Cheguei em casa e entrei pela porta dos fundos sem fazer muito barulho. Meus pais haviam saído na noite passada e chegaram cansados, por isso ainda estavam dormindo profundamente. Subi as escadas até meu quarto, enfiei debaixo dos edredons e adormeci poucos minutos depois. Acordei com os gritos de minha mãe dizendo que já era meio-dia e que eu precisava levantar para ajudá-la nos afazeres de casa. Em seguida, desci as escadas, cumprimentei meus pais, tomei meu café da manhã e logo fui ajudar.

Depois que terminei minhas obrigações, pensei em voltar até àquela casa de novo. Peguei minha bolsa, coloquei dentro minhas chaves de casa e saí caminhando até a casa. Quando cheguei na rua a primeira coisa em que meus olhos avistaram foi a coruja em que eu havia visto na noite anterior. Eu a reconheci pela linda combinação das suas cores, e a luz do dia refletindo sobre ela a deixava mais deslumbrante ainda, mas, novamente, ela bateu as asas e voou assim que eu cheguei mais perto da casa. Logo em seguida, meus olhos já se concentraram na porta da casa de cogumelos entreaberta, mas as janelas estavam fechadas, diferente da última vez que estive ali. Tomei liberdade para abrir a porta e entrar dentro da casa.

Entrei e notei que sobre a mesinha central da sala tinha uma xícara de café que ainda estava quente, o que indicava que alguém estava ali recentemente.

— Félix? — Chamei pelo homem.

Nenhuma resposta.

Decidi procurá-lo pelos outros cômodos que não tinha chegado a conhecer da última vez. Andando um pouco mais pela casa percebi algumas escadas que apostavam para uma porta lá embaixo. Que, apesar de possuírem código de acesso, estava aberta também.

Quando entrei dentro do cômodo eu não tive reação. O lugar era imenso e conseguia ser mais bonito que a casa em si. Estantes para todos os lados. Porém o que mais me deixou surpresa foi que nelas haviam muitos livros, armas de todos os tipos, coletes a prova de balas e outros objetos que não consegui reconhecer. Porém todas as estantes tinham acesso com senha e possuíam um vidro bastante espesso para proteger aqueles instrumentos. Andei por aquele lugar enorme à procura de Félix e, logicamente, de uma explicação para tudo isso. Mas não encontrei-o. Havia um corredor com um livro sobre uma mesa bem grande, todo escrito com penas de aves, que tinham a ponta bem afiada para ter uma escrita leve, fina e regular, sem grandes contrastes entre traços grossos e finos. Tudo perfeitamente organizado.

— Quem é você?! — Um homem perguntou eufórico. Mal pude me virar por completo e ele já estava apontando uma faca para meu peito exigindo uma resposta. (Enquanto era eu quem precisava de uma resposta para tudo aquilo.) Meu coração estava batendo tão forte que eu conseguia escutá-lo e, provavelmente, ele também.

Quando me virei por completo, engoli seco e fiquei mais assustada ao ver que aquele homem não era o Félix. Ele era bonito, porém suas expressões me davam medo, devia ter algo mais que vinte e cinco anos, com o corpo bem definido, barba loira e seus olhos eram azuis.

— Jax, pare! — Félix apareceu dizendo imediatamente para o homem quando viu que ele estava apontando aquela arma para mim.

Instantaneamente, senti o aperto no meu peito se desfazendo, e ele havia deixado de me pressionar com aquele instrumento. Eu estava sem palavras, não consegui reagir naquele momento, nem sequer exigir uma resposta ou sair correndo dali. Fiquei estática e logo vi Félix chamando o outro homem com as mãos e os dois subiram as escadas para conversarem. E eu fiquei ali sozinha, com medo.

NA SALA DE ESTAR

— Eu disse para você fechar a porta quando for cuidar do jardim, pai. Você sabe que as pessoas que passam por aqui ficam curiosas. Agora está tudo ferrado. O que vamos fazer com ela? — Jax falou olhando fixadamente nos olhos de Félix, com medo e ao mesmo tempo com raiva pelo descuido de seu pai.

— Não podemos simplesmente matá-la, Jax. A polícia iria criar caso com a gente de novo, e você sabe que não estamos em um bom momento para outra cola da polícia em nós. E além disso, não matamos pessoas inocentes, você sabe. Manteremos a Lauren aqui até pensarmos em algo. Comunique os outros e pensem em soluções. — Respondeu desviando o olhar para a porta da sala secreta e em seguida descendo em direção à ela.

{...}

Ouvi os passos dos dois homens descendo as escadas. Pelo jeito em que eles agiram eu provavelmente eu iria morrer agora por ter visto esse lugar.

Eles chegaram.

Em seguida Jax caminhou em direção às estantes que guardavam algumas cordas e as pegou. Ele estava vindo em direção a mim. Segurou com força em meu braço e me colocou sentada em uma cadeira que estava ali perto. Por mais que eu estivesse com medo, de alguma forma, os olhos dele falavam comigo com ternura.

— Me desculpe. — Sussurrou em meu ouvido enquanto amarrava meus braços por trás da cadeira.

— O que vocês estão fazendo? Por favor, não façam isso, me deixem ir embora. — Falei com certo desespero em minha voz e em seguida fechei meus olhos para não ter que encará-los nesse momento.

— Não podemos, Lauren. — Ele me respondeu, dizendo meu nome como se já nos conhecemos há longos anos. Disse meu nome de uma forma tão terna. Com carinho. Mas ao mesmo tempo com tanta dureza.