Uma Vida de Anarquia
6 Salto
Notas iniciais
Na manhã seguinte, a luz fria do sol invadia e meu coração acelerou. Pensei na madrugada anterior, quando o interfone havia tocado sem que ninguém atendesse.
Decidi que precisava de um tempo ao ar livre. Estar no meu quarto e me lembrar dos acontecimentos dos últimos dias me deixava cada vez mais ansiosa e enjoada. Me sentei na rede que meus pais costumam se deitar aos domingos e fiquei ali por um bom tempo só observando a vida acontecer. Os carros passarem. As pessoas caminharem. As árvores se mexerem e os pássaros de um lado para o outro.
Olhei fixadamente para o chão perto da caixa de correios e percebi que havia um papel caído ao lado. Levantei-me com cuidado e fui até à calçada. No chão, havia um envelope simples, sem remetente, pousado ao lado da caixa de correio. Sem carimbo, sem selo, apenas um pedaço de papel dobrado.
Peguei com as mãos trêmulas e entrei, fechando a porta lentamente. Abri o envelope com cuidado. Era uma foto. Só uma. Um retrato antigo, meio apagado. Três homens num corredor estreito, vestidos de preto, segurando pastas e olhando para a câmera com expressões neutras. Um deles era meu tio.
Na parte de trás, uma palavra escrita à caneta:
“Salto”
Nada mais.
Meu corpo estremeceu. A sensação de estar vigiada se intensificou, como se os olhos daqueles homens estivessem escondidos nas sombras, observando cada passo meu.
Meu coração pesava. Aquela organização não queria me matar. Não ainda. Eles queriam me lembrar que estavam por perto. Que sabiam onde eu morava. Que sabiam quem eu era. E que, a qualquer momento, poderiam voltar.
E o pior de tudo? Eu não podia contar a ninguém. Nem aos meus pais. Nem à polícia. Nem mesmo a alguém que confiasse — porque não havia ninguém.
Eu estava sozinha.
Mas viva.
E isso era mais do que eu podia dizer do meu tio.
O peso da palavra “Salto” não me deixava em paz. Era como uma chave perdida, esperando o momento certo para destrancar uma porta que eu ainda não sabia onde estava. Isolada, a palavra não fazia sentido. Mas agora, presa à foto do meu tio e à ameaça silenciosa que pairava sobre mim.
Meu tio sempre foi uma figura reservada. Tinha um jeito estranho de dizer coisas importantes como se fossem banais, e escondia sentimentos atrás de piadas mal contadas. Nunca se casou, não tinha filhos e talvez por isso sempre teve comigo um vínculo diferente. Ele dizia que eu enxergava o mundo como ele.
Depois da morte dele, ninguém teve coragem de mexer no apartamento. Meus pais até falaram em vender, mas ficaram adiando, como se desfazer do lugar fosse o fim de tudo o que restou dele. O resultado foi que tudo permaneceu ali, intocado. Parado no tempo. Como se a qualquer momento ele pudesse entrar pela porta e reclamar da poeira.
Foi para lá que decidi ir.
Peguei a chave que ele sempre deixava comigo “para o caso de um apocalipse zumbi”, como ele costumava dizer, e caminhei até o apartamento. A cada passo, sentia o coração apertar um pouco mais. Era como se o silêncio da cidade me empurrasse para dentro de algo que eu ainda não entendia.
E havia também aquela sensação incômoda, crescente, de que eu estava sendo observada.
Não era medo. Era outra coisa. Uma inquietação estranha, como se o próprio destino estivesse me vigiando.
Quando cheguei à porta do apartamento, hesitei por um segundo antes de girar a chave. Respirei fundo, como se estivesse prestes a entrar num lugar que existia tanto na minha memória quanto no presente.
Ao entrar, tudo parecia congelado no tempo. A mobília simples, os livros alinhados na estante, o cheiro de café forte no ar. Busquei imediatamente pelo escritório, o único cômodo onde ele guardava seus papéis importantes.
No fundo da gaveta da escrivaninha, meus dedos tocaram algo rígido, escondido sob uma pilha de papéis antigos e envelopes esquecidos. Era uma pasta gasta, de couro sintético, com o fecho oxidado e uma fina camada de poeira por cima. O cheiro de mofo e papel envelhecido subiu no ar assim que a puxei.
Abaixei o abajur da escrivaninha e sentei, abrindo a pasta com o cuidado de quem sabe que está mexendo em algo que não deveria ser encontrado facilmente. Dentro, havia um amontoado de papéis amarelados pelo tempo, como recibos antigos, cartas incompletas, rascunhos de textos e algumas fotografias dobradas ao meio. Coisas aparentemente sem conexão.
Encontrei também um pequeno caderno preto, com a lombada desgastada e o nome do meu tio escrito à mão, em letras pequenas e firmes. “Jonh Oliver.” Simples assim. Sem data. Sem título. Como se ele não quisesse que ninguém mais o abrisse.
Folheei devagar. As primeiras páginas eram anotações simples, listas de tarefas, esboços de pensamentos soltos. Mas mais adiante, o tom mudava. As palavras se tornavam mais cautelosas. Quase codificadas. Datas misturadas com locais, setas e símbolos que se repetiam.
Foi só depois de reler uma página pela terceira vez que percebi algo sutil no rodapé, quase apagado:
“Salto — ponto de encontro. Aguardar instruções.”
A página seguinte trazia o desenho de um mapa rudimentar, marcado por rotas traçadas à mão. Em uma delas, uma lista de nomes escritos em tinta vermelha. Félix. O nome pulou aos meus olhos como se gritasse.
Meu estômago se revirou. Aquilo não podia ser coincidência.
Fechei o caderno com força e fiquei ali por alguns segundos, sentindo o coração bater alto demais, como se alguém estivesse prestes a entrar pela porta. Peguei tudo o que cabia na mochila: o caderno, o mapa, duas das cartas e saí o mais rápido que pude.
No caminho de volta para casa, o vento parecia cortar minha pele. Cada sombra na rua parecia mais viva.
Cheguei em casa com o caderno apertado contra o peito. Agora eu sabia que estava envolvida em algo muito maior do que jamais imaginei.
E, de alguma forma, tudo começava com “Salto”.
De volta ao meu quarto, fechei a porta com cuidado, como se o silêncio pudesse me proteger. O caderno do meu tio repousava na minha mesa, ao lado da foto antiga com a palavra “Salto” escrita atrás. Tudo parecia estar conectado, mas a linha que unia aquelas peças ainda era tênue, como um fio quase invisível.
Passei horas lendo as anotações do caderno, que misturavam siglas, desenhos enigmáticos e pequenos recortes de jornais. Cada página era um novo desafio. Eu sentia que meu tio tinha tentado me contar algo, só que em códigos, para que ninguém pudesse entender — ou para que eu mesma não me assustasse antes da hora.
Naquele momento, meu celular vibrou. Era uma mensagem do Louis.
“Você está bem? Sinto sua falta.”
Por um instante, pensei em responder, mas hesitei. O que eu podia dizer? Que estava imersa em um mundo que nem eu mesma conseguia decifrar? Que me sentia cada vez mais sozinha?
Decidi responder com algo simples:
“Estou aqui. Só preciso de um tempo.”
Mas naquele instante, não sabia se queria ajuda ou se queria resolver tudo sozinha.
Voltei ao caderno. Entre as páginas, uma anotação me chamou atenção:
“SALTO: ponto de ruptura. Onde tudo começou”
Um “ponto de ruptura”. O que isso significava? Um local? Um evento? Um momento?
Virei a cabeça para a janela e observei as luzes da cidade que começavam a se acender. Tudo estava tão quieto, tão perto do silêncio que até os meus próprios pensamentos pareciam sussurrar.
Eu precisava descobrir onde era esse tal “Salto”. Sozinha. Sem confiar em ninguém.
Porque, no final, aquele segredo era só meu.
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