Uma Vida de Anarquia
1 A Rua Temática
Era uma noite neblinosa, já apontava em meu relógio que a madrugava se aproximava. Eu estava caminhando sem rumo, distraída, sobre o chão todo coberto de neve de uma cidade pequena do estado de Montana. Estava vestida com o meu casaco de pelos que aquecia meus braços e ia até os meus joelhos, todavia, ele já não conseguia mais me esquentar do inverno rigoroso que ali eu presenciava, porque a cada ano o frio aumentava drasticamente mais que o ano anterior.
Quando notei os ponteiros em meu relógio, já havia se passado um pouco mais de duas horas que eu estava peregrinando por aquelas ruas desertas. O barulho das asas de uma coruja me despertou a atenção, porém o que mais me cativou foi os olhos da ave, eles eram os mais penetrantes que eu já vira em toda a minha vida, a cor amarronzada dela combinava quase que perfeitamente com a luminescência de seus olhos. Mas ela rapidamente bateu as asas e voou para longe dali. Foi naquele momento que meus olhos deixaram a coruja e desviaram-se para a placa na qual ela estava pousada. Me dei conta de que eu estava exatamente na esquina da Rua Green com a Rua Stone. A terceira casa da Rua Green era onde eu e minha avó costumávamos morar antes que ela falecesse por problemas cardíacos. Caminhei até lá rapidamente. Em seguida, fiquei alguns minutos paralisada em frente à casa retomando algumas memórias antigas que ali vivenciara e que me apertavam o peito frequentemente. Mas o barulho dos motores de motos potentes me tiraram do momento nostálgico e me retomaram para a realidade. Várias motos passavam por mim e o barulho ficou ainda mais alto, porém não consegui ver quem eram os motoqueiros, já que a rua estava quase sem iluminação nenhuma, sendo sustentada somente pelo raios refletidos da lua cheia daquela noite. Foi rápido e dentre alguns minutos todas elas sumiram ao longo da rua.
Já estava muito tarde e aqueles motoqueiros tinham me assustado demais para que eu continuasse caminhando sozinha por mais algumas horas. Então decidi pegar um caminho diferente de volta para casa, um que fosse mais iluminado. Quando desci ao final da ponte de North's Wessex, avistei uma avenida com casas temáticas, muito conhecida pela cidadãos, principalmente pelos meus antigos amigos do meu colégio, mas nunca havia despertado em mim a curiosidade de passar por ali. No entanto, aproveitei a oportunidade de estar perto da famosa rua e resolvi passar por ali para conhecer um pouco daquele lugar que tanto falavam. Caminhei observando todas aquelas casas perfeitamente formadas e decoradas criativamente, mas uma delas em específico me chamou a atenção como nenhuma conseguiu. Ela tinha características diferentes e perfeitamente combinadas. Era uma habitação gigantesca arquitetada e estruturada em forma de cogumelo com as cores bem vivas. O proprietário provavelmente estaria acordado naquela madrugada ou havia esquecido as janelas entreabertas e as luzes acessas. Assim, eu pude ver através da janela que apontava para a sala, era tudo muito organizado e com as cores tão bem combinadas.
Eu ainda estava em pé em frente à casa quando o dono me viu por uma das janelas e saiu pela porta. Quando ele abriu-a pude ver suas feições, ele tinha cabelos brancos, mas não era tão velho. Pouco mais de 1,80 metro de altura, bem-alinhado numa camisa azul de botão. Seus cabelos brancos espessos teriam causado inveja em muitos reencontros de cinquenta anos de formatura.
— O que faz aí de fora com todo esse frio, menina? — Ele me perguntou olhando para a lua juntamente comigo.
— Des... Desculpe. Eu estava apenas observando sua casa. Achei muito interessante, mas já estou indo. — Olhei fixadamente para ele.
— Quer conhecê-la por dentro? Muitos me pedem isso, e como estou de bom humor hoje estou dando-lhe essa oportunidade, menina. — Ele me convidou gentilmente abrindo um sorrisinho.
Eu não pude recursar aquele convite. Quantas pessoas teriam a sorte de conhecer um lugar daqueles por dentro? Sendo assim, não hesitei em aceitar o convite daquele homem e rapidamente o segui para dentro de sua casa. A artrite o fazia mancar de leve enquanto percorria os corredores. No momento em que eu entrei naquela casa eu me senti muito confortável, era tudo muito bem organizado e aquilo me deixava à vontade. Nunca estive em um lugar tão aconchegante quanto aquele, ali realmente transmitia uma sensação boa e conseguia ser o melhor lugar para estar naquele inverno rigoroso de Montana.
Me sentei em um dos sofás enquanto o homem estava no outro cômodo, provavelmente a cozinha.
— Aceita um chocolate quente? — O homem gritou da cozinha e em seguida já estava trazendo uma caneca até mim. Eu apenas a peguei sem dizer nada. — A propósito, meu nome é Félix. — Disse com uma voz terna.
— Prazer, meu nome é Lauren, eu estava apenas passando pela rua e eu adorei a sua casa! Muito criativa, parabéns! Não quero incomodar, por isso acho melhor eu ir embora. — Eu disse me levantando.
— Obrigado! Dê uma olhada em como era essa casa antes que eu e meu pai reformássemos ela. Impossível, né? — Ele disse pegando um dos porta-retratos em que estavam sobre o painel abaixo da televisão.
— Uau! Como arquiteta, eu diria que essa casa não teria mais salvação. — Falei pegando em minhas mãos o retrato para que eu pudesse olhar mais de perto os detalhes. Era uma casa jogada para as traças!
O homem foi super gentil e receptivo comigo. Ele conseguiu prender minha atenção por bastante tempo depois que eu havia dito que precisava ir embora.
— O que significa esses circulados de vermelho nesse mapa, Félix? — Falei levantando do sofá e caminhando para mais perto do mapa. Passei os dedos pelos lugares onde estava marcado com caneta vermelha.
— São apenas os lugares onde alguns dos meus irmãos moram.
Do relógio muito antigo que estava pendurado em sua parede, saiu um cuco fazendo barulhos indicando que já eram seis da manhã. O que me deixou surpresa, já que o tempo ali tinha se passado tão rápido que mal pude acompanhá-lo. Perdi as horas.
— Félix, preciso ir! Foi bom conhecer aqui, me agregou muito como arquiteta. Obrigada pela oportunidade. — Disse, ignorando-o.
Ele apenas assentiu e me acompanhou até a porta. Acenando com a mão enquanto eu distanciava daquela casa.
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