Uma estranha no ninho - Vol. I
21 Um estranho medo.
Notas iniciais

Kyoko abriu os olhos devagar ao sentir os dedos de Saga tocar seus cabelos. Ergueu o rosto somente um pouco para vislumbrar a notável melhora no rosto do homem. Ele sabia que ela estava ali mesmo estando ainda de olhos fechados, mas mesmo depois de receber os cuidados dela, ele ainda sim estava muito fraco.
Ela se aninhou mais, segurando a mão fraca dele e guiando para seu rosto.
—Eu...sinto muito. — Sussurrou. Saga respirou fundo e rouco sem forças para abrir os olhos. — Eu queria...queria ter vindo antes, mas...
—Shiiii...- Foi o único som que ele conseguiu emitir.
Kyoko ergueu mais o rosto e beijou o rosto dele. Estava se sentindo péssima, culpada, horrível. Ver Saga tão frágil e ferido por suas mãos era muita dor. Não que não soubesse que ele fosse se ferir ou se envenenar, mas...se não tivesse se atrasado tanto na luta contra os capangas enviados por Naomi, ele, Saga, com toda certeza não estaria naquele estado...
Um shinobi de Naomi espionou toda a luta entre Kyoko, Saga, Milo e Kanon. Ciente do estado físico deles e sob as ordens direta de Naomi, agora, a segunda cabeça dos Kage, o youkai já se imaginava como o líder de toda a guarda dos Kage se além de atender ao solicitado ainda conseguisse mais três cavaleiros de ouro, principalmente um deles sendo Saga. Ele seria elogiado por Naomi e idolatrado por Hiroaki por aquele feito. Conseguindo atender ao pedido do inugami e ainda por cima levando o geminiano como brinde seria o maior feito que alguém poderia conseguir.
Ela corria rápido por entre as árvores e arbustos, raspando sua pele alva sem se importar com os arranhões e cortes. Pulou para a direita desviando de cinco shurikens e um golpe cortante. Pulou por sobre as árvores outra vez, e dando de cara com ninguém menos que Shura de Capricórnio. Enfrentar o shinobi de nome Seriyu não seria tão difícil, mas o que não contava era que Naomi havia conseguido dois cavaleiros de ouro como escravos e que estes viriam para pegá-la junto do ninja.
Máscara da Morte atacou com uma sequência de socos e chutes, seguindo logo para um golpe com pequenas almas explosivas. Kyoko usou a espada para se defender e cortar os golpes. Shura aproveitando da distração dela com Câncer, cruzou os braços na frente do rosto e elevou seu cosmo.
— Caia na minha espada sagrada!! — Gritou disparando uma rajada com milhares de golpes cortantes na direção de Kyoko.
A raposa pulou para trás, usando a espada para se defender dos golpes do cavaleiro sem conseguir 100% de sucesso. Distraída com Shura, câncer aproveitou o momento para atacar com seu "Seikishike Meikai Ha" e assim conseguindo finalmente levar aquela batalha para o yomotsu.
Lá ela não tinha onde se esconder e muito menos para onde fugir. O mundo dos mortos era o único lugar onde a Adamantine não lhe dava acesso e pelo visto Máscara da Morte sabia muito bem disso, lógico por ser instruído por Naomi. A luta fora sangrenta. Kyoko tivera que enfrentar dois cavaleiros de ouro hipnotizados e imunes ao ar do Makai. Naomi havia planejado tudo nos mínimos detalhes para que dessa vez nada desse errado.
Para Kyoko matar Shura e Máscara não doeria em nada sua consciência. Já havia matado muitos homens tão fortes quanto eles, mas por consideração a Atena e Shion ela, mesmo em aparente desvantagem ainda assim tentava trazer ambos os cavaleiros de volta a realidade. Mas estava sendo trabalhoso demais, e já não sabia mais quanto tempo havia perdido ali. Não podia mais continuar com aquilo. Teria que matar ou então morreria, mas morrer não estava em seus planos, pelo menos por hora.
Em dado momento Shura e Máscara combinaram seus golpes, aproveitando de uma brecha e acertando Kyoko em cheio. Ela berrou ao ser pega pelo golpe, sentindo sua carne rasgar e queimar enquanto era arrastada no solo grosso de encontro a um pedregulho, explodindo o mesmo com o impacto e só parando com quase metade do corpo para dentro daquele buraco negro onde as almas pulavam sem o menor arrependimento. Engoliu em seco levantando-se de forma exacerbada para sair dali. Se caísse nem ela sobreviveria mesmo sendo uma youkai. Urrou quando conseguiu ficar de pé, cambaleando um pouco e cuspindo sangue. Um corte grande jorrava sangue da lateral de seu abdômen e do braço esquerdo.
— Hora de acabar com isso. — Falou Seriyu indo de encontro a ela. — Morraaa Asanooo!!!!
“Não mesmo”, pensou a kitsune.
O golpe fora certeiro, e ambos os cavaleiros não souberam dizer quando foi que Kyoko havia decepado metade da cabeça do shinobi. O corpo dele pareceu demorar a perceber que seu comandante, o cérebro, já não estava mais ali, dando dois passos para frente enquanto movia os braços de forma aleatória, até por fim cair de joelho e tombar naquele poço sem fim.
— O....quê???- Ambos disseram sem tirar os olhos da imagem perturbadora da kitsune com seus olhos dourados e assassinos, segurando pelos cabelos longos e verdes o pedaço arrancado da cabeça de Seriyu. Os olhos amarelos dele ainda se moviam de um lado para o outro.
Shura deu um passo para trás por puro instinto assim como Máscara. Seja lá por qual fosse o motivo, ela ainda não havia mostrado aquela forma e muito menos aquela agressividade. Naomi os havia avisado o quanto ela era perigosa, mas só agora ao serem marcados pelo olhar assassino de Kyoko que tiveram essa certeza. Era como se a própria morte olhasse diretamente em seus olhos, marcando suas almas para sofrer eternamente no Cocytos.
Kyoko soltou a cabeça. Arreganhou sua boca em uma careta horrenda onde seus caninos brilharam pelo excesso de saliva. Estava furiosa. Não sabia por quanto tempo já fugia dos três. Já não sabia mais o que fazer para tentar despertar Máscara e Shura do feitiço de Naomi, o que a deixava sem escapatória. Não podia fugir para sempre. Precisava acabar com aquilo de uma vez e assim salvar os outros nem que para isso fosse preciso matar aqueles dois cavaleiros de ouro.
— Depois pedirei perdão a deusa de vocês. — Rosnou.
Máscara sorriu devasso e sem medo avançou contra ela, arrependendo-se logo em seguida ao sentir algo atravessa seu abdômen. Sua respiração prendeu-se na garganta sem desviar os olhos arregalados dos dela.
— MÁSCARAAAA!!! – Shura berrou ao ver o braço direito de Kyoko aparecer ensanguentado do outro lado do corpo de câncer.
Máscara por puro instinto segurou o braço atravessado em se corpo na tentativa de se livrar daquilo. Olhou com dificuldade para o local acertado ficando ainda mais nervoso. O brilho saindo pelas marcas tribais do braço dela indicavam a pedra, a poderosa Adamantine que fazia de suas armaduras sagradas nada além de uma proteção tão frágil quanto papel.
— Va...gabunda. – Balbuciou, dando uma longa golfada de sangue em cima de Kyoko.
Shura avançou com o braço em posição e iluminado pelo cosmo. Kyoko sentiu a aproximação do outro. Olhou por cima dos ombros de câncer e seus olhos brilharam pela energia, apontou dois dedos da mão livre para cima e um trovão explodiu no céu fazendo um relâmpago cair sobre seu corpo. Câncer gritou ao sentir as correntes elétricas passarem por todo seu corpo, paralisando-o de vez e energizando a kitsune ainda mais.
—Miserável!! Toma isso, Excalibur!!!
— Shinu!!!(Morra!) Ankoku Raijin Ken!!! (Espada trovão das trevas)
Ambos gritaram ao mesmo tempo, fazendo seus golpes se colidirem de maneira brutal. Uma explosão gigantesca sacudiu o yomotsu inteiro agilizando a queda das almas naquele buraco que não parecia ter fim. Faíscas iluminavam o local e pedras rolavam morro abaixo, algumas almas ficaram soterradas e ainda se debatiam na esperança de chegarem ao seu local de destino mesmo em meio a aquela luta tão violenta.
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No mundo dos homens Shura abriu os olhos com dificuldade. O corpo inteiro dolorido e o ombro esquerdo deslocado. Tentou se levantar, mas uma dor lacerante o fez arrepender-se. Olhou o local e mirando sem entender como e nem porque sua perna estava esmigalhada. Trincou os dentes de dor respirando com dificuldade. Pelo visto também havia quebrado algumas costelas. Olhou ao redor tentando se localizar outra vez.
Quando foi que ele havia ido parar ali? E...como havia conseguido aquelas feridas graves? Como sua armadura podia estar naquele estado? Quem havia feito aquilo? E por quanto tempo ele havia ficado ali desmaiado?
Fechou os olhos tentando organizar os pensamentos; lembrou da missão de escoltar a filha de um grande lorde até um dos Castelos no Sul da Espanha, lembrou-se da festa dada no lugar para comemorar a chegada da moça e de seu noivado, lembrou-se também de uma mulher...sim! Uma mulher bela e que havia se atraído por Máscara, mas que também o queria na cama. Lembrou-se de não aceitar o convite, mas por conta da bebedeira e da insistência de câncer ele acabou cedendo, depois disso...
Um gemido abafado interrompeu os pensamentos de Shura. Ele olhou novamente ao redor procurando a origem do som e viu atônito Máscara da Morte praticamente agonizando entre alguns arbustos, pedras e pedaços de sua própria armadura.
— Máscara!
Com dificuldade engatinhou até o amigo. Paralisou vendo a ferida gigantesca no abdômen do outro. Era como se algo tivesse atravessado e arrancado a metade do corpo dele junto com a armadura. Ele não iria resistir a aquela ferida por muito tempo.
— Máscara! Máscara! Resista! Eu vou...AHHHHHH!!!
Shura berrou sem ter tempo de reação. Uma energia fortíssima o pegou de surpresa, não dando a menor chance de defesa. Tombou desmaiado sobre o corpo do amigo.
Atrás dele Naomi sorria, olhando os dois cavaleiros como cães imundos e sarnentos. Eles até que prestaram para o serviço. Fizeram exatamente o que queria, mesmo que sem a intensão. Se tivessem trazido a cabeça de Kyoko teria sido um sucesso, mas já deixá-la em péssimo estado físico e atrasada para ajudar o amado era mais do suficiente. Agora Hiroaki-Sama não teria mais o desgosto de seus erros e ficaria demasiado contente em saber que era só uma questão de tempo para ter sua amada Kitsune de volta.
— Naomi-Sama este aqui já está praticamente morto. — Informou um dos servos dela enquanto observava Câncer agonizar.
— Isso não é problema. Leve-o assim mesmo, ainda dá pra consertar.
— Sim Naomi-Sama. — E saiu de volta a fenda aberta pela youkai de volta ao Makai.
Um pouco distante dali Kyoko se escondia como podia entre os arbustos. Rezava em silêncio para que aquela maldita não sentisse sua presença e rezava mais ainda para que não tivesse acabado aquela batalha tarde demais.
Ficou ali naquele meio sem saber onde estava até a noite cair. Com dificuldade tentou se reerguer, mas a dor no ombro esquerdo deslocado pelo impacto do golpe de Shura contra o seu a fez voltar ao chão. Trincou os dentes empurrando o ombro de volta ao lugar. Odiava quando aquelas coisas aconteciam. Respirou fundo para tentar se recompor e devagar começou a caminhar.
Caminhou sem fazer ideia de quantas horas já havia passado. Para proteger Saga e os outros ela levou a luta para o mais longe que pôde do hospital e agora que finalmente havia conseguido já não fazia ideia do quanto ainda teria que andar. Mas não desistiu. Parou somente para beber água em um pequeno córrego que encontrou no meio do caminho.
Depois de mais algumas horas de caminhada ela enfim avistou o que procurava: O hospital.
E com cautela misturou-se a escuridão até encontrar Milo. Chorou ao vê-lo naquele estado e chorou mais ainda ao descobrir que Máscara da Morte havia conseguido a façanha de prender a luta no yomotsu por uma semana inteira sem que nenhum deles percebesse.
Fez o que tinha que fazer com Milo ficando ali com ele até ver que apresentava alguma melhora. Em seguida fez o mesmo com Kanon e depois da conversa com um mensageiro do Makai fez o que tinha que fazer com Saga...
Ela ficou observando o semblante dolorido do amado por algum tempo. Saga abriu os olhos por míseros segundos e voltando a apagar logo em seguida. Ficou feliz em saber que Kyoko estava ali. Era como se um vento abrasador tocasse sua pele fervente de desespero.
Kyoko se moveu um pouco puxando a máscara que ele usava e dando-lhe um pouco mais de seu poder de cura. Após isso saiu da cama com calma e caminhou até uma porta que dava acesso a um pequeno banheiro. Amargou ao ver seu reflexo. Seus braços estavam cheios de cortes e ensanguentados, havia também perdido quatro unhas, uma de suas orelhas estava com a ponta quebrada e cortada, assim como sua bochecha e o lábio superior. Um corte fundo na testa e outro no abdômen ainda minava um pouco de sangue, e suas pernas também estavam bem machucadas e com vários hematomas.
Tomou um banho rápido ali voltando logo a se observar; precisava dar um jeito naquelas feridas. Se Saga a visse naquele estado ficaria furioso e preocupado. Não queria isso. Saga precisava se recuperar, descansar e não se preocupar com ela e suas feridas. Ele não precisava saber, ele não tinha que saber.
Fechou os olhos concentrando-se e como num truque de mágica todas feridas de seu corpo começaram a desaparecer, deixando Kyoko com a bela aparência de sempre e sem nenhum aranhão. Respirou fundo ao terminar. Aquilo iria dar para o gasto, só precisava tomar cuidado para que os cortes não voltassem a sangrar. Vestiu uma calça de tecido branco que encontrou em um dos vestiários, e envolveu seus seios com as ataduras como de costume. Caminhou de volta ao quarto e com cuidado se aninhou no corpo de Saga outra vez para assim descansar um pouco mais.
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“Amoras”
E foi por causa daquele cheiro bom que Saga despertou. Piscou algumas vezes de forma preguiçosa. Era tão estar com ela, mesmo que ainda fosse em uma cama de hospital. Com a mão livre retirou a máscara de ar e olhou para ela. Dormia como uma criança, imprensada entre o ferro e seu corpo. Sorriu de satisfação. Kyoko era tão linda e parecia ainda mais frágil. Será que seria algum crime prendê-la em uma redoma de vidro só para si? Que pensamento bobo, ela já era só sua.
Devagar deu-lhe um beijo no topo da cabeça, em seguida com a mão esquerda acariciou a parte de trás da orelha direita dela. Kyoko apertou os olhos e soltou um resmungo, suspendendo o rosto na direção do dele, mas sem abrir os olhos. Saga puxou Kyoko só um pouco mais para cima e assim dando-lhe um beijo na testa e depois outro no nariz sussurrando:
—Ei! Está na hora de acordar.
— Hummm...- Kyoko resmungou. Abriu os olhos devagar para encontrar os verdes de Saga e o sorriso singelo dele. Era a melhor coisa que poderia receber ao acordar. – Oooiiii...- Sussurrou de volta. – Como se sente?
—Me sinto ótimo mesmo...quando eu sei que...devia estar bravo por você ter saído do santuário. – Fez uma pausa só para acariciar os cabelos dela outra vez. – E você?
—Agora estou bem. Estou feliz que esteja bem. – Sorriu dando um beijo leve nos lábios de Saga.
E foi justo nesse momento que uma enfermeira voluptuosa – até demais aos olhos de Kyoko – entrou no quarto. A mulher paralisou ao ver a kitsune. Sua voz prendeu-se na garganta e ela ficou sem saber o que fazer. Saga ergueu os olhos somente um pouco já imaginando o que aconteceria, e não errou. Os olhos de Kyoko mudaram de cor e seus caninos apontaram por cima dos lábios, ela mirou a mulher por cima dos ombros, mas sem mudar de posição na cama. A enfermeira começou a tremer ainda mais. Ela queria correr, mas suas pernas não respondiam, começou a balbuciar coisas que nem ela conseguia entender. Aquilo só podia ser uma aparição do inferno ou um pesadelo. Um rosnado fez a mulher dar um pulinho e um pequeno gritinho, tateando a porta atrás da maçaneta sem nem ao menos piscar.
— Sai daqui. – Kyoko rosnou. Sua gengiva rosada a mostra junto com os caninos animalescos. – SAI DAQUI!! – Gritou.
A mulher deu um pulo soltando um grito de pavor e saindo correndo dali. Saga começou a rir daquela situação. Quem não conhecia morria de medo, mas ele não. Já havia visto Kyoko de mau humor e principalmente com...
— Ciúmes?! Ela é só uma enfermeira.
A face animalesca da raposa mudou da água para vinho. Um bico de irritação e um olhar de soslaio fez o geminiano alargar o sorriso.
—O fedor daquela vagina pervertida está aqui no meu nariz até agora. Eu sei muito bem que ela ficou excitada quando viu você. – Confessou.
Saga começou a rir gostosamente. No fundo adorava aquilo. Kyoko era demasiada possessiva e defendia o que julgava ser seu com unhas e dentes, literalmente. Para ela as únicas mulheres “autorizadas” a chegar perto do cavaleiro eram Julieta e Saori. Fora isso só quando ela tinha certeza absoluta de não haver nenhum tipo de atração, incluindo o simples fato de achar Saga um homem belo. Com seu olfato super apurado ela conseguia sentir o cheiro de longe e identificar exatamente quando uma pessoa se atraia pela outra, pois era assim que identificava as presas mais fáceis de atrair para se alimentar. As servas já nem se atreviam mais em olhar para ele. Tinham medo de perder os olhos ou serem devoradas por Kyoko. Saga de início teve dificuldades em distinguir o humor dela, mas com o tempo e o fato de aquilo ocorrer com frequência ele logo se adaptou. Era bom assim, pois não teria mais o trabalho de se preocupar com flertes indesejados.
—Okay, okay! Se você está dizendo, não irei contestar. – Concordou dando um novo beijo entre as orelhas dela.
— E ela não tomou banho hoje.
—Ahhh...Por Atena, Kyoko! – Retrucou Saga com cara de nojo.
—Fecha os olhos e abre a boca.
—Pra que? – Questionou ele com uma sobrancelha erguida.
—Por que sim. Vai fecha logo os olhos e abre a boca. – Ordenou.
Saga ficou em silêncio por alguns segundos pensando no porque diabos ela veio com aquele papo justo naquela hora. Imaginou que talvez fosse ganhar algum presente ou algo de comer já que estava a dias sendo alimentado por uma sonda. Respirou fundo enfim obedecendo: fechou os olhos e abriu a boca. Kyoko balançou a mão na frente do rosto dele só para conferir, em seguida enfiou uma das mãos nos cabelos e tirando um tipo de piolho gigante, de mais ou menos uns 3 cm e sem a menor preocupação colocou o bicho em cima do lábio inferior de Saga. Ele apertou os olhos ao sentir algo se mover para dentro da boca e de imediato tentou abrir os olhos.
—Não, não, não! Melhor ficar de olhos fechados...- Ele tentou cuspir, mas Kyoko tapou sua boca com uma das mãos. — Não, também não cospe, e também não morda.- Saga apertou os olhos por conta do nervoso. Mas que merda era aquela que ela havia enfiado em sua boca? Mas seja o que fosse era nojento e mais nojento ainda por parecer gostar do “mingau” em seus dentes. — Abra a boca, abra a boca...- e mesmo com nervoso Saga obedeceu permanecendo de olhos fechados, preferia nem ver para não vomitar. Resmungou de boca aberta quando o bicho entrou para mais fundo indo de um lado da boca até o outro.
— Cherá qui a prla tira echa coicha a mia boca?! – Protestou de boca aberta.
—Um segundo...
— Hummmmmmm...- reclamou outra vez impaciente.
Kyoko estendeu a mão e o piolho saiu pelos lábios de Saga. Ele respirou aliviado, mas ficou horrorizado ao ver o que estava lambendo toda sua arcaria dentária.
—Um...inseto? Dentro da minha boca? Você pirou?
—Não é um inseto é um limpador de dentes. É o que vocês chamam de escova de dentes. – Saga ficou com cara de besta. — Acredite ele é bem mais eficiente.
O cavaleiro passou a língua nos dentes, realmente eles estavam bem lisinhos e limpos, bem mais do que se tivesse usado uma escova. Fechou a boca e sentiu um gosto...diferente, mas que parecia aumentar a sensação de limpeza.
— Até que o gosto não é tão ruim. – Rendeu-se.
—Ah sim...o cocô dele tem uma quantidade excessiva de flúor, se continuar usando não terá cáries nunca. – Kyoko falou despreocupada já voltando a se aninhar nele. O geminiano quase deu um pulo da cama.
— O quê? Você disse...cocô?
Kyoko começou a rir da cara de desespero do amado. Na verdade, era a saliva do bichinho, mas achou melhor nem comentar dando uma desculpa qualquer que lógico não foi aceita por ele.
Do lado de fora a enfermeira tentava se acalmar enquanto contava aos médicos sobre a aberração que tomava conta do paciente. Lógico que nenhum deles acreditou naquela loucura e o médico resolveu averiguar. Todos olhavam atentamente para ele ao entrar pela porta. Não demorou nem um minuto, talvez quinze segundos, para o médico de meia idade e de origem chinesa sair correndo de dentro do quarto, todo suado, descabelado e com o óculos torto na cara. O pobre mal conseguia respirar de tão assustado.
E foi nessa hora que Camus e Afrodite surgiram em roupas civis. Quem olhava nem diria que eram cavaleiros de ouro.
—Bon jour. – O médico, a enfermeira e dois seguranças miraram o francês com os olhos arregalados. — Eu e meu amigo viemos ver Saga, Kanon e Milo.
Afrodite aproximou-se notando o espanto na cara daquelas pessoas. — Desculpe, mas... porque estão com essas caras? Parece até que viram um fantasma.
O médico engoliu em seco, tentando criar forças para dizer o que nem ele queria acreditar.
—É que...tem uma...uma...um...Não sei bem o que dizer, mas...seja lá o que for, está lá...tomando...conta de...- O médico pegou a prancheta e com muita dificuldade por conta da tremedeira verificou o nome do paciente. —Saga. É...achoqueisso. – Falou tudo de uma vez.
Camus bufou fechando os olhos. Já imaginava o que tinha acontecido e de quem se tratava. Afrodite sorriu de lado. Bem que Fukuro havia dito.
— É melhor chamarmos a segurança nacional. – Sugeriu a enfermeira ainda nervosa.
— Ora, isso non é necessário. Acredite ela é inofensiva. – Informou Camus com toda sua calma.
—Inofensiva? Ino...fensiva ?! – O médico ficou de pé. — Acho que não estamos falando a mesma língua aqui senhores. Eu vou mostrar a vocês o que tem lá dentro. Aquela coisa já deve ter...comido o amigo de vocês isso sim.
Afrodite prendeu a risada com uma das mãos. —Só se for em outro sentido né?!
—Ah é?! Acham que eu estou louco, não é?
— Monsieur ninguém disse isso aqui. – Camus passou uma das mãos nos cabelos. Aquele médico realmente deveria ter se assustado com Kyoko.
— Pois bem...senhores!! Eu vou provar que não estou ficando louco.
O médico pegou de um dos bolsos um pequeno controle remoto. Apontou o objeto para o vidro que dava acesso ao quarto de Saga apertando o botão. Um tipo de persiana começou a se mover, abrindo suas paletas e mostrando o paciente. O médico ficou de queixo caído e os seguranças babaram, balbuciando um “uall” quando viram Kyoko nos braços de Saga. Ele ouviu o som das persianas, mas não se importou. Já esperava por aquilo. Camus do lado de fora bufou, olhando para o médico dizendo:
— Viu?! Eu disse que ela é inofensiva.
O médico ficou com cara de tacho diante da cena. Na cama Saga estava recostado no travesseiro tendo Kyoko em seus braços, mas não totalmente sobre si: a perna esquerda esticada e a direita sobre as suas, a cabeça dela estava apoiada em seu peito direito enquanto aparava as costas dela com o braço do mesmo lado e tinha seus cabelos entre os dedos dela. A cauda balançava de um lado para o outro de modo calmo e relaxado. Saga tinha um sorrisinho no rosto enquanto parecia prestar a atenção em algo que ela dizia.
— Ownnn...ela é tão linda. Eles não são fofos juntos? – Inqueriu Afrodite sem tirar os olhos da cena. Camus somente sorriu de lado satisfeito em ver Saga praticamente recuperado.
— A persiana abriu. Tem um monte de gente olhando pra nós. – Informou Saga sem tirar os olhos do rosto dela.
— Eu sei. Não me importo, só não quero sair daqui agora. – Se aninhou mais na curva do pescoço dele. —Você...se importa? Tem...vergonha que as pessoas vejam você com uma youkai?
Saga respirou fundo. — Vergonha?! Kyoko...aquelas pessoas que estão lá fora estão nos fotografando, e pelo jeito quando eu sair daqui terei que assassinar três guardas por estarem excitados em ver você é você matará uma enfermeira por estar molhada em imaginar estar no seu lugar. – Fez uma pausa. — Ainda acha que tô com vergonha?
Ela sorriu feliz. Não tinha mais porque duvidar do amor de Saga. Mordeu seus próprios lábios e de forma carinhosa, deslizou a ponta do nariz pelo maxilar e bochecha dele parando com os lábios quase unidos.
— Então me beija. Me beija na frente de todo mundo. Mostre a eles que sou sua e que você é meu.
Saga puxou a kitsune um pouco mais, enfiou a mão esquerda em meio aos cabelos prateados, segurando-a pela nuca afim de fazer o que lhe foi pedido. Beijou Kyoko com ardor tão forte que o médico apertou o rosto contra o vidro para ver se assim conseguia ver melhor aquela demonstração de carinho. A enfermeira ficou de boca aberta junto aos guardas. Seja lá onde aquele cara havia encontrado aquela mulher, ele era um cara de sorte. Camus continuou a observar junto a Afrodite. Este parecia estar diante de um filme romântico na TV. Como era lindo o amor!!
— Ei?! – Camus chamou o médico. — Deixe eles aí, ela non irá fazer nada se ninguém tentar fazer antes. Enquanto eles...matam um pouco da saudade, vamos ver os outros.
—Acho bom. – Concordou peixes.
O médico acenou positivamente, fechando as persianas a mando de Camus e indo até Milo primeiro. Este já estava corado, rindo enquanto passava uma bela cantada em uma das várias enfermeiras ali presente.
—Já vi que está ótimo.
A voz grave e rouca de Camus pareceu atrapalhar Milo em sua investida, mas o escorpião não ligou muito e sim ficou muitíssimo feliz de ver seus amigos ali. Estava doido para sair daquele lugar, odiava hospitais.
— Camus! Afrodite! Que bom, não aguentava mais esse lugar. – Comemorou apertando a mão de um e depois do outro. — Vocês vieram me tirar daqui, não é?!
—Ou, ou, ou calminha Senhor Milo. Ainda faremos alguns exames em você pra ter certeza de que está tudo bem, depooooiiiis, dependendo do resultado, aí sim estará liberado. – Informou o médico.
— Ahhhhh...- Resmungou uma das enfermeiras decepcionada.
— Fazer o que né?!- Retrucou dando de ombros.
—Não reclame muito meu caro, se não fosse a raposinha do Saga você estaria num necrotério agora.- Informou Afrodite de braços cruzados e olhar desdenhoso.
— Ah é lógico, mas também se não fosse a “raposinha” do Saga nós não estaríamos aqui. – Rebateu o escorpião.
— Acalme-se Milo ela fez isso por uma boa causa, acredite. Mesmo que non entenda agora. – Volveu aquário. – Bom melhor agora irmos ver como está Kanon.
— Oba!!- Comemorou as enfermeiras para a felicidade do escorpião.
No outro quarto o marina já estava sendo atendido por outro médico. Sentado na ponta da cama um enfermeiro terminava de colher sangue enquanto o médico observava as amígdalas de Kanon. No canto, em uma poltrona mais especificamente, Thetis não tirava os olhos do que faziam. Parou somente para cumprimentar os cavaleiros, voltando logo sua atenção ao namorado. Seus olhos cansados deixavam evidente o quanto a moça havia ficado aflita com o estado do marina, o que também não era para menos.
—É parece que está tudo bem. – Comentou o jovem médico.
— Viu?! Eu disse. Tô ótimo. – Afirmou Kanon com ambas as mãos nos joelhos. – Já dá pra eu sair daqui? Quero ver meu irmão.
—Saga está ótimo, non se preocupe. – Camus apaziguou.
— Ele está com a Kyoko. – Afrodite completou.
— Falando nela, essa desgraçada quase nos matou. Espero que ela tenha um bom motivo para tudo isso. Ainda estou entalado com aquela surra. – Confessou o marina olhando de Camus para Afrodite.
— Não digo que seja uma...desculpa e sim motivos que a levaram a tal, e como já dissemos ao Milo, você entenderá depois. — Afrodite cruzando os braços. — Bom, parece que agora só está faltando o “Senhor das dimensões”- Zombou peixes imitando o gêmeo mais velho. — E aí qual dos dois irá encarar a fera que faz a guarda?
Os médicos se entreolharam rezando em silêncio para que não tivessem que voltar lá. Kyoko era linda e carismática, mas quando o assunto era Saga...hummmmm ...aí a coisa complicava.
Camus respirou fundo. Realmente não dava para deixar os médicos entrarem no quarto enquanto ela não cedesse. E era esse o ponto que intrigava Camus. Kyoko era sim muito possessiva em relação a Saga, mas ela no momento não estava agindo só por ciúmes. Para alguém como Camus era notório o fato dela estar protegendo o geminiano de algo que eles ainda não sabiam, mas que com certeza era grave demais. Pra variar, Kyoko estava novamente escondendo algo sério, mas dessa vez não deixaria passar e não aceitaria outro teatro. Ela teria que dizer, nem que para isso tivesse que fazer a força. Se entenderia com Saga depois.
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— Boa sorte! – Brincou Afrodite fazendo Camus parar de frente a porta. Sua cabeça doía com tantos pensamentos.
Por fim achou melhor entrar de uma vez e como já esperava o ataque fora rápido e direto. Ele desviou a cabeça para a direita, esquerda e com dois dedos segurou a última shuriken bem na frente do rosto.
— Bon jour pra você também chérri.— Falou caminhando calmamente em direção a cama. Kyoko mostrou-lhe a língua como resposta. — Nem preciso perguntar como se sente. Você está ótimo mon ami.
A kitsune aninhou-se outra vez no corpo de Saga, fechando os olhos e ignorando Camus completamente, um ato que não passou despercebido por ele.
— Sim Camus estou ótimo. Só falta agora o médico conseguir vir aqui me examinar. – Fez uma pausa afastando os cabelos de Kyoko do rosto para vê-la cochilar. Depois mirou o outro que achou melhor não comentar.
Caminhou de volta a porta dando aval para que o médico e a enfermeira entrassem. Eles fizeram o que tinham que fazer, examinando Saga dos pés até o último fio de cabelo sob o olhar traiçoeiro de Kyoko e o frio de Camus. E depois de algumas horas Kanon fora o primeiro a receber alta, para o alívio e felicidade de Thetis. Logo depois Milo também ganhava o aval para sua liberdade, e Saga, depois de três horas, também foi dispensado pelo médico. Ainda se sentia um pouco cansado, mas nada tão grave para que continuasse internado.
Distraiu-se com a falação de Milo, Kanon e Afrodite não percebendo quando alguém sumiu de suas vistas e ainda do meio do grupo. Olhou em volta procurando, mas não encontrado nem a sombra. Bufou já iniciando o caminho de volta a passos duros e uma bela ruga no lado direito da testa.
Em uma sala o médico de aparência chinesa trocava algumas palavras com a enfermeira peituda e loira que antes havia tentado se aproximar de Saga. Uma das luzes da sala piscou e ambos cessaram a conversa. Miraram o local com seriedade e com um sorriso de canto ambos depositaram um dos joelhos no chão e abaixaram a cabeça em sinal claro de respeito. A luz piscou duas vezes, apagou-se na terceira e da escuridão a sombra de uma raposa caminhou devagar, ficando de pé quando achou que já era suficiente.
E sob o olhar de desprezo o homem se pronunciou:
— Perdoe nosso atrevimento. – Sorriu maligno.
— Isso mesmo. Desculpe o atrevimento...Kyoko-Sama. – Acrescentou a mulher.
A raposa deu mais um passo fazendo sua sombra cobrir o corpo de ambos. A mulher engoliu em seco e um suor gélido pingou de seu queixo.
— Perdoar vocês?! – Puxou a espada devagar fazendo o som do fio afiado causar um tremor tão grande em ambos que acabaram mostrado suas formas. Dois youkais. Ele sendo um assemelhando-se a um pássaro de pele grossa e verde e ela um morcego.
— Perdão! Pe...perdão. – Gaguejou o homem. — Por favor, não nos mate.
— Por que não? Você o teria matado. – Deu mais um passo pousando a espada no ombro do youkai.
— Na...na...Não!!Nós...nós só estamos aqui...so...sobrevivendo. Vivemos escondidos aqui. Eu juro! – Fechou os olhos por conta do medo. —Eu não sabia....Não sabia que...que ele pertencia...a Kyoko-Sama.
Ela ficou observando aqueles dois por alguns segundos, mas duas batidas na porta interromperam seus pensamentos.
—Senhor Shin o senhor precisa dar uma olhada no paciente do quarto 8. – Informou alguém do outro lado.
Kyoko moveu a cabeça autorizando ele a responder. — Sim! Já estou indo.
Ela então guardou sua katana dando as costas para ambos, mas antes de sair falou de forma sombria e assassina:
— Se eu desconfiar que você mentiu pra mim...Senhor Shin- Ironizou. – Eu vou empalar você e essa vagabunda no alto desse prédio para que tanto os humanos quanto os youkais saibam quem vocês são, então...para sua saúde, é melhor que eu não volte aqui.
Ele nada disse até ela dar o primeiro passo. — Ky...Kyoko-Sama. – Ela parou, mas sem olhar para trás. — Sugiro que redobre sua atenção. À boatos de que tem trovejado muito em uma certa parte do Makai.
Kyoko nada disse, sumindo em seguida na escuridão, mas sem deixar de pensar naquelas palavras.
Saga já estava perdendo a paciência em procurar por Kyoko. Bufou irritado e preocupado olhando um dos quartos e não achando o que queria. Caminhou um pouco mais, dobrando no final do corredor à direita e dando de cara com ela bem na parte escura do lugar. Levou um baita susto ficando ainda mais irritado.
— Que susto! Droga! Eu odeio quando você se esconde assim. Onde estava? — Ralhou irritado.
— Ora! Eu que ter pergunto, saí um minuto para ir ao banheiro e você sumiu. Te procurei em todos os lugares.
— Se estava me procurando porque está se ocultando assim? – Volveu com o cenho franzido.
— Por que eu não posso andar por aí assim, já não basta aquelas pessoas que nos viram no quarto? Vem! Vamos embora. Preciso de uma cama decente para dormir. Estou exausta! – Resmungou ainda mais irritada, puxando Saga consigo para fora daquele hospital.
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Três dias depois...
— Hummmm...estou cheia. A comida do 13º templo é sempre a melhor. – Kyoko sorriu fechando os olhos ao lembrar do bolo de chocolate que havia acabado de comer com Shion e Atena.
Distraída em seus pensamentos gulosos nem notou que era observada até a pessoas se pronunciar.
— Eu non ouvi você pedir permissão para atravessar Aquário.
Kyoko parou de imediato. Sentiu no tom de voz de Camus que ele estava falando sério. Girou nos calcanhares ficando assim de frente ao dono da casa. Sorriu irônica com ambas as mãos na cintura. Achou melhor fazer o que ele queria, não estava em condições de arrumar briga principalmente com alguém como ele.
— Será que eu...poderia passar pela sua linda casa, fria e sem graça, Senhor Camus de Aquário?
Camus crispou ainda mais o cenho fazendo ela bufar. Que saco! Por que ele tinha que ser tão certinho? O que mais ele queria?
—Olha só, eu não roubei nada tá bom?! Está vendo alguma coisa nas minhas mãos? Ãhn?!
Sem dizer nada o cavaleiro começou a caminhar até ela mantendo os olhos frios presos nos dela e os punhos cerrados. Ela por instinto acabou dando um passo para trás dando a Camus a certeza do que já desconfiava desde o dia da alta dos amigos. Parou em uma distância de mais ou menos um metro. Olhou a raposa dos pés à cabeça até seus olhos se encontrarem.
— Qual é o seu problema Camus?
— Meu problema é que você recuou. – Kyoko paralisou ao ouvir aquela frase. — Você nunca recuou para nenhum de nós. – Camus aproximou-se mais. — O que me leva a crer que você está com medo de mim.
— Eu não tenho medo de você. – Peitou o aquariano.
—Exato! Você non sente medo de nós, mas a minha hostilidade está fazendo você querer fugir para se proteger, coisa que alguém tão forte como você non faria, então surgiu uma pergunta que non me sai da mente... – Camus esticou a mão devagar na direção do abdômen de Kyoko — Por que está sangrando se eu non há corte nenhum?
A kitsune prendeu a respiração sem ao menos perceber. Era impossível que Camus tivesse percebido. Ela havia escondido as feridas de forma perfeita, e ninguém jamais havia descoberto aquele tipo de truque. Já havia feito aquilo milhares de vezes, então como um homem poderia ter percebido?
— Eu leio muito sabia?! – Camus começou a falar, mostrando o dedo sujo de sangue para seu maior desespero. Depois começou a rodeá-la bem devagar. Ela parecia paralisar cada vez mais a ponto que as palavras saiam da boca dele. — E fiz muitas pesquisas sobre as raposas do Makai e também...tive uma conversa interessante com Aiolos. – Ele parou. Ela continuou em silêncio. — Ele me contou que a Keiko mostrou a ele sua forma original e de forma inocente me disse algo bem intrigante. – Fez uma pausa olhando bem dentro dos olhos de Kyoko — Ele disse que achou incrível o poder de camuflar o próprio corpo que a Keiko possuía.
— É só...um corte. – Ela balbuciou.
— Você mente muito mal raposa. – Camus crispou o cenho e em uma velocidade espantosa agarrou o braço esquerdo de Kyoko com força, justamente o braço que ela havia deslocado e cortado na batalha. Trincou os dentes para não gritar de dor. — Você non permitiu que chegassem perto do Saga no hospital, isso me faz acreditar que alguém já havia tentado alguma coisa...
— Me solta! – Ela gemeu entre os dentes.
— Alguém tentou nos atacar, atacar o Saga e você agiu sozinha...
— Me sooolltaaaaa. – Ela quase gritou empurrando Camus pelo peitoral, mas ele não cedeu.
— Pensa que non percebi? Você estava tão machucada, tão fraca que nem se um médico idiota tentasse ferir o Saga você conseguiria dar conta. Por isso você non deixou ninguém entrar até um de nós estar lá com você, porque assim você teria certeza de que nada aconteceria com ele.
— Já falei pra me largar! Está me machucando. – Dessa vez gritou.
— Se estou machucando você, porque non sai daqui sozinha? – Grunhiu dando um sacolejo nela. — Você deixou três cavaleiros de ouro em coma, non é possível que non possa se livrar de mim.
— O que quê tá acontecendo aqui?
A voz assustada de Afrodite interrompeu a discussão. Kyoko olhou o pisciano de soslaio e este notou sua palidez excessiva. Olhou para a mão possessiva de Camus ao redor do braço dela e isso o fez crispar o cenho. Não era possível que Camus de Aquário estaria ficando louco em tentar forçar algo com Kyoko àquela altura do campeonato. Será que na hora de ressuscitá-lo Atena não havia esqueci um dos parafusos no caminho?
Camus notando a confusão no rosto do companheiro achou melhor encerrar a discussão. Já tinha a confirmação do que desfiava. Deixaria para resolver o resto outra hora, mas dessa vez na presença de Saga.
Afrodite manteve o silêncio e olhou de um para o outro duas vezes, parando por último no amigo, e como se algo cochichasse em seus ouvidos ele sem perceber voltou os olhos para mão de Camus. Engoliu em seco quando se deu conta do que era.
— Camus...sua mão.
O aquariano mirou o amigo, depois suas mãos. Paralisou ao ver a mancha carmesim e o cheiro de ferrugem. Era sangue e não era dele.
— Camus...- Afrodite gritou. Ele pareceu despertar agindo rápido ao ver Kyoko desfalecer bem na sua frente. A segurou nos braços percebendo que a situação era mais grave do que ele achava que sabia.
Peixes correu até eles tocando o chão com um dos joelhos, mas algo molhado o fez levantar rápido. Olhou assustando-se outra vez.
— Da onde tá vindo esse sangue todo? — Indagou assustado.
Camus olhou o chão. Em sua mente a imagem de Saga já entrando em pânico passava como um filme em sua cabeça. Kyoko estava esvaindo sangue por uma ferida que eles não conseguiam ver.
— Merde! Afrodite ela está sangrando. Sangrando muito! Chame o Saga, agora!! Chame ele.
—Não!! – Ela sussurrou segurando o braço de Camus. — Por favor, não...não conte a ele.
Os homens trocaram um olhar assustado sem saber se acatavam o pedido ou se avisavam Saga. Kyoko estava em péssimas condições e se morresse ali seria o fim. Se avisassem a Saga ele ficaria furioso por ela ter escondido algo tão grave e se não contassem ele ficaria bravo da mesma forma, mas a diferença era que se eles chamassem o geminiano a kitsune ficaria ainda mais nervosa o que poderia fazer piorar seu quadro, tirando o fato dela tentar fugir mesmo naquele estado. Ela não estava sangrando quando chegou ali, o que fez Camus acreditar que o desespero por ter sido pressionada por ele acabou afetando de alguma maneira suas feridas e ocasionando a hemorragia. Algum motivo ela tinha para esconder aquilo de Saga e ele mesmo pensando que sua amizade com gêmeos poderia ser afetada, ainda assim não podia agir por impulso, tinha que fazer a coisa certa. E naquele momento a coisa certa era socorrer Kyoko. Por isso tomou a kitsune nos braços e correu com ela para a área privada de seu templo junto com Afrodite desistindo de incluir Saga ali, pelo menos por hora.
♊oOoOo♊
Passou-se dois dias desde o incidente com Kyoko na casa de aquário. Camus e Afrodite com cuidado conseguiram descobrir a origem do sangramento e assim impedir o pior. Depois de passado o susto ela contou a ambos sobre o ocorrido e seus motivo em esconder aquilo de Saga. Camus ouviu tudo atentamente, sem perder uma letra se quer. No fundo compreendia os motivos dela, mas mesmo assim...
“Compreendo seus motivos e sei que fez pelo bem dele, mas non concordo que você continue escondendo algo tão grave dele. Saga é um amigo querido e eu non gostaria de vê-lo chorar por suas mentiras. Esta se colocando em risco o que prejudica e muito a obrigação de Saga em manter você viva e segura. Darei até o meio dia do terceiro dia contando a partir de hoje, se non contar a ele, eu mesmo contarei. ”, intimou o aquariano encerrando o assunto.
Ela caminhava perdida em pensamentos, tentando pensar em várias formas de contar aquilo a Saga. Ele nunca a perdoaria por aquilo, por mais que fosse justificável. Só de pensar em ter de contar a ele o preço que pagou para salvá-lo já fazia seu coração gelar. Talvez se tivesse sido sincera desde a primeira vez...ou se não tivesse ouvido Fukuro... balançou a cabeça de um lado para o outro na tentativa de espantar aqueles pensamentos. Não tinha feito nada de errado! Não havia do que se arrepender! Só se arrependia de não ter matado Shura e Máscara da Morte de uma vez ao invés de tentar salvá-los também.
Sentia o coração tão apertado nesses dias que mal conseguia dormir. Além de ainda sentir dor pelas feridas, sua coincidência e preocupações eram a pior parte da noite.
— O que eu vou fazer? – Falou consigo mesma. —Maldita Naomi! – Olhou para as próprias mãos e estas tremiam de nervoso e tensão. Nunca conseguiria vencer a youkai naquelas condições. E...droga! Quanto tempo mais demoraria para aquilo passar?
Somente Milo havia conseguido dominar o ar por alguns segundos, mas isso não era o suficiente. Com seu enfraquecimento Kyoko tivera que inventar uma desculpa qualquer para Shion e Saga afim de tirar da cabeça deles a ideia de iniciar um treinamento para que assim eles começassem a se adaptar. A ideia de todo não era ruim, era a ideia perfeita! Mas o problema era que Kyoko não tinha força para iniciar aquele treinamento e muito menos para curá-los depois de cada um. Eles sofreriam nos primeiros dias e ela teria que estar em excelentes condições físicas para manter os dourados fora de um novo coma. Odiou-se por não ter previsto aquela armadilha. Naomi havia conseguido encurralá-la como a um rato diante de uma cascavel.
Estava tão distraída em seus pensamentos, buscando encontrar uma saída que nem percebeu alguém lhe chamar. Essa pessoa correu até ela e tocando devagar em seu ombro.
— Kyoko. – A raposa quase pulou de susto. — Nossa que susto! – Disse a mulher com uma mão no peito.
— Que susto digo eu. Desculpe Lena, eu...estava realmente distraída. – Fez uma pausa. — Bom...ainda bem que eu te encontrei, eu estava indo agora mesmo ver o Luy. Ele está em casa?
Lena surpreendeu-se com a pergunta. Franziu o cenho sem entender.
— Ué, como assim? A Fukuro saiu daqui com ele tem uns quinze minutos dizendo que você iria encontrar com eles no labirinto natural próximo a montanha de Star Hill.
Kyoko paralisou tentando processar o que havia acabado de ouvir. Ela não via Luy desde do dia que retornou do hospital com Saga, ou seja, cinco dias atrás e mesmo assim ela não havia falado com Fukuro e muito menos à visto. Então...se não era ela quem a outra iria encontrar e Lena estava ali na sua frente, quem esperava Fukuro?
Um minuto pareceu horas na mente de Kyoko. Seu coração começou a bater descompassado, acelerando de maneira tão frenética que um tremor incontrolável a sacodiu dos pés à cabeça. Seu rosto empalideceu e um suor gélido minou de sua pele tão rápido e tão intenso que Lena começou a ficar nervosa com a notável mudança de humor da kitsune. A mulher deu um passo para trás já sentindo os olhos arderem pelas lágrimas de desespero.
— Kyoko...meu...filho. Por favor,...salva meu filho.
— Luy...não...- Sussurrou sem querer acreditar naquele pesadelo. Lena deu um grito, caindo de joelhos já chorando de pavor, fazendo Kyoko voltar a realidade e disparar em uma corrida frenética na direção do labirinto.
No centro de Rodório Camus, Milo e Mu caminhavam calmamente pela praça. O ariano olhou para a barraca de frutas e avistando uma Pêra. Sorriu, era uma das frutas que mais gostava.
—Esta fresquinha. — Informou o vendedor.
—Ótimo! Vou levar seis destas. – Sorriu entregando a fruta ao dono da venda.
E foi nessa hora que o santuário inteiro pareceu parar. Todos os cavaleiros de ouro sentiram o cosmo reagir a energia pesada e poderosíssima que escureceu o céu do Santuário inteiro. Camus e Mu olharam para o alto e ficando de boca aberta ao ver o tom misto de negro e verde pairar sobre suas cabeças. Aquilo era tão sinistro que até as pessoas comuns foram atraídas, parando tudo que faziam para ver aquele fenômeno horrendo.
— O que é isso? – Comentou Kanon ao lado de Saga na entrada de gêmeos. O mais velho nada disse. Nem se atrevia a piscar.
— O que está acontecendo? Que energia é essa? Por que ficou noite de repente. – Indagou Milo sem conseguir acreditar no que via.
Camus deu dois passos para frente observando atônito aquela cor estranha no céu. Seja lá quem fosse o responsável era forte demais para ser um ser humano qualquer, ou se é que era um.
Próximo a Star Hill, Kyoko se embrenhava no meio das plantas, entrando por todas as passagens que seu faro a guiava. Seu coração batia tão forte que ela já começava a acreditar que ele iria explodir, sua mente imaginando mil coisas que já poderiam ter acontecido se quem mais temia estivesse ali. Dobrou na primeira direita, depois a direita de novo, correu por um extenso corredor onde no final a entrada para aquele meio de plantas finalmente apareceu. Ela apertou o passo o máximo que pôde chegando finalmente ao centro do lugar...
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Camus ainda observava os céus com atenção procurando uma resposta para aquela mudança brusca. Um cheio família e desagradável começou a incomodar a todos. Algumas pessoas abanavam o próprio rosto na esperança de aliviar aquele odor. Um silêncio estranho rondando o lugar amedrontando qualquer um que se atrevesse a quebrá-lo.
Mais atrás Mu apertou os olhos para a entrada da vila ao ouvir um som. Surpreendeu-se quando conseguiu identificar. Já Milo fora atraído junto com as pessoas pelo mesmo e conhecido som que começava a aumentar de forma gradativa: O salto de sapatos batendo contra o chão de pedra.
—Mas...o que...
Camus crispou o cenho cerrando os punhos, Mu observava a figura parada próxima ao chafariz sem perder nada e Milo fez sua unha escarlate despontar em seu indicador, mas só por precaução.
No meio do pátio uma mulher extremamente bela, de longos cabelos negros e olhos azuis observava os três com um sorriso estranhamente doce e meigo. A pele alva era tão perfeita e delicada que faziam dela quase uma boneca de porcelana ainda mais pelas roupas que usava.
— Olá! — A mulher saudou mantendo o leve curvar em seus lábios rosados.
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Na entrada do belíssimo labirinto verde Kyoko sentiu como se o tempo parasse mais uma vez, suas pernas fraquejaram, mas ela ainda assim manteve-se de pé. Um calafrio horrendo subiu por sua espinha arrepiando os pelos da nuca e misturando-se com as inúmeras sensações em seu corpo por conta do pavor da cena diante de seus assustados olhos, pois de tudo que pensou e de todas as pessoas que esperou aquela combinação era a última que queria imaginar, tampouco ver ao vivo e a cores.
Ela queria falar, mas a voz não saia, queria se mover, mas as pernas não obedeciam e quando os olhos azuis acinzentados a miraram por cima do ombro do pequeno Luy unido ao sorriso irônico e a voz grave, baixa e cheia de poder ecoou por aquele lugar para quem quisesse ouvir, Kyoko teve a certeza de que o seu pior pesadelo havia se tornado realidade.
— Hisashiburi Dana, Kyoko. (Há quanto tempo, Kyoko).
Continua...
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