Uma chance
2 Capítulo 2
Yuri se lembrava muito bem de quando estava no terceiro ano do ensino médio e teve que escolher qual curso queria fazer na faculdade. Na época, não tinha nenhuma aspiração específica, apesar de todos os testes vocacionais e as palestras que assistiu na escola. Os conselhos de sua mãe eram sempre do tipo “escolha algo que dê dinheiro e que te faça feliz”. Às vezes, ele tinha a sensação de que as duas coisas não podiam coexistir. Entre tantas opções à sua escolha, em dúvida entre Medicina, Artes ou Matemática, acabou optando por Direito.
Até aquele momento, ainda não tinha se arrependido da escolha. Claro, tinha dias que sentia vontade de jogar tudo para o alto e ir vender arte na praia, mas durante a maior parte do tempo, aprendera a gostar da profissão que exerceria dentro de menos de um ano. Olhando o dia-a-dia de um escritório de advocacia, sentia-se bem ao se imaginar entre aqueles advogados engravatados.
Estava divagando para disfarçar a ansiedade, o que era ridículo. Alguém que já havia estagiado na Procuradoria Geral do Estado e no Tribunal de Justiça devia ter um pouco mais de autoconfiança. Mas suas experiências anteriores pareciam nulas naquele momento. Mexeu de novo na gravata, perguntando-se se tinha dado o nó direito, tirou o celular do bolso e olhou a hora, apenas para esquecer tão logo o guardou novamente.
Ficou sentado na recepção por cerca de vinte minutos. Havia chegado com alguns minutos de antecedência da hora marcada e quando se identificou, a secretária avisou que Álvaro iria se atrasar um pouco porque estava numa audiência que tinha atrasado por sua vez. Viu uns cinco homens passar pela porta principal e a cada vez, ficava imaginando se algum deles seria Álvaro. Bem que poderia ter procurado uma foto dele na internet, provavelmente ele tinha Facebook ou mesmo no site do escritório...
— Yuri? — A voz suave da secretária trouxe-o de volta à realidade. — O Álvaro vai falar com você agora.
— Ok. — Ele se levantou e mal conseguiu disfarçar que não sabia o que fazer. A moça o orientou seguir por um corredor e após uma porta de vidro, seguir em frente até a penúltima porta.
— Ele já está te esperando.
— Obrigado.
Foi andando pelo caminho indicado. Depois de passar pela porta de vidro, encontrou uma espécie de sala grande, onde havia várias estações de trabalho; pôde distinguir algumas vozes, e vez por outra, o som característico de saltos altos no chão de mármore. Não foi realmente difícil encontrar a sala que procurava; quando parou diante dela, leu a placa com o nome de Álvaro, deu duas batidas e poucos segundos depois, a porta foi aberta.
A imagem que tinha feito de Álvaro não correspondia em nada à realidade. Não tinha imaginado que ele fosse velho, mas também não esperava que ele fosse tão jovem. A questão era que os advogados daquele escritório, em geral, eram pessoas experientes. Já Álvaro não parecia ter mais de trinta anos; era alto, com um corpo bonito e bem definido, tinha cabelos e olhos castanhos.
— Yuri? — disse ele, estendendo a mão para o rapaz. — Álvaro, prazer. Obrigado por vir — acrescentou, depois convidou o recém-chegado a se sentar.
— Obrigado.
— Desculpe por ter feito você esperar — Álvaro falou, depois que havia voltado para sua cadeira. — Minha audiência atrasou um pouco.
— Não tem problemas.
— Ok. Bom, vamos ver... — Álvaro começou, mas parecia falar consigo mesmo. Ele ficou um instante mexendo no computador, enquanto isso, Yuri aproveitou para dar uma olhada no escritório.
Era elegante e moderno, apesar da mesa de madeira de mogno num estilo mais clássico. Logo atrás da mesa de Álvaro podia-se ver uma estante repleta de livros da área jurídica, que ele até reconheceu alguns títulos. Sobre a mesa, além dos documentos e materiais de trabalho, havia três porta-retratos nos quais pôde reparar fotos de Álvaro com pessoas que ele supôs ser a família.
— Ah, sim, aqui está — Álvaro retomou, depois de encontrar o currículo do rapaz no computador. — O professor Miguel deu ótimas referências suas — comentou. Yuri não soube o que dizer, apenas deu um sorriso sem jeito. — Na verdade, nunca fiz isso antes.
— Desculpe?
— Contratar alguém — ele admitiu, rindo da ideia. — Mas enfim, confio no julgamento do Miguel, de modo que vou te falar sobre o trabalho que nós esperamos que você faça, e ao longo dessa conversa poderemos ter uma ideia se seus objetivos e os nossos estão alinhados, ok?
Não foi uma entrevista desagradável. Álvaro explicou sobre o cargo, falou sobre o escritório, o modo de trabalho, e fez algumas perguntas, coisas como sua disponibilidade de tempo. Como estudava à noite, Yuri não tinha problemas para trabalhar durante o dia, assim, não houve dificuldades para chegarem a um acordo.
— Você pode começar amanhã?
— Claro.
— Ótimo. Vou te levar até a Rose, nossa agente de RH, pra que ela te dê a relação dos documentos que você vai ter que providenciar.
Dizem que quando uma coisa é fácil demais, é bom a pessoa desconfiar. Não podia dizer que havia se esforçado para conseguir aquele estágio, ele praticamente tinha caído no seu colo: num dia estava assistindo Marina e David brigando na cantina, no outro, estava assinando a carteira. Mesmo assim, não estava desconfiado. Havia ali uma reputação, uma firma com quarenta anos de história. Não pôde evitar ficar animado e feliz. Além de ser um estágio importante para o futuro de sua carreira, pois aprenderia com os melhores do ramo, o salário não era nada ruim — adolescente gosta de balada, adulto gosta mesmo é de boletos pagos e vale alimentação, pensou e teve que prender o riso para não parecer, de fato, um adolescente.
Álvaro o levou até Rose e no caminho, aproveitou para já apresentá-lo a algumas pessoas com as quais ele trabalharia. Talvez fosse a magia do novato, mas todo mundo lhe pareceu bastante simpático, com apenas uma exceção. Um homem interceptou Álvaro para perguntar como tinha sido a audiência, depois começou a conversar com ele, ignorando a presença de Yuri, que estava pensando num jeito de desaparecer para não incomodar, mas como não sabia para onde ir, continuou ali, até que o novo chefe se lembrou de sua existência.
— Ah, esse é o Yuri — disse, indicando o rapaz.
— O novo estagiário? — o outro advogado indagou e olhou para Yuri como se o avaliasse. Depois de alguns segundos, lhe estendeu a mão. — Rodrigo. Seja bem-vindo.
— Obrigado — Yuri respondeu, apertando a mão e sentindo-se qualquer coisa, menos acolhido. Enquanto Álvaro lhe pareceu simpático e gente boa à primeira vista, Rodrigo parecia um tipinho metido de nariz empinado.
— Rodrigo é meio chato, mas é gente boa — Álvaro disse e Yuri se assustou com a possibilidade de ele ter ouvido seus pensamentos.
— Palhaço — Rodrigo resmungou e já ia dando as costas quando Álvaro falou:
— Janta com a gente hoje?
— Não posso, já tenho compromisso.
— Tudo bem, fica pra próxima — acrescentou, com uma tapinha nas costas do colega. Depois disso, Rodrigo se afastou; Yuri pôde vê-lo entrar na sala vizinha à de Álvaro.
Após apresentá-lo a mais uma meia-dúzia de colegas, Álvaro o deixou nas mãos de Rose, que o orientou sobre os documentos, os exames admissionais que ele deveria fazer no dia seguinte antes de ir trabalhar, e sobre os horários que ele deveria cumprir.
— Mesmo que eles peçam, você não pode fazer hora extra, está bem? Estágio são seis horas. Ponto. — Do jeito que ela falava, talvez houvesse precedentes. — Eles não fazem isso com frequência, mas tem uns workaholics, como o Rodrigo, que às vezes ficam até às oito horas no escritório. Agora você imagine, advogados descumprindo a legislação! Esteja avisado para nunca passar do seu horário, ok?
— Ok.
— Tem alguma dúvida?
— Por enquanto, não.
— Se você tiver, pode falar comigo ou com o Álvaro, ele é ótimo.
— Certo.
— Então até amanhã.
No dia seguinte, às seis da manhã, Yuri estava de pé. Claro que isso exigiu algum esforço, e quando entrou na cozinha para tomar café, ainda teve que ouvir umas piadinhas da família. Camila, sua irmã mais nova, de doze anos, até o abraçou, dizendo que estava muito feliz por, finalmente, reencontrá-lo — a questão era que, geralmente, quando ele acordava, ela já tinha ido para a escola, e quando chegava em casa à noite, ela já estava dormindo.
— Você tá tão bonito! — Miriam elogiou, passando a mão no ombro dele, como se retirasse poeira da camisa. Assim que o filho ligara para ela no dia anterior parar contar que havia conseguido o estágio, ela tratara de lavar e passar as camisas brancas dele, e Yuri já as encontrou no armário.
— São seus olhos, mãe.
— É nada. — Ela riu e o beijou na bochecha, depois encheu a caneca dele de leite.
— Não, mãe, não quero mais nada.
— Você nem comeu direito, menino. Vai chegar no primeiro dia com cara de quem passa fome? — Enquanto falava, ela ia colocando torrada e ovos mexidos no prato dele. Apesar de não ter apetite, Yuri teve que comer tudo, era isso ou ficar ouvindo-a reclamar por uma semana.
— Quer carona, Yuri? — seu padrasto perguntou. Era o jeito dele de demonstrar que também estava feliz. Yuri tinha uma boa relação com o marido da mãe, apesar de nunca tê-lo chamado de pai, era a pessoa que mais se aproximava disso em sua vida.
— Obrigado, Mauro, não precisa. — Até porque Mauro trabalhava no centro e tanto o escritório quanto a clínica onde ia fazer os exames admissionais ficavam na zona sul. — Mas se você puder me deixar no metrô, tá bom.
No primeiro dia, praticamente não trabalhou. Passou parte da manhã ocupado com os exames, e quando chegou ao escritório, o estagiário mais antigo ficou encarregado de ensinar o trabalho a ele, mas Álvaro pediu que ele apenas observasse, apesar de que todo mundo concordava que ele só aprenderia mesmo na prática — era o tipo de coisa que não entendia, mas preferia não discutir.
Em todo caso, foi um bom começo. Conheceu os outros estagiários — descobriu que havia cinco, três que trabalhavam no mesmo andar, e outros dois ficavam lá em cima — literal e figurativamente, porque ficavam com os donos do escritório, os advogados que davam nome à firma, Afonso Lemos Brito (pai de Álvaro) e Armando Borges.
Mais difícil do que pegar o jeito do trabalho, foi se adaptar aos novos horários. Ainda que tivesse que estar no escritório apenas às nove, precisava sair de casa com pelo menos uma hora de antecedência, e acordar às sete todo dia logo se mostrou a pior parte. Estava tão acostumado a ir dormir tarde que não conseguia adormecer antes de uma da manhã, de modo que sempre chegava ao trabalho se sentindo como um zumbi e torcendo para não fazer nenhuma besteira devido ao sono.
Tudo aconteceu de uma maneira bastante tranquila, até o dia do trote. Foi na segunda semana de trabalho e ele já havia decorado o nome de quase todo mundo — ainda chamava Laura de Lúcia, mas bastava a verdadeira Lúcia dar um sorriso e ele se lembrava. Estava voltando da copiadora com uma pilha de papéis para entregar a ela quando quase esbarrou em Rodrigo, que vinha chegando do almoço junto com Álvaro.
— Desculpa — gaguejou, sentindo-se um pouco sem jeito. Apesar de ter se acostumado e gostar de quase todo mundo, Rodrigo ainda o deixava desconfortável. Não saberia explicar o motivo.
Rodrigo deu um sorriso bem forçado, na opinião de Yuri, pois praticamente não mexeu os músculos do rosto. O estagiário já ia se virar para ir embora, quando ele o chamou de volta.
— Eu preciso que você leve estes documentos até o Dr. Gilberto Brito — disse, entregando uma pasta a Yuri.
— Ok.
— É muito importante, ele está precisando disso pra ontem.
— Certo. — Yuri recebeu a pasta e saiu, sem se preocupar em perguntar onde encontrar a pessoa a quem deveria entregá-la, tampouco reparou na troca de olhares entre Rodrigo e Álvaro, no risinho do primeiro e o balançar de cabeça do segundo.
Como já conhecia todos que trabalhavam naquele andar, sabia que não havia nenhum Gilberto Brito, logo, ele deveria estar no andar de cima, provavelmente um dos sócios-proprietários. Entrou no elevador e subiu até lá. Procurou o nome em quase todas as portas e como não o encontrou em nenhuma, começou a perguntar. Porém, ninguém soube lhe dizer onde encontrar o homem a quem procurava, alguns pareciam nem mesmo conhecê-lo. Mas, coincidência ou não, todos davam uma risadinha depois de saber que ele era o estagiário novato.
Sabia que o mais lógico a fazer seria voltar e perguntar diretamente a Rodrigo, mas uma espécie de orgulho se apoderou dele. Sentia como se, fazendo isso, estivesse dando o gostinho de vitória a Rodrigo. Nesse momento, estava parado na frente de uma porta na qual havia uma plaquinha com o nome Afonso Lemos Brito. Bateu à porta sem nem pensar direito no que estava fazendo. Ouviu uma voz calma autorizando-o a entrar.
Dr. Afonso era um senhor se sessenta anos, de cabelos e barba brancos, o rosto corado — diria que ele parecia com um papai Noel; ele levantou os olhos, com os óculos quase na ponta do nariz e olhou interrogativamente para o rapaz.
— Desculpe incomodar o senhor, Dr. Afonso. Hm, o Rodrigo mandou entregar estes documentos ao Dr. Gilberto, mas não consigo encontrá-lo.
— Hm... — Afonso retirou os óculos e os deixou sobre os papéis nos quais trabalhava. — Você é estagiário que o Álvaro contratou, não é?
— Sim. Yuri.
— Deixe-me ver estes documentos, Yuri — o homem mais velho pediu e já estendeu a mão. O estagiário hesitou, porque Rodrigo talvez não gostasse de saber que ele entregara a pasta a alguém que não era o destinatário; por outro lado, Afonso era o dono da porra toda. — Você perguntou a alguém sobre o.. Gilberto? — perguntou enquanto recebia a pasta e a abria.
— Quase todo mundo. — Yuri deu de ombros. — Parece que ninguém o conhece — acrescentou e só então percebeu que não havia documento algum dentro da pasta. Franziu o cenho e olhou com ar interrogativo para Afonso, que se recostou na cadeira e apontou para um quadro pendurado na parede atrás de si.
— Esse é meu pai, Gilberto Brito — disse ele. Demorou alguns segundos para que Yuri entendesse o que havia acontecido e quando entendeu, sua vontade era de enfiar a cabeça em algum buraco. Rodrigo tinha feito de propósito, para que ele passasse vergonha.
— Desculpe, Dr. Afonso.
— Não se preocupe, filho. Já pedi que eles parassem com essa história de trote, mas sempre que chega alguém, eles voltam a fazer. É a maneira de eles dizerem que você é bem-vindo. Humor de advogado. Agora volte ao trabalho, sim?
— Sim, senhor.
Quando retornou para o andar de baixo, Yuri foi recebido com risos e algumas tapinhas nas costas. Ainda ficou emburrado por um tempo, mas depois descobriu que se comparado com o trote que o estagiário anterior, que fora promovido, sofreu, o seu tinha sido até tranquilo.
— Me pediram pra entregar uns documentos no fórum, na 69ª Vara do Trabalho — Marcos relembrou.
— Não existe essa vara... A maldade de algumas pessoas não tem limite — Yuri dirigiu o comentário diretamente para Rodrigo, sem nem saber se ele tivera alguma coisa a ver com a história de Marcos. De qualquer forma, ele não pareceu incomodado com a indireta e o trabalho voltou ao normal.
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