Assim que fui liberada pela enfermeira, me dirigi pro meu quarto, acompanhada de meus pais. Eles permaneceram no local durante alguns minutos somente, quando, finalmente, se retiraram para um "programa á dois". Eu resolvi que jantaria no meu quarto, afinal, não teria sentido ficar numa mesma enorme sozinha. Depois que terminei de comer, resolvi seguir o conselho de minha mãe: comecei a olhar as fichas dos selecionados.

Claro que isso havia virado um caso de extrema atenção de minhas criadas, pois as três se puseram ao lado de minha cama, com atenção as diversas faces.

Uns sete se passaram sem chamar minha atenção, até que um moço me fez ficar animada: seus olhos eram negros e brilhantes, e seu sorriso era branco como neve. Era um tanto bronzeado, o que me fez pensar que vinha do lado Sul do país, onde era bem quente e ensolarado. Fui lá uma vez, para um chá real com minha mãe. Observei sua ficha, e logo vi sua casta: 5. Minha mãe deve ter apoiado a escolha desse moço mais do que tudo. Ele era, ao contrário do que pensei, de Carolina do Norte. Tinha uma irmã e dois irmãos: a menina tinha onze anos, e os meninos, gêmeos, tinham treze. Família difícil, apesar da beleza. Ah! Algo despertou mais ainda meu interesse: ele era fotógrafo! Ai, que legal! Meu pai deve ter escolhido esse também!

Sem que minhas criadas percebessem, pois estas estavam passando meu vestido para a transmissão de amanhã, tirei a foto dele da pasta, e guardei na minha caixinha de objetos pessoais. Por ordem minha, elas nunca mexem nesta caixa, nem para limpá-la. Eu mesma o faço, e muito bem se querem saber. Não é só porque sou "mimadinha" que não sei me virar.

Mais algumas pastas se passaram, e vi outro rosto que me chamou a atenção. Aliás, que belo rosto. Olhos verde azulados, cabelos castanhos claros encaracolados. Um nariz meio grande, apesar da combinação perfeita com a boca fina e mandíbula marcada. Os dentes eram perfeitos, ou melhor, não: tinha uma leve lasca no canino direito superior. Vi sua casta, e me espantei: um Dois! Agora a beleza estava explicada: era modelo. Era bem mais alto que eu: tinha mais ou menos 1,70, mas o menino tinha 1,85! Nem o meu maior salto chegava á essa altura! Mas, ao contrário do outro garoto: Nathan, pelo que me lembro, não guardei a foto dele na minha caixinha.

Parei de olhar mais fichas quando vi um rosto familiar: Jonathan. Ele estava mais lindo do que nunca na foto: seus olhos estavam mais azuis do que o normal, e seu cabelo estava jogado para o lado. Ele dava um sorriso torto, onde eu conseguia ver suas covinhas. Tudo bem, eu não podia negar, ele era lindo.

Mais umas duas fichas, e a foto caiu da minha mão. Peter. PETER ESTAVA LÁ, NA MINHA FRENTE! INSCRITO! Mas ele não estava noivo? Por que se inscrever para a Seleção, para minha Seleção? Peguei a foto dele e de Jonathan, guardei na minha caixinha, e a tranquei com o pingente da minha pulseira. A botei cuidadosamente sobre minha escrivaninha e fui dormir. Não sei como tive sono, afinal, eu dormi a tarde inteira, nem ao menos almocei!

No dia seguinte, botei um vestido simples: verde musgo, com detalhes dourados na manga. Um salto pequeno, apenas cinco centímetros, e o cabelo preso num meio rabo. Saí do meu quarto distraída, pensando na Seleção, no Peter inscrito, no porque de tudo isso. Quando, de repente...

"Opa!"

Olhei para cima e o vi: Peter estava na minha frente.

"Perdoe-me, Leger, não o vi" disse o mais profissional possível. Não podia tratá-lo normalmente, ainda mais depois de ontem. Nos beijamos, brigamos, ele estava noivo, e aí, a grande notícia: ele está inscrito! Por que? Por mais que quisesse, não. Não podia perguntar, nem manifestar sinais de afeto.

Saí andando.

"Espere, Anna"

Ele puxou meu braço. De repente estávamos próximos, muito próximos. Ele segurando na minha cintura, e eu no ombro dele. Ele estava perto, seu rosto se aproximando....

"Pare!" eu disse "Pare! Não faça isso comigo! Você pensa que é quem? Primeiro, você se declara pra mim, depois me diz que está noivo, aí..."

"Tecnicamente, foi o contrário"

Revirei os olhos. Não estava acreditando.

"Que seja! Não faça isso comigo! Você está noivo, e..."

"Não estou mais noivo."

"Quê?! Por quê? Como?!" eu falei, demonstrando mais surpresa do que queria

"Eu ia lhe dizer o quanto gostava de você, mas acontece que fiquei nervoso, você estava tão linda naquele vestido! Você é linda, Anna! Aí fiquei nervoso, falei qualquer coisa, um nome qualquer... E de repente você sabia que nome era esse! Eu conheço a Célia, mas ela é casada, ou melhor, quase, porque namora sério um moço..."

Comecei a chorar. Por quê? Por quê?

"Não importa, Peter. Eu chorei por sua causa, até desmaiei por sua causa! Por favor, mantenha distância de mim, pelo menos até A Seleção."

"Mas, eu estou na Seleção!" ele disse, decepcionado.

"Eu sei, Peter" eu disse. Dei um beijo em sua bochecha, e me retirei.

O dia a seguir passou bem rápido. Preparativos com a festa e o Jornal Oficial, meu vestido, cabelo, maquiagem...

Bem, o resultado foi nada mais nada menos que eu linda: meu vestido me caiu como uma luva, e meu cabelo estava preso em um coque. Eu estava tão nervosa. Era como se tivesse uma enorme montanha russa dentro de mim.

Assim que entrei no Salão, uma música, a música do Jornal Oficial, começou a tocar, e todos olharam para mim. Procurei o Peter no Salão, e quando o vi, ele apenas me disse, silenciosamente "coragem". Respirei fundo, e fiz uma reverência.

Após todos os convidados terem sidos cumprimentados, me dirigi ao sofá onde os convidados especiais do Jornal sentavam, junto de minha família. O apresentador, Lucas, filho de Gavril, o antigo apresentador, anunciou as notícias.

"Muito bem pessoal!" ele disse alegremente "Agora, a hora mais esperada de toda a noite! Os selecionados de Illéa!"

Ele anunciou os selecionados, e eu imaginei as reações em suas casas. Minha imaginação estava com bloqueio de ideias, então olhei para alguns guardas. Alguns sorriam ao serem selecionados. De repente, avistei Jonathan, que sorrindo, deu uma piscadela para mim. Sorri em retribuição.

E eu o vi. Peter sabia que seria selecionado. Ele sorriu, timidamente, fez um joinha. Eu ri, e assenti como resposta. Vi a foto do menino da casta Cinco, e soltei um grande sorriso. Os meus pais queriam acabar com as castas havia muitos anos, desde seu casamento, mas sempre que sugeriam essa ideia aos países vizinhos, eram motivo de piada. Mas até hoje tentam, e eu tenho muito orgulho deles por isso.

No final do anúncio, tive de fazer meu discurso. Tudo bem, lá fui eu.

"Antes de mais nada, quero agradecer á todos aqui presentes, e á você que está nos assistindo em casa. Bom, se você foi um dos selecionados, quero que saiba: estou tão ansiosa quanto você! Juro, estou muito nervosa. Mas, não se preocupe, ao longo da vida aprendi que não devemos encarar tudo tão tenebrosamente como parece. O que quero dizer é... Encare isso como uma forma de fazer amigos, e boa sorte!"

"Lindas palavras, alteza" o apresentador disse, orgulhoso.

Assenti em resposta. Após o encerramento do Jornal, a grande festa começou. Dancei com duques e condes, apesar de serem velhos e desajeitados. Vi tia Marlee dançando com Tio Cárter. Corri para abraçá-los. Eles eram tão ocupados, mas tão legais e, além do mais, a Marlee era minha madrinha! E meu padrinho era o Tio Aspen, que conversava com minha mãe. Eu o abracei também.

"Mas essa menina está cada dia mais igual á você Meri" ele disse, para minha mãe "Sua mãe estaria orgulhosa.".

Acontece que minha avó morreu á alguns anos, e desde então os meus parentes por parte de mãe moram numa casa aqui ao lado, num dos terrenos da família real. Sinto falta dela, era tão sábia...

Logo depois de cumprimentá-los, fui dançar, mas ouvi uma voz grossa, que me fez estremecer.

"Gostaria de dançar alteza?" a voz disse

Assim que me virei, pisquei algumas vezes para confirmar minhas hipóteses.

Raphael.

Notas finais
Oiee obrigada por ler!! Quero dizer que não vou especificar a beleza de todos os selecionados, apenas de alguns que serão importantes para a história. Obrigada de novo!! Comentem algo!!