[...A verdade é que fomos pouco a pouco nos perdendo, seja pela minha ausência com os compromissos de trabalho, seja com os nossos mal entendidos...]

...

Eu me lembro do momento em que parei para ler aquela carta.

Um pequeno sinal ressoou. E depois disso, todas as crianças que estavam divididas pelas várias salas onde tinham aulas dentro do orfanato, começaram a surgir de todos os lados daquele jardim.

Me recompus rapidamente e levantei dobrando o papel.

Eu estava prestes a voltar para a sala e procurar meu avô Marcel, mas me virei e vi que ele já se aproximava.

"Bem que Bernard me disse que você não estava se sentindo muito bem."encarou meu rosto por um instante com um olhar de pena."Sinto muito por ter te trazido hoje. Eu deveria ter pensado que os últimos dias não têm sido muito fáceis para você."

Meu avô disse que pediu ao motorista que me levasse primeiro para casa da tia Margot.

Segui ele até as portas dos fundos, um cuidado, pelo fato de que a entrada poderia ter um ou outro paparazzi enxerido.

"Rosie, espere."

Olhei para trás.

"...O que...?"

Bernard andou até nós com urgência e me estendeu o copo d'água que segurava.

"...Obrigada."

Ele sorriu, solidário. Percebi que encarou a folha de papel que eu segurava quando lhe devolvi o copo, mas assim como meu avô, não perguntou nada.

"Você devia voltar mais vezes para ver as crianças treinarem. Ouvi dizer que já ensinou violino. Como elas estão treinando para o coral, toda ajuda é bem vinda." sorriu.

"Ah, claro. Vou fazer isso sim. Mas talvez não seja de muita ajuda, já que eu não conheço muito bem esse repertório."

"Não se preocupe com isso. Só venha."

Concordei, agradecendo- o mais uma vez. Segui meu avô Marcel que me esperava mais a frente.

Respirei fundo observando as crianças brincando pelos corredores. Realmente... voltar àquele lugar me faria bem.

Tentei me preparar psicologicamente durante o retorno para casa da tia Margot.

Eu tinha conseguido evitar Marie a todo custo após a discussão que tivemos com a notícia do noivado de Osten. Mas seria pouco provável que ela não estivesse em casa naquele horário.

"Senhorita, sua mãe está querendo conversar. Me pediu para avisar que está no quarto."

"Ok. Obrigada, Phil."

O mordomo deu um aceno com a cabeça e seguiu para os fundos da casa.

Fui para as escadas e andei pelo corredor, o mais rápido que pude, passando diante da porta do quarto de Marie.

Amy e Audrey não estavam quando abri a porta do meu, deviam ter saído com Dani, Isaac e a tia Margot.

Guardei a carta de Osten em um lugar seguro, refletindo sobre o caos que seria se ela caísse em mãos erradas, como Marie, ou pior: alguém da mídia.

Voltei para a porta de Marie.

Eu podia ouvir o som vindo lá de dentro, uma das sinfonias mais tristes de Tchaikovsky na versão de flauta, o instrumento que ela frequentemente tocava. Era uma versão que uma vez tentei reproduzir no violino, mas acabei desistindo...

"Senhorita Rosie?Tudo bem? "

"Ah, sim!" parei de repousar a testa na madeira da porta. Phil deve ter me julgado uma maluca, mas eu não estava ligando muito para o fato. "Está tudo bem.Eu já ia..."

Bati, e esperei pelo instante em que a música cessasse para entrar.

Marie me direcionou o seu olhar vazio.

"Oi. Disse que queria falar comigo."

"Finalmente você chegou. Sente-se."

Fiz exatamente o que ela pediu, me acomodando em uma cadeira giratória.

Marie se recostou na cadeira de rodas.

Atrás dela estava a foto dela e sua falecida melhor amiga Celine em uma bancada.

Eu tinha quase 100% de certeza de que Marie havia feito algo contra Celine, pois as duas tinham se envolvido com o mesmo homem.Porém, ainda havia uma mínima possibilidade da morte de Celine ter sido mesmo uma tragédia.

"Tenho uma pergunta sobre seu pai. Brian tentou te contactar?"

Ali estava a confissão que eu não esperava de sua parte.Achei que ela fosse negar até a morte que eu era filha de outro homem.

Mas não deveria me surpreender tanto.

Allan havia saído naquela manhã para uma viagem de negócios. Talvez Marie só estivesse aproveitando a oportunidade para me dizer coisas que não ousaria na presença dele.

"Nunca o vi."

Ela riu, um som breve, seco.

"Mas é claro que já se falaram. Eu conheço Brian. Não se engane: ele só deve estar atrás da sua herança. Sempre quis o meu dinheiro. Pelo menos eu acordei a tempo... Ou não." Seus olhos percorreram-me de cima a baixo. "O erro já estava feito."

E como se não bastasse, continuou, a voz sem qualquer traço de emoção:

" Sabe, eu cheguei a pensar que, sem você como princesa, não havia motivo para te acolher aqui. Mas, na realidade, você vai ser útil sim."

"..."

Notei uma linha tênue de sorriso se formando em seu rosto.

"Sei que tentaram te proteger quando quis me livrar de você. Mas sua tarefa é simples. Não abra a boca sobre nada a respeito de suas origens, e deixarei Kriss e Elliot em paz".

" ...Certo". Murmurei me segurando para não demonstrar nenhuma emoção nos minutos seguintes, enquanto ouvia seus termos.

"Estamos de acordo?" perguntou.

"Sim".

...

Reiniciei o compasso pela milésima vez, mas parei na metade. Não importava quantas vezes eu o fizesse, não conseguia acertar tocar no ritmo adequado sem errar uma nota.

Tentei por mais cinco minutos melhorar, até me dar conta de que estava com a cabeça quente o suficiente.

A música sempre foi um escape, mas naquele momento, naqueles dias, não estava sendo.

Guardei o violino e abri um pouco da janela do quarto.

A neve que começou a cair na noite anterior se acumulava pouco a pouco nas ruas. Já estava um bom movimento frenético de pessoas circulando, com seus diversos compromissos e afazeres.

Poderia estar em Paris, uma cidade turística com uma arquitetura completamente específica, mas toda aquela rotina me dava uma sensação de familiaridade, como se eu estivesse em Columbia.

Eu tinha passado tanto tempo no palácio de Illea, ou viajando com Osten e a Elite, que por um bom tempo me esqueci como eram os meus dias antes da Seleção.

...Osten.

[...Eu te observei durante toda a viagem. Quis que conhecesse a minha rotina e, talvez, o que seria a sua rotina no futuro, caso decidisse seguir ao meu lado.

Eu precisava ter a certeza de que estava fazendo a escolha certa, mas, ao longo dos dias, notei como você foi perdendo o brilho no rosto...]

Eu me sentia grata por ele querer o melhor para mim, e por me fazer pensar mais sobre isso. Mas o modo como as coisas se encaminharam...

Não o procurei e nem ele me procurou depois que li sua carta, há quase uma semana.

No começo, me convenci de que estava apenas tentando me adaptar à nova rotina, buscando uma nova perspectiva.

De certa forma, era verdade.

Mas tentar esquecer a Seleção, Osten e todos os outros problemas — mesmo que por um tempo — não estava me fazendo bem.

"Pode entrar." respondi as duas batidas à porta.

"Bom dia, Rosie!"

"Bom dia..." devolvi o sorriso para a tia Margot.

"Achei que tivesse perdido a hora treinando, mas estou vendo que já está pronta. Está todo mundo tomando café, só falta você."

"Ah, sim. Já estou indo."

"E mais uma coisinha." ela estendeu a caixa que segurava na minha direção." Encomenda pra você, de Illea."

"Kerttu?!"

Abri rápido assim que reconheci a caligrafia de princesa na capa.

"Olha só, que lindo!" exclamou". Isso é um álbum de fotos?"

"Parece que sim..."

A capa era a ilustração de um jardim. Na primeira página, a dedicatória de Tyler.

'Seu presente atrasado... Feliz aniversário, Ro! Te amamos!'.

Havia uma assinatura dele dividindo a autoria com Kerttu, Stefan e Phoebe.

"Essa princesa é uma gracinha e pelo visto te adora... Porque ela simplesmente fretou um avião especial para esse álbum e os presentes da sua família adotiva.Phil está trazendo os outros presentes."

Dito isso, o mordomo surgiu com novos pacotes.

"Não acredito..."ri.

As primeiras páginas do álbum estavam cheias de memórias da minha infância com Tyler: de nós cozinhando juntos, brincando de super-herois e comemorando suas vitórias no baseball. Havia também fotos de Holly, e com minhas primas Hanna e Taylor. Ele ainda incluiu uma do parque de diversões, comigo, Fred, Arthur e Jean.

Na página seguinte, Stefan assinou embaixo de uma foto coletiva com as equipes que formamos naquele jogo de baseball no castelo.

Phoebe adicionou uma de um dia na praia comigo, ela, Kerttu, Suki e Emma, no resort onde May se casou; outra que tiramos junto com Aaron, Lorenzo e Delfina; e mais outra de quando fizemos uma competição de esgrima.

Depois, vieram as fotos escolhidas por Kerttu. Eu e ela com em seu aniversário, quando ela usou aquele vestido lilás parecido com um lírio. Momentos de nós cozinhando com Tyler, Stefan e Delilah; Quando aprendemos a costurar com Lee, além daquela aula de violino com as outras crianças da realeza.

A última página tinha duas imagens: na primeira, estávamos Kerttu, Osten, eu, no dia em que Maxon nos fotografou no jardim do castelo de Illea, sob uma árvore.

A segunda me custou um tempo para entender. Osten me carregava no colo, prendendo o riso enquanto me encarava dormindo.

Eu me lembrava de ter adormecido no cinema e dele ter me levado para o quarto.

Respirei fundo. Kerttu deve ter encontrado ele no caminho e pedido para tirar a foto.

Tive impressão de que a princesa deixou essa fotografia no final propositalmente.

Imagino o quanto ela deve ter surtado com o escândalo sobre o noivado de Osten e Ophelia.Aquilo provavelmente era a sua tentativa de me convencer de que Osten e eu fomos 'feitos um para o outro'.

"Parece que você está cheia de lembranças espalhadas por esse quarto..."

Concordei, vendo uma boina que Audrey comprou e deixou para trás.

Ela e Amy me chamaram há dois dias para explicar que já tinham passado tempo suficiente na França.

Vieram com o propósito de me acompanhar na Elite, e agora que não precisavam mais fazer isso, a viagem tinha perdido o sentido.

Desde que fomos ao Museu do Louvre, eu praticamente não passei tempo com elas.

Estava à mercê dos compromissos da agenda de Marie, das aulas com uma tutora de francês e também passando um tempo com o ensino de violino no orfanato.

Pelo menos as duas passaram a maior parte do tempo com tia Margot e Dani, assim conseguiram aproveitar melhor o passeio antes de irem embora.

As passagens para Illea foram compradas por minha tia, que negou qualquer tentativa de reembolso a mando de Osten, após as notícias sobre Amy e Audrey no aeroporto.

Depois que retiraram as camas delas do meu quarto, decidi encontrar um lugar específico para os objetos que eu trouxe na viagem e que até então estavam em minhas malas.

Nas estantes, os livros que ganhei da Elite—'A Fábula das Estrelas', 'A Fábula da Lua' e 'A Fábula da Terra' e os livros de "Turvas Memórias", a saga que Tyler começou e Osten terminou de me dar.

A caixa com o violino que Delfina e Lorenzo me deram ganhou um espaço ao lado do criado mudo. O cachecol de Suki no guarda-roupas.

Em cima da cômoda, encontrei um espaço para o colar com inicial "R" e a pulseira com pingentes de violino que Osten me deu, o chaveiro de coração do dia no parque de diversões com Tyler, o colar de passarinhos da família Artois e a caixinha de música e pulseira de pedras rosas e vermelhas que ganhei de Allan e Marie.

Os presentes vindos da minha família adotiva eram um sobretudo costurado pela minha avó Annie, um estojo para joias de minhas primas e da tia Lizzie, uma caneta preta com meu nome em letras prateadas por meu avô Josh e uma coleção de partituras antigas de violino vinda dos meus pais.

A tia Margot se aproximou do espelho em frente à escrivaninha, onde eu deixei as fotos da minha infância, da mesma forma que tinha feito no quarto em que eu estava no palácio de Illea.

Sua mão parou na foto dos meus pais.

" Poderíamos marcar de conhecê-los..."

"Ah, sim. Seria uma boa..." tentei não expressar meu nervosismo com isso.

"Você se lembra de quando eles conseguiram a sua guarda?" ela perguntou de forma suave, mas curiosa.

"Foi... complicado. Me disseram. Como fui deixada na frente da casa deles, precisaram me deixar no orfanato primeiro. Não podiam me criar sem uma autorização. Eu fiquei por lá por alguns meses, enquanto esperavam o tempo mínimo até que alguém me procurasse. Como isso nunca aconteceu, eles finalmente conseguiram minha guarda."

Ela suspirou.

"Eu e Madeline abafamos essa parte da investigação quando recebemos a informação de um bebê da mesma idade que você em processo de adoção em Illea. Para garantir que Marie nunca soubesse..." Ela meneou a cabeça, desviando o olhar. "Enfim...Vou indo na frente, assim você pode ver o álbum com mais calma."

Como era dia de semana, tia Margot iria levar Dani e Isaac para escola e depois iria para seu serviço. Ela trabalhava na administração da Academia de Artes Sonoras, junto à diretoria.

"Ok." Sorri."Não vou demorar."

...

Verifiquei minha nova agenda. O planejamento do dia seria um pouco diferente.

Normalmente, eu passava as manhãs em casa, treinando violino ou aprendendo com meu avô Marcel, até o horário da aula de francês com a Sra. Léa — a tutora que Marie contratou para me ajudar a melhorar o idioma.

Por sorte, ela era uma senhora bem fofinha: reservada, de poucas palavras e extremamente paciente.

No início da tarde, eu ia ao orfanato para assistir às aulas de violino das crianças. O restante do dia variava conforme os caprichos de Marie: acompanhá-la em leilões, eventos de caridade, cafés e jantares com suas amigas da alta sociedade.

Ela sempre dava um jeito de contratar alguém para me fotografar em público. Parecia ter uma necessidade vital de me exibir. Isso era reforçado pelo fato de que, pouco a pouco,cada vez menos repórteres nos seguiam — e os olhares alheios já não eram tão sufocantes.

A curiosidade ainda existia, claro, mas desde o escândalo das alianças de Osten, tive a impressão de que as pessoas estavam aderindo aos rumores sobre a minha eliminação.

Encontrei tia Madeline, tia Margot, Dani, Isaac, Marie, Marcel e, para minha infelicidade, Oliver, reunidos à mesa do café.

Eles conversavam em francês. Sentei-me à mesa ao lado do meu avô, que lia o jornal enquanto comia seu prato favorito: tarte aux pommes, uma tradicional torta de maçã francesa, acompanhada de café preto.

Ele me ofereceu um último pedaço que havia guardado.

Dani falava como uma matraca sobre sua nova coleção de figurinhas. Era bom vê-la feliz, ela tinha ficado tão chorosa com a partida de Audrey e Amy...

" Maman ! On peut aller patiner au Grand Palais ce soir ? "

("Mamãe! Podemos ir patinar hoje a noite na Grand Palais?")

" Je t'emmène, ma fille."

("Claro, filha.)

A loirinha comemorou.

"Rosie, tu viens aujourd'hui ?"

"Rosie, você vem hoje?"

"Elle ne peut pas. Aujourd'hui, elle va passer la journée avec moi et son oncle Allan."

("Ela não pode.Hoje vai passar o dia comigo e seu tio Allan.") Respondeu Marie.

Achei que Danielle faria um chilique, mas ela apenas me olhou triste.

"Mais... je voulais que Rosie vienne aujourd'hui..."

("Mas... eu queria que a Rosie fosse hoje...")

"Calme-toi, Dani. Noël approche, je serai plus libre de t'accompagner."

("Calma, Dani. O Natal está chegando, vou estar mais livre para ir com você.")

"Promesse!!"

("Prometa!!")

"Je te le promets"

("Eu prometo.") assenti, me sentindo satisfeita em ver seus olhos voltando a brilhar.

"J'espère qu'il neigera beaucoup, comme ça on fera aussi des bonhommes de neige!"

("Tomara que neve bastante pra gente fazer bonecos de neve também!")

"Oui"

(Sim).

Trocamos um sorriso.

Isaac rolou os olhos à minha frente.

Às vezes ele não aguentava os mimos da irmã, mas em outras era ele mesmo quem fazia. A tia Margot me contou que, no fim das contas, ele quase sempre acabava cedendo — levava a Dani ao parque pra patinar ou ao fliperama quando ela pedia.

"Hé, idiot, rends-les-moi !"

("Ei, idiota, devolve!")

"Tu vas pleurer chez ta mère ?"

("Vai correr chorando pra mamãe?")

Oliver havia pegado os últimos biscoitos de chocolate e, provocando, enfiou todos de uma vez na boca, lançando um sorriso debochado para Isaac.

Marie cortou os dois perguntando a Oliver sobre a confirmação da presença de Juliette- a garota morena que o acompanhou no dia do golfe e que era sua mais nova namorada- no evento da empresa da Artois.

Não duvidava de que existisse algum tipo de acordo para que Juliette fosse uma parceira de aparências. Alguém que suportasse receber chifres em troca de um destaque social.

Pela conversa dos dois entendi que ela não poderia ir ao evento por causa de um compromisso da família, e óbvio: Marie não aceitava um não por parte dela.

"Malheureusement, je me suis disputé violemment avec Juliette à ce sujet... Je doute donc de pouvoir la convaincre maintenant. De plus, nous avons rompu."

("Infelizmente, eu acabei discutindo feio com a Juliette por isso... Então duvido que consiga convencê-la agora. Aliás, nós terminamos.)

"En d'autres termes, il semble que Roméo se soit fait larguer par Juliette."

("Em outras palavras, parece que o Romeu levou um fora da Julieta.")

Oliver lançou um olhar de advertência para Isaac no mesmo instante.

O péssimo trocadilho do meu primo me custou ter que segurar o riso, meu avô precisou fazer o mesmo.

Foi então que Marie perdeu o controle:

"Je n'arrive pas à croire que tu aies mis fin à une autre relation. Reviens avec elle immédiatement !"

("Não acredito que terminou outro relacionamento.Volte com ela imediatamente!)

Oliver a encarou pasmo, todos nós na verdade.

"Tu n'es pas sérieux !"

("Não está falando sério!")

"Tu ne l'as pas trompée non plus, n'est-ce pas ?"

("Você não a traiu também, traiu?")

O clima da mesa pesou de vez.

Oliver jurou de pé junto que não havia feito nada de errado. E que não iria forçar Juliette ir no evento da Artois, porque queria respeitar o espaço e as decisões dela.

"Quoi ?"

("Que foi?") Ele me interrogou impaciente, visto que eu o encarava.

Respeitá-la?!

Aquele não podia ser o Oliver.

E, pelo visto, não era apenas eu a estar chocada.

" À ce point, Juliette a sûrement déjà cherché à se remettre avec son ex... Comment il s'appelait, déjà ? Dominic ?"

("A essa altura, Juliette provavelmente já tentou voltar com o ex... Qual era mesmo o nome dele? Dominic?")

Dessa vez o olhar de Oliver para Isaac foi fulminante.

"Tais-toi, espèce de peste. Tu n'as aucune idée de ce qu'est une vraie relation."

("Cale a boca, sua peste. Você não faz ideia do que é um relacionamento de verdade.") Ele, pelo visto, irritou de verdade, tanto que se retirou da mesa.

"Attention au corne... la porte est baissée !"

("Cuidado com o chifre... a porta é baixa!")

Dessa vez, quem soltou o riso primeiro foi meu Marcel. Dani riu com a gente, provavelmente sem entender nada. Só Marie e o mordomo Phil (visivelmente se segurando) mantiveram a seriedade.

Marie lançou um olhar cortante para a tia Margot, que ainda se recuperava do riso.

"Je te l'ai dit. Contrôle ton fils. C'est ridicule."

(Eu já te disse. Controle seu filho. Isso é ridículo).

"Tu ne contrôles même pas bien le tien."

("Nem você controla bem o seu")

Achei que Marie fosse rebater, mas ela também se retirou.

...

O verdadeiro perfume de rosas é diferente do aroma sintético de uma flagrância em um pote de vidro. Um fato. Haviam vários deles à minha frente, naquela sessão interna da empresa Artois.

E não só perfumes. Todo tipo de colônia, maquiagem e produtos de pele e cabelo estavam sobre o teste minucioso dos funcionários responsáveis pelo desenvolvimento das novas linhas.

Eu podia ouvir a voz de Marie de longe, enquanto discutia detalhes técnicos com os perfumistas e executivos.

Eles estavam reunidos na ala de pesquisa e desenvolvimento, atrás de portas de vidro semi abertas.

Tia Madeline passou por mim conversando com um funcionário e deu um aceno rápido com a cabeça.

Oliver estava do outro lado, perto das câmeras, coordenando o trabalho de duas modelos francesas.

Tentavam pela sétima vez, pelas minhas contas, fazer um comercial perfeito.

Assim como Oliver não mais poderia ser usado como um modelo, eu agradecia por também não ter sido escolhida.

Mas,uma hora ou outra, isso iria mudar.

A estratégia de marketing da Artois seria fazer isso apenas após alguns meses. Queriam deixar a poeira baixar, até as pessoas esquecerem o suficiente de nossa imagem negativa.

Por isso, Marie passou a usar o filho em eventos e discursos sociais, tentando torná-lo uma das principais figuras da Artois.

Sua intenção era passar a narrativa de que agora ele estava assumindo seus compromissos, aprendendo com seus erros e se tornando uma 'pessoa melhor'.

E minha presença, como deixado bem claro por ela, era necessária apenas para passar a imagem de que se importavam com o meu retorno à família.

"Rosie!" Fui até onde Allan estava dando lhe um abraço. Ele estava de volta da viagem."Você e sua mãe estão já prontas para ir, né?"

"Sim, estamos." assenti.

"Ah, que bom! Não podemos atrasar."

...

Estacionamos em frente ao prédio branco-acinzentado, com varandas de vidros escuros e uma decoração que Marie havia classificado como sem graça quando passamos por ali no meu primeiro dia na França.

O embaixador Theodore e sua esposa, Harper, nos receberam — Allan, Marie e eu.

Allan e Theodore eram amigos e haviam marcado um almoço.

Allan e Marie atuavam bem. Sorriam com os olhos apertados, riam em uníssono das histórias de Harper e trocavam olhares que, aos olhos de qualquer um, poderiam parecer naturais. Mas eu sabia a verdade.

Laura, tia Madeline e tia Margot me disseram que Allan sabia de tudo sobre minha história. Desde então, ele apenas... fingia para Marie que não sabia de nada. Pelos motivos dele, e que nenhuma delas ousou questionar.

Agora tudo fazia sentido. Quando Osten o procurou para sugerir um novo teste de paternidade para averiguar se Oliver não poderia ter sabotado o primeiro, Allan aceitou. Mas, desde que eu havia chegado, ele não se preocupou em realizá-lo.

Não era necessário.

Subimos as escadas atrás dos anfitriões.

Chegamos em uma outra sala de estar com um espaço para um piano e dois pedestais de flauta e um de violino.

"São dos meus dois filhos. Eles são adolescentes, estão na casa de um amigo. Eu e o pai dele adoramos quando tocam, parece que a casa fica preenchida, sabe?"

"Sabemos como é..."disse Marie me encarando com uma ternura fingida."Agora que temos Rosie conosco, estamos completos."

Era possível ver a Academia de Artes Sonoras pela janela, além de um vislumbre da Torre Eiffel, do lado oposto, quase tampada por uma construção à frente.

Encarei os instrumentos mais uma vez. As paredes tinham pinturas de paisagens de florestas e de campo florido. Era um ambiente calmo e aconchegante...

"Você gostou?"

Dei um mini pulo com o toque no ombro de Harper.Mal percebi que tínhamos ficado para trás.

"Ah, sim. Sua casa é muito bonita. De verdade."

"Obrigada, mas não posso receber o mérito pela decoração. Eu e meu marido não iríamos vir para cá, a princípio. Mas eles mudaram nossos planos de última hora e nos trocaram com um funcionário da embaixada que iria se mudar e já tinha decorado a casa. No final, ele foi transferido para a Áustria em nosso lugar." ela passou a mão pelo móvel onde estava um buquê de rosas" Senti assim que entrei o quanto era sortuda. Já morei em outros lugares, mas nada como aqui."

" Você... já morou em quantos países?"

"Portugal, Colômbia, Nigéria, Itália, e agora aqui na França."

Ela começou a falar sobre suas experiências nesse país com Theodore. Minha mente voltou ao jantar na embaixada da Nova Ásia.

"Eu estava perguntando o que pretende fazer se você se tornar a próxima princesa de Illea?"

Era o que a diplomata Sammy havia me perguntado na frente de Suki e outros convidados.

"Como... o que quer dizer? De serviço? O que pretendo fazer é apoiar o Osten em tudo, e ..."

"Está preparada caso tenha que ficar mais de dez anos no exterior?"

Eu me lembro de ficar tão sem graça e não conseguir lhe responder como devia. Eu sabia o futuro que me esperava caso me envolvesse com Osten. Ele certamente não moraria em Illea, eu teria que me adaptar a um novo local.

" Você está bem, querida?"A voz de Harper me trouxe de volta à realidade depois de um tempo em que apenas ela falava e eu concordava com a cabeça. Ela foi educada, e eu esperava do fundo do coração que não tivesse feito nenhuma pergunta. "Você gosta muito de flores, não é? Venha até o jardim comigo."

Ela apenas relevou o meu comentário de que iriam sentir nossa falta no almoço e garantiu que seria rápido.

O jardim ficava na parte onde seria o quintal da casa. Me surpreendi por ele ser coberto, como uma estufa. A luz natural que atravessava o teto iluminava fileiras de vasos altos, prateleiras com ervas, arbustos floridos.

"Fui eu quem mandou construir essa proteção de vidro" disse Harper, com um leve orgulho na voz. "E acrescentei mais essas Tulipas, Jasmins e Lavandas. Essas são as camélias, mas você já deve conhecer."

"São minhas flores preferidas. Um pouco mais do que rosas e lírios ", admiti.

"Um bom gosto. Elas já estavam aqui. Acabei pesquisando um pouco quando cheguei e só então descobri porque o administrador não colocou uma proteção antes. Camélias são flores que sobrevivem ao frio e até à neve. Sabia disso? Algumas florescem até mesmo no auge do inverno!"

"Sim..."

...

Na segunda parte da tarde, acompanhei Marie até um atelier de imagem, um espaço sofisticado onde descobri que cuidam de tudo — desde a escolha da roupa até a maquiagem e o penteado —, especialmente preparado para atender clientes ricos e exigentes como ela.

Encontramos Laura e sua avó se arrumando ali também.

Até onde eu sabia, a família Blanchet era sócia da empresa da minha família, por isso com certeza estaria presente no evento de lançamento de uma linha de cosméticos da Artois.

Me lembrei de Amy e Audrey quando começaram a me mostrar diferentes visuais. Elas com certeza teriam gostado de fazer isso.

Marie elegeu para mim um vestido de manga longa, ombros descobertos, cor preta, acompanhado de um par de sapatos altos prateados.

"Você sempre usou tons claros."disse Laura." Também fica bem com tons escuros, deveria usar mais vezes."

Agradeci, elogiando-a de volta.Ela estava com um visual semelhante, porém em azul-escuro, com um brilho cintilante e um tecido mais leve.

Não éramos tão próximas como duas irmãs que cresceram juntas, mas como Laura estava em quase todos esses encontros do círculo social de Marie, foi um tanto fácil acostumar com sua presença.

"Passons maintenant au maquillage."

("Agora vamos passar para a maquiagem.") Disse a funcionária. Ela nos indicou duas cadeiras disponíveis em frente a uma bancada com um espelho.

Enquanto me sentava, vi que a TV foi ligada a pedido de Marie e Sarah em um canal específico.

Apareceu um estúdio televisionado com Mike, o apresentador principal, e dois convidados do Jornal Oficial: Gavril Fadaye e Diana Tilley. Eles comentavam sobre as Selecionadas — aquelas que haviam se casado e o que andavam fazendo.

Suki teve uma breve aparição em um leilão beneficente na província de Ottaro com a família.

Emma foi flagrada entrando em um plantão de enfermagem, desviando de um repórter com um "Estou feliz com minha vida. Agora, com licença, tenho serviço."

Phoebe apareceu em uma filmagem de um jogo de futebol com as amigas.

" Agora Calgary? Bridget Collins. Essa ex selecionada deu o que falar."

" Não é para tanto Mike." Diana assumiu a fala." Para quem está perdido, essa semana tivemos uma nova atualização."

Eu aproveitei que estava maquiando para fechar os olhos, mas como a entrevista estava na minha língua e legendada, infelizmente ouvi cada trecho.

Os noticiários vinham falando sobre Bridget há quatro dias. Quando soube, Phoebe me ligou imediatamente para fofocar.

A novidade envolvia o julgamento sobre o sumiço das joias.

Phoebe estava eufórica com o fato de que conseguiram recuperar a gravação que ela arriscadamente fez quando estava escondida embaixo da cama do quarto da ruiva.

Achamos que tínhamos perdido a gravação, mas a equipe do palácio conseguiu resgatar e divulgar. Nela, Bridget admitia tudo o que havia armado para incriminar as selecionadas, incluindo Denise e Scarlet, pelos roubos.

Se o príncipe tinha isso há tanto tempo, por que não o usou antes? Talvez quisessem o momento certo para revelar...

De qualquer forma, as sessões judiciais eram sempre demoradas. Agora, com novas testemunhas — como Romanie, a criada de Bridget, encorajada a depor por Osten — e minha participação, Denise e Scarlet foram finalmente absolvidas.

"E de Columbia, o que dizer quanto a Rosie Ambers, hã?" Respirei fundo com a abordagem de Mike. É óbvio que eu não ficaria de fora do assunto.

Enquanto ele falava, mostraram na tela atrás deles imagens minhas em um treinamento das crianças para o recital de natal, em um pequeno teatro.

"Rosie está com uma agenda bem atarefada com sua família pelo visto. Nos últimos dias ela apareceu em um leilão beneficente e em três encontros sociais. Isso é um grande contraste em relação à sua saída de Londres.Lembram?"

"Como esquecer?" Um riso discreto de Diana" Ela estava tão triste, com um ódio do público tão declarado..."

"Pelo que vejo, Rosie está vivendo um momento bem melhor se comparado aos últimos meses."disse Gavril.

"Sim,"concordou Diana."Agora pelo menos parece estar mais livre do passado, está se encontrando..."

Eu fui a última candidata a ser mencionada, antes da pausa comercial.

"Cet enregistrement... il est arrivé juste au bon moment.

("Aquela gravação... ela veio no momento certo.") A voz era de Sara, que conversava com minha mãe a alguns metros dali em um sofá. Já estavam prontas para o evento.

"J'ai trouvé que le penalty de Bridget était vraiment, vraiment..."

("Achei a penalidade de Bridget tão, tão...")

"Médiocre"

("Medíocre.") Sara completou a fala de uma das funcionárias. Bridget iria cumprir trabalho comunitário no lugar de Scarlet e Denise.

"Cela aura un impact positif sur l'image de Rosie."

(" Isso vai ter um impacto positivo na imagem da Rosie ") disse uma outra mulher.

"Mais malheureusement, cela n'efface pas ce qui est arrivé à ces top models. Les gens continuent de juger ma fille."

("Mas, infelizmente, não apaga o que aconteceu com as modelos. Ainda julgam a minha filha.") respondeu Marie, com um tom de pesar.

"Il ne faudra pas longtemps pour que les gens comprennent son innocence. L'amitié entre ces mannequins anglais et Bridget est indéniable."

("Não vai demorar muito para que as pessoas entendam a inocência dela. A amizade entre essas modelos inglesas e Bridget é inegável") disse Sara.

O hate começava a diminuir, eu sabia, mas não desapareceria tão cedo.

"Eu estou doida para saber sobre o processo da Bridget por aquela tal Adelaide. Dizem que o desfecho será infinitamente melhor ", comentou Laura, no momento em que as maquiadoras foram buscar o restante dos produtos.

Deixei de encarar meu reflexo no espelho para olhar para ela.

"É, talvez sim..."

"Essa ruiva deve ter feito um caos desde o início da Seleção. Uma hora ou outra vou querer saber, quando você estiver com paciência para contar. Parece que está meio farta desse assunto." disse ela em um tom baixo.

"Ah... sim. Como sabe?"

Eu tinha tentado disfarçar minhas emoções ao máximo, fingir indiferença.

Ela semicerrou os olhos brincalhona.

"Você não é tão difícil assim de ler, Rosie."

...

A festa de lançamento dos produtos da Artois foi em um salão de eventos de um famoso hotel parisiense.

Câmeras discretas estavam espalhadas nos cantos, prontas para registrar cada detalhe da noite, enquanto os convidados — sócios, empresários e amigos dos Artois — se misturavam num vaivém elegante de vestidos de seda e ternos sob medida.

O repertório musical vinha de uma caixa de som, era animado, com músicas letradas de cantores famosos.

Cansei rápido por tanta gente que cumprimentei junto a Marie e Allan.

Tia Margot conversava animadamente com conhecidos franceses, sua taça de espumante em uma mão e o olhar atento o tempo todo onde estavam Isaac e principalmente Dani, que tinha uma babá contratada para vigiá-la.

Tia Madeline estava negociando o tempo inteiro com os principais convidados.

Meu avô Marcel, apesar de ser o dono da empresa,estava apenas preocupado em rever os amigos, rir e contar histórias perto do buffet, talvez exagerando detalhes, mas encantando os ouvintes com seu jeito teatral.

Oliver parecia nervoso — até Juliette chegar. Eles rapidamente cruzaram os braços e andaram juntos falando com o pessoal, o que foi estranho, pois até onde eu sabia, havia terminado.

A não ser que...

Não consegui conter a curiosidade. Esperei até ver os dois se afastarem um do outro para me aproximar dela.

Juliette usava um vestido pérola, com um decote quadrado que deixava os ombros à mostra de forma discreta. Os cachos volumosos caíam sobre a cintura.

Cumprimentei-a com um "boa noite".

"Juliette, né? Sou Rosie. Ainda não fomos apresentadas, mas sou irmã do Oliver."

Ela assentiu.

"Claro que te conheço."

Ficou me encarando, como se esperasse algo.

Resolvi ser direta.

"Oliver disse que não poderia por ter compromisso da sua família. Marie, hã, já deve ter percebido que ela não é flor que se cheire. Por acaso, ela te chantageou para você aparecer?"

"Está me chamando de marionete?" ergueu as sobrancelhas.

"Oi?"

"Só para deixar claro. Eu vim porque quis. Em vez de falar de mim. Olha pra você.Tentando se encaixar num ambiente que claramente não te acolhe."

"Ok... eu poderia ter dormido sem essa." Suspirei assim que ela se foi.

"Não sei o que te faz pensar que uma pessoa boa se envolveria com o seu irmão." Murmurou uma voz ao meu lado.

Era Laura.

"Bom nesse caso, eu preciso defender a Delfina. Ela é uma pessoa boa e estava sendo enganada."

Laura olhou para a morena, que conversava com Oliver e um casal de empresários.

"Juliette sempre foi insuportável. Os dois se completam. Vilões podem amar, afinal."

Eu ri.

"...Oh là là, vous êtes magnifiques."

"(Oh là là, vocês estão magníficas!)"

Nos viramos vendo Jules e Bernard.

"Nada mal vocês também."disse Laura encarando-os, obviamente vestidos a caráter"Estão desperdiçando o tempo nos admirando. Um pouco de ação seria bom."

"Como?!"

Ela revirou os olhos perante a pergunta de Jules.

"Vocês não vão conquistar nenhuma mulher desse jeito. Ao que importa: Quer dançar, Jules?"

Ele estava pasmo, mas não demorou a aceitar o seu convite.

Aquela hipótese me veio de novo à mente.

Não era a primeira vez que Jules parecia hipnotizado com Laura.

E, aliás, no dia em que conversei com Eduard sobre Laura ser Megan, ele contou que o máximo que conseguiu descobrir foi que o endereço espanhol, de onde ela enviava as cartas, pertencia à família Lefevre, de Jules.

Laura me confessou que pediu a Jules para usar esse endereço, justamente para despistar quem pudesse estar investigando.

Jules sempre ajudou a encobri-la. Na Inglaterra, ele mandava cartas para o avô no nome dela fingindo que ela estava de intercâmbio junto a ele, e não em Illea.

Fazia sentido.

"Desculpa soar intrometida, mas... por acaso Jules gosta da Laura? Porque não consigo tirar essa impressão da cabeça."

Bernard respirou fundo.

"Sempre foi completamente apaixonado. Sempre fez de tudo por ela. Mas a Laura ainda gosta do Harry."

"Sabe do Harry?"

"Laura contou tudo para eu e Jules desde o início. Então, sim. Sei sobre Harry, sei o que ela foi fazer em Illea, sei que são irmãs."

Assenti observando Jules e Laura.

"Minha opinião." Bernard continuou."Acho que ela ainda está se curando do ex namorado..."

"Possivelmente..."

"Olha é meio mal educado da minha parte. Eu te convidaria para dançar agora se um monte de câmeras não fosse nos filmar. Eu... não sou muito bom dançarino. Me desculpe."

Franzi a testa.

"Sem problemas. Eu não sou também, e não me importo de verdade."

Eu estava falando que não me importava de não dançar. Mas acho que me expressei mal, porque ele estendeu a mão no instante seguinte.

"Se um for cair, o outro puxa. Ou os dois caem. Mas a vergonha ninguém passa sozinho. Combinado?"

"Combinado." Tive que rir também.

Assim que começamos a dançar, percebi as câmeras se voltando para nós.

Um red flag me atingiu.

Tentei lançar os pensamentos para o alto. Eu não estava fazendo nada de errado.

"Você prometeu e cumpriu.É péssimo!"

Ri com Bernard, depois dele tropeçar na saia do meu vestido. Duas vezes.

"Pelo menos ainda não caímos."

"Ainda..."

"Não sei como vocês se equilibram nesses saltos!"

" Nem eu. " Dei de ombros com humor

Mas o rosto dele ficou sério, de repente.

"Me desculpe pelo que vou falar, mas... acho que me arrependi. Essa não era a melhor hora. Em outra festa, talvez..."

"O quê?"

"Te chamar para dançar com toda essa atenção. Não sou muito fã."

"Ah, sim... Eu odeio também."

"É mesmo?" me olhou curioso."Como aguentou tanto tempo?"

Ele não precisou dizer o nome da Seleção.

"..."

Seu rosto murchou com minha falta de resposta.

"Ok, você tinha um bom motivo.Eu também não devia ter tocado no assunto."

"Não! Para de se desculpar. A questão é que... Eu nunca me acostumei, e acho que nunca vou. O problema está aí."

"Hum...Entendo..."

Ele cessou a dança, e se despediu assim que fui chamada por Allan. Eu deveria acompanhar minha família até o palco improvisado.

...

Enquanto o discurso interminável de Marie se processava, minha atenção se desviou.

Lá embaixo, no meio da multidão, vi Laura diferente. Respirava rápido demais, e olhava para os lados de tempos em tempos.

Desci às pressas.

A multidão dificultava, mas consegui alcançá-la e puxá-la de lado.

"O que houve?" perguntei, pousando a mão em seu ombro, assim que nos afastamos o suficiente das pessoas.

"Eu... eu vi ele, Rosie. Tenho certeza... era ele... ele sorriu e eu vi ele indo para a saída. Veio só para nos ameaçar."

"Ele quem?"

"Brian. Eu já vi o rosto dele numa das fotos que minha mãe guardou. Tenho certeza de quem é ele."

Meu coração gelou.

Laura estava convicta do que dizia, e sua expressão não deixava dúvidas.

"Algum problema com vocês?"

"Oliver. Dá um tempo pra gente."

Ele fez uma expressão desconfiada pra mim e encarou uma Laura que tentava respirar fundo. Foi embora, ao menos.

"Você sabe o que isso significa, não é, Rosie?"

Eu tentava manter a calma.

"Sim, Laura. Você mesmo me avisou que isso poderia acontecer. Uma hora ou outra ele iria aparecer. Mas acho que se fosse pra ele ter algo feito pra nós, já teria feito há muito tempo..."

"Ah, claro, VOCÊ não precisa se preocupar. Está cercada dos um milhão de seguranças de Illea. Já eu? Não tenho um príncipe pra me tratar como uma pedra preciosa. Sou eu por mim."

Uma lágrima começou a escorrer pelo seu rosto. Abracei-a.

"Ei, calma. Vai dar tudo certo, nada vai acontecer com a gente."

Eu tinha certeza? Não. Mas aquilo era o que eu conseguia dizer no momento.

Foi quando os flashes começaram.

Pelo canto do olho, percebi a aproximação de quase cinco repórteres. Eles não estavam na festa antes, como a equipe de filmagem contratada, deviam ter acabado de ter liberação para entrar.

"Rosie Ambers, o que você diria sobre" alguém tentou se aproximar com um microfone.

"Ei, agora não!" empurrei o microfone, quase instintivamente puxando Laura um pouco mais para trás.

Jules e Bernard chegaram quase ao mesmo tempo, se colocando entre nós e os jornalistas.

"Deem espaço," Bernard disse com firmeza"Agora não é hora."

Laura agora tremia, tentando conter o choro. Eu estava com ódio por tanta insensibilidade.

Tia Margot surgiu segurando uma Dani adormecida em seus braços e estendeu uma chave.

"Eu ia levar a Dani para descansar num apartamento na cobertura. Venham também. Saiam um pouco daqui, até as coisas se acalmarem." Olhou preocupada para Laura.

Estávamos quase no elevador, quando avisei para que eles seguissem em frente. Todos me olharam incrédulos quando falei que iria até os repórteres.

A mídia queria respostas sobre mim? Aquela era uma noite de sorte.

Tentei me controlar enquanto andava até aquelas pessoas.

Escolhi um trio em específico que estava perto de uma das mesas com aperitivos e que me lembrava não terem me abordado com os demais.

"Boa noite, posso falar, um pouco se quiserem. Mas peço que seja rápido, tenho alguns problemas para resolver."

Os olhos da mulher praticamente brilharam depois disso. Os dois homens que a acompanhavam correram a câmera e o tripé, armando- os o mais rápido possível.

Enquanto isso, percebi a tia Madeline pedindo que as demais equipes de filmagem se retirassem. Ela estava por perto quando eu disse que não queria uma entrevista longa.

Os homens avisaram a repórter com um aceno de cabeça quando a filmagem começou.

"Muito bem, Rosie.Circulam por aí duas versões sobre seu posicionamento em relação à Seleção. A primeira diz que sua presença confirmada no próximo Baile de Debutantes no Palácio de Versalhes tem como objetivo tentar resgatar sua posição como Selecionada. Já a segunda acredita que você aceitou o suposto envolvimento entre o príncipe Osten Schreave e Ophelia Shelves, e está indo como uma convidada de honra da família real francesa, acompanhando sua família. Poderia nos dizer qual das duas está certa?"

Ela foi direto ao ponto.

Respirei fundo.

"A verdade é que não sou mais uma selecionada. Essa não é uma opção para mim. Não esperem isso de mim nesse baile. E sim, vou estar acompanhando os meus pais. Não estou aqui para afirmar nada sobre o noivado, espero que entendam a minha posição."

"Ok. A próxima pergunta é, já que foram vistos dançando agora pouco, se o estudante de música Bernard Fontaine é o seu novo namorado?"

Só fechei os olhos.

"Não. Não estou com ele. Se minha palavra vale alguma coisa, pelo tanto de acusações e fofocas que já rolaram sobre mim."

"E como se sente em relação às notícias sobre Bridget?"

"... Como eu testemunhei naquele julgamento, eu sabia do que Bridget fez a Denise e Scarlet. Isso é inegável. Mas não espero o mal dela. Podemos não ter acabado bem, mas espero que ela aprenda com os erros dela, e encontre felicidade na carreira. Assim como eu também vou." quando falei isso, estava prestes a me despedir, mas a mulher segurou o meu braço.

"Só mais uma pergunta, por favor."

"Tá."

"Rosie, se pudesse dizer algo a Osten nesse momento, o que diria?"

Encarei a mulher por meio segundo, mesmo sabendo que não esperaria uma pergunta sem uma pitada de ousadia.

Minha atenção voltou para a tela.

As palavras sumiram por um momento.

Mas então voltaram.

Seu rosto me voltou à memória, o modo como ele sempre estava atento a tudo o que eu tinha para lhe dizer.

"Você estava certo sobre Paris. Vir me fez entender que eu estava mentindo para mim sobre meus sonhos."Sorri, por fim." Obrigada por me ajudar a enxergar."

...

Bernard abriu a porta do apartamento.

"Ela está melhor. Estamos na varanda."

"Que bom..."

Passei pela sala em silêncio. Tia Margot assistia televisão com Dani adormecida no colo. Isaac, meio encolhido, estava quase pegando no sono, a cabeça tombada sobre o ombro da mãe.

"Já está quase dando meia noite, acho que vamos todos dormir por aqui mesmo. Posso avisar seus pais, se quiser. Tem uma cama grande sobrando na suíte. Você e Laura podem dividir. É bom que os seguranças e os guardas que vieram com você vigiam vocês duas. Cuidamos de seguir os rastros do Brian amanhã, com a polícia, talvez."franziu a testa. "Eu não sei muito bem como começamos. Aquele homem sempre foi um verdadeiro fantasma."

Assenti.

"Seria ótimo. Obrigada, tia."

Jules e Laura estavam sentados num tapete, cobertos com mantas.

Bernard me ofereceu uma xícara de café quente. Me sentei entre eles, ao passo que Jules ajeitava um cobertor sobre meus ombros sem dizer nada.

A vista dali era como um verdadeiro cartão postal de Paris. A torre Eiffel a uma pequena distância, o trajeto do rio Sena, e as luzes de Natal espalhadas pelos prédios da cidade.

"Como foi lá?" Jules perguntou depois de um tempo.

Dei de ombros.

"Foi tudo bem."

Laura estendeu a mão, segurou a minha e sorriu de leve.

"Você pode se abrir com a gente."

Mas ela não esperou que eu dissesse nada.Se aproximou, devagar, e me envolveu num abraço silencioso.

Foi só quando o calor do corpo dela tocou o meu, que percebi que quem tremia agora era eu.

O quanto eu estava tentando manter tudo preso.

E falhei.

As lágrimas começaram a cair. Sem aviso, sem controle.

Laura apenas me apertou com mais força.

...

"Você sabe. Se casar com Osten, sempre vai ter que lidar com o comentário da mídia para qualquer movimento que fizer. Não vai conseguir passar despercebida por qualquer lugar. Sempre vão comentar, bem ou mal de você. E vai ter que viver de esclarecimentos para qualquer má interpretação que tiverem."

Foi impossível não lembrar da raiva que senti quando Tyler me perguntou se eu tinha certeza de que queria abrir mão de uma vida normal por Osten. Mas a verdade...

" Meu sonho era ter uma vida 100% reservada. Estudar, trabalhar no anonimato, não dever satisfações a ninguém. Ser princesa tem seus prós e contras. Perdemos um pouco das liberdades... Não é tudo que se pode fazer."

A verdade é que eu estava sendo hipócrita. Eu concordei com Delfina quando ela desabafou comigo sobre as renúncias que fez por causa do título real.

"Mas você planeja ser música? Como vai fazer isso sem ser perseguida? Ouvi dizer que o marido falecido da rainha Aimee tinha largado tudo, mas sempre sofreu por isso."

Me lembrei da sensação de me sentir sem saída quando fui conversar com as senhoras da corte inglesa e a Sra. Jude me fez aquele questionamento.Soou como se eu nunca pudesse seguir o meu sonho caso decidisse ser uma princesa.

Eu me recordava de lhe dar uma resposta explicando que faria o possível para conciliar o sonho e o casamento com Osten.

" Mas, por experiência própria, um relacionamento não sobrevive a caminhos distintos, não importa o quanto você ache que ame uma pessoa. Não é o suficiente."

Aquela incerteza já me acompanhava no subconsciente,há muito tempo, muito antes do comentário de Jade.

E agora isso era como uma dúvida reverberando por minha mente.

Ficando cada vez mais aguda e insuportável.