Uma Selecionada?!
6 Capítulo 6
Notas iniciais
"Raphael?" foi o que consegui dizer, demonstrando mais insegurança do que queria.
"Me concede esta dança alteza?" ele disse, com um sorriso.
Bom, eu não podia dizer que Raphael era o cara mais feio do mundo, ao mesmo tempo que não era maravilhoso. Seus olhos eram negros, e seu cabelo castanho escuro, encaracolado até os ombros. Tinha uma altura mediana, mais ou menos a minha com saltos, e a pele era branca como neve. Uma coisa não se podia negar: Raphael era forte, como os melhores Guardas do palácio. Sua mandíbula era bem delineada e o pescoço um tanto largo. Seus dentes eram compridos, e seus caninos eram pontudos, como os de um vampiro.
"Na verdade Raphael, eu estava indo dançar com meu pai e.."
"Vamos Anna, não estou bêbado, não tenha medo de mim." ele disse, arrependido.
Ergui uma sobrancelha em resposta. Arrependido, ele? Nunca me esqueci do que disse: Você merece alguém melhor, um rei, não um funcionário real qualquer. Lembro-me de como Peter me olhou aquele dia. Ele era tão jovem, tão novo... Bom, mais ou menos, afinal ele tinha a idade que eu tenho atualmente.
Resolvi dançar com ele. O quê poderia acontecer? Nós não estávamos no jardim, e ele não poderia fazer nada comigo, se não milhares de guardas pulariam em cima dele, como leoas á procura de sua presa.
Ele me puxou. Suas mãos era cheias de cicatrizes, com dedos finos e longos. Dançamos, e ele sussurrou no meu ouvido:
"Você está muito bonita, senhorita" ele disse, sério.
"Hã..." eu disse, um pouco indecisa em relação aquilo. Ele estava bem? Mesmo? Lembrei do que minha mãe me disse uma vez: Aja naturalmente, como se ele fosse um homem qualquer.
"Fico agradecida com o elogio, príncipe Raphael" eu disse, o mais calma possível.
Após alguns minutos de dança que, devo admitir, foram extremamente agradáveis, pois ele dança muito bem, Peter chegou, e eu não pude deixar de rir.
"Gostaria de dançar com a moça, vossa alteza" ele disse, deixando sua voz ainda mais grossa que o normal. Raphael fez algo ainda mais esquisito, o que mefez estremecer.
"Claro, por que não?!" ele disse rindo.
O príncipe fez uma breve reverência, e se retirou, arrumando a gola do casaco. Olhei para Peter, que apenas deu de ombros.
"Então você é um Selecionado, Leger?" falei, sorrindo. Não tinha como estar mais radiante do que isso.
"Agradeça ao meu pai" ele disse, revirando os olhos "Ele me obrigou, minha mãe até chorou quando soube da notícia..."
"Então... Você não queria?!" eu disse chateada.
"Quando eu me inscrevi, não estava falando com você." ele disse, tirando uma mecha do meu rosto "E pensei que seria uma tortura ver você com outros caras, bem melhores do que eu, sorrindo e rindo..."
"Por que 'bem melhores que você'?" eu falei indignada "Eles não são melhores que você, só porque são mais ricos ou tem empregos melhores. E nem todos, porque na verdade um Cinco foi selecionado..."
Ele riu.
"Ah, vai. Ele era bonitão, não era?" eu comecei a gargalhar "Ah não né, eu sou bem melhor..."
Eu nem conseguia mais dançar com aquela frase. Eu estava rindo, muito! Não sei se estava chamando a atenção, mas não conseguia parar! Eu o soltei e botei a mão na boca, e ele apenas riu mais. Andando, eu trombei com alguém.
"Me desculpe, senhorita..."
"Célia!" falei, animada. "Você está aqui!"
Ela riu. E viu Peter. Peter a viu. Eles se olharam por um momento, eu reconheci aquele olhar. Era um olhar de amizade, de cumplicidade. Mas não era o jeito que eu olhava pra Peter. Era o jeito que eu olhava... Para Jonathan.
"Com licença" falei, me retirando. Senti que não devia estar lá, que eu estava atrapalhando uma conversa, da qual eu não podia ouvir. Óbvio, não pude deixar de sentir ciúmes.
Andando sem rumo pela festa, encontrei Jonathan, dançando com uma menina. Acho que era filha da Elise, uma rainha. A menina não era muito bonita, mas devia ser engraçada, porque Jonathan não deixava de rir. Assim que me viu, fez uma reverência, e eu a retribui. Ela se retirou, e eu peguei a mão de Jonathan. Começamos a dançar.
"Boa noite senhorita. Bela festa!" ele disse, educadamente. Ao contrário de Peter, Jonathan se comportava exatamente como qualquer outro Guarda do palácio.
"Bonita não é?" falei, sorrindo. Não sei porquê, eu estava um pouco nervosa "Ansioso? Para participar da Seleção?".
Ele riu.
"Já passei por coisas piores na vida, uma simples Seleção não mata ninguém."
"Não julgue uma competição pelo prêmio" falei séria.
Dancei mais um pouco com Jonathan, e depois disso a festa passou voando. Dancei com mais alguns Guardas também, todos selecionados. E, assim que cheguei no meu quarto, dormi rapidamente. Pedi que minhas criadas passassem a noite em seus devidos quartos, não mais no meu. A Seleção começaria logo, não sei quanto tempo eu ficaria acordada com meu nervosismo. E elas só podia se retirar quando eu pegava no sono...
***
No dia seguinte, minha criada me acordou um tanto agitada. Mas ai me lembrei do porquê: A Seleção começaria hoje, e os "competidores" chegariam no palácio ás 3:00 da tarde. Eu estava nervosa muito nervosa.
Tomei café voando, e antes que eu pudesse ir para meu quarto, meu pai me parou, alegando que queria dizer algumas palavras antes do grande momento.
"Claro, pai" eu disse, aliviada por meus pais serem tão compreensivos e falarem as coisas na hora certa.
"Filha, queremos dizer que estamos orgulhosos de você" meu pai me disse, sorrindo "por encarar a Seleção de uma forma tão madura! E quero dizer que, na verdade, o seu nervosismo é totalmente compreensível! Quando tive minha Seleção, a única coisa que conseguia fazer no dia que as meninas chegariam era ficar no meu quarto, deitado, pensando em como tudo mudaria..."
"Obrigada pai! Eu amo vocês! Muito!" eu abracei os dois, o mais forte possível. Eu amava meus pais, como não amava mais ninguém, afinal, eles eram tudo o que eu tinha.
Fui pro meu quarto muito mais leve, como uma pluma, e cheguei a uma conclusão: não importa o tamanho do desafio, e sim como o encaramos- se apenas nos deixamos levar por ele, ou o vencemos, gloriosamente.
E eu já decidi: venceria a Seleção.
Porque eu sou uma selecionada.
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