Uma Vida - Inacabada
6 Capítulo 6
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''Eu sei que você não consegue lembrar como brilhar
Seu coração é um pássaro sem asas para voar
Tem alguém aí fora?
Você pode pegar esse meu peso?''
(2018 — Ruelle)
***
Meu pai aparece no quarto algumas horas depois da nossa pequena conversa que tivemos. Guardo meu livro na prateleira e sento na cama para ouvi-lo dizer o que quer que eu faça, ele manda eu me arrumar, pois nessa mesma manhã pretende me levar ao grupo de apoio, mesmo eu dizendo que não estou querendo sair hoje, nem agora, sequer amanha ou nem ao menos essa semana. Mas eu não tenho escolha, eu tenho que ir, por ele e talvez por mim mesmo.
Olho-me no espelho no tempo em que estou penteando meus cabelos, vejo a marca roxa ainda presente em meu pescoço, eu ainda sinto como se ele estivesse me sufocando toda vez que eu passo meus dedos pelo meu pescoço. Noto pelo canto dos meus olhos Camila me observando enquanto eu coloco um cachecol de tecido fino sobre o pescoço marcado. Saio do banheiro ao ouvir minha mãe me chamando da cozinha vou até a cozinha e pego uma maçã que está sobre a mesa e saio de casa entro no carro comendo, percebo que Camila já se encontra sentada do meu lado sorridente, como se estivesse adorando que enfim eu vou sair, sendo que não é por vontade própria.
Vai da tudo certo, Nadia.
Eu suspiro deitando minha cabeça na poltrona do carro, fecho os olhos e fico pensando no que ela dissera, vai da tudo certo? Será mesmo que vai? Não acredito nisso faz um bom tempo. Como nem acredito que ela realmente seja real. Sinto essa angustia dentro de mim dizendo que não estou pronta para recomeçar, talvez seja parte do medo que tenho e que porventura passe, no entanto, quando isso irá passar? Quando poderei andar normalmente pelas ruas sem sentir medo, sem que algo martele na minha mente que tudo irá dar errado, que estou em perigo? Quando? Nunca mais?
— Chegamos querida! — minha mãe exclama, tirando-me dos meus pensamentos enquanto me fita pelo retrovisor.
Olho pela janela e vejo a placa grudada acima da porta dizendo ''grupo de apoio para jovens''. Sinto meus batimentos cardíacos aumentarem e em poucos segundos já me vejo soando sem parar. Eu sinto minha garganta da um nó de vontade de chorar e eu sei o que está acontecendo comigo. Eu estou entrando em pânico, não quero sair do carro de forma alguma. Noto minha mãe fazer um gesto com a mão para que eu saia do carro, mas eu não consigo me mexer e nem mesmo falar, o nó na minha garganta já está fazendo latejar. Eu nego no momento que consigo me mexer e a vejo olhar para meu pai com uma expressão tristemente irritada. Meu pai sai do carro e abre a porta de trás e segura minhas mãos, para me fazer parar de tremer:
— Eu... Não posso... Não posso sair. — solto suas mãos bruscamente quase não consigo ouvir minha própria voz de tão baixa que está.
— Pode sim. Sabe por quê? Porque eu estou aqui com você e sempre estarei.
O mesmo estende a mão para mim ao terminar de falar, eu suspiro enquanto passo a mão por meu rosto limpando as lágrimas que eu deixei cair. Eu saio do carro apertando sua mão fortemente e ele não se recusou tirar a mão nem por um estante:
— Mamãe você não vai vim ficar comigo?
Observo-a suspirar tristemente colocar as mãos no volante do carro e olhar-me nos olhos enquanto responde:
— Não posso minha querida, sabe, mamãe tem que trabalhar para poder sustentar você, eu sei que você entende isso. Mas quando eu puder, eu vou ficar com você até o fim.
Eu olho para meu pai que também me olha e que acaricia a franja que esta atrás da minha orelha, eu posso enxergar a tristeza em seu olhar e eu percebo que na verdade, ela nunca vai ficar até o fim comigo nessa, por que sempre que ela diz que vai, é sinal que ela não se importa com isso e que sempre vai preferir o trabalho a mim e novamente ela deu as costas, o carro já se encontra virando avenida.
— Ela irá vim nos buscar quando terminar. Não se preocupe com ela.
Eu dou de ombro e suspiro entrando no local, noto que tem dois sofás cinza-claros no canto da parede pintada de bege. A secretária atrás de um balcão de recepção grande e branco olhando uma pilha de papeladas. Vou a uma mesinha marrom onde tem um monte de globo de neve, olho cada uma delas é cada um mais lindo que o outro. Eu pego um na mão onde se diz Nova York de Nova York, com carinhos. Nova York por quê? Porque é muito foda, Nova York é tudo, melhor cidade. Sento-me no sofá fixo meus olhos no globo que eu acabara de chacoalhar. Levanto meu olhar ao perceber meu pai me encarando no canto da parede. Ele chega perto de mim e diz:
— A terapia em grupo já começou... Você esta dez minutos atrasada. Vamos?
Concordo com a cabeça e seguro sua mão levanto-me do sofá, ele me conduz até a porta que se encontra fechada e a abre seguimos reto por um corredor mal iluminado e logo meu pai abre a outra porta que é de vidro não dar muito para vê o lado interno com a porta fechada só algumas sombras. Observo em volta e vejo uma roda cheia de adolescentes da minha idade e até uns poucos mais velhos que eu. Vejo um homem alto com jaleco se levantar da cadeira e sorrir para mim dizendo:
— Bom dia. Você deve ser a Nadia. — estende a mão para eu cumprimentar.
— Onde posso me sentar? — pergunto rapidamente ignorando sua mão.
Ele tira a mão da minha frente e aponta para a cadeira vazia do lado de um garoto, engulo em seco olhando para meu pai que acena com a cabeça para que eu me sente. Sento-me na cadeira e vejo meu pai sair da sala suspiro olhando em volta e na minha mente parece que ninguém foi com a minha cara, certamente porque eu não cumprimentei o psiquiatra deles. Eu desvio o olhar e fito o psiquiatra que também está me observando, vejo-o inclina-se para frente e comentar:
— Meu nome é Pedro para aqueles que ainda não sabem ou esqueceram.
Eu junto minhas mãos na tentativa de controlar o meu nervoso, consigo sentir cada batida acelerada do meu coração está tão vertiginoso que parece que eu não sou a única que consegue ouvir.
Se acalme Mélia, estou aqui com você. Você está segura.
Estou tentando me acalmar. Eu juro.
Eu sei.
Respiro fundo enquanto noto pessoas começarem a me olhar pelos cantos dos olhos, começo a roer as unhas tentando não olhar para cada pessoa naquela roda, balanço minhas pernas devagar. Observo Pedro inclina-se na cadeira para o lado fitando uma garota que parece mais baixa que eu, ele pergunta:
— Evelyn, você quer começar?
Ela para de mexer suas unhas repetidamente e olha para o terapeuta que continua a encará-la, pigarreia a garganta e por um segundo o vejo me fitar a mesma sorri de canto para mim e foi quando percebo seu rosto formular uma pergunta: ''está pronta para ouvir? '' e ela fecha os olhos lentamente abrindo-os fitando Pedro, começando a falar:
— Okay... Vou começar... Hum... Meu nome é Evelyn como já sabem e... Eu tenho parassonia que é distúrbio do sono. E faz algumas semanas que eu não tenho um episódio de terror noturno o que é bom... Mas me deixa apavorada, pois toda vez que ela se acalma, essa droga volta cada vez... Mais forte. E eu estou com medo. Simplesmente com medo.
Ela passa delicadamente os dedos no rosto limpando qualquer vestígio de lágrima e eu vejo Pedro suspirar profundamente e dizer:
— Sei que está com medo... Mas como realmente você...
— Como eu me sinto Pedro? Eu estou completamente apavorada. Eu... Não tenho controle sobre meu próprio corpo quando eu durmo. Você não faz ideia do quanto é desconfortável você está em um terror noturno gritando, se batendo para tentar acordar, mas não consegue acordar até os minutos que parecem uma eternidade não passarem. Eu só queria que isso parasse, eu quero dar sossego para meus pais que não dormem por minha causa. Eu quero dormir como uma pessoa normal entende isso?
— Alguém aqui se simpatiza com o que Evelyn falou?
— Sim, eu te entendo Evelyn. Passei muito por isso há alguns anos atrás, mas pelo que notei... Nem todos nós se curamos da parassonia. — um garoto diz.
— Até o momento a meu distúrbio do sono não parou completamente. Mesmo eu me tratando com mudanças de hábitos de sono, controlar a ansiedade, ter uma rotina de sono relaxante, dormir por tempo suficiente e tomar medicamentos. Os terrores noturnos sempre voltam no fim... Mas como Pedro diz: devemos pensar que se uma janela se fecha, outra haverá de abrir-se em algum lugar.
— Sim, não podemos perder a esperança galerinha. Nem sempre as coisas serão fáceis, mas suportá-los bem e entender que você pode ter novas esperanças, ajuda e muito.
Sorrio de canto tentando guardar cada palavra que ele dirá, não podemos desistir facilmente. A vida é feita de obstáculos e devemos passar por eles de alguma forma. Torno a me mexer na cadeira quando percebo Pedro me olhando eu desvio seu olhar começando a olhar para minhas mãos que não param de tremer, fecho meus olhos com força lembrando-me da ultima vez que fiquei tão nervosa ao ponto de não conseguir controlar as minhas tremedeiras, o maldito galpão fora a ultima vez. Sinto o toque de alguém em minhas mãos eu levanto em um susto, ela sorri para mim e com seus olhos a vejo transmitir a mensagem: senta na cadeira. Eu volto a sentar na cadeira receosa ouvindo sua voz baixa e relaxada:
— Está tudo bem. Você está segura com a gente. – aperta cautelosamente minha mão.
E eu retribuo o gesto sorrindo para ela, à mesma sorri de volta. Ela parece ser uma boa garota, mas sua alma olhando fixamente em seus olhos, de alguma forma, está excessivamente machucada como a minha. Pedro me fita perguntando:
— Sua vez Nádia.
— Oi... Meu nome é Nádia...Sim, sem acento — engulo em seco tentando controlar meus batimentos cardíacos que está apressado querendo sair pela minha boca. — Essa é a primeira vez que venho em um grupo de apoio... E... — balanço a cabeça em negatividade. — Eu não tenho nada para falar, na verdade, nem mesmo eu sei a razão de eu estar aqui, não tenho nada para falar.
Todos me olham como se já tivessem passado pelo que estou passando, e pela primeira vez, eu sinto que realmente vou ficar bem aqui. O silencio tomou conta do aposento, fecho meus olhos tentando me imaginar sozinha naquele silencio todo é uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo, acho que ninguém no mundo quer realmente ficar sozinho.
— Muito bem Nádia, é um bom começo. Vamos tentar melhorar isso com o tempo. — comenta Pedro.
Abro meus olhos e o vejo examinar seu relógio por alguns segundos, ele suspira fundo colocando suas mãos no bolso do jaleco e esclarece:
— Bom... Vou liberar vocês mais cedo hoje. Nós veremos amanhã no mesmo horário, ok? Não se atrasem, por favor.
Levanto-me no tempo em que vejo as pessoas se levantando, quando me viro em direção à porta, sinto alguém segurar minha mão olho para pessoa e sorrio de canto fitando-a. Ela diz:
— Quer ir tomar um sorvete comigo e com Evelyn, só para se distrair?
Eu aceno positivamente para ela e para Evelyn que continua sentada na cadeira, como se já adivinhasse que ela faria isso. Pedro aparece do meu lado e pergunta:
— Eu posso interromper?
Ela acena que sim e ele estende sua mão apontando para o canto e eu vou com ele até a uma distancia que elas não podem ouvir e ele começa a falar:
— Nádia pelo que notei você é um tanto fechada. Então eu vou querer que você tenha algumas sessões individuais comigo, talvez... Se abra mais facilmente.
— Ok. Posso ir? — pergunto querendo sair de perto dele.
Ele concede com a cabeça e vou até ambas as garotas, olho para as duas e a que ainda não sei o nome comenta:
— Prazer Nadia. Sou Miranda.
Eu sorrio de canto para ela e ouço a porta se abrir e vejo meu pai olhando, noto seu rosto formar uma felicidade mesmo ele tentando esconde-la. Mas quando você vive sua vida toda com uma pessoa, dificilmente você não saberá o que há por trás dos seus olhos. Meu pai está extremamente feliz de me ver socializando, seu coração provavelmente está mais calmo agora. Sorrio para ele e o mesmo retribui e eu digo a elas sem tirar os olhos do meu pai:
— Aquele é o meu pai Jonathan. Vocês irão gostar dele.
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