Uma Vida de Anarquia
5 Não diga nada
A dor me rasgava por dentro como se algo estivesse tentando sair do meu corpo. Eu gemia alto, tentando manter os olhos abertos, mas tudo ao meu redor começava a girar. O céu, as palmeiras, a rede que balançava com o vento. Tudo parecia uma pintura borrada.
Ouvi vozes. Distantes. Apagadas como se estivessem debaixo d’água.
— Lauren?! — Era a voz do meu pai. — Lauren, pelo amor de Deus!
Senti braços me erguerem do chão. Minha mãe chorava. Eu sentia seus dedos frios apertarem meu rosto, tentando me manter acordada. Eu queria dizer que estava viva, que consegui escapar, mas minha boca não se movia.
Apaguei.
Quando acordei, vi luzes piscarem no teto enquanto me carregavam. O cheiro de hospital invadiu meu nariz antes que eu pudesse me dar conta de onde estava. O som dos aparelhos. A agulha que rasgou minha pele. O soro entrando em meu braço.
Apaguei novamente.
Quando acordei, tudo estava em silêncio — um silêncio espesso, cortado apenas pelo som do monitor cardíaco. As paredes brancas. O cheiro de hospital. Um cobertor leve cobrindo meu corpo.
Minha garganta ardia. A luz do fim da tarde entrava pela janela, e por um instante eu não consegui distinguir sonho e realidade.
Meu pai estava ali. Cochilava, sentado em uma poltrona ao lado da cama, com os braços cruzados e o rosto cansado. Havia olheiras profundas sob seus olhos. Vi minha mãe se aproximar assim que percebeu que eu estava acordada. Ela tocou meu rosto com uma delicadeza que só se usa quando se teme quebrar alguém.
— Filha… você está bem? Você está segura agora, meu amor. O que aconteceu com você?
Engoli em seco. Mil palavras se formaram na minha boca, mas todas elas pareciam perigosas. Como explicar o inexplicável sem arrastá-los para algo que nem eu compreendia direito?
— Eu… me perdi. Fiquei assustada — menti, desviando os olhos. — Não sabia como voltar. Fiquei sem forças.
Minha mãe assentiu devagar, mas percebi a desconfiança em seu olhar. Me conhecia bem demais para acreditar tão facilmente. Mas, naquele momento, ela preferiu não insistir.
— Você precisa descansar. Está muito desidratada, com hipoglicemia. O médico disse que seu corpo entrou em colapso. Foi por pouco, Lauren.
Por pouco. Palavras que soaram como uma sentença.
No dia seguinte, quando meus pais saíram para conversar com o médico no corredor, uma enfermeira entrou no quarto. Mas havia algo de estranho nela. Os passos contidos demais. Os olhos fixos demais.
Ela não disse nada. Apenas colocou uma bandeja ao meu lado com um copo de suco e um bilhete dobrado, quase imperceptível, sob o guardanapo. E saiu como se nada tivesse acontecido.
Esperei que a porta se fechasse por completo. Meu coração batia forte demais enquanto eu desdobrava o papel: “Não diga nada a ninguém. Eles estão observando.”, era o que dizia o bilhete.
Minhas mãos começaram a tremer. O suco? Não toquei. Era claro demais o aviso. Eu já não sabia mais quem estava ao meu lado e quem fazia parte daquilo.
O papel estava amassado na minha mão. A frase repetia-se na minha mente como uma sirene silenciosa:
“Não diga nada a ninguém. Eles estão observando.”
Tentei controlar minha respiração.
Não toquei no suco.
Não toquei em nada.
Deitei de lado, virada para a parede, com o coração acelerado. Fechei os olhos, mas não consegui dormir. Cada som do corredor parecia suspeito. Cada passo. Cada sussurro. Cada ruído de rodinhas de maca ecoava no meu peito como ameaça.
No dia seguinte, ao acordar, a bandeja de café da manhã já estava à minha frente. Não vi ninguém entrar. Era sempre assim agora — tudo silencioso, como se até os funcionários tivessem sido treinados para se mover como sombras.
Meus pais chegaram pouco depois. Evitei tocar no assunto do bilhete. Eu não podia. Não apenas por medo, mas por instinto. Sabia que qualquer informação errada poderia custar caro. Talvez não a mim, mas a eles.
— Te liberam hoje à tarde — disse meu pai, forçando um sorriso. — O médico disse que você só precisa descansar em casa. Recuperar o que perdeu. Te dar um tempo.
Tempo. Era tudo o que eu precisava.
Na saída do hospital, tive a sensação clara de estar sendo seguida. Um homem parado perto da recepção folheava uma revista de cabeça baixa, mas ele não trocava de página. Os olhos estavam fixos demais. O corpo, tenso demais.
Não falei nada. Apenas apertei o passo, fingindo que não percebia.
Chegar em casa foi um alívio. Tudo parecia estar no mesmo lugar, mas eu estava diferente. Como se algo tivesse sido reorganizado dentro de mim — e não no bom sentido.
Na primeira noite, tranquei a porta do quarto e empurrei a escrivaninha contra ela. Coloquei o bilhete escondido entre as páginas de um livro antigo de literatura que ninguém mexia. Fiquei horas acordada, os olhos cravados no teto.
Esperando algo.
Ouvindo tudo.
Às 3h27 da manhã, o interfone tocou.
Meu corpo travou. Esperei que alguém atendesse, mas nada. Fui até o corredor, de pés descalços. Minha mãe dormia. Meu pai também. O interfone tocou novamente. Duas vezes, em sequência, e depois parou.
Voltei para o quarto sem atender.
Na manhã seguinte, perguntei casualmente se alguém tinha recebido alguma encomenda. Meus pais negaram.
E foi aí que percebi: eles estavam testando meus limites. Queriam saber o quanto eu resistia. O quanto eu falaria.
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