Uma chance
3 Capítulo 3
Demorou um pouco, porém, à medida que o tempo passava, Yuri começou a perceber que sua opinião sobre Rodrigo estava muito errada.
Durante as primeiras semanas, cumpriu à risca a recomendação de Rose de não extrapolar o horário, mas depois, ia simplesmente ficando no escritório até mais tarde. Nem sempre ficava trabalhando, às vezes aproveitava para usar a mesa e o computador para estudar ou terminar alguma tarefa da faculdade (se alguém o acusasse de aproveitar a Wi-Fi para assistir à Netflix ele não teria como se defender).
Um dia, já era quase cinco horas da tarde, seu expediente tinha acabado e ele estava sentado na copa, almoçando e vendo vídeos no Youtube, quando Rodrigo chegou e o chamou.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou.
— Almoçando.
— São cinco horas da tarde. — Yuri rolou os olhos. Rodrigo parecia incomodado com a vasilha da Tupperware na qual ele almoçava, Yuri pensou, reparando no nariz torcido dele. — Sabia que isso não é saudável? Por que você não almoça no restaurante aqui da frente?
Yuri apenas deu de ombros, sem se preocupar em explicar que preferia levar comida de casa e economizar o dinheiro do almoço, Rodrigo não precisava saber disso, tampouco se importaria, se soubesse.
— Enfim... Onde estão os documentos que eu te pedi? Estou precisando deles agora.
Yuri piscou os olhos várias vezes, como se a pergunta o tivesse deixado confuso.
— Estão na sua sala.
— Não estão.
— Eu os deixei lá. Você viu quando entrei e os guardei no armário atrás da sua mesa.
— De que horas foi isso? Não me lembro.
— Tá, mas você procurou lá? — Rodrigo balançou a cabeça. — Então vê lá. — Yuri recolocou os fones nos ouvidos e continuou seu almoço, sem nem se esforçar para ser simpático ou coisa parecida, não sabia fingir quando alguém o acusava de ser mentiroso.
Parecendo um tanto contrariado, Rodrigo saiu e, como não voltou mais, Yuri deduziu que ele encontrou os tais documentos. Só voltou a vê-lo quando estava de saída, às seis horas da tarde, e entrou no elevador igual com ele.
— Ainda por aqui? — Rodrigo comentou, depois de apertar o botão do elevador e olhar a hora. — Você está extrapolando a hora quase todo dia, não é?
— É muita bondade sua reparar — respondeu e Rodrigo até arregalou os olhos, assustado com o tom sarcástico. Então se lembrou do episódio de mais cedo e entendeu por que o estagiário estava chateado.
— Desculpe por ter duvidado de você, Yuri. Deveria ter procurado direito antes de cobrar.
— É sempre mais fácil colocar a culpa no estagiário, não é? — Nesse instante, o elevador parou, e quando as portas se abriram, Yuri percebeu que havia descido até a garagem. — Mas que merda, hein? — resmungou e já ia apertar o botão para subir novamente, quando Rodrigo lhe ofereceu uma carona. — Não precisa se incomodar, Rodrigo.
— Não é incômodo, acho que te devo uma. Vamos.
Yuri ainda tentou recusar, mas Rodrigo sabia ser persuasivo, afinal, era um bom advogado. Ele apertou a chave do carro e os faróis da BMW SUV piscaram; abriu a porta traseira e deixou a pasta, depois entrou no veículo, seguido por Yuri, que não podia negar que estava impressionado — talvez a intenção de quem compra um carrão fosse essa mesmo: deixar as pessoas babando.
— Carro legal — Yuri comentou enquanto ele manobrava para sair do estacionamento.
— Obrigado. Meu pai tenta compensar a distância emocional com presentes.
Yuri não soube como reagir àquele comentário tão pessoal. O que será que estava passando na cabeça de Rodrigo para que ele dissesse aquilo? Talvez fosse apenas um comentário aleatório. Deu um sorriso amarelo e esperou. Porém, nada aconteceu. Rodrigo colocou uma música suave para tocar e dirigiu em silêncio por alguns minutos.
— Como está indo com o TCC? — ele perguntou. Apesar de achar aquela tentativa de puxar assunto um pouco forçada, Yuri suspirou.
— Muito mal, cara. Acho que morrer deve ser melhor.
— Você deve estar exagerando...
— Você já viu como a literatura sobre assédio moral é escassa? Quase não tem material... Ao mesmo tempo, tenho que ler centenas de artigos, sem falar nas outras matérias, né?
— Ah, mas pensa pelo lado bom, tá perto de você ficar livre. A menos que já queira emendar uma pós.
— Na verdade, nem parei pra pensar nisso ainda. Só quero terminar.
Conversaram durante todo o trajeto até a universidade. Pela primeira vez desde que o conhecera, Yuri teve a impressão de que Rodrigo não era exatamente uma pessoa metida e arrogante. Claro, ainda estava cismado com a história do trote, e ter pagado sapo para ele mais cedo também contava pontos ruins, mas talvez ele fosse legal.
Rodrigo o deixou próximo ao setor de aulas e, infelizmente, um dos seus colegas de turma passou bem a tempo de vê-lo descer do carro, de modo que quando Luciana soube, ele teve que explicar quem era e por que tinha lhe dado carona.
— Tá, mas ele veio de dar caroninha só porque é legal? Você acha que eu engulo essa, Yuri?
— Acho que a senhora tá vendo muita novela, isso sim.
— Aham.
— Essa ideia é ridícula, Lu, Rodrigo é um dos meus chefes, ele nem gosta de mim, só estava se sentindo culpado porque me julgou errado.
— Ah, tá, não, tudo bem, eu acredito em você — Luciana declarou. Os começaram a subir as escadas em direção à sala de aula; ela ficou em silêncio por um instante, mas retomou o assunto de repente: — Mas ele é bonito?
Yuri arqueou a sobrancelha, tentando fazer uma cara séria. Bem que queria dizer que não, que Rodrigo era um desses trintões com corpinho de cinquenta, mas mentiria se o fizesse. Na verdade, ele não apenas era bonito, como era muito atraente fisicamente.
— Ele deve ter 1,90, talvez mais; ombros largos, acho que ele malha, está sempre de terno, mas quando tira o paletó, geralmente quando vai almoçar, dá pra notar qualquer coisa de músculo; usa aquelas camisas slim, que define a silhueta, sabe? As mãos dele são grandes, mas delicadas, acho que ele faz a unha, porque... bom, as unhas dele são perfeitas e estão sempre com esmalte transparente...
Estavam quase na porta da sala quando Luciana segurou no braço de Yuri e o puxou para o lado, empurrando-o contra a parede.
— Você reparou até nas mãos dele? — ela perguntou.
— Passo muito tempo com ele.
— Você deveria ter se escutado, cara, ia ver como soou estranho.
— Fala sério, Lu, você tá viajando. Cê sabe que sou observador, isso não quer dizer que tô a fim do cara, né?
— Não, mas...
— Mas nada. Até porque, se eu fosse me interessar por algum dos meus chefes, seria pelo Álvaro. Ele é muito perfeito: além de ser super gato, ainda é simpático, gentil, educado.
Luciana apenas fingiu acreditar, mas não parou com as brincadeiras. Yuri não gostava, mas não chegava a ficar muito irritado. Não era a primeira vez que sua colega lhe arrumava um namorado fictício. Lu era a pessoa mais legal do mundo, mas tinha o defeito de gostar de se meter na vida alheia.
À parte as insinuações de Luciana, as coisas no escritório prosseguiram normalmente. É verdade que passou a ficar mais tempo com Rodrigo, não sabia se era mera coincidência ou se ele havia mudado um pouco a atitude consigo, o fato é que estava sempre pedindo alguma coisa, fosse a cópia de um documento ou uma xícara de chá, de modo que Yuri podia observá-lo cada vez mais.
Às vezes, ele parecia mais taciturno, não falava muito, e ficava trancado na sala o dia todo. Contudo, havia dias em que estava de bom humor, quase sorrindo com o vento. Nesses dias, ele sempre parava um instante para conversar com Fernanda, uma das advogadas da firma que era mais próxima dele, além de Álvaro. Este, aliás, Yuri começou a perceber, não parecia ser exatamente o melhor amigo que alguém poderia ter. Por mais de uma vez pensou tê-lo visto discutir com Rodrigo, mas eles sempre disfarçavam quando alguém aparecia, e fingiam estar tudo bem na frente de todo mundo. Suspeitava de que havia algo entre ele, só não sabia o quê.
No dia que o acompanhou ao tribunal para uma audiência, a ideia de que poderia gostar dele deixou de ser absurda para se tornar assustadora. Não sabia se aquilo tinha surgido na sua cabeça devido às brincadeiras de Luciana ou se havia alguma atração. O fato é que vê-lo diante do juiz defendendo a cliente até às últimas chances, argumentando com segurança e usando termos jurídicos, despertou alguma coisa.
— O que você acha? — Rodrigo perguntou quando estavam no carro.
— Acho que você foi perfeito. Com certeza a decisão vai ser favorável à sua cliente.
— Obrigado, Yuri. Mas eu estava perguntando o que você acha de almoçar antes de voltar ao escritório.
— Oh, é... Ok... — Coçou a cabeça, um pouco sem jeito.
— E sim, acho que nós vamos ganhar essa causa, apesar de o Dr. Júlio ser um osso duro de roer.
Rodrigo o levou para almoçar num restaurante diferente, um lugar chique demais para o gosto de Yuri, mas o estagiário não reclamou, apenas ficou pensando que gastaria muito mais do que podia naquele almoço. Apesar de terem passado o tempo todo conversando sobre o processo, foi bastante agradável. Escutá-lo falar sobre as mudanças na legislação trabalhista era melhor do que qualquer aula que tivesse na faculdade.
— Está tudo bem com você, Yuri? Você parece distraído... — Rodrigo comentou, depois de perceber que o estagiário não estava prestando atenção ao que ele dizia.
Isso não era totalmente mentira, Yuri até reparava no movimento dos lábios, porém, perdido demais neles, não captava o som das palavras.
— Tô legal.
— Fim de semestre é sempre tenso.
O comentário surpreendeu Yuri, não podia esperar que Rodrigo se lembrasse que ele estava sofrendo com o final do semestre, e ficou ainda mais sensibilizado quando teve a chance de desabafar sobre como era estressante ter que fazer provas de cinco matérias e ainda entregar o projeto de monografia.
— Você parece o Álvaro no último ano, ele ficou tão estressado que teve que ir ao médico.
Como Rodrigo não costumava fazer comentários sobre a vida particular, aquela foi mais uma surpresa.
— Vocês estudaram juntos? — Yuri perguntou, tentando não parecer muito interessado.
— Sim — Rodrigo respondeu, sem acrescentar outra explicação.
— E você vai dizer que não ficou estressado?
— Claro que fiquei, mas... Não sei, acho que nunca me senti pressionado, porque eu gostava da faculdade.
— Mas eu gosto, só que não deixa de ser pesado.
— Por isso você tem que tomar cuidado pra não se preocupar demais; suas notas não definem seu futuro, Yuri. É claro que você quer ser um bom advogado, mas tente não comprometer sua saúde mental por isso.
— Obrigado pelo conselho.
— Disponha. — Rodrigo tomou o último gole do suco, depois olhou a hora. — Temos que ir.
Ele pediu a conta e pagou antes que Yuri tivesse tempo de saber o valor.
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