Aliais a visão não era nada mal já que a maior parte do corpo ficava desnudo sendo coberto por uma pelagem acinzentada e de aparência extremamente macia somente os seios fartos e suas partes baixas. As unhas eram bem mais longas e pontiagudas do que de uma pessoa normal, mas mesmo assim não tiravam a delicadeza e beleza das mãos. A cauda grossa assemelhava-se muito com de uma raposa e parecia bem macia. Saga sentiu vontade de tocar e sentir se realmente ela era tão macia quanto parecia, mas achou melhor não arriscar. Continuou analisando a figura agora com mais atenção do que devia: viu como os cílios eram compridos e o nariz fino, a boca tão bem desenhada e avermelhada, os cabelos compridos eram quase brancos e brilhosos quanto à luz do luar, as orelhas no topo da cabeça nem pareciam ser de verdade, mas dava certo charme a ela e o cheiro da pele era algo que ele não sabia explicar, mas sabia ser uma armadilha ao qual não queria cair.
Pegou uma coberta fina e cobrindo-a para ver se assim ofuscava tamanha beleza exposta em sua cama. Saiu sem olhar para trás, soltando o ar de seus pulmões ao fechar a porta atrás de si. Era melhor dormir, estava exausto. No dia seguinte teria que estar de pé o mais cedo possível para relatar a Shion e a Atena tudo que havia ocorrido na missão e em Rodório quando a encontrou.
Após o relaxante banho, caiu na cama ao lado de Kanon e apagando quase que instantaneamente, mas sem antes deixar de lembra da sua hospede que dormia tranquilamente no quarto ao lado.
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Os gêmeos acordaram em um pulo quando o grito estridente da serva ecoou por toda a casa de gêmeos. Kanon praticamente caiu da cama ao soar da frase: Tem um monstro na minha cozinha. Saga saiu cambaleando, tropeçando nas próprias pernas e trombando com o outro na porta já que ambos queriam passar ao mesmo tempo.
— Você disse que ia prendê-la no labirinto. – Kanon disse entre os dentes conseguindo passar primeiro e saindo correndo pelo corredor.
— Mas foi o que fiz. – Devolveu Saga correndo a toda velocidade atrás do irmão.
Julieta, a serva mais antiga da casa de gêmeos, veio correndo como uma louca em direção aos gêmeos e foi amparada por Kanon.
— O que foi? Você está bem? Está ferida? – A serva tentou responder, mas o pânico era visível em sua face. A senhora de meia idade, cabelos grisalhos e de estatura baixa gaguejava sem conseguir dizer nada, suando em bicas e tremendo mais do que vara verde.
— Tem...tem...tem um...tem um... MONSTRO NA MINHA COZINHA! – Berrou a mulher finalmente enquanto apontava com um pano de prato em direção ao cômodo.
Saga franziu o cenho, caminhando como um felino até a entrada da cozinha. Encostou na parede da direita enquanto ouvia o som de vidro se quebrando. Kanon tomou a mesma postura do irmão do outro lado. O maior fez um sinal para o menor e bem devagar os dois surgiram na porta de entrada ficando sem reação.
O cômodo estava uma baderna. Copos e vários pacotes de biscoitos, arroz, feijão e açúcar espalhados pelo chão de ardósia. Um vidro de picles estourado no chão misturava-se a farinha em uma nojeira só. A fruteira revirada, frutas mordidas e largadas pela metade e algumas até esmagadas davam um aspecto nada agradável a mesa do lugar e bem ali atrás dela e de frente a geladeira aberta a kitsune estava de pé e de costas para os gêmeos. Kanon ficou de boca aberta vendo a youkai virar quase de uma vez um galão de suco de uva na boca diretamente do gargalo.
—Pelas bolas de Zeus! – Sussurrou o mais novo.
A raposa ao terminar soltou um belo arroto largando o galão de vidro no chão que se espatifou de uma só vez. Saga e Kanon sentiram um frio na barriga quando o ar estranho e pesado os pegou de surpresa.
— Mas que porra de sensação estranha é essa?
— Foi a mesma sensação que senti quando a encontrei pela primeira vez.
A Kitsune lançou um olhar sinistro por cima dos ombros. Suas garras saltaram ainda mais quando o cheio dos homens invadiu suas narinas super sensíveis. Os olhos dourados brilharam florescentes, a pupila se afinou como de um gato e os caninos pontiagudos ficaram completamente visíveis ao passo que a boca se entortou emitindo um rosnado. A youkai se virou finalmente para os gêmeos revelando sua face completamente transformada da noite anterior. As veias saltadas desciam das pálpebras inferiores até a altura das bochechas, a gengiva rosada e os caninos enormes ficaram a mostra em uma careta monstruosa que Saga sentiu-se arrepiar por inteiro. As orelhas antes fofinhas haviam se modificado para um estado total de alerta fazendo com que se assemelhassem a chifres, assim como a cauda chacoalhando como de uma cascavel.
— Saga...você está vendo o que estou vendo? – Kanon balbuciou. Saga somente acenou positivamente com a cabeça.
E de repente a kitsune estufou o peito, aprumando o corpo, dando um berro grotesco, tão alto que as janelas, copos e lâmpadas da casa de gêmeos explodiram como purpurina.
Saga e Kanon sentiram o cérebro vibrar dentro do crânio. Ambos taparam os ouvidos com as mãos na tentativa inútil para se proteger daquele som agoniante.
— Ahhh...que droga!!! — Kanon tentou resistir, mas acabou caindo de joelhos, sentindo seu corpo vibrar e a cabeça parecer prestes a explodir. A última vez que havia sentido aquilo foi quando ouviu a canção de Sorento.
O som durou quase cinco segundo, mas para os gêmeos pareceu ter durado horas. Um novo rosnado atraiu a atenção de Saga e seus olhos miraram direto os olhos animalescos. Era quase impossível acreditar no que estava a sua frente. Na noite anterior a havia achado a coisa mais encantadora que já havia visto na vida. Como ela podia ter mudado tanto?
Kanon aproveitando o segundo de distração elevou seu cosmo e posicionando as mãos na altura da cabeça prestes a usar um de seus ataques mais poderoso.
— Não Kanon! — Saga segurou o irmão. A kitsune aproveitou a distração dos irmãos pulando pelas paredes e escapando por cima de suas cabeças de forma bizarra.
— Seu filho da puta, olha o que você fez ela vai fugir. — Kanon saiu correndo como um louco e Saga fez o mesmo, mas antes ordenando ao irmão que só atacasse caso ela também o fizesse.
— Ela não tem como fugir. Ficará presa no labirinto de Gêmeos. – afirmou Saga passando na frente do irmão.
Mas de repente a energia pesada simplesmente desapareceu. Saga e Kanon paralisaram totalmente atentos no grande salão da casa, olhando tudo ao redor, mas sem ver nenhum sinal da youkai.
— Não acha melhor vestirmos as armaduras? – cochichou.
— Não! Isso pode assustá-la ainda mais. – Saga não sabia explicar, mas no fundo mesmo depois do que tinha acabado de presenciar ainda assim sentia sua curiosidade sussurrar no íntimo. Queria saber e entender como e porque ela havia ido parar no santuário.
— Assustá-la? Está de brincadeira, Saga? Aquela coisa passou por nós trepando nas paredes como um...monstro estranho e você diz que nós iremos assustá-la?
— Ela não nos atacou. Só está fugindo de nós.
— Grss...saco! Por que eu ainda escuto você? – Resmungou o mais novo olhando tudo em volta com total atenção.
O silêncio se fez presente por longos cinco minutos no grande salão do terceiro templo sendo quebrado somente pelo grito de uma mulher atraindo a atenção total dos gêmeos, mas o estranho era que...
— Esse grito veio...lá...de...trás?! – Perguntou Kanon com cara de bobo.
Saga não pode acreditar naquilo. Era impossível que ela tivesse conseguido atravessar o labirinto sem que ele não tivesse percebido. Ela não podia ser tão poderosa assim, podia?!
Disparou em direção à saída da casa de Gêmeos e em direção a Câncer. De longe avistou a raposinha sentada na saída de sua casa enquanto mastigava alguma coisa que ele não conseguiu identificar. A raposa farejou o cheiro dos gêmeos no ar e sem esperar iniciou uma corrida frenética em direção à casa de Câncer. Saga e Kanon sentiram o coração na garganta, pois Máscara da Morte ainda não havia retornado o que consequentemente deixava a casa sem um protetor e isso faria com que a youkai tivesse acesso direito a casa de leão. Ele precisava avisar a Aiolia e rápido.
— Como essa coisa pode ser tão veloz? Ela está dentro das doze casas. Isso é impossível!!. – Berrou Kanon correndo com toda velocidade permitida pela escadaria da casa de Câncer.
— Ela não é humana, Kanon. – O mais velho respondeu de forma tensa para logo em seguida praticamente berrar por Aiolia através do cosmo.
O leonino saiu como um louco correndo ao mesmo tempo em que a armadura cobria seu corpo forte. Aiolia estufou o peito de forma ameaçadora ao avistar a invasora subir em uma velocidade tão grande que o leão mal conseguiu acreditar. Ela não usava uma armadura, como podia correr naquela velocidade?! Fechou os punhos e seus cabelos começaram a se movimentar pela força do cosmo emanado de seu corpo. Ignorou completamente os apelos de Saga, que pedia para o leão não atacar, e gritando a plenos pulmões assim que os pés da kitsune tocaram a entrada da casa de Leão:
— Relâmpago de Plasma!
A kitsune sorriu de lado, se atirando na direção dos relâmpagos que pareciam cortar o ar. Esticou o corpo e em uma velocidade e habilidade impressionante passou por entre uma das brechas dos raios de Aiolia. Um ainda acertou de raspão em sua coxa direita e outro em seu braço, mais um acertou uma mecha de seus cabelos cortando-o como uma lâmina super afiada. Aiolia mal conseguiu processar aquela informação, ficando sem reação ao ver o punho fechado vindo em direção de seu rosto. Ela era mais rápida do que podia imaginar. Não daria tempo de desviar e o soco acertaria em cheio seu nariz, mas para sua surpresa, quando o punho por centímetro iria lhe acertar a mão da mesma se abriu, espalmando em sua cabeça e o forçando para baixo, pegando impulso e saltando por cima do leonino. Com a pressão do empurrão, Aiolia deu dois passos para frente usando de toda sua força para não se desequilibrar. Já a raposa nem sequer olhou para trás, continuando em sua corrida na mesma velocidade que entrou deixando o leonino com cara de tacho.
— Eu disse para não atacar!! – Grunhiu o mais velho ao passar por Aiolia.
Kanon passou logo em seguida, gargalhando da cara de idiota do leonino que parecia não acreditar que sua cabeça havia sido usada como apoio daquela maneira. Rosnou irritadíssimo saindo correndo atrás da Kitsune junto com os gêmeos.
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Shaka estava de ponta a cabeça em mais uma de suas posições de Yoga: O tronco completamente ereto enquanto o rosto continuava virado para frente e apoiando todo o peso do copo em seus antebraços. A kitsune ao avistar o indiano diminuiu a velocidade e curiosa observou a posição um tanto...estranha que o budista se encontrava. Ela tombou a cabeça para um dos lados sem entender bem para o que ele estava fazendo aquilo. Soltou o ar fortemente pelas narinas balançando a franja loira do homem, dando de ombro e continuando seu caminho. Shaka não fez nenhum movimento sequer, permitindo sem o menor peso na consciência que a youkai passasse para a próxima casa.
Aiolia quase teve um ataque de nervos ao descobriu que o virginiano não havia mexido um músculo para impedir o avanço daquela miserável, esbravejando e xingando Shaka que somente o ignorava. Saga e Kanon continuaram a corrida para libra pedindo a todos os deuses que Dohko estivesse em casa.
♊oOoOo ♊
O pequeno tigre estava sentado em um tatame, de frente a uma pequena mesa onde arroz, alguns bolinhos e uma xícara de chá fumegante o aguardavam para seu desjejum. O libriano lambeu os beiços por conta do apetite pegando a xícara devagar. Fez um pequeno biquinho para assoprar o chá e prová-lo e foi justamente nessa hora que o tempo pareceu em slow motion. O libriano somente acompanhou os movimentos com os olhos esbulhados enquanto mantinha o biquinho preso na xícara de chá sem acreditar que uma raposa youkai passava correndo por seu templo daquela maneira e ainda lhe mostrando a língua de forma cômica. A kitsune em menos de um milésimo de segundo desapareceu de suas vistas deixando Dohko sem saber se realmente a tinha visto ou se ela era algum fruto de sua imaginação. Olhou para o chá dentro da xícara e depois olhou para a entrada de sua cozinha onde uma das servas lavava a louça. Coçou a nuca:
“O que será que ela pôs no meu chá?”, pensou voltando a fitar a xícara.
♊oOoOo ♊
A raposa atravessou o templo de escorpião com a maior facilidade já que Milo ainda estava completamente apagado desde a noite anterior, passando pelas respectivas casas até chegar em Aquário. Saga, Kanon, Aiolia e agora Dohko que por sinal estava bem chateado ao saber que uma Kitsune havia pisado em seu templo e nem parou para tomar um chá.
— Poxa ela poderia ter parado para dizer um oi. – Resmungou o pequeno tigre.
— Não acredito que disse isso mestre ancião, uma sei lá o que está passando pela doze casas como se fosse a coisa mais fácil da terra e você ainda está chateado porque ela não parou para tomar um chá com você?! Ela pode matar Atena se continuar nesse ritmo. – Vociferou Aiolia.
— Acalme-se Aiolia, nem todas as raposas youkais são más. – Respondeu
— Ahh eu nem vou mais entrar nesse assunto.
E continuaram a subida.
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Camus havia baixado a temperatura de seu templo o máximo que pôde. A pose ganhava ainda mais imponência graças à lindíssima armadura de Aquário brilhando junto com seu cosmo. A raposa tremeu até o último fio de cabelo quando seus pés descalços tocaram o chão gélido da casa de aquário.
— Eu non quero machucar você então, sugiro que dê meia volta e saia da minha casa. – Ordenou Camus.
Mas a kitsune não se abalou expondo completamente suas garras de forma ameaçadora. Seus caninos pontiagudos e a gengiva rosada ficaram a mostra na mesma careta de antes. Camus posicionou-se em defesa já imaginando o que estava por vir e antes mesmo de seus olhos terminarem de piscar o punho da raposa estava a centímetros de seu rosto. O aquariano elevou as mãos defendendo um soco tão potente que o arrastou por uns três metros. Ele segurou em seu pulso na mesma velocidade começando a abaixar a temperatura para congelá-la. A raposa olhou dentro dos olhos azuis de Camus e contra-atacou, soltando um berro diretamente no rosto dele que automaticamente soltou o braço que segurava e levando as mãos aos ouvidos de forma instintiva. O som era estrondoso e parecia querer explodir seu cérebro. Ela havia feito a mesma coisa com os gêmeos a certa distância e havia sido insuportável, mas com Camus a coisa foi bem pior. O berro fora dado praticamente em seu ouvido fazendo o cavaleiro quase desmaiar por conta do barulho. Os vidros estouraram e as estalactites que enfeitavam o teto do salão da casa de Aquário explodiram em neve e fumaça. Os servos e servas que eram mais frágeis não aguentaram e caíram desmaiados no chão. E quando o som cessou e Camus conseguiu voltar a si ela já não estava mais lá. Olhou em volta sentindo um zumbido horrível, a visão turva e uma dor de cabeça lacerante até avistá-la parada na saída de seu templo.
De início ficou sem entender aquela atitude. Havia baixado a guarda e ela com certeza o teria matado se quisesse, mas então...porque não o fez? Pensou por alguns segundos e refletindo nas palavras de Afrodite na noite anterior: “Nem todas as Kitsunes são más.” Ficou parado por um tempo somente observando, agora curioso, a raposa branca sumir de suas vistas.
♊oOoOo ♊
Quando o grupo finalmente chegou à casa de peixes o grito de Afrodite chamou a atenção de todos. Os cavaleiros correram em direção a ele e o encontrando caído e todo descabelado no meio de seu jardim particular de rosas.
— Afrodite você está bem? – Perguntou Saga ajudando o amigo a se levantar.
— Sim...Estou! Ela não me machucou. Só me deu um belo de um empurrão. – Colocou a mão no ombro esquerdo fazendo um movimento giratório com o mesmo.
Dohko farejou um cheio familiar no ar, assim como Kanon e Aiolia. Os três se entreolharam cúmplices.
— Isso é cheiro de fumaça? – Perguntou o pequeno tigre.
— Ah não! – Choramingou Afrodite correndo em direção a escadaria que levava a sala do grande mestre.
— Minhas rosas! – Sussurrou mais do que propriamente disse observando, incrédulo uma chama azul devorar todas as rosas.
Saga saiu correndo na frente, sentindo o peito apertar só de imaginar a raposa chegando perto de Atena. Jamais se perdoaria se ela fizesse algum mal a Shion e a Saori. Havia sido ele a trazer a youkai para as doze casas e era sua responsabilidade detê-la, mas falhou. Falhou miseravelmente graças a sua curiosidade. Todos reclamavam de Milo, inclusive ele, mas o pior de todos fora a si mesmo; por ter impedido seu irmão de atacar quando teve a chance, por em vez de acabar logo com a raposa quando também teve a chance não o fez e ainda colocou a vida de seus companheiros em perigo e agora Shion e Atena podiam ser mortos.
Os espelhos que enfeitavam o corredor extenso que dava acesso a Sala do Grande Mestre estavam completamente destruídos. Algumas cortinas ainda eram consumidas pelo mesmo fogo azul que acabou com as rosas do jardim de Afrodite. Os guardas e Jamian de corvo estavam completamente desnorteados enquanto tentavam ficar de pé novamente. Saga olhou abismado aquela bagunça, procurando com os olhos aquela maldita Kitsune. Se arrependimento matasse ele com toda certeza já estaria morto e enterrado.
Ahhhh quando pusesse as mãos nela torceria seu pescoço e a mandaria vagar em outra dimensão para que nunca mais voltasse.
Mais ao fundo a porta do salão do grande mestre rangeu chamando sua atenção. O geminiano sentiu o coração falhar uma batida tamanho foi o seu desespero. Correu o mais rápido que pode na tentativa de alcançar a porta, mas o sorriso sinistro e os olhos dourados foram a última coisa que conseguiu ver antes da porta se fechar diante de seus olhos.
Continua...
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