Richie conseguia ouvir as risadas ressoando e batendo nas paredes do andar de baixo do Derry Town House como uma bolinha quicante e inquieta assim que colocou suas malas na frente do quarto nº 217. Sem um pingo de dúvida ele sabia que as risadas eram de Mike e Bill, porque Mike e Bill ainda estavam lá. Ninguém mais e ninguém menos. Apenas dois bons e velhos amigos sentados no sofá acolchoado da recepção do Derry Town House relembrando, apostava ele, os amados e inesquecíveis momentos da infância.

Ele suspirou, e como um arroto, um riso embagaçado subiu pela garganta de Richie no momento em que ouviu a palavra Silver bater na parede do andar de baixo. Enquanto passava a chave na fechadura para trancar a porta do quarto que estava hospedado, pensou que deveria ter descido as escadas e apostado dez dólares no assunto. Perguntaria a Mike do que eles estavam conversando, e Mike diria que Bill estava contando de quando Richie e ele tiveram que enfrentar o lobisomem adolescente na casa da rua Neilbolt, e de como Bill teve que fazer Silver voar naquele dia.

— Dez dólares, Rich. Dez dólares a mais pra gasolina — murmurou para si mesmo — Você perdeu dez dólares.

Copos tilintaram um contra o outro e logo Richie ouviu dizerem

— um brinde a Silver! A bicicleta que venceu o diabo!

Hi-yo Silver, VAMOOOS!

Silver

(você sabe quem venceu o diabo Big Bill? você sabe quem? Não foi a sua bicicleta estúpida, quem fez foi)

Richie levantou o rosto e ajeitou os óculos na base do nariz. Ele esticou o braço para guardas as chaves no bolso da calça e sentiu seus dedos encostarem em outro bolo de metal frio. Mordendo os lábios, como se fizesse muito esforço, Richie trocou o bolo de chaves do quarto nº 217 pelo bolo de chaves do quarto nº 609 que estava enfiado no seu bolso desde quando ele, Bill, Ben, Mike e Beverly haviam voltado para o hotel. Houve toda uma discussão sobre quem tiraria as coisas de Eddie do quarto que ele estava hospedado, e no meio de uma tensão arrasadora Richie foi o mais bem vindo voluntário.

— Rich, você tem certeza? Voc-

— Pode apostar que tenho, Monte de feno. Agora me dê um tempo.

Uma de suas malas perdeu o equilíbrio e caiu no chão, mas Richie não estava perto para poder levantá-la de novo. Seus pensamentos o levou a subir as escadas, e logo estava de frente para o quarto nº 609, encarando a porta como se encarasse uma vitrine. Repassava as chaves entre os dedos com nervosismo, sentindo suor esfriar na palma da mão. Ainda era capaz de ouvir Mike e Bill conversando dois andares abaixo, dessa vez com as vozes um pouco mais abafadas, distantes e vazias.

Quase dois minutos depois Richie Tozier destrancou o quarto nº 609 e empurrou a porta. Uma brisa vinda da janela quebrada estapeou o seu rosto, e ele emperrou na soleira. Entrar no quarto de Eddie parecia pior do que entrar na casa da rua Neilbolt naquele momento. Sentia o coração na garganta e os olhos tremerem de forma horrenda. Lá estava a bagunça que Henry Bowers havia armado um pouco mais cedo, com a porta do banheiro escancarada e a cortina da banheira rasgada e surrada no chão. Riu consigo mesmo ao ver aquele chiqueiro, e por um minuto Richie lembrou do filme psicose. Na mente dele Eddie era Mary Crane e Henry era Norman Bates.

Caipira desgraçado.

Seus olhos encontraram a mala de Eddie de supetão, e como se mãos imaginárias o empurrassem para dentro, Richie entrou no quarto, tropeçando no próprio pé. Xingou e ajeitou os óculos na base do nariz mais uma vez. As cartelas de remédio de Eddie estavam em um compartimento lateral. Algumas camisas ainda estavam dobradas dentro da mala, já outras estavam jogadas em cima da cama. Conseguia sentir o cheiro de Eddie subir delas, e até mesmo podia imaginá-lo usando a camisa vermelha que estava dobrada.

(ei, Rich, ouça)

O tremor nos olhos voltou, junto de um aperto horroroso no peito. Richie começou a chorar em meio a soluços e engasgos. Afastou-se da mala aos tropeços, tirando os óculos e cobrindo os olhos com a mão.

(eu acho que consegui. Eu acho que matei!)

(eu fiz! Eu acho que matei a coisa de verd-)

Como um cego sem bengala, Richie tateou o ar em procura de apoio, inclinando-se para frente. Sem muito esforço encontrou uma cadeira. Depois, uma escrivaninha. Ele fungou e limpou o rosto com a manga da blusa que estava usando. Logo a ardência dos olhos diminuíram e ele colocou os óculos de novo. Suspirou, sentiu um tique e olhou para a escrivaninha. Havia uma folha rasgada de algum bloco de papel ali em cima, e Richie coçou o olho mais uma vez para ter certeza que o que havia escrito nela era o seu nome. Olhou para um lado e depois para o outro, e quando se sentiu seguro, pegou a página rasgada e a desdobrou duas vezes.

Richie,

você se lembra do que a Beverly nos disse na recepção do hotel hoje mais cedo? É óbvio que você lembra, não lembra? Ela disse que viu todos nós morrer, e logo horas depois Henry Bowers me atacou com uma faca. Inclusive, Rich, aonde você estava nessa hora? A primeira pessoa que eu pensei foi em você. Eu ia procurar ajuda no seu quarto mas

Enfim

naquele momento eu fiquei com medo, Richie. Eu fiquei cagado. Richie, caramba! Podia ter acontecido, cara! Eu podia ter morrido ali, naquela banheira imunda, com aquela faca imunda que o Bowers deveria ter tirado do cu. Mas eu tô aqui e isso me fez pensar que não estamos seguros. Que é tudo ou nada. Pode acontecer qualquer coisa a qualquer momento. Dá pra acreditar nisso? Eu posso levantar dessa cadeira agora e posso quebrar o braço de novo, ou, sei lá, eu posso escorregar da escada, ou eu até mesmo posso perder você.

Bom, o que eu quero dizer é que eu te amo fiquei pensando e disse pra mim mesmo que se acontecer alguma merda comigo, que eu quero que você saiba de uma coisa importante. Eu espero muito poder te dizer pessoalmente, mas se você estiver lendo essa carta

se você estiver lendo essa carta eu

cara, não consigo nem escrever aquela palavra, mas você entendeu, certo? se você estiver lendo essa carta eu não estou mais aqui, ou aí.

Eu não sei se com você foi a mesma coisa, mas no Jade do Oriente as lembranças caíram em cima de mim como uma bigorna. Simples assim. HEI, EDDIE, SE LEMBRA DE RICHIE TOZIER??? VOCÊ GOSTAVA DELE, NÃO GOSTAVA EDDIE?

Deus do céu, Rich. Não é que eu não gostava. Foi bem ali, sentado com a bunda naquela cadeira, que eu percebi que eu ainda gosto e

você gosta de mim, Richie??? será que eu vou saber disso um dia? Eu sempre senti que você também gostasse de mim. Você ficou com ciúmes quando eu disse que sou casado, não ficou? eu vi a sua cara de merda

quer saber de uma coisa? Eu joguei a minha aliança com a Myra fora. Joguei. Joguei pela janela, então se você encontrar uma aliança no chão do estacionamento você pisa nela, ok? E depois chuta ela bem longe.

Eu espero sobreviver, Richie, porque… porque eu tô com medo, cara. Eu tô cagado de medo e você viu o que o medo fez com o stan, não viu? Eu vou ser sincero. Meu maior medo é perder você de novo. Eu não quero perder você de novo

meu deus

eu espero que você não esteja lendo essa carta, Richie. Ou, se estiver, que esteja lendo ela comigo do lado, rindo, fazendo piadas, me deixando impaciente. Deus, eu espero que você não esteja lendo essa carta sozinho

me desculpa, Rich. Me desculpa

Merda

Merda

eu te amo, Richie Tozier

eu amo você, Richie

Richie

eu amei você

eu amo você e eu amarei você SEMPRE

desculpa, eu não consigo mais escrever. Eu não consigo pensar em morrer eu

Eddie

Richie se encostou na cadeira, jogando todos os seus oitenta quilos naquela velharia de quatro patas. Sentia a cabeça pesar e girar e doer, e sentia os olhos arder, cansar e tremer. Cambaleou um pouco quando levantou da escrivaninha, e demorou em torno de vinte minutos para terminar de guardar todas as coisas de Eddie dentro da mala. Roubou alguns comprimidos de aspirina do compartimento de remédio dele e tomou um deles a seco antes de descer para a recepção com todas as malas que podia carregar. Bill ofereceu ajuda, que Richie aceitou de muito bom grado. Com o despache de suas malas dentro do porta-malas e a de Eddie junto de Mike (pois disse Mike que tomaria conta disso), as despedidas vieram em abraços e um pedido para que Richie ligasse quando chegasse na Califórnia.

— Vou ligar — disse Richie — Vou ligar todos os dias, até você enjoarem de mim e decidirem desligar a tevê quando verem a minha cara.

Quando fechou o porta-malas, Bill e Mike entraram novamente no Derry Town House. Richie os observou até que sumissem, e então começou a andar pelo estacionamento do hotel. As mãos estavam enfiadas no bolso e ele conseguia sentir o papel da carta colidindo com seus dedos conforme andava. O sol refletiu no corrimão da escada, no retrovisor do carro e em um círculo dourado e minúsculo jogado no chão. Quando o notou, Richie agachou e mordeu o lábio.

(se você encontrar uma aliança no chão do estacionamento você)

Ele pegou a aliança dourada, a esticou na mão e levantou do chão. Richie

(chuta ela bem longe)

riu e guardou a aliança no bolso, caminhando de volta para o carro. Pensou que para Eddie podia ser só uma aliança estúpida que o lembraria pelo resto da vida de uma mulher gorda e possessa. Mas para Richie era a última lembrança física que teria do primeiro amor de sua vida.