No dia seguinte, deitada sobre a cama do meu quarto, a casa parecia mais silenciosa do que nunca. O caderno do meu tio, ainda apertado contra o peito, parecia que pesava toneladas com a quantidade de perguntas que eu ainda não sabia responder.

“Ponto de encontro”, era o que dizia a anotação no caderno. Mas o quê? Onde? Com quem? A sensação de estar no meio de algo maior me sufocava, mas ao mesmo tempo, me atraía como um ímã.

Foi então que o silêncio foi quebrado pelo toque inesperado do meu celular. Meu coração disparou na minha garganta. Era uma notificação com uma mensagem de Louis.

“Vamos nos encontrar hoje no mirante, ao pôr do sol? Sei que você sempre amou esse momento do dia. Acho que precisamos conversar, com calma.”

Por um instante, hesitei. Louis e eu carregávamos histórias, boas e ruins, e eu não sabia ao certo se estava pronta para reviver tudo aquilo. Mas havia algo naquela simplicidade que me puxava: o pôr do sol sempre foi meu refúgio, um momento de silêncio e beleza que me ajudava a organizar pensamentos confusos.

Aceitei. Respondi com um simples:

“Às 17h, no mirante. Até lá.”

O dia passou lento, cada minuto desenhando uma expectativa que eu não queria admitir. A casa misteriosa, Félix, Jax, os pensamentos sobre meu tio, o mistério de “Salto”, tudo competia por atenção, mas o pôr do sol prometia ser o único instante onde eu poderia respirar de verdade.

Quando a hora finalmente chegou, fui até o mirante com o caderno do meu tio na bolsa.

O lugar estava como sempre: a cidade se estendendo abaixo, com as luzes surgindo aos poucos, enquanto o céu tingia-se em tons quentes de laranja e rosa. O vento fresco trouxe à minha memória tantos momentos com Louis — risos compartilhados, silêncios que diziam mais do que palavras e todos os sentimentos que ele um dia me fez sentir.

Ele chegou silencioso, com um olhar calmo. O tempo não tinha apagado o que sentíamos, apenas o moldara em algo mais contido, mais verdadeiro.

“Lauren,” disse ele, com a voz firme, “estou feliz que você veio.”

“Eu também,” respondi, tentando esconder o turbilhão que sentia.

Olhei para o horizonte, onde o sol se despedia, e senti o silêncio entre nós. Nem eu nem Louis falamos uma sequer palavra. Mas com a gente sempre foi assim, somente a presença um do outro bastante, mesmo quando não havia nada para ser dito.


Ele quebrou o silêncio, olhando para mim e começou a murmurar algumas palavras calmamente, do jeito que ele sempre fez.

“Você sabe... Eu nunca segui em frente em relação à nós, Lauren. Nem quando a gente se afastou, mesmo com tudo o que aconteceu.”

Respirei fundo, sentindo o coração acelerar, mas mantendo o tom firme.

“Eu também não esqueci, Louis. Mas a gente se perdeu. Você se fechou, e eu fiquei com medo de forçar algo que não estava pronto para acontecer.”

Ele assentiu, olhando para as luzes da cidade abaixo.

“Eu me afastei. Não queria que você carregasse mais peso por minha causa.” — Disse Louis.

“Mas você não precisava fazer isso sozinho. Eu queria estar ao seu lado, mesmo nessas condições.” — Respondi.

Louis sorriu, um sorriso triste, que parecia carregar mais do que palavras poderiam explicar.

“E eu senti falta disso. Senti falta de nós.”

As palavras ficaram no ar, como um convite para reconstruir, ou talvez apenas para reconhecer que o que tivemos foi real — e que ainda podia existir, de alguma forma.

“Hoje, aqui, eu só queria que a gente fosse honestos um com o outro.” — Disse Louis

Concordei, sentindo que, naquele momento, estávamos exatamente onde deveríamos estar.

“Honestidade,” murmurei, “é tudo que eu quero agora.”

Ele virou-se para mim, olhando nos meus olhos com uma intensidade que queimava devagar.

Louis estendeu a mão, e eu a segurei firme. Por um instante.

Conforme o sol se punha além do horizonte, as luzes da cidade e das estrelas ficavam cada vez mais intensas. Ainda estávamos sentados lado a lado no mirante. Eu podia ver pelo canto dos meus olhos que ele me observava disfarçadamente. Eu virei meu rosto devagar, encontrando o dele a poucos centímetros de distância, e por um instante, não havia máfia, não havia mortes, não havia cadernos secretos ou palavras como “Salto” em minha mente.

— Eu sinto muito por tudo — ele disse, a voz baixa, quase um suspiro. — Por não ter lutado mais. Por ter deixado você ir sem explicar o quanto ainda significava pra mim.

Eu senti algo em meu peito ceder e queimar. Eu ainda amava Louis, nada tinha mudado. Eu inclinei meu rosto e meus dedos tocavam suavemente a nuca dele, e nossos lábios se encontraram.

Foi um beijo paciente, sem urgência, como se quiséssemos aproveitar cada segundo pelo tempo perdido e não tínhamos pressa para aquele momento acabar. Nenhum de nós sabíamos quanto tempo aquilo duraria, ou se duraria, mas, naquele instante, aquilo era o suficiente.

Quando nos afastamos, Louis estava me encarando com um sorriso breve, mas sincero.

— Isso quer dizer que podemos tentar de novo?

Eu dei um sorriso leve e encostei a cabeça no ombro dele, ainda olhando o céu escurecido.

— Isso quer dizer que talvez eu esteja disposta a reescrever algumas páginas com você. Mas devagar. Com calma.

Meu celular vibrou no bolso e me trouxe à realidade. Quando eu o peguei, havia uma nova mensagem, sem identificação de remetente. Só duas palavras:

“Você achou.”

Senti meu sangue ficando mais quente, meu coração batendo mais rápido e minhas mãos começarem a suar. Eu olhei em volta, como se pudesse encontrar o autor da mensagem em algum lugar ali no mirante. Louis notou a mudança na minha expressão.

— O que foi? — Perguntou ele, preocupado.

Eu rapidamente bloqueei a tela e guardei o celular de volta no bolso enquanto forçava um sorriso.

— Nada. Só uma notificação estranha.

Mas por dentro, tudo voltava a se embaralhar. Alguém sabia que eu estivera no apartamento do meu tio. Alguém sabia que eu estava começando a entender algumas coisas.

E agora, eu sabia que não havia mais como voltar atrás.

Me levantei, peguei a jaqueta e olhei uma última vez para Louis, que se ergueu ao mesmo tempo, preocupado.

— Lauren…

— Eu vou ficar bem — Disse, e pela primeira vez naquela noite, estava mentindo. — Preciso ir pra casa, mas prometo que nos falaremos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.