Uma estranha no ninho - Vol. I
3 Uma estranha sensação.
Notas iniciais

Saga foi o primeiro a surgir do outro lado da porta graças ao buraco dimensional aberto pela Outra Dimensão com toda sua imponência trajando sua armadura de Gêmeos. Kanon, o Dragão Marinho, veio logo atrás seguido de Camus, Aiolia, Dohko. Este achava completamente desnecessário usar sua armadura no momento já que não via perigo na situação, assim como Afrodite.
Todos os olhos escanearam o Salão do Grande mestre o que foi uma surpresa ele continuar completamente intacto. Aiolia caminhou mais na frente observando como um felino tudo ao seu redor. A energia pesada misteriosamente havia desaparecido o que deixava os dourados ainda mais preocupados.
— Fiquem atentos. – Ordenou Saga ainda observando todo o ambiente.
Kanon se aproximou de Aiolia que mantinha o semblante fechado de preocupação e irritação. Seu ego ainda gritava pelo orgulho ferido, assim como Camus que ouvia um zumbido horrível lhe incomodar os ouvidos.
“Acho que ouvirei esse maldito som por um ano inteiro”, pensou.
— Gente vocês não acham que estamos nos precipitando? – Sussurrou Afrodite.
— Eu disse que devíamos ter colocado essa coisa onde você achou, Saga. – Kanon também sussurrou.
— Agora não adianta chorar o leite derramado, Kanon. Temos que encontrá-la e dar um jeito nisso tudo. – Respondeu no mesmo tom.
— Ahhh agora você quer dar um jeito? Você poderia pelo menos dizer: “Ohhh querido irmão, porque eu não lhe dei ouvido antes? ” – Ironizou o mais novo sem alterar o volume da voz. Saga rolou os olhou em resposta e ignorando seu gêmeo logo em seguida.
— Eu sabia! Você nunca assume que estou certo. Você poderia me dar razão às vezes sabia maninho? – Continuou o mais novo.
Saga aproximou-se do irmão já quase perdendo a paciência. Se já não bastasse sua consciência quase o enterrando no chão por conta de tanto martelar em sua cabeça, ainda tinha que ouvir as reclamações e acusações Kanon lhe jogando na cara o erro que havia cometido como se ele fosse o mais santo dos homens.
— Por que você não cala a droga da sua boca e faz algo de útil em vez de perder seu tempo me acusando de algo errado que eu tenha feito?! – Grunhiu.
Dohko ergueu as sobrancelhas, ouvindo no fundo algo que lhe despertou a atenção.
— Shiiii calados! – Ordenou fazendo um gesto para que todos ficassem em silêncio. – Estão ouvindo?
— É...a...voz do Shion. – respondeu Afrodite totalmente concentrado em sua audição, assim como o restante.
— Está vindo da...cozinha! – Aiolia.
Mas o som de metal batendo fortemente contra o chão fez o sangue dos cavaleiros gelar nas veias.
— Shion!!! – Todos gritaram ao mesmo tempo e correram na direção do som. Passaram por um extenso corredor cruzando com uma serva que saía de um dos quartos enquanto carregava uma pilha de roupa suja. A moça olhou assustada para aquele bando de cavaleiros de ouro correndo daquela maneira, mas nada disse.
— Ahhh droga se ela tocar em um fio dos cabelos de Shion eu juro por Zeus que eu mesmo mato você, Saga! – Kanon berrou a plenos pulmões e em seguida olhando sério para Afrodite: — E você também! – Completou.
Saga correu na frente ouvindo a voz de Shion aumentar gradativamente. Seu coração parecia querer saltar do peito de tanta aflição em pensar que o papa ou Atena podiam estar correndo risco de vida. Disparou ainda mais como um louco e sem pensar abriu as portas de uma só vez, enquanto Kanon, Aiolia, Camus, Afrodite e Dohko tropeçavam uns nos outros por conta do desespero, mas a cena que viram deixou todos eles de queixo no chão.
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Os relâmpagos explodiam com insistência no céu constantemente nublado. Ali não havia sol, não havia lua, nem noite e nem dia. O tom avermelhado e a neblina davam um ar ainda mais sinistro aquele lugar. O cheiro de sangue e morte era a essência que exalava das entranhas do Makai. Os gritos de dor, agonia e desespero era a canção que embalava o lar doce lar dos Inugamis.
O Tengu tremia de medo e dor no chão frio de pedra. As feridas recém-abertas formavam uma poça de sangue no chão do palácio. Os cortes deixavam a carne, músculos e até alguns ossos a mostra. A criatura mal conseguia falar e estava praticamente a beira da morte. Com muito esforço levantou um pouco o rosto horrível, com um nariz enorme e sangrento e com o corpo pequeno e deformado, olhando fixamente para os olhos enigmáticos do Youkai que observava tudo de seu trono sem a menor dor na consciência.
— Eu...eu não a encontrei ainda...senhor. Ela...ela é muito esperta, ágil e...forte. O senhor a conhece, sabe...sabe melhor do que ninguém como é difícil se aproximar ...dela. – Gemeu o youkai cuspindo um pouco de seu sangue escuro. – Eu...eu...me de mais uma chance e eu ...irei encontrá-la. Eu juro! – Completou com sofreguidão.
O Inugami se levantou caminhando calmamente até o Tengu o fazendo tremer ainda mais quando a sombra do corpo imponente cobriu o seu. Os olhos que possuíam um brilho verde florescente olharam direto dentro dos seus com uma seriedade sem igual. Em seguida voltaram para os olhos amarelos da figura sinistra responsável pela tortura o fazendo entendeu imediatamente o recado. O inugami deu as costas, voltando a caminhar para seu trono. O grito veio em seguida explodindo pelo castelo e fazendo os outros youkais tremerem de medo. O sangue se espalhou ainda mais pelo chão e a cabeça do Tengu rolou até os pés do mandante.
O shirohebi sorriu de lado com a visão do sangue que esguichava do corpo decapitado. Os olhos amarelos voltaram a se fixar no outro que bebericou de seu vinho calmamente e finalmente deixando sua voz calma, rouca e baixa ser contemplada pelo outro:
— Você tem uma semana.
— Sim senhor! – Respondeu sumindo na escuridão.
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Kanon mal podia acreditar no que seus olhos estavam vendo, sentindo uma de suas sobrancelhas trepidarem pelo nervosismo extremo. Aiolia piscou algumas vezes por não acreditar no que também presenciava. Camus como era de costume manteve o rosto sério, mas ao mesmo tempo perplexo com a figura de Shion sentado a uma extensa mesa com seu rosto apoiado tranquilamente em uma das mãos enquanto observava encantado a raposa devorar vários pães, frutas, bolos, doces e sucos espalhados pela farta mesa de café da manhã. Dohko deu um sorriso, pois para ele aquela atitude pacífica de Shion não era nenhuma novidade. Já Afrodite só faltou flutuar de tanta admiração.
Saga deu dois passos em direção a mesa, olhando de forma perplexa sem saber como agir. Aquilo só podia ser uma brincadeira de mau gosto, não tinha outra explicação.
Há alguns minutos atrás a youkai refletia a aparência medonha de um demônio, fazendo até ele que um dia já foi o Grande Mestre daquele santuário se arrepiar por inteiro e agora ela estava bem ali diante de seus olhos, sentada em frente a uma belíssima mesa de café da manhã devorando tudo com a feição mais meiga da terra?! Como ela podia mudar de um estado medonho para um tão...tão...fofo assim de uma hora para outra?! Os olhos puxados e fechados pareciam dois riscos ainda mais pelo delineado negro natural que eles possuíam, enquanto um leve sorriso estampava seu rosto. As bochechas rosadas e levemente estufadas se movimentavam em cada mordida. A cauda havia voltado a aparência felpuda e “fofinha”, balançando de um lado para outro de forma calma ao saborear uma fatia enorme de bolo de laranja. E o pior: ela estava tão concentrada e satisfeita com a fartura da mesa que não se importou nem um pouco com a invasão dele e dos outros os ignorando completamente. E ainda tinha um agravante maior: Shion estava sentado à mesa tomando café da manhã com ela como se fosse a coisa mais natural do mundo? Mas que diabos estava acontecendo ali?!
— Shi...Shion?! Mas...o quê?! – Saga mal sabia o que dizer, pois seu cérebro parecia não querer absorver aquelas informações.
— Ah... vocês chegaram! Desculpem-me nem havia percebido. –O grande mestre sorriu lindamente. – Venham, podem se sentar. Eu pedi as servas que preparassem um café da manhã bem caprichado, pois eu sabia que vocês viriam e que com certeza estariam com fome.
Afrodite sorriu para Kanon, sentindo-se vitorioso, assim como Dohko que balançou a cabeça e caminhou com o peixinho até a mesa. Camus trocou um olhar com seus companheiros e se juntou aos outros em seguida. Aiolia bufou, mas acabou aceitando também, afinal não era todo dia que se tomava um café da manhã tão farto como aquele. Não que faltasse algo em sua casa, mas com certeza na mesa do grande mestre as coisas eram bem mais saborosas. Saga se aproximou mais, mas ainda mantendo cautela enquanto observava a raposa comer e comer. Deu mais um passo e foi nessa hora que os olhos dela se abriram relevando algo curioso.
“Heterocromia?!”, pensou surpreendido.
A íris direita azul e a esquerda âmbar fixaram-se diretamente nos olhos verdes do cavaleiro que, sem saber explicar sentiu um frio revirar seu estômago e arrepiar sua nuca, descendo por sua espinha e arrepiando seus poucos pelos do corpo. Os olhos dela se prenderam nos seus por uma fração de segundos, mas que para ele foi suficientes para mergulhar naquela mistura de mar com mel tão misterioso. Saga sentiu como se sua alma fosse tragada para dentro daqueles olhos e em um simples piscar de olhos o mar de mel tornou-se um mar de sangue onde pessoas mortas boiavam espalhadas, estacas com corpos humanos que ainda agonizavam e coisas que ele não soube identificar estavam devorando os pedaços dos corpos que ainda sobravam. Saga olhou para as próprias mãos e vendo sangue nelas. Espantou-se sem saber se o que via era real ou uma ilusão. Sua respiração acelerou-se ao observar seu reflexo no mar de sangue e corpos.
— Saga! Saga! – A voz de Kanon e o puxão em seu ombro pareceu despertar Saga de um sonho, observando que tudo estava conforme deveria ser. Olhou para o rosto preocupado de seu gêmeo e voltou para a Kitsune. Esta desviou o olhar voltando a comer tranquilamente.
— Está tudo bem, Saga? – Perguntou Camus com o cenho franzido de preocupação.
Saga olhou para o rosto de Camus e em seguida observou as comidas espalhadas pela grande mesa.
— Estou, foi só...uma tonteira acho que...estou muito tempo sem comer. – Mentiu.
— Então é melhor sentar e comer logo. Atena já deve estar chegando e não vai gostar de saber que seus cavaleiros têm andado quase desmaiando por aí por não estarem se alimentando direito. – Shion falou apontando para a cadeira.
— O quê? Atena? Ela está vindo para cá? – Indagou o leonino.
— Sim, está!
— Não! Ela não pode vir para cá. – Kanon que havia acabado de sentar de frente a Shion sentiu-se indignado com aquela informação. – É perigoso para ela estar aqui. Essa....essa coisa quase estourou meus tímpanos e o de Saga, se ela resolver berrar aqui deixará Atena surda.
— Acalme-se Kanon! Está falando como se não fossemos nada. – Vociferou Aiolia.
— Me acalmar? Essa coisa... – Apontou para a raposa que continuava a comer. – Passou pelas doze casas como se fosse a coisa mais fácil do mundo e você vem-me dizer que tenho que ficar calmo? Ela nem é humana! É um monstro sinistro e bizarro disfarçado de cachorro!
A raposa abriu os olhos novamente retirando o pedaço do bolo que comia da boca e em uma velocidade espantosa sacou uma das facas que estavam em cima da mesa e a enfincou com força na direção da mão de Kanon sobre a mesa. Todos prenderam a respiração ao mesmo tempo e Kanon só não gritou porque percebeu que a faca havia sido enfincada entre seu dedo médio e o anelar e não em sua mão.
— Por Atena isso foi incrível!!! – Afrodite bateu palmas empolgadíssimo com a cena que havia acabado de presenciar. – Se Milo estivesse aqui teria dado milhões de mortalzinhos em total empolgação. Isso foi demais, sua pontaria é incrível e a precisão dispensa maiores comentários.
A kitsune segurou a faca com força e olhando séria para Afrodite:
— Do que está falando... – Arrancou-a. – Eu errei. – Colocando-a de volta no lugar.
Kanon fuzilou Afrodite com o olhar e em seguida a kitsune. Ela devolveu na mesma intensidade, limpando a boca com um guardanapo e levando o dedo em riste para o dragão marinho.
— Se me chamar de cão outra vez arrancarei sua língua com os dentes.
— E ela sabe falar nossa língua! – Afrodite empolgou-se ainda mais e deixando Kanon ainda mais furioso.
— Sua desgraçada! – Ele se levantou da cadeira derrubando-a. – Você está precisando de boas maneiras sua...
— Kanon já chega! – Shion interrompeu. – Sente-se e eu vou explicar tudo a vocês.
O marina engoliu a raiva a seco, sentindo o sangue ferver de ódio e o orgulho ainda mais ferido. Ahhh aquilo ia ter volta! Só se ele não fosse o homem que enganou até os deuses para deixar uma coisa dessas passar assim.
— Não precisam se sentir mal por ela ter passado por vocês daquela maneira. – Shion bebericou seu chá e levou um biscoito a boca. A raposa ficou observando o lemuriano e imitou seu gesto graciosamente o fazendo sorrir.
— Ela é linda não é?! – Sussurrou peixes para libra e aquário.
— Sim! Eu sempre soube da existência delas, mas nunca pensei que veria uma assim tão de perto. –Dohko também sussurrou. Camus nada disse.
— Nos dê um bom motivo para isso grande mestre? – Aiolia pegou um biscoito.
— Foi eu quem a trouxe até aqui.
— Mas Shion podia ter sido perigoso. Eu... – Saga respirou fundo. – Eu a encontrei nessa madrugada em Rodório e nós... quer dizer, eu acabei a atacando achando que poderia ser um inimigo. – Fez uma pausa. – Não que ela não seja, mas...
— Saga não precisa se preocupar. Pelo menos não com ela. Ela não é perigosa...- Fez uma pausa olhando sério para Kanon. – ...claro, desde que não seja provocada.
— Viu? Eu disse! – Vangloriou-se Afrodite.
— Graças ao grito de Milo que praticamente me jogou para fora da cama eu acordei assustado e sem entender muito bem onde estava e o que estava havendo. Fixei minha mente pelas doze casas e vi você Saga saindo com ela nos braços da casa de virgem. De início fiquei realmente muito...chocado com aquela informação e também preocupado e por isso eu passei a monitorá-la até que ela acordasse. Eu me comuniquei com ela telepaticamente, convidando-a para um desjejum como forma de pedir desculpas por você tê-la atacado e também como uma forma de mostrar que não somos inimigos. – Fez uma pausa voltando a bebericar de seu chá e lançando mais um olhar para a raposa que ainda beliscava algumas coisas sobre a mesa. – Eu a instruir para que não entrasse em combate com você e Kanon, e a guiei pelo labirinto de gêmeos...
“Ele está aqui. ”
“Não ataque! Saga é um dos homens mais poderosos do santuário, mas também um homem bom e não fará nada se você também não fizer. Kanon é mais explosivo, mas também é muito poderoso. Juntos são praticamente invencíveis. Não tente enfrentá-los, será muito perigoso. ”
“Porcaria! O que eu faço então? ”
“Fuja! Eu guiarei você.”
“Mas aqui não há porta! Não tem saída estou presa.”
“É só uma ilusão, continue em frente.”
Ajudei-a escapar dos raios de Aiolia ao qual eu tinha certeza que iria atacar.
Aiolia emburrou a cara e apoiou o rosto na mão como um menino birrento. Ele era tão previsível assim?! Poxa, só estava fazendo sua obrigação em proteger a casa de leão e nada mais.
— Shaka já havia sentido minha presença sobre ela e por isso não se opôs em deixá-la passar por virgem.
— Então Shaka como sempre já estava ciente de tudo?! Ele é um saco mesmo. – Afrodite jogou a colher de seu chá sobre a mesa e imitando o gesto de Aiolia.
— Sim...ele já estava ciente. Sobre Dohko eu nem vou comentar. – Disse Shion com os olhos semicerrados e fazendo o amigo soltar uma altar gargalhada.
— Eu a teria convidado para um chá se caso ela tivesse parado. – Gargalhou mais alto. – Não é todo dia que se recebe a visita de uma raposa do Makai.
— Enfim...Milo ainda está dormindo por conta da mordida e não irá despertar enquanto ela não quiser. É...e Camus...me desculpe! – Pediu o grande mestre deixando aquário sem entender, assim como seus colegas. – Foi eu quem disse para ela..."berrar" em seu ouvido daquela maneira. — Frisou.
— Non poderia ter sido algo mais...sutil?
— Eu não queria que vocês entrassem em um confronto e se isso te consola...ela sentiu um certo “medo” de você. Medo de você transformá-la em uma estátua de gelo...
“Não! Não ataque, Camus é um homem sensato e um estrategista sem igual. Só te atacará se você também o fizer.”
“Mas ele vai me congelar se continuar. Ele vai me congelar.”
“Não! Camus não a matará, só tentará pará-la como Saga fez.”
“O quê? Está louco? Se ele tentar me parar como aquele cara vou me tornar uma estátua de gelo. Não, eu não quero pagar para ver.”
“Grite! Quando ele se distrair, corra sem olhar para trás. ”
— Bom e Afrodite era óbvio que não faria nada para machucá-la já que ele foi um dos que tentou protegê-la.
"– Ohhh por Athena! Como você chegou até aqui? – Questionou Afrodite olhando para os lados como se procurasse algo, mas ao mesmo tempo se sentindo muito feliz por ela ter ido lhe fazer uma visita. Agora que ela estava ali a raposinha seria só sua.
A kitsune correu na direção de peixes que tentou segurá-la, mas a pressão foi tão intensa que o peixinho foi jogado para o lado e caiu rolando até seu jardim particular. "
— Mas...Mestre porque fez isso? Por que não nos comunicou? – Inqueriu o leonino.
— Porque eu queria ver como vocês iriam se sair ao enfrentarem algo que nunca haviam visto. Eu queria saber como reagiriam com algo que vocês não conhecem. – Shion levantou indo até uma mesa menor e mais afastada tirando de lá um livro grande e o abrindo nas páginas marcadas.
— Existem milhares de youkais diferente. Uns bons e outros...nem tanto. A nossa visitante, como vocês já sabem é uma Kitsune. Elas possuem uma inteligência muito superior a nossa, vida longa e poderes mágicos. – Fez um gesto com os dedos. — Elas são um tipo de youkai, ou de entidade espiritual, a palavra kitsune é muitas vezes traduzida como espírito da raposa, mas, no entanto, isso não quer dizer que ela seja um fantasma, ou que seja diferente de uma raposa normal.
A raposa levantou da mesa, mas sem antes deixar de dar uma coçadinha engraçada atrás de uma das orelhas, em seguida caminhou até a porta que dava acesso a uma pequena área onde algumas servas lavavam e estendiam algumas roupas, sentando-se bem no meio da porta e observando a movimentação com curiosidade.
— Bom...isso explica muito coisa. – Aiolia fez um gesto com os dedos, imitando a raposa ao coçar a orelha e depois o movimento da cauda.
— Sim, Aiolia.
— Que tipo de poderes ela tem? – Agora foi a vez de Camus perguntar, mas dessa vez quem respondeu foi Dohko:
— Bom Camus, a kitsune é, sem dúvida, um dos youkais mais poderosos que existe. Eu ouvi dizer que uma das suas habilidades mais comuns é a de mudar de forma. Geralmente assumindo a de uma jovem e bela mulher. – Acenou com a cabeça na direção da raposa. – E isso é independentemente do gênero e da idade atual da raposa, geralmente com olhos um pouco puxados, mas também há histórias e relatos de kitsunes assumindo outras formas, tipo: como um velho, uma criança, ou formas ainda mais fantásticas, como uma árvore gigantesca ou uma segunda lua no céu. – O libriano concluiu fazendo gestos. – Ahhh e não é só isso... a outras características também como bocas ou caudas que geram fogo ou relâmpagos, elas também têm o poder de se curar e nunca ficam doente. Também podem se manifestar voluntariamente nos sonhos dos outros, podem voar, ficar invisíveis, e criar ilusões tão complicadas que são quase indistinguíveis da realidade, assim como Saga e Shaka. Ainda existem kitsunes com poderes ainda maiores, capazes de manipular o tempo e o espaço, e levar pessoas à loucura. – Todos observavam Dohko como se contasse uma história de terror. O libriano apoiou o cotovelo na mesa e com dedo em riste concluiu fazendo os dourados engolirem em seco. — Outras têm características que lembram vampiros ou ...súcubos e se alimentam da vida ou o espírito dos seres humanos... — Fez uma pausa. – E isso geralmente é feito... – Aproximou-se mais dos amigos e sussurrando: — Através do contato sexual.
Kanon lançou um olhar assustado para Saga que devolveu na mesma intensidade. O gêmeo mais novo entortou os lábios.
— Olha dessa parte eu não gostei. – confessou passando a mão nos cabelos.
— Não gostou da parte em que ela pode sugar sua alma enquanto você está tendo um orgasmo ou da parte em que ele diz que nós somos o jantar independente da situação? – Perguntou Afrodite surpreso. Dessa ele não sabia.
— As duas coisas.
A kitsune soltou um espirro chamando a atenção de todos na mesa. Afrodite apoiou o rosto novamente na mão enquanto divagava sobre ela. Saga não conseguia parar de pensar na visão sobre o mar de sangue. Saber agora que ela era capaz de criar ilusões tão perfeitas quanto as dele o fez duvidar sobre o que tinha visto nos olhos dela. Havia morte, sangue e sofrimento, mas também sentia como se um ímã o atraísse ainda mais para ela, mesmo depois das informações que Dohko e Shion haviam lhes contado. Não conseguia sentir medo e sim, sua curiosidade crescer ainda mais.
— As feridas dela...desapareceram. Agora entendo. — pensou alto o aquariano.
— Ela é tão bonita. – Afrodite quebrou o silêncio que se instalou no local fazendo Shion sorrir e se servir com um pouco mais de chá. – Quantos anos será que ela tem?
— É difícil saber. Ela pode ser mais velha do que todos nós juntos. Uma das coisas pelas quais as kitsune são lembradas é por terem até nove caudas. Quanto maior o número de caudas mais velha e mais poderosa ela é. Cada cauda cresce após ela viver cem anos, então isso nos leva a crer que ela provavelmente tem mais do que isso. As caudas não precisam ficar sempre visíveis, então ficará difícil sabermos qual a idade real dela. – Shion concluiu fechando o grande livro.
Uma serva entrou com um novo bolo, dessa vez de chocolate coberto por geleia de morangos. A raposa farejou o ar sentindo o cheio doce da geleia e chocolate lhe chamar. Levantou-se dando uma espreguiçada no final e exibindo mesmo sem querer o corpo lindamente bem esculpido. Saga escaneou o corpo alheio discretamente sentindo um incomodo mais do que familiar querer crescer por entre suas pernas, assim como Camus que mesmo desviando os olhos rapidamente não conseguiu deixar de se sentir levemente atraído pelo corpo quase nu. Aiolia e Kanon já não conseguiram ser tão discretos enquanto Dohko e Afrodite a observavam como se fosse uma jóia rara. Ela ainda farejou um pouco mais antes de chegar até a mesa e roubando um pedaço assim que descobriu de qual deles vinha aquele odor tão delicioso. Devorou duas fatias do bolo e olhando para cada um da mesa, dando de ombro e retirando mais um pedaço.
— Por Atena, mas para onde vai tanta comida? – Perguntou Aiolia abismado em como ela podia ser tão magra e comer talvez mais que Aldebaran.
— Shion?! O que ela está fazendo aqui no santuário? – Saga indagou olhando fixamente a fumaça de seu café.
— Eu não sei Saga, eu...- Shion olhou para trás verificando se ela ainda se encontrava entretida nas servas. – Um dos motivos pelo qual eu a guiei até aqui também foi porque eu queria mais tempo para ficar na mente dela. Vasculhar ainda mais só que ela tem um bloqueio mental incrível e eu não consegui nada, eu só...consegui ver melhor enquanto ela dormia, mas ela acordou e praticamente me expulsou. Se ela consegue criar ilusões e entrar em nossos sonhos isso significa que ela também sabe quando alguém está tentando fazer o mesmo com ela. Eu não queria assustá-la ainda mais então, eu decidi trazê-la até aqui e ganhar sua confiança. Se eu tivesse deixado qualquer um de vocês a impedir ou se tivessem entrado em um confronto eu não sei o que poderia acontecer, mas se ela está aqui um motivo muito...sério tem. – Shion respirou fundo e olhando novamente para a Kitsune que agora estava deitada de lado no chão ainda observando as servas. – Enquanto ela dormia eu... consegui acessar pequenos flashes que me deixaram bem preocupado. – Saga olhou fixamente nos olhos violáceos de Shion sentindo um frio na barriga.
— De que tipo? – Perguntou Dohko
— Eu vi...morte. Sangue, dor e muitas pessoas mortas. – Abaixou a cabeça por alguns segundos e depois voltou a fitar os cavaleiros e não percebendo certa aproximação.
— Eu não sei o que pensar. Pode...pode ser só uma...lembrança...de algo que ela tenha passado já que...ela já viveu muitos e muitos anos, mas também...um aviso de que ela está escondendo algo mais sério do que imaginamos.
— O que vocês estão cochichando? – A voz feminina fez todos os homens na sala se levantarem.
—Atena! – Eles disseram em coro, ajoelhando-se em sinal de respeito.
A raposa se aproximou curiosa, observando os homens que antes eram tão imponentes ajoelhados como escravos na frente de uma simples garota. Ela olhou para Atena e esta sorriu lindamente e sem saber porquê uma sensação de calmaria e paz envolveu seu corpo. Saori se aproximou devagar. A kitsune arregalou os olhos, fitando todo o corpo da jovem Atena e enxergando mais do que ninguém o cosmo dourado e resplandecente da deusa do santuário.
— Então você é a nossa visitante?
Ela não respondeu. Sua voz não saía, estava completamente encantada com o cosmo dourado de Saori mesmo ela não fazendo nenhum esforço para mostrá-lo no momento.
— Qual seu nome? – Atena perguntou.
— Kyoko...Pode me chamar de Kyoko.
Saori deu seu melhor sorriso e se desculpou pela demora. Ela havia combinado com Shion que faria pessoalmente as apresentações e que depois disso poderiam decidir qual dos presentes ficaria responsável por ela.
Afrodite assim que foi apresentado não perdeu a oportunidade de dizer o quanto estava encantado com ela. Falou, falou e falou, mas Kyoko não ouvia nada do que ele dizia pelo simples fato de não conseguir entender como um homem humano podia ter uma aparência como aquela. Era muito comum youkais com aparência feminina e que também eram muito bonitos por sinal, mas um homem humano? Ah não...não mesmo! Pelo menos, não que ela já tivesse visto. Shaka aproximou-se mais quando foi chamado por Atena e Shion e se apresentando como o protetor da casa de Virgem. Disse também que Kyoko seria sempre bem-vinda em seu templo, desde que não roubasse nada. Ele sabia da fama de algumas raposas serem “ladronas” e mesmo não sabendo se ela se encaixava nesse grupo achou melhor prevenir. Kyoko riu da observação ignorando o indiano em seguida.
Já com Aiolia a coisa não foi tão boa assim. O leão não conseguia engolir o fato de ela ter usado sua cabeça como apoio para passar pela sua casa mesmo não assumindo para seus colegas que compartilhavam do mesmo sentimento. A raposa ainda lhe apontou o dedo na cara reclamando que ele era um grosso e mal-educado por ter cortado uma mecha de seu cabelo. O leão irritado teve que ser contido por Camus e Dohko já que paciência não era um de seus pontos fortes. Aldebaran como já imaginavam foi extremamente simpático e aproveitou para convidar a raposinha para um churrasco em sua casa e ela logicamente aceitou de imediato.
Atena bem que tentou, mas assim como seus cavaleiros ela não pode deixar de notar na vestimenta da youkai e pediu encarecidamente a duas servas que trouxessem algo descente para que ela pudesse usar.
— É sem graça, mas vai servir por enquanto. — Kyoko desdenhou observando os detalhes dourados na túnica branca.
— Eu preferia que ela ficasse como está. – Kanon cochichou com seu gêmeo que sorriu de lado. Mesmo não dizendo, ele tinha que admitir que dessa vez seu querido irmãozinho tinha razão. As pernas longas eram lindas demais para serem escondidas por panos.
Após as formalidades e Kyoko se negar a pôr a roupa nova sem um banho decente, o grupo voltou à mesa a pedido de Saori para degustar mais alguns quitutes, já que Aldebaran, Shaka e ela mesma não haviam feito seu desjejum. Ao término Shion finalmente deu seu veredito sobre quem ficaria responsável por Kyoko pelo menos por enquanto e como já era de se esperar, Saga foi o escolhido. O cavaleiro não se opôs mesmo se sentindo estranhamente incomodado e desconfortável com aquela situação, mas não podia reclamar já que ele a havia encontrado e causado toda aquela confusão. A responsabilidade era toda dele. Teria que manter a raposa segura e fora de problemas o que em seu íntimo algo lhe dizia que aquilo não seria tão fácil assim e que Kyoko não era tão dócil e amigável como Shion e Atena imaginavam. Para ele alguém que se livrava do ataque de Aiolia daquela maneira não era um adversário qualquer. Alguém que golpeava Camus de Aquário o arrastando por metros não podia ser tão inofensiva. Ninguém com agilidade e habilidade inferior a de um cavaleiro de ouro era capaz de escapava praticamente ileso dos relâmpagos do leão, mesmo que tenha sido guiado por Shion e isso o deixava ainda mais preocupado. Se ela tivesse metade das habilidades que Dohko havia lhes dito ele estaria com sérios problemas. Teria que ficar de olho nela praticamente vinte e quatro horas do seu dia ainda mais depois do ariano o incumbir telepaticamente de arrancar o máximo de informação que pudesse para descobrir o mais rápido possível como e porque ela estava alí no santuário.
A kitsune ao ouvir o veredito do grande mestre observou Saga se retirar da mesa com total seriedade e silêncio absoluto. No fundo se sentiu satisfeita com aquela decisão, já que algo no cavaleiro a deixava ainda mais...curiosa. Ela fez o mesmo o acompanhando um pouco mais afastada, mas sem antes deixar de ouvir o som forte do coração de Saga. Um sorriso de lado se formou em seus lábios deixando um de seus caninos expostos. A íris azul tornando-se amarela, modificando juntamente com as pupilas que afinam como de um felino. Uma leve risada anasalada não pode ser segurada, admitindo para si mesma que aquilo tudo seria mais divertido do que ela poderia imaginar.
Continua...
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