Uma Vida - Inacabada
7 Capítulo 7
Correndo Com Os Lobos
''Reme o barco para terrenos mais seguros
Mas você não sabe que nós somos mais fortes agora?
Meu coração ainda bate e minha pele ainda sente
Meus pulmões ainda respiram, minha mente ainda teme''
(2015 — Aurora)
****
Entro na sorveteria enquanto ouço Miranda e Evelyn conversando atrás de mim sobre que sabores escolherem. Fito meus olhos na criança a minha frente que parece um pouco indecisa, ouço Evelyn sussurrar em meu ouvido esquerdo se a garotinha iria demorar muito? Tento evitar sorrir, mas é inevitável. A garotinha pega o cascão com enormes bolas coloridas: rosa, preto, branco e roxo. Uma linda torre de arco- íris, cores diferenciadas como diversidade étnica. Escolho sabor coço e floco com cobertura de chocolate e peço um canudinho Wafer Biju, sorrio para a moça atrás do balcão que ao mesmo tempo retribui e começa atender Miranda que olha o meu sorvete por alguns segundos com uma leve expressão pensativa. Saio da sorveteria e encaro meu pai que está encostado no poste de luz do lado de uma lixeira, ele me observa com uma fisionomia preocupada e um tanto cansado seguro sua mão apertando-a de leve e esclareço:
— Papai eu estou bem. Estou gostando de estar aqui. Você está comigo é o que importa.
Ele sorri de canto e acaricia minha bochecha sinto meu corpo querer se afastar, mas eu não me afasto. Eu seguro sua mão contra meu rosto fechando meus olhos enquanto sinto o sorvete começar a pingar pelos meus dedos, ouço a voz distante de Miranda me tirar dos meus pensamentos:
— Está derretendo tudo Nadia.
Eu rapidamente começo a lamber desesperadamente e logo já não pinga mais e já me sinto segura novamente com o meu sorvete em mão, começo a comer com a pazinha e em pouco tempo depois, já estou apreciando a casquinha que é crocante e doce. Respiro fundo sentindo um leve cheiro de terra molhada e olho para o céu identifico gotas começarem a cair sobre meu rosto fazendo a cada pequena gota em minha pele causar certo arrepio, uma sensação de relaxamento e vontade de deixar a mente vagar para bem longe.
Despeço de Miranda e Evelyn que viram no fim da rua, disseram que não podiam ficar por muito tempo por causa das coisas para fazer. Uma vai trabalhar e a outra irá cuidar da casa. Olho para meu pai enquanto ainda posso sentir a garoa fina cair sobre meu corpo, meu pai parece ainda mais apreensivo olhando para rua dos dois lados a cada cinco segundos, a espera de a qualquer hora mamãe aparecer, no entanto, ele sabe que ela não vai. Ela se esqueceu de nós e não é a primeira vez que ela faz isso.
Papai olha-me nos olhos e o noto tirar algo do seu bolso mostra-me a nota de dez reais sorrindo, o mesmo indica com a mão o ponto de ônibus do outro lado da rua, eu sorrio de canto para ele que estende sua mão para eu segurar e eu a seguro caminhando em direção ao ponto enquanto sinto minha mão formigar, desistimos da minha mãe que não veio até agora. Se ficarmos a espera dela capaz de chegarmos a casa tarde da noite, é melhor evitar a opção de esperar por alguém que não percebe que o tempo voa enquanto está ocupada com algo importantíssimo, que para nós não devia ser mais importante que sua filha e seu esposo.
***
Acordo sentindo cheiro de canja de galinha eu solto um leve espirro e noto minha garganta irritada e com esses dois sinais, eu percebo que estou perto de ter uma gripe forte, provavelmente. Percebo a porta de meu quarto abrir-se e fito meu pai entrando com uma bandeja pequena onde vejo que tem uma tigela branca vaporizando ar quente:
— Levante-se Nádia, precisa se alimentar. — sua voz soa rouca e ao fim ele tosse seco.
Sento na cama cobrindo minhas pernas com a coberta e o noto senta-se na beirada da cama colocando a bandeja em cima do meu travesseiro e me observar beber cada colher de caldo que ponho na boca. Devolvo a bandeja a ele que já se encontra mais leve de quando ele trouxe a mim. Ele acaricia meu rosto e admite:
— Você é uma boa menina, minha pequena.
Sorrio de canto e sinto seu toque em minha mão, ele a puxa para mais perto dele e o vejo movimentar a manga comprida que estou usando para cobrir uma ferida que eu mesma fiz em mim. Ele beija meu braço dizendo:
— Nunca mais faça isso, por favor.
— Eu prometo papai. Pai?
— Sim querida? — me fita sério.
— Na-dia. Na-dia. — rio.
Ele suspira revirando os olhos levantando-se com a bandeja em mãos e por fim o vejo acenar para a porta e eu entendo que ele vira novamente e dessa vez vai querer que eu esteja fora da cama e pronta para sair do quarto. Bebo a colher de mel que minha mãe me fez tomar para que a irritação na garganta passasse e ao mesmo tempo tomei uma bronca dela:
— Se você não sarar até amanha, irei fazê-la tomar aquele remédio que você odeia e trate de não vomitar! — vira-se jogando o pano que esta em sua mão na pia.
Segundos depois ela me olha nos olhos e beija minha testa sussurrando que me ama em meus ouvidos. Encaro meu pai que observava toda a cena na cozinha ele pisca para mim e dar sinal para que eu me afastasse e fosse para fora no momento que ele saísse pela porta e eu o faço.
Fito a porta de vidro tentando enxergar o lado de dentro, mas é inevitável. Sinto meus batimentos aumentarem a cada passo que dou em direção à porta, quero entrar ao mesmo tempo em que não quero. Abro a porta e entro olhando cada canto do consultório as paredes são brancas como o teto e o piso é de madeira, duas poltronas uma de cor clara e outra de cor escura: creme e preto. Penso que provavelmente você escolhe a cadeira dependendo do seu humor, sento na cadeira preta e olho para seu rosto que não consigo identificar como ele realmente está se sentindo. Vejo um sorriso aparecer pelo seu semblante e pergunta:
— Então Nadia como se sente hoje?
— Estou bem e você?
— Ah. Eu estou bem também.
— Que bom. — olhos para seus olhos enquanto começo balançar repetidamente minha perna esquerda.
— Como você está se sentindo agora?
Eu comprimo meus lábios e não respondo sua pergunta o vejo colocar uma musica calma e relaxante ao ponto de deixar qualquer um com um leve sono. Esfrego meus olhos para afastar o sono que está tentando tomar conta de mim, ele olha-me atentamente e pergunta:
— Seus pais me contaram que você gosta de escrever é verdade?
Eu concordo com a cabeça e ele escreve algumas coisas em um caderno de capa dura de cor verde-escuro. Seus olhos verdes me analisam de baixo em cima e ele questiona:
— Não quer mesmo falar sobre nada?
Observo a manga da minha blusa de frio e puxo mais um pouco para cobrir metade das minhas mãos. Ouço sua voz:
— Me fale sobre seu machucado e por qual motivo você o fez?
— Eu estava triste... E foi só um acidente eu não queria mesmo ter feito isso.
— Não Nádia, não foi um acidente. Você mesmo se machucou.
Olho nos olhos com certa raiva da sua sinceridade dele e respiro fundo continuando:
— Só queria que a dor parasse. — murmuro.
— Usando outra dor para camuflar a dor que você estava sentindo?
Afirmo com a cabeça e fico em silencio enquanto ele continua a me encarar e novamente ele pergunta:
— Se sente desconfortável comigo?
— Com todo mundo.
— Até mesmo com seu pai?
— Um pouco.
Começo a olhar para a janela atrás dele e a musica relaxante já não atingia meus ouvidos, concentrada na janela eu consigo ouvir os pássaros cantando e passando por perto, notar cachorros latindo praticamente sem parar, ouvir o vento agredindo os galhos das arvores fazendo as folhas partirem e caírem no gramado. Sorrio de canto enquanto Pedro levanta da poltrona de couro dele dizendo que nosso tempo já tinha acabado:
— Espero que na próxima sessão você se abra mais comigo. O silencio às vezes é bom, mas é bom tentar falar também.
Tento prometer que falaria algo na próxima vez, porém eu não consigo nem se quer abrir a boca para respondê-lo. Saio pela porta e atravesso a porta ignorando meu pai que ficou esperando que eu dissesse como fora a consulta. Eu não disse nada o caminho todo, e sei que ele também não gostou nada da minha atitude.
Fale com o autor