Uma Seleção com Rosie Ambers

70 Especial: Osten Schreave- Parte I


Notas iniciais
Boa leitura s2

9h17, Londres, Inglaterra — 09 de Dezembro- Capítulo 60

Observei o relógio de pulso discretamente. Mais um minuto havia passado e nada do fim daquela reunião. A ansiedade tornava-se quase insuportável.

Meu superior, o primeiro-ministro de Illea, Marid, provavelmente já havia percebido meu desconforto. E ainda decidiu comentar sobre um relatório inacabado, justo diante do primeiro-ministro inglês.

Isso me custou mais quinze minutos.

Segui para o carro estacionado em frente à embaixada inglesa, onde o motorista já estava de prontidão.

" Caleb, para o palácio de Buckingham, o mais rápido que conseguir."

Enfrentamos um engarrafamento, mas só entendi o porquê ao ver que o acesso ao palácio estava bloqueado pelos jornalistas que insistiam em acompanhar a saída de Rosie.

"Isso não será um problema, Alteza."

Ele encontrou uma rota alternativa. Entramos pelas dependências por um dos portões dos fundos, e ele conduziu o carro por uma estrada de serviço destinada aos veículos de abastecimento.

Virou a esquina a tempo de conseguirmos vê-la saindo pela porta. O veículo que a levaria embora estava ali também.

"Muito obrigado, Caleb." falei antes de sair. "ROSIE."

Ela parou de andar, olhou para mim como se não acreditasse que eu estivesse ali. Me aproximei com pressa.

"...Você não deveria estar em reunião?!"

"Boa viagem." murmurei depois de envolvê-la num abraço.

"...Coloquei meu relatório na sua mesa..."ela disse.

"Relatório?"

"Da última atividade que o Benjamin passou para a gente. Adiantei a minha parte, porque não vou estar com vocês nos próximos dias."

"Ah, sim, vou olhar quando voltar." Assenti. Minha atenção estava em sua expressão abatida, ela estava evitando meu olhar.

Mas algo mudou de repente: antes que eu pudesse reagir, Rosie se inclinou e depositou um beijo em meu rosto. A surpresa me deixou sem palavras.

"Desculpe, eu preciso ir por causa do voo. Boa viagem para você também!" Ela se distanciou rápido demais, e então se virou para ir embora.

"Não esqueça de ligar quando chegar!"

"Ok!"

Observei o carro dela se afastar, reprimindo a vontade de entrar no meu e pedir a Caleb que a seguisse até o aeroporto.

Não sabia se era apenas meu subconsciente paranoico gritando, mas aquilo soou como se ela estivesse indo embora de modo definitivo. Mesmo que não tivessemos conversado sobre aquilo, mesmo que ela não soubesse o motivo real de eu estar deixando ela viajar para a França.

"Alteza."

"Sim?"

" Desculpe a insistência, mas..." Encarei, então, Jerome, o funcionário encarregado por organizar o transporte da bagagem de todos para o aeroporto. Pelo seu semblante, deve ter me chamado mais vezes do que o normal.

A realidade me atingiu. Havia muito a fazer na Rússia.

Me desculpei de imediato e o segui para dentro.

...

"Rosie saiu, é isso?" Jade questionou quando eu estava a caminho do escritório para terminar de arrumar as malas.

"Ela só foi visitar a família na França. Vamos encontrá-la depois da Rússia."

Um riso curto e sarcástico escapou dela.

"Ah, não. Não me vem com essa desculpa. Já não é de hoje que eu reparei. Mas não era da minha conta, então fiquei na minha. Vocês dois eram um casal até bem fofo. Estava ÓBVIO durante a Seleção que você gostava da Rosie, mas durante essa viagem, não sei? Na Itália? Na Grécia? Você mudou demais, parecia outra pessoa! Eu não sou próxima dela, mas EU REPARO quando alguém sofre! Dila ouviu..."

"Sei onde quer chegar." Tentei interrompê-la."Mas..."

"Não. Escuta. Dila me contou agora pouco que encontrou a Audrey na saída.E ela disse que a Rosie saiu mais cedo da festa passando mal..."

"Rosie passou mal de novo?!"

Ela me ignorou.

"Quando Audrey e Amy chegaram ao quarto, Rosie estava dormindo com o rosto todo inchado, claramente tinha chorado, e estava com febre alta! Mas claro... você estava ocupado demais falando com todo mundo da festa pra ter percebido que algo estava de errado com ela! Já foi o tempo em que eu achei que você pudesse ser apaixonado de verdade pela Rosie. Mas você é só mais um príncipe engomadinho que não enxerga nada além dos seus próprios interesses, e quando a Rosie não te foi mais interessante, simplesmente a deixou ir embora!"

Jade se afastou, impassível, e comecei a sentir o peso de cada palavra dela.

Meu olhar correu pelo escritório, mas minha cabeça ainda estava na festa. Eu sabia que Rosie andava resfriada, embora parecesse melhor naquela noite. Quando a segurei para dançar... como não percebi que estava quente?

Talvez a febre ainda nem tivesse começado, mas isso não tirava o peso da culpa. Ela já tinha que aguentar os comentários maldosos por causa das notícias.

Eu devia ter ido atrás dela, entrado no quarto e conferido se estava bem, em vez de deixá-la sozinha depois de sair do salão daquele jeito.

Fui um canalha em me afastar, bem quando ela precisava de mim.

...

Através do vidro da sala de observação, via os diplomatas caminhando até os aviões no pátio. Passavam com naturalidade, sem qualquer incômodo.

Quando chegou a hora de descer para o meu voo, os jornalistas se aglomeraram, tentando arrancar alguma palavra sobre a viagem de Rosie, sobre a Seleção...

Eu passei direto, enquanto a segurança tentava contê-los. Subi as escadas do avião, atrás de Jade, Ophelia, Paige e Katie.

"Algumas sugestões finais para seu discurso." Benjamin me entregou um papel assim que se acomodou no assento ao meu lado. "Leia durante o voo."

"Sim, pode deixar."

"Osten, se concentre nessa viagem. Essa é a nossa chance de fazer a diferença."

Concordei, observando em um primeiro momento pela janela o que ocorria antes e durante a decolagem.

Crescer enclausurado te faz desejar a liberdade. Sair, conhecer lugares e pessoas, e viver momentos únicos. Sair de casa sempre virava notícia, um incômodo constante, mas, ironicamente, meu sonho de criança era justamente explorar o mundo.

Pelo fato de ter nascido na família real, me foi sugerido seguir carreira no exército ou na diplomacia de Illea. A segunda opção sempre foi a mais atraente.

Eu gostava de aprender idiomas e, apesar do tratamento repulsivo que recebi de tutores e colegas por ser "privilegiado", isso não fez diferença na minha escolha.

Depois da primeira reunião diplomática que me permitiram participar, decidi me dedicar de verdade aos estágios.

Estava certo quanto a minha profissão desde os 14 anos, embora soubesse que poderia gostar de muitas outras ocupações se me abrisse a elas. Mas eu já tinha me encontrado. Estava feliz.

Porém, quando você se apaixona, não é apenas a sua felicidade que importa.

...

0h36, Moscou, Federação Russa — 10 de Dezembro- Capítulo 62

Eram 19h36 na França. Rosie comentou que estava jantando com a família em Chambéry, sua cidade natal, então resolvi não prolongar a ligação.

"Está tudo bem mesmo?"insisti ao ouvir sua voz desanimada."Aconteceu algo que... "

"Está, estou segura. Ainda mais com toda essa guarda...Paris é bonita, uma pena que não vi muito até agora, só rodamos em alguns pontos turísticos: a torre..."

"Rosie."

"Hã?"

"Quando quiser me dizer o que está realmente acontecendo é só falar. E me desculpe. Eu fui um egoísta nesses últimos dias. Só foquei em meus problemas, não te apoiei como devia. E..."

"Você já pediu desculpas. Não estou com raiva de você. É que..."

Depois de uma pausa, Rosie acabou por desabafar sobre a Seleção em si.

Ela não queria se inscrever desde o início, porque soube que a mãe se frustrou com os comentários dos jornalistas ao sair e não queria entrar na Seleção para não passar pelo mesmo, muito menos trazer a atenção de novo sobre Kriss.

"Eu sempre me incomodei com qualquer opinião alheia sobre mim. Sobre o que falariam no dia em que eu saísse e em como seria recebida em Columbia pelas pessoas. E agora, a minha imagem está manchada, falam de mim muito mais do que falavam da minha mãe... Não estou fugindo de você, só precisava de um tempo... disso tudo."

"Certo...Você fez bem em sair. Precisava de um tempo para você. Descanse e tente aproveitar um pouco mais da sua cidade... E também Paris..."

...

20h23, Angeles, Illea — 13 de Junho - Capítulo 3

No dia do sorteio de Seleção, assim que as câmeras foram desligadas, ouvi uma risada baixa de Gavril.

"E eu que achei icônico quando Eadlyn sorteou Kile. Isso foi um deja vu muito interessante."

"Que deja vu?"questionei, captando sua atenção.

"Ah, então você não percebeu?"

" Percebi, o quê?"

"Acho que você não me entendeu, mesmo." ele disse apoiando uma mão em meu ombro." Meu caro, sua Seleção vai contar com a partipação da filha de uma antiga selecionada. Eu sinceramente me segurei para não comentar nada na hora, mas reconheci a garota pelo sobrenome, foto e nome da província."

" Sério? E quem é?"

Gavril achou graça novamente da minha dúvida.

"Por enquanto, vou optar pela total imparcialidade."

Acabou indo embora sem dar detalhes. Foi nesse momento que reparei no falatório de minha família. Kaden foi quem veio falar comigo, com uma expressão de deboche.

" Estão falando da filha da ex selecionada, não é? Quem é?"

"Você, irmão, tem mesmo o dom do caos." balançou a cabeça rindo. "Rosie Ambers. A filha da Kriss Ambers, aquela que foi finalista da Seleção dos nossos pais."

"Ah... entendi. E por que isso seria um problema?"

"Problema não é." deu de ombros. "Só é... estranho, de certa forma."

Pouco se sabia sobre o paradeiro de Kriss Ambers. Ela tinha perdido contato com minha família e parou de ser o centro das atenções da mídia há um bom tempo. A única informação que tínhamos vinha de minha mãe, a partir do contato com outras ex selecionadas de sua época.

Kriss se casou com um professor da Universidade de Columbia e tinha uma filha adotiva.

"Osten, posso falar com você, um minuto?"

"Claro, pai." assenti, enquanto os demais seguiam para o jantar.

Ele hesitou antes de falar.

"Eu não pretendo interferir mais em nada da sua Seleção. Prometo. Mas, antes, se posso pedir um favor, não elimine essa garota de cara. Por ela ser filha da Kriss, acho que a mídia pode ser um pouco..."

"Inconveniente com ela."

"Isso, e eu tenho certa consideração pela mãe dela. Acho que..."

" Ok, pode deixar. Vou esperar pelo menos uma segunda leva de eliminação, mesmo se essa tal de Rosie for uma fanática maluca pela realeza."

Eu detestava mulheres assim. Esse seria, sem dúvida, meu primeiro critério de eliminação. Se fosse o caso dessa selecionada, teria que esperar um pouco antes de dispensá-la, em consideração ao pedido do meu pai.

" Não se preocupe. Acho pouco provável."

" Será?" Ergui uma sobrancelha.

Ele contorceu o rosto, ainda deixando escapar um riso.

"Acho. Mas não tenho uma bola de cristal. A única que certeza que tenho é que você terá muitas dores de cabeça para lidar quando todas chegarem. Boa sorte."

"Ah, muito obrigado." Ri, seguindo-o.

Rosie. Eu realmente me esqueci temporariamente daquele nome.

Depois disso, não assisti a muitos comerciais ou programas sobre o período pré-seleção. Tinha meus motivos para evitar pensar na competição que eu mesmo sugeri ao meu superior num momento de insanidade.

...

11h34, Angeles, Illea — 24 de Junho — Capítulo 8

Desconfortável, era essa a palavra que melhor descrevia a garota loira que entrou por aquela porta e sentou na última fileira.

Era a primeira conversa com as selecionadas. Desde a chegada delas, no dia anterior, eu havia tirado um tempo para descansar a mente antes das atividades da Seleção.

Conheci-a acidentalmente na estufa, à noite. Não cheguei a ver seu rosto; ela estava atrás de uma árvore. Ela era entendida sobre lírios, as flores que eu tinha ido buscar para dar de presente para Kerttu.

Como ela tinha pedido que eu não comentasse aquilo com as outras, eu pensei que teria de fazer um certo esforço para reconhecer sua voz, dentre as trinta e cinco. Mas o suspense acabou, graças ao fato da reportagem que passaram naquela manhã sobre as selecionadas mostrá-la desenhando flores em cadernos e nas mãos de algumas crianças.

"Como passou o restante da noite, senhorita?"

Nunca vou me esquecer do quanto Rosie ficou pasma. Na verdade, eu já estava me segurando para não rir, por conta de seu esbarrão no fotógrafo a caminho dali.

Me divertia o fato de ela fazer de tudo para não chamar atenção. Exatamente o oposto do que esperei.

Observei os traços de seu rosto, e como seus olhos castanhos encontravam os meus por frações de segundo antes de desviar para as mãos ou o chão.

Ela me lembrava alguém que eu não queria lembrar.

Não fisicamente, mas em personalidade. A antiga, no caso.

Antes de Delfina se tornar mais desinibida, ela era como Rosie. Extremamente tímida e com quase os mesmos gostos: desenho, literatura e música.

Eu não estava procurando um reflexo da princesa italiana.

Ainda assim, sorri. Rosie era genuinamente adorável, simpática. Não tinha culpa de nada daquilo.

Tentei manter o humor até o final da conversa. Depois, percebi que tinha sido um idiota: escolhi três selecionadas que não lembrassem Delfina para o primeiro encontro.

...

21h49, Moscou, Federação Russa — 11 de Dezembro — Capítulo 63

Minha cabeça estava fervendo depois de tanto ler documentos e relatórios. Precisava de uma pausa, respirar um pouco.

Para a maioria das pessoas, diplomacia é só aperto de mãos, banquetes e discursos ensaiados. É muito mais que isso.

Diversas vezes é estar constantemente entre duas linhas de fogo, tentando impedir que alguém puxe o gatilho. Evitar mortes que nunca vão aparecer em jornais, segurar guerras antes que tenham nome.

Pode ser de certa forma cansativo: Ouvir cada lado, traduzir ressentimentos em palavras que não soem como ameaças, propor saídas que permitam que ambos mantenham a honra...

Negociamos durante meses para que, no fim, o resultado seja apenas uma assinatura fria em papel. Mas sempre gostei de acreditar, de algum jeito, que o fruto de nossas ações era impedir que o mundo desabasse de vez.

Saí para o terraço, que estava com uma cobertura considerável de neve. Afastei a camada mais grossa para me sentar em um dos bancos.

"É disso que estou falando! Já parou para descansar desde que chegou? Pelo menos conheceu a cidade?"

"Ah, não... Deixei Jade e Ophelia liderarem o passeio delas e das demais. Acho que foram ao centro."

" Você só saiu para curtir um pouco de turismo em Londres e na Noruécia. Não dá para dar nem que seja um passeio noturno em algum pátio?"

"Bom, está nevando muito lá fora, Rosie. Não dá para sair."

" Vai fazer um boneco de neve, qualquer coisa! Você me disse para descansar. Prometo curtir Paris ao máximo. Mas você também precisa fazer isso por aí. Vou para minha aula. Tchau."

Ri sozinho depois de moldar um boneco improvisado, exatamente como ela tinha sugerido. Seu humor na ligação de mais cedo estava melhor.

Conversamos sobre coisas triviais. Música, sua vida, minha vida, diplomacia. Nossas vidas eram diferentes, mas por um momento parecia que encaixavam.

Tirei a aliança do bolso e fiquei olhando para ela sob a meia-luz da lâmpada.

E se eu tivesse pedido antes?

Antes que a situação ficasse desfavorável, antes mesmo daquela viagem.

Por alguns minutos, enquanto não vinha uma nova tempestade, descansei observando a neve cair e o boneco de neve, deixando a mente vagar sobre ela e minhas responsabilidades.

...

9h38, Angeles, Illea — 25 de Junho - Capítulo 12

"Sua pretendente chegou." Avery apontou com a cabeça para o lado.

"Não mostra pra ela que gamou, garanhão." Ambos riram com o comentário de Markson. Ignorei a provocação.

Avery e Markson eram guardas que trabalhavam no palácio desde a Seleção dos meus pais, ou seja, que me viram crescer. Muitas vezes me tratavam como um garoto.

Rosie vinha andando devagar, de modo que acabei indo também até ela.

Sim, estava de fato encantadora, com vestido rosa claro e uma tiara de flores pequenas na cabeça. Era uma beleza quase angelical.

"Está pronta para ir?"

"Estou."

Ela segurou meu braço estendido e me acompanhou. Tinha cheiro de rosas, mas não um perfume enjoativo como outros que eu já havia sentido. Ele era sutil e agradável, como ela.

"Por favor, não permitam que ninguém vá para o jardim durante o encontro, como nos anteriores."

"Sim, Alteza."

Me arrependi do que tinha dito com os olhares maliciosos de Avery e Markson. Eu só tinha a intenção de não tornar a situação estranha entre as selecionadas.

Esperava que Rosie não tivesse notado.

"Você se importa de caminharmos um pouco pelo jardim? Eu sei que está doida para ir para lá" indiquei a estufa quando saímos." Mas achei agradável a ideia de rodarmos pelo castelo primeiro."

"Tudo bem, não nos mostraram muito aqui fora ainda."

"Não viu nada? Isso é ótimo. Eu mesmo posso fazer o serviço de guia. Quero começar pelo canteiro. É o lugar onde todos jogamos baseball, críquete, futebol e outras coisas com os guardas."

Percebi que ela estava tão nervosa quanto qualquer outra selecionadas. Porém, um pouco mais do que a média, por isso fui puxando assunto pelo caminho.

"Por falar na minha sobrinha, como ela conseguiu te convencer a dançar?"

Provavelmente a memória disso a deixou sem graça.

"Eu não sei. Só fui dar parabéns atrasado para ela. Não queria ter me metido nessa confusão..."

Franzi o cenho, sem entender direito.

"Não queria estar na pista com ela? Você parecia estar gostando..."

"Queria, mas não."

Ergui a sobrancelha. Essa resposta não fazia sentido nenhum.

"Eu gostei de dançar com ela,"explicou" mas o problema eram as câmeras. A impressão que eu tive é que capturaram cada momento."

"Pois é. Não é atoa que vocês estão na capa do Jornal de Angeles e de várias edições de revistas nacionais."

"O quê? Você está brincando comigo, não está?"

Neguei, me sentindo mal por não conseguir segurar risada do seu pânico.

"Você não gosta muito de holofotes,não é?"

" Eu não estou acostumada."

"Certo, mas não sei porque o drama. Você estava linda." Ela ficava muito bem de dourado. "E eu li algumas das reportagens antes do café. São boas, caso esteja preocupada. Eles falaram bem de você e de outras candidatas também."

Eu tinha lido uma breve crítica na aba de opinião do jornal. Acusavam-na de tentar chamar minha atenção ao se aproximar da minha sobrinha. Para mim, no entanto, ela simplesmente tinha um jeito especial com crianças.

Na festa de Kerttu, achei intrigante o jeito como Rosie entrava e saía do salão com um caderno. Me aproximei dela à mesa e a ajudei a encontrar o bolo de morango. Ela havia pedido a uma atriz para autografar o caderno para uma das criadas e saiu com a mesma pressa de antes.

Segui-a discretamente e a vi sentar-se em um banco do corredor, conversando com Stefan, que estava visivelmente triste. Parecia que ela o consolava com comida. O pequeno não se abria facilmente com qualquer um, mas lhe deu um abraço.

Fiquei observando de longe por um tempo, quase sendo notado. Então Oliver apareceu e me chamou para conversar.

O que levava ao motivo daquele encontro com Rosie: esclarecer a discussão de minutos depois que ela presenciou entre Oliver e eu no segundo andar do palácio, e que revelava meu antigo e discreto relacionamento com a princesa italiana.

" Ah. Você não tem que me explicar nada." Rosie, porém, falhou em esconder a curiosidade.

"Mas você ouviu e vai ficar com perguntas na cabeça."

"Você não é obrigado a respondê-las."

"Ela e eu sempre fomos amigos..." iniciei o monólogo mesmo assim.

Na noite anterior, tentei esconder o mau humor desde que soube que Delfina e Oliver tinham outro compromisso na Itália, mas mudaram de ideia e vieram.

Delfina estava radiante e quis saber imediatamente minha opinião sobre as Selecionadas. Tentei ignorar o braço dela entrelaçado ao de Oliver. Ele não parecia satisfeito com nossa interação, o que me foi de certa forma gratificante.

Ela tinha noção de que sua escolha em permanecer comigo anularia qualquer possibilidade de Seleção?

Eu não sabia se era eu, o único preso ao passado. Ela agia como se nunca tivessemos tido nada. Tudo bem, eu iria apenas pedi-la oficialmente em namoro, perante todos, no dia em que flagrei ela com Oliver. Mesmo assim, eu a amei, provável que desde a infância.

Não tinha significado nada para ela?

Eu sabia que era hora de seguir em frente. De preferência com alguém que não a lembrasse. Por isso, aquele seria meu único encontro com Rosie Ambers.

"Delfina é legal."disse Rosie." Eu conversei bem pouco com ela, e me surpreendi ao saber que é mais nova do que eu. Ela parece tão mais madura."

"É só o que parece." ri, mas sem humor. "Ela só perde para o irmão."

"O rei Nathaniel ou o príncipe Lorenzo?"

"Ainda pergunta quem? Não percebeu a falta de juízo do Lorenzo quando dançou com ele na festa?"

Mas Rosie não entendeu o meu tom de brincadeira.

"Nossa... achei que vocês fossem melhores amigos. Ele me disse isso..."

"E somos. A gente se vê algumas vezes por ano desde a infância. Quando a família dele não vinha, a minha ia para Itália. Mas...quanto ao jeito dele, não me entenda mal: Lorenzo é um pouco afobado quando se trata de mulheres. Vi ele conversando com você e as outras selecionadas ontem. O que ele falou?"

Me divertia o quanto ela estava sem graça com o assunto, contudo, após mais algumas brincadeiras, resolvi que era hora de parar de zoar. Eu também não era nenhum santo, por já ter me relacionado com várias sem compromisso.

E, aliás, Lorenzo já tinha tido três noivados sem sucesso, saindo ferido em pelo menos dois deles. Ele simplesmente tinha azar com quem se envolvia de verdade.

"Estamos quase na entrada principal do jardim"comentei."Você prefere se sentar ou ver o outro lado primeiro?"

Rosie estava com saltos altos, então sugeri que sentássemos em um banco.

Aproveitei a oportunidade para saber sobre ela, e o que descobri é que ela tinha uma autoestima baixa, não se achava interessante, não era muito sociável ou de festas, tinha um único melhor amigo e primas completamente obcecadas pela realeza, muito mais animadas com o sorteio dela do que ela mesma.

"Elas realmente gritaram?"

"Como crianças,e pularam em cima de mim." Imaginei a cena hilária e não aguentei, mas rir não me impediu de perceber quando ela levantou para ajeitar a saia do vestido e, discretamente, se sentou um pouco mais longe.

Olhei para o rosto dela na hora,e havia ali um sorriso leve e travesso, quase de quem se divertia com a própria fuga, como se tivesse conseguido escapar da proximidade em que estávamos.

Fingi não perceber o que houve e perguntei sobre sua família. Me chateou, mas... eu no fundo entendia, porque já tinha lidado com alguém assim.

Ela contou que havia sido abandonada na porta da casa de seus pais biológicos, mas, sem notar meu choque, logo começou a falar sobre Kriss e Elliot, e sobre o tempo que passava com eles, aprendendo sobre botânica e lendo com a mãe. Era evidente, ela amava essa família e a considerava sua verdadeira.

Enquanto conversávamos, sobre livros, séries e filmes, eu me senti como que um adolescente outra vez. Rosie foi ficando progressivamente mais a vontade comigo, e estava mais feliz. Lembrei-me de que, horas antes da festa, ela estava sozinha na biblioteca, chorando.

No começo não percebi, estava focado em encontrar um livro de idiomas. Depois notei seu rosto vermelho, mas não de vergonha. E não consegui ignorar. Perguntei o que havia, insisti mais do que devia.

Queria resolver, acabar com aquilo de uma vez, mas ela só me pediu espaço. Rosie queria ir embora, ficar em paz... e eu, teimoso, quase a forcei a falar.

Antes que ela saísse, puxei-a para um abraço. Seja lá o que fosse, ou pior, quem a tinha magoado, era um completo covarde.

...

Um dos guardas me lembrou da reunião marcada com um diplomata. Chequei o relógio, alarmado, tinha me distraído e quase esqueci o horário enquanto conversávamos.

Por sorte ainda estávamos dentro do tempo, então não havia necessidade de sair correndo.Sugeri continuarmos andando, e acabamos entrando na estufa.

"Colocaram uma flor nova." Rosie disse caminhando até uma planta que pra mim era como uma mini árvore com flores rosáceas, espalhadas por seus ramos.

"Ela é bonita."

" É uma Rosa do Deserto. Ela nasce na África, É muito raro achar uma aqui no país"

"Você sabe o nome de todas as plantas daqui?" questionei, curioso, olhando ao redor.

"A maioria eu acho que reconheço. Do seu lado,por exemplo, estão as margaridas que a Kerttu plantou."

"Onde?"

"Cuidado não pisar nas gérberas."

"Ops, quase!" ri "Achei que fossem girassois."

"São plantas parecidas. E para colaborar elas estão amarelas. Fica bem mais fácil confundir. Essas brancas, aí, que são as margaridas."

Foi meio cômico e fofo quando ela começou a apresentar outras flores, descrevendo suas características como se estivesse me dando uma aula particular de botânica.

"E essa daqui?" Rosie travou quando eu puxei seu cabelo para prender a flor em sua orelha."Ficou linda."acrescentei.

Pelo sorriso que ela fez ao puxar a flor para ver, apostava que aquela devia ser uma de suas preferidas.

"É uma Camélia. Eu sempre quis ter uma dessas lá em casa... Mas ela estava muito cara para comprar."

Sorri, peguei a flor da mão dela.

"Você sabe mesmo sobre esse assunto." Inclinei-me um pouco e perguntei se poderia colocá-la de novo no cabelo dela, recebendo autorização.

Meu olhar se deteve no desenho de dois pássaros em pleno voo, e, no momento seguinte, percebi que estava cercado pela água da fonte. Ou melhor, dentro dela.

"Me desculpe, eu não queria ter feito o isso. Eu achei que você ia...ai, céus, você se molhou inteiro. Eu sou um desastre. Eu sinto muito, muito mesmo Osten. Posso tentar chamar um guarda para trazer uma toalha ou você prefere..."

"Rosie." chamei-a assim que me levantei, dando o máximo de mim para manter o tom calmo." Por quê fez isso?"

"Achei que você ia... você sabe.."

"Te beijar?" Ela assentiu. "Eu estava querendo ver seu colar de perto!"

"Desculpa."

"Eu já tinha percebido que você não é dessas que beijam no primeiro encontro. Eu iria respeitá-la! Não sou um carrasco para te forçar alguma coisa."

"Você disse beijo no primeiro encontro?"

"Quê? Disse."

"Beijou alguma das três garotas no primeiro dia?"

"As outras não recusaram." Eu estava com raiva, e acabei não me importando em admitir que o beijo tinha ocorrido com as três.

Não tinha forçado nenhuma,a intenção foi mútua. É claro que isso não era desculpa, e é claro que discutimos.

Para mim, não tinha feito nada ilegal, enquanto para ela não havia sido justo com as selecionadas.

Eu sabia que, no fundo, ela tinha razão com todo o sermão que estava me dando. Eu era só um mulherengo que me relacionava por pura atração física.

E minha irritação não era apenas por seu julgamento. Mas principalmente, porque poderia até ter a consciência de que com ela não poderia fazer o mesmo, mas quis.

Por um instante, quando fui prender a flor em seu sabelo, senti uma vontade absurda de me inclinar e beijá-la. Quase me deixei levar. Como já tinha aproximado a cabeça, foquei no colar que ela usava.

"Vamos esclarecer tudo." falei durante uma trégua." Você acha que as coisas precisam ser lentas numa relação, não é? Digo, afetos não podem ser instantâneos."

Eu ainda tinha aquela teoria. Perguntei, meio provocativo, se ela aceitaria um beijo meu depois de muito tempo, porque todas as vezes que tentei me aproximar naquele dia, ela desviava ou se afastava.

"Eu gosto de outra pessoa."

Rosie não sustentou o olhar por muito tempo depois de admitir issso, encarou o chão.

E fazia todo sentido. A maneira como ela me admitiu estar pensativa na estufa, com saudades da vida em Columbia.

Como, durante a festa, não fazia questão de passar o mínimo de tempo comigo, mesmo quando eu a abordei.

O fato como ela parecia animada e incentivando Suki Cheng a vir até mim, quando essa foi sorteada para a dança, ao contrário da decepção de várias outras selecionadas.

O estado emotivo dela, na biblioteca, possivelmente, também estava relacionado.

" Rosie, olha para cima, fazendo favor."

Ela me atendeu, devagar. Ainda estava um tanto irritado, principalmente pela falta de seu contato visual, como se eu fosse uma ameaça.

Mas eu deveria parar de ser um sem noção, ela só estava sofrendo. E com seu rosto ficando progressivamente vermelho, envergonhada por admitir algo sobre sua vida amorosa.

"Se já estava apaixonada, por que participou da seleção?"

"Eu não sabia disso quando me inscrevi, e não tinha como desistir de vir quando fui sorteada."

"E como seu namorado lidou com isso?"

"Ele não é meu namorado! Ele não faz ideia de que eu, você sabe..."

Assenti.

Poderia não ter passado por uma experiência igual, mas de coração partido eu entendia.

"Olha,Rosie, eu realmente gostei de passar a manhã com você. Mas depois disso tudo, eu penso que não faz sentido você permanecer aqui. Estou atrás de uma esposa,de alguém que retribua sentimentos por mim e você mesma acaba de admitir que não se encaixa nesse perfil. Entende?"

"Sim, eu.. desculpa."

"Tudo bem. Você sairá junto com as outras cinco eliminadas essa tarde. " Ela concordou de imediato com a cabeça."Está livre para aproveitar suas últimas horas nessa estufa,ou em qualquer outro lugar que queira. Foi... um prazer conhecê-la."

"Osten." Me virei ao seu chamado."Obrigada. E eu sinto muito mesmo." Apontou para meu estado.

Até o fim, muito educada. Não poderia dizer o mesmo de mim.

"Sem problema. Vou me retirar para me trocar."

...

Na primeira parte do dia, eu realmente pensei em ignorar o pedido do meu pai e mandar Rosie Ambers de volta para casa. Pelo visto, era exatamente o que ela queria. Só precisaria avisá-la sobre as possíveis críticas da mídia, mas...

E se eu, talvez, pudesse convencê-la a ficar? Não apenas por causa da repercussão que sua saída causaria. Eu realmente gostei dela, de sua companhia, e antes de nos desentendermos, parecia que ela também se sentia à vontade comigo.

Não estávamos de fato brigados. E eu não tinha certeza se enviá-la de volta à província seria a melhor solução, considerando que lá estava alguém que não sabia dos sentimentos dela e que provavelmente acabou partindo seu coração de alguma forma.

Ficar um pouco mais talvez fosse uma boa fuga para ela. Mudei de ideia várias vezes e, no fim, decidi não eliminá-la. Em vez disso, perguntei se queria ser permanecer como minha amiga.

...

19h45, Moscou, Federação Russa -13 de Dezembro- Capítulo 63

"Acho que o apoio da Rússia no acordo é garantido." disse Marid, quando saímos da reunião com o comitê de relações exteriores.

"Também acho."concordou Ben." Aliás, muito boa participação, Ophelia! Parabéns!"

Ela agradeceu e se voltou para mim para me agradecer com um sussurro.

"O mérito é seu. Estou orgulhoso." Pisquei.

Seu discurso foi revisado por mim, mas a ideia bruta e a habilidade de como falar eram somente de Ophelia.

O próximo compromisso era acompanhar Dmitry, um diplomata russo apaixonado por música, que nos convidou para uma orquestra no centro de Moscou. Fomos apenas ele, eu e a Elite. Marid e Benjamin preferiram se abster.

O responsável pelo anfiteatro ficou animado com nossa visita e nos entregou uma ficha de sugestões para repertório.

"Poderia ser 'Clair de Lune'?" perguntei.

"É um dos favoritos da casa, Alteza. Será uma honra!"

"Bom gosto." comentou Dmitry. "Toca algum instrumento?"

"Na verdade, não. Só cresci cercado pela música, tenho influência de pessoas próximas."

Só me lembrava de Rosie dizendo que essa era sua peça musical favorita, quando conversava com minha mãe.

Dmitry começou a falar sobre a peça, sobre os acordes, a interpretação... e eu me perdi completamente, sem saber o que dizer.Depois de um tempo, ele percebeu.

"Só conhece 'Clair de Lune', estou errado?"

Acenei em silêncio. Ele achou graça, e logo o anfiteatro se preparava para abrir com o repertório escolhido.

As primeiras notas do piano, em seguida do violino, eram contidas e um tanto melancólicas. Imediatamente minha mente trouxe Rosie à tona.

Queria que ela estivesse ali para ouvir e me perguntei se Paris estava realmente fazendo bem a ela.

Tinha ligado no dia anterior para a casa de sua tia Margot antes de sair, mas Rosie ainda não tinha retornado de Chambéry a Paris. Deixei um recado, e ainda esperava por sua ligação.

Na televisão, só reprisavam cenas dela visitando a Torre Eiffel, entrando nos cafés parisienses, passeando de barco pelo Sena... descobrindo cada canto da cidade com a família e os novos amigos.

Eu queria estar lá com ela.

...

21h52, Angeles, Illea- 17 de Julho- Capítulo 20-21

"Por que não me esperou?" perguntei, chegando à porta da biblioteca. Tinha ido buscá-la no quarto, mas as criadas disseram que Rosie não estava.

"Já pensou que você sempre vir me buscar chama atenção demais? É melhor nos encontrarmos aqui. Se sairmos sempre passeando juntos por aí, nesse horário, o pessoal vai comentar... ou outra selecionada pode nos seguir por curiosidade."

Sorri, rendido à lógica dela. Tinha razão. Essas escapadas noturnas eram um segredo. Desde que nos tornamos amigos, sugeri passarmos meu tempo livre na biblioteca.

Era quase sempre vazia, e nos permitia conversar a vontade. Apenas duas vezes outra selecionada apareceu por ali, e conseguimos fazer entender que tudo se tratava de uma coincidência. O resto do tempo, parecia que o espaço nos pertencia.

"Quer me dizer alguma coisa, o que foi?" ela perguntou, escolhendo um livro.

"Nada." Lutei contra um sorriso, tentando parar de observá-la demais. Avaliei a estante e achei um dicionário de alemão, mas apenas folheei. Eu precisava terminar o fichamento do livro que já estava lendo.

"Ah, esqueci de contar. Amanhã vou à reserva do palácio com a Kerttu e o Stefan. Os guardas vêm junto. Estou animadíssima. É quase como ir a uma trilha com meus pais, só que a mata aqui não é tão densa quanto lá fora."

"Você, numa trilha?" Eu ri."Ah, mas duvido que você aguentaria escalar uma montanha."

Rosie ficou ofendida.

"Olha quem fala! Não ia aguentar uma hora de trilha, Vossa Alteza!"

Ergui as sobrancelhas.

"Ok, nunca fui em uma pra saber se não. Mas com certeza sei que você não é do tipo atlética para fazer um rapel ou escaladas."

"Bom, eu não cheguei nessa parte. Meu pai escolhe algumas trilhas mais conservadoras, mais planas, sabe? Com subidas não tão íngremes. Mas com os instrumentos certos, talvez?"

Balancei a cabeça.

"Eu iria com vocês na reserva, mas amanhã eu tenho uns três encontros."

Ela riu do meu mau humor.

"Boa sorte pra você."

"Valeu..."rolei os olhos." Sobre amanhã, sei que vocês vão com segurança, mas tenham cuidado na reserva. Nunca se sabe se o momento em que estiverem por lá vai ser justamente quando algum maluco decidir invadir e..."

"Pode deixar."assentiu."Já fui bem avisada. Minha mãe me contou que era por ali que se escondiam e atacavam quando passou um tempo aqui. Ela tem o maior trauma dos sulistas... e o mais irônico é que, na época, ela mesma era nortista," disse revirando os olhos.

"Até o Gavril era."

"Pois é! E ela me contou que entrou na Seleção para influenciar o seu pai, pra fazer com que ele se aliasse aos nortistas. Mal sabia ela que seu pai já tinha planos que acabar com as castas há mais tempo do que ela pensava!"

"Foi a melhor coisa que ele fez."comentei.

"Se foi! Imagina viver num mundo onde você é obrigado a escolher uma ocupação?! Não poder seguir a música teria acabado comigo! Ai! Desculpaaa!"

Depois de puxar um livro, a pilha inteira ameaçou desmoronar e precisei ajudá-la quando os volumes começaram a cair em cascata.

"Pronto, tudo certo. Você se estressa demais com coisas pequenas!"

"Você é que é descansado demais." rebateu erguendo um dos livros. "Escolhi o meu."

Fomos para a mesa. E, novamente, foi uma tortura me controlar para não observá-la. Ela folheava as páginas, ocasionalmente franzindo a testa, concentrada.

A verdade é que eu estava com um problema.

Quando sugeri amizade, pensei que seria simples. Que poderíamos conviver sem intenções além da companhia um do outro, mas falhei miseravelmente nessa missão.

Não houve um dia, nem uma hora exata. Rosie foi ocupando espaço aos poucos, até dominar meus pensamentos, tornando impossível ignorar sua presença no jardim, na estufa, nos corredores, durante as refeições... em qualquer lugar onde estivesse.

De repente, os encontros com as outras selecionadas já não eram tão interessantes, e eu estava contando as horas para vê-la à noite, na biblioteca, onde eu tinha finalmente a chance de estar ao lado dela sem distrações.

"Osten, está tudo bem?" ela passou a mão diante do meu rosto, arrancando-me do devaneio.

"Ah, sim, está."sorri.

"É que..." ela segurou o riso."Você está olhando para a mesma página tem um tempão. Geralmente você lê mais rápido..."

"Só dei uma viajada." respirei fundo." O que está lendo?"

"Um livro não tão interessante." confessou.

"Você tinha me prometido falar do enredo de Turvas Memórias, lembra?"

"É verdade!" assentiu. "Mas... agora?"

"Hoje estou sem humor para trabalhar."respondi fechando o livro. Rosie retribuiu o sorriso e também fechou o seu.

Sem dúvidas, a melhor parte do meu dia era quando estávamos juntos. Ouvir sua voz, jogar conversa fora, ver o jeito que ria de coisas bobas, fazia tudo valer a pena. Até os problemas pareciam menores quando eu estava ali, ao lado dela, completamente perdido nela.

...

23h55, Moscou, Federação Russa -13 de Dezembro- Capítulo 63

"Alteza, Rosie Ambers está na linha."

Finalmente.

Era quase meia-noite em Moscou, estava de noite também em Paris. Achei que ela não fosse mais ligar naquele dia. Me apressei até o escritório.

"Rosie! Boa noite!"

"Boa."

"Você não me ligou ontem, fiquei chateado."

"Ah, desculpa, é que... foram muitas atividades... Eu acabei de chegar e..."

"Tudo bem."Ri." Estou vendo pela sua voz o quanto está cansada. Não vou prolongar muito. Só queria ouvir sua voz. Mas, me diz, está se divertindo?"

"Estou. De verdade."

"Que bom... E já usou bastante do seu francês, mademoiselle?"

Ela conteu o riso.

"Um pouco. Não tanto quanto eu gostaria, mas prometo que vou tentar usar mais.

"Não vão faltar oportunidades!"

"Sim..."

Ela não disse mais nada, e percebi que cabia a mim de preencher o silêncio.

"Fomos a uma orquestra hoje em Moscou. Eles tocaram maravilhosamente bem. Era um ambiente onde só faltava você. Estão noticiando em um canal francês, vou te passar o nome... Só deixa eu procurar no bolso..."

Naquele momento, eu estava tão concentrado em procurar o papel, enquanto lhe falava sobre o fato de terem tocado sua peça preferida, que acabei sem querer a cortando no primeiro chamado, só ouvindo quando ela elevou o tom.

"OSTEN, você leu minha carta?!"

"Carta?! Que carta?"

" Deixei junto com o relatório, em Londres. Na escrivaninha junto com outros papeis..."

"Que carta é essa, Rosie? Eu não recebi nenhuma...".

"Olha, eu não sei qual é o caso. Se você realmente não leu ou está fingindo que não sabe. Só... por favor, seja o que for, me diga a verdade quando estiver pronto. Estou indo, boa noite."

Ela não me deixou dizer mais nada.

Depois de alguns segundos processando, cedi ao impulso de ligar novamente, e resolvi ir direto para o criado mudo, onde coloquei todos os papeis que trouxe. Espalhei-os pela bancada, criando um apocalipse.

Eu deveria estar muito distraído quando fiz as malas de Londres, porque costumava ser metódico com documentos.

O envelope de estava o tempo inteiro de uma das pastas onde coloquei a papelada de baixa prioridade.

A carta dela me deu explicações sobre suas atitudes muito além das que eu esperava.

'(...)Peço que me perdoe.

Você não gostou quando eu afirmei que tinha algo com Delfina, então não vai gostar de saber que nesses últimos dias eu reparei melhor em você e Ophelia. E o fato de outras pessoas também terem percebido a forte conexão de vocês tornou tudo mais difícil.

Acredito que como você estava aberto a opções no início da Seleção, ela possivelmente foi uma de suas favoritas. E isso foi bem antes de nos envolvermos.

(...) Não que eu duvide da sua lealdade e de tudo o que já disse para mim, mas eu já vi mais certeza em você.

Por favor, enquanto eu estiver fora, apenas pense... Você sempre foi atencioso, protetor, bom comigo, mas talvez tenha deixado de me enxergar como a pessoa com quem quer passar o resto da vida.

Peço que seja honesto comigo, sem medo de me magoar.

Com amor, Rosie.'

Eu pensei que minhas falhas se resumiam às ausências, às vezes em que não estive perto quando ela precisava. Mas não... eu tinha feito pior.

No fim, fui eu o covarde que partiu o coração dela. Precisou de uma carta para que Rosie me mostrasse como se sentia insegura sobre nós.

...

10h33, Angeles, Illea- 21 de Julho - Capítulo 20-21

"Cheguei, obrigada por esperar!"

Virei-me e encontrei Ophelia vindo em minha direção, sorridente, como sempre.

"Pronto para perder?" perguntou, semicerrando os olhos.

"Me diz você."

"Osten Schreave, está me subestimando?"

"Pelo contrário. Uma boa corrida é a que ganhamos de um oponente à altura."

"Ha ha, engraçadinho."

Dei um último olhar em direção à estufa, de onde na mesma hora surgiu uma gargalhada estrindente de Kerttu. Ela e Rosie estavam fazendo uma guerra de terra.

Fui com Ophelia para o estábulo do palácio. Andar a cavalo sempre foi um dos meus hobbies favoritos, e era bom encontrar alguém com o mesmo gosto.

"Sabe, Osten, eu queria te propor um acordo." disse Ophelia, enquanto avançávamos com os cavalos para o campo aberto.

"Acordo?"

"Bom...sim. " deu um riso humorado ao captar minha atenção." Digamos que... estou me dispondo a ser a sua opção reserva para casamento." Parei, atônito, e ela não se deixou abalar pelo que acabara de dizer. "Aliás, eu estou completamente disposta a te provar o quanto posso contribuir para as Relações Internacionais de Illea."

"... Por que isso, de repente?! Não estou entendendo."

Ela deu de ombos.

"Acho que nós dois sabemos que desde o início tivemos uma conexão incrível. Eu me sinto bem quando estou com você, sinto que poderia compartilhar qualquer coisa sobre minha vida. E eu sei que isso é recíproco. Mas também sei que o único empecilho para damos certo se chama Rosie Ambers. Ah, não faz essa cara de sonso! Eu sei que você gosta dela. Muito pelo que estou vendo."Sorriu."Inclusive, eu vi você observando ela agora a pouco na estufa. Não tente negar! "

Ela me deixou sem palavras.

Sim, de fato existia um ponto exato do jardim, onde era possível ver quem estava dentro da estufa com facilidade. Eu costumava ficar ali antes de alguns encontros que ocorriam na parte aberta do castelo.

"Já desconfiava faz um tempo." Ophelia continuou." Você não é muito bom em esconder o que sente quando ela aparece. Mas, a pergunta que não quer calar é: vocês não estão juntos ou não?"

Respirei fundo, não tinha muito como argumentar contra ela.

"Com Rosie, as coisas são um tanto complicadas."

"Ela não tem certeza se te quer?"

"Não é bem isso."

"Então te deixou preso na friendzone." Afirmou. E, me encarou irônica." Não era difícil deduzir. Eu acompanho a lista de encontros, vocês não tem se visto tanto assim. Para o tanto que você gosta dela, se não assumiram nada é porque, ou ela te pediu tempo por não se sentir pronta para casar, ou simplesmente não te retribui, e você está sendo um bom amigo enquanto espera ansiosamente para que ela mude de ideia. Acertei?"

A esperteza dela me desconcertava.

Desde o nosso primeiro encontro, quando me contou que adorava debates e relações internacionais, nós começamos a desafiar um ao outro com sessões de perguntas e respostas. E ela me dava muito trabalho. Tanto nisso, quanto no xadrez, jogos de cartas, testes de idiomas, corridas a cavalo e duelos de esgrima.

Ophelia era brilhante. Eu já deveria saber que era impossível esconder qualquer coisa dela.

"A questão é que... Rosie tinha um melhor amigo de infância em Columbia que... "

"Ah, entendi. E ela tem alguma coisa com ele?"

"Não. Só gosta muito dele, mas ele não sabe, e está fazendo ela sofrer estando com outra pessoa."

A lembrança veio nítida. Soube naquele instante, no corredor do palácio, quando a encontrei chorando e ela me contou que tivera uma briga com ele pouco antes de ir para Angeles. Pela forma como falava do amigo, não restava dúvida: havia sentimento ali.

"Então essa é sua chance de conquistá-la! Espera... já saquei. Você não se declarou e tem medo fazer isso e perder a amizade dela."

Não consegui responder. Ophelia ajeitou as rédeas, continuando.

"Ok, só pense na minha proposta. Se não der certo com ela, eu estarei aqui."

"Não." meneei a cabeça, e vi que ela se assustou com a firmeza. "Não, Ophelia. Desculpe, mas você merece mais do que ser uma segunda opção. Sinto muito, mas agora não posso simplesmente deixá-la aqui sabendo disso. Não é legal da minha parte..."

"Não, não pense nisso!" Ela me interrompeu, a voz saindo profundamente magoada. "Fala sério, Osten. Não pode me expulsar só porque você se sente mal por eu perceber o óbvio! De verdade... se eu não sou sua segunda opção, então o que eu e as outras selecionadas estamos fazendo aqui?"

Ela tinha um bom ponto nisso.

"Desculpe. Você está certa."Um silêncio constrangedor se seguiu. Era possível ouvir apenas as passadas dos cavalos quando ela retomou o passo, avançando pelo campo aberto. Tentei acompanhar seu ritmo."Ophelia..."

"Até a Elite."Ela respondeu, olhando para longe. Por fim, parou e me encarou." Se essa Seleção for continuar, me deixe aqui pelo menos até as últimas. Ignore o que eu sei. Apenas me deixe aproveitar as atividades que estão nos dando aqui. É importante para mim. "Ela respirou fundo e continuou."Fale com ela, não deixe de se declarar, pode se arrepender. Prometo que, se as coisas derem certo entre vocês, não serei eu a atrapalhar. Eu gosto muito da Rosie. E como ela tem o seu coração, a preferência é dela."Me olhou, forçando um sorriso." Por favor!"

"...Ok." assenti resignado."Se é o que você quer..."

"Sim, eu quero. Quero muito! Obrigada. Não tem noção do quanto eu sou grata." sorriu mais. "Agora vamos correr!"

Ela não me deu tempo de raciocinar e precisei me esforçar para alcançá-la. Pelo restante do passeio, senti um alívio ao vê-la recuperar seu bom humor habitual.

...

13h47, Angeles, Illea -18 de Outubro - Capítulo 47

Rosie deu um riso baixo quando colocamos nossos pés para lados opostos da dança. Segurei-a firme de volta para mim.

" Isso é que é sincronia." comentou, tentando disfarçar o riso.

"Relaxa, vamos conseguir."sorri"Cadê o otimismo?"

"PAREM TUDO, vocês estão errados!"Kerttu abriu um espaço entre nós dois. Nos olhamos sem entender" Seus burros! Primeiro tem que escolher seu lado só. Os dois tem que ir para o mesmo lado! Desaprenderam a dançar?"

"Olha. Eu sou péssima, princesa. Só dancei valsa uma vez na vida no seu aniversário.Mas quem errou mais até agora foi o Osten."

"Vamos de novo! Eu não aceito corpo mole. Vocês vão fazer várias vezes até acertarem, entenderam?"

Kerttu ligou a música.Rosie e eu trocamos um olhar segurando o riso.

"Ela é muito mandona" sussurrou.

"É sério que só percebeu agora?"

Ela riu.

"Não se esqueçam de ir para o mesmo lado!"

" Vamos para a direita."Sem querer acabei sussurrando em seu ouvido, e segurei o riso ao ver que isso tinha deixado-a arrepiada.

"O que foi?" perguntei, fingindo inocência enquanto ela corava e desviava o olhar. Como sempre.

Nossa amizade e proximidade sempre me deram vislumbres, momentos em que eu me perguntava se Rosie poderia sentir o mesmo que eu.

No início, o problema era seu o melhor amigo Tyler. Depois ela pensou que eu ainda gostava de Delfina, mas foi justamente seus ciúmes e sua mudança de atitude no casamento da tia May que me fizeram enxergar a mudança em seus sentimentos.

Arrisquei questioná-la, e vi que estava certo. Agora, tinha-a em meus braços, e era o homem mais feliz do mundo.

...

Fui chamado no portão de entrada.

"Fala, Bridget, o que houve?" perguntei, sem esconder a má vontade.

Já havia comunicado sobre sua eliminação desde cedo e pensei que ela até já tivesse ido embora. Isso era para ter ocorrido há mais tempo, só esperei passar o casamento da tia May, devido a sua apresentação marcada, para tornar tudo oficial.

"Acho que você deveria ler isso."

"Como é?"

"Só abre."

Peguei o envelope e reconheci a caligrafia na hora, era de Rosie. Uma carta escrita sem data e sem endereço, ou seja, que jamais chegou às mãos do destinatário.

"Querido Tyler,

Sou a única selecionada aqui que não pensa no príncipe,mas em outra pessoa.

E você está bem longe de retribuir. Não afirmo isso só por causa da sua resposta à minha 'declaração' na última carta. (..)

"Se me deixar ficar mais um tempo, posso descobrir mais sobre isso pra você. Se existem outras cartas ou..."

"Onde conseguiu isso?" questionei.

Sabia que era um truque dela.

Desde o início, eu sabia que era inútil o voto de confiança que Rosie tentou lhe dar. Mas não me preocupei, porque ela me garantiu que continuaria tomando cuidado com as atitudes de Bridget.

"Eu sei dessa carta desde o dia em que eu e Rosie fomos para aquele hotel, para o concurso de Culinária de Angeles. Eu entrei no quarto dela pra chamar ela para o programa e a carta estava na mesa, exposta para qualquer um ver."

"Faz muito tempo, não? "

"Não te mostrei antes, porque você sempre confiou cegamente nela. Não iria acreditar em mim nunca! Mas agora que você me eliminou, prefiro te dar. Faça o que quiser com isso."

Eu tinha certeza de que a carta, na verdade, deveria estar guardada desde o princípio no meio das coisas da Rosie, e que para ela não ter dado falta, não devia nem se lembrar.

Bridget sabia muito bem que eu não eliminaria Rosie só por ela gostar de Tyler. Ela deve ter guardado, a espera do momento certo, para lançar uma semente da discórdia no meu relacionamento com Rosie. Um momento como esse, em que já não tinha mais nada a perder.

"Lamento te decepcionar, Bridget, mas isso é passado. Rosie não gosta mais de Tyler."

"E você tem certeza absoluta?"

"Tenho."

"Interessante." Ela cruzou os braços, pensativa, e eu ri.

"Sua última vingança era me fazer ficar contra ela?"

Ela estalou a língua.

"Não é vingança. É consideração, você sempre foi um cara bom, só se deixou levar por aquela..."

"Só vai embora, Bridget."

"Incrível como ela te manipulou... Passar bem, seu corno." E saiu com um sorriso irônico.

Eu poderia ter rasgado. Não faria falta a Rosie.

Mas eu não consegui resistir à tentação de ler até o final.

Não porque acreditasse em traição. Não porque Bridget tivesse conseguido o que queria.

"(...)A propósito, talvez eu precise cortar pela raíz um sentimento negativo que tenho em relação a você: inveja.

Você segue a carreira que sempre almejou, enquanto tem a pessoa que ama ao seu lado.

Eu não estou bem lá seguindo o que planejei, nem vivo um mar de rosas quanto ao amor. É tudo muito complicado para mim, e fácil para você (...)"

Dobrei a carta após um tempo refletindo.

Bridget tentou transformá-la em munição. Mas tudo o que eu consegui ver ali foi Rosie, frágil e honesta sobre suas aspirações. E, por algum motivo, isso doeu mais do que qualquer acusação.

...

18h21, Angeles, Illea- 19 de Outubro - Capítulo 48

Era o dia de uma edição especial do Jornal de Illea, uma entrevista que Diana Tilley faria comigo, e logo após com cada uma das selecionadas. Ophelia passou por meu escritório, minutos antes de eu descer.

"Tem uns dias que estou notando você e Rosie diferentes. Vocês finalmente começaram algo, hã?" Assenti sem graça pelo seu tom provocativo.Ophelia era sagaz. "Eu já imaginava. E agora, quando será o noivado?"

"...Bom, ainda é cedo para isso. Muito provavelmente durante a viagem para Europa, mas Ophelia, como eu te falei antes, não quero que você se faça uma segunda opção. Então..."

"Não, não, não! Não me mande embora! Eu prometi, Osten. Disse que não daria trabalho para você e Rosie, caso desse certo. Aliás, tem um bom tempo que nós não saímos, então, não vai ser estranho de forma nenhuma para mim estar por perto. Me considere invisível, só não me prive dessa viagem, desse contato com os diplomatas."

Encarei-a ainda em dúvida. Ela estava suplicando para ir, e se tinha algo que eu não conseguia era decepcionar alguém que sempre foi tão boa, e tão dedicada à sua paixão pela diplomacia.

"....Tudo bem."Estendi a mão."Eu espero que goste do nosso tour."

Ela sorriu também.

"Claro. Será uma honra trabalhar com você."

...

"Qual era o seu projeto de vida antes de pensar em se casar com o príncipe Osten?

"Como pretende adaptar isso ao lado dele?"

Toda vez que essas perguntas surgiam, eu sentia o estômago revirar. Esperei pela resposta Rosie na entrevista que Diana fazia com as selecionadas.

"Quando entrei, eu queria seguir carreira em arte, literatura ou música... " disse ela." Mas minhas ideias mudaram um pouco. Talvez... talvez eu consiga aprender diplomacia com paciência. E, quem sabe, conciliar isso à música."

Talvez.

Aquela palavra ecoou na minha mente. Talvez ela conseguisse a harmonia entre uma vida ao meu lado e a realização de seus sonhos.

Lembrei da expressão dela ao dar aula de violino no resort, na véspera do casamento da tia May. Aquele brilho, aquela felicidade genuína... Eu sabia qual era sua verdadeira paixão. E me perguntei o quanto ela estava abrindo mão disso.

Respirei fundo. Não podia me perder nesse pensamento agora.

A entrevista minha com Diana só reforçou o que eu já sentia: Essa Seleção... era uma prisão.Um peso. Eu precisava encerrar isso. Mas não podia agir por impulso.

Não agora. Não quando Rosie e eu finalmente tínhamos algo real. O calendário da viagem já estava fechado por Marid. Cancelar tudo causaria alarde demais.

O que eu podia fazer era ter um pouco mais de tempo de relacionamento com Rosie e, enquanto isso, separar uma Elite com selecionadas que realmente queriam ficar, com a condição de que não seria comigo.

Eu já tinha Ophelia e Paige confirmadas, precisava pensar nas restantes.

...

00h21, Angeles, Illea — 25 de Outubro - Capítulo 50

Rosie tinha vigiado o tempo todo o meu relógio de pulso durante o filme, só para cair no sono bem próximo à meia-noite.Fui abaixando o volume ao máximo possível para que ela pudesse dormir.

Chamei-a mais uma vez em som baixo ao término do filme. Mas não houve resposta. Com cuidado, me virei segurando-a por trás, apoiando a dobra de seu joelho em meu outro braço.

Ela não acordou nem quando a ergui.

Isso me deu uma insana vontade de rir. Me segurei, no entanto, no caminho até seu quarto.

"Ei, tio!" Parei em frente à porta com o chamado.

"Xiu" Me virei vendo Kerttu e Stefan com expressões faceiras.

"Ah, desculpa, é que você não tava ouvindo."

"Hum... Pra que isso aí?" Indiquei a câmera em suas mãos. Ela começou a rir no meio da explicação.

"A gente ia no seu quarto fazer um vídeo de pegadinha, te assustando, pra mostrar pra todo mundo na sua festa de aniversário, mas aí a gente te encontrou no corredor e te seguiu."

Revirei os olhos, tentando não rir também.

"Vocês são impossíveis."

"Por que contou pra ele?!" Stefan estava indignado.

"Porque agora eu tenho uma ideia bem melhor." ela ligou a câmera."Olha só pra ele com a Rosie no colo! Tão fofos! Posso tirar foto de vocês? Por favoor!"

Respirei fundo.

"Só se me der uma cópia."

"Feito!"

"Ela não acorda por nada, que bizarro!"

"Sim..."concordei com Stefan, observando o rosto sereno de Rosie. Entrei no quarto assim que eles foram embora, deixei ela em sua cama e a cobri.

Imaginei como ficaria totalmente desnorteada ao acordar. Seu sono estava tão profundo... Não queria interrompê-lo, mas não resisti a deixar um beijo em sua cabeça.

"Boa noite, minha princesa."

...

10h04, Voo Illea/Berlim- 25 de Outubro - Capítulo 51

Feliz aniversário, Osten!

Que hoje seja um dia especial e que este novo ano da sua vida venha cheio de alegrias e realizações. Obrigada por, mesmo depois de todos os nossos mal entendidos, insistir em sermos amigos e por sua paciência, para que agora fôssemos muito mais do que isso...Desejo que sua vida seja marcada por momentos verdadeiros e felizes, e espero poder estar ao seu lado nos próximos anos para vivê-los com você.

Com amor, Rosie.

Ri, me lembrando de seu desespero quando quis ler em sua frente. Ela me fez prometer que só leria no caminho. E eu cumpri, abrindo durante o voo para Berlim.

"Tudo bem, garoto?"

"Oi?"

"Tem uns cinco minutos que está encarando as nuvens com um sorriso estranho no rosto."

Ben estava claramente se divertindo com a minha cara.

" É mesmo?"

" Sim. Seria uma carta de uma selecionada?"

" Na mosca, Sr."

Não sabia como Rosie conseguia, mas eu estava com um idiota, um bobo apaixonado encarando seu bilhete mais uma vez.

"Quando estiver pronto, vamos repassar as metas." Ben sugeriu.

Assenti guardando o bilhete, e voltei a revisar minhas anotações.

Já era a minha segunda viagem à Federação Alemã daquele ano.

Porém, o objetivo dessa vez, além de discutir acordos comerciais, era tentar abordar pacificamente a escalada do possível conflito entre a Nova Ásia e a Noruécia.

...

16h43,Berlim, Alemanha-26 de outubro-Capítulo 52

Quando encontrei um tempo livre, comuniquei a Caleb, o motorista, que sairíamos.

Fomos em um carro que já deixava o palácio alemão após descarregar suprimentos, para não chamar atenção de nenhum curioso que pudesse informar um paparazzi ou jornalista e transformar minha saída em espetáculo.

O carro parou em uma esquina vazia, em um bairro afastado do centro.

"Pode circular e voltar em uns quinze minutos, não vou demorar mais do que isso."

Da primeira vez que estive ali, na viagem que fiz no segundo mês da Seleção, eu procurava um presente para Rosie que não soasse como investida romântica. Um livro me pareceu perfeito.

O local fora uma indicação do príncipe Aaron, ávido leitor, que dizia frequentar aquela livraria em horários de menor movimento. Confiava na discrição do dono, que não fazia questão de divulgar a presença de clientes ilustres.

A loja estava vazia quando entrei.

"Como vai, Sr. Klippel. Chegou o terceiro volume da coleção Turvas Memórias?"

O homem pareceu confuso até que tirei os óculos de sol. Quase ninguém passava na rua, mas todo cuidado era pouco.

"Ah, Alteza. Que bom vê-lo aqui. O livro está em lançamento, e claro que consegui uma das primeiras cópias. Vou buscar para você."

Continuei a olhar as estantes enquanto ele desaparecia pela porta dos fundos. Pouco depois, voltou com o exemplar.

"Aqui está."

"Muito obrigado. Vou levar esse também."

"Não é bem um exemplar ficcional." comentou.

"Velhos hábitos nunca mudam." falei, encarando a descrição, o tema estava ligado a diplomacia e história.

"Mais alguma coisa?"

"Bom, sim. Vou precisar daquele seu contato de designer de joias."

A surpresa dele foi evidente. O tal contato, na verdade, era o irmão dele, de quem já havia me mostrado um panfleto com algumas peças na última vez em que estive ali.

Antes eu não pensava não ter chance de um futuro com Rosie, mas agora as coisas começavam a se alinhar. Estava na hora de dar um passo adiante.

"Peço para ele trazer aqui ou no palácio?"

Pensei por um instante.

"Aqui. Melhor evitar atenção estranha. Pode ser amanhã às 12h? Vou passar o telefone do palácio para ele confirmar depois se pode."

"Combinado." Ele puxou uma agenda para anotar. "E qual o nome da moça? Não vai confiar em mim nem para isso?"

Ri.

"Sinto muito, mas um dia vou trazê-la aqui para te conhecer pessoalmente."

"Sim, faça isso!"

...

18h02, Berlim, Alemanha — 27 de outubro-Capítulo 52

O objetivo da viagem diplomática na Alemanha foi cumprido. Nosso voo de retorno a Illea seria em três horas, por isso estranhei quando Marid me chamou urgentemente.

"Sr, o que aconteceu?"

"Nada demais, jovem." o sorriso irônico dele serviu como um alerta." Só vamos definir alguns detalhes sobre o seu futuro profissional."

...

17h10, Angeles, Illea-29 de Outubro- Capítulo 53

"Chien" apontei no livro. "O que significa?"

Ela mordeu a ponta do lápis, pensou um pouco e respondeu com convicção.

"Gato."

Quase caí da cadeira de tanto rir. Eu tentava ter seriedade, mas dar um reforço de francês para Rosie era um tanto desafiador nesse sentido, porque apesar de ela se dedicar e já ter um nível mediano, às vezes errava alguns vocabulários básicos.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

"Chien é cachorro. Gatinho é Chaton. Céus, Rosie... você é péssima."

"EI."

E, ela estava de pé, me perseguindo entre as estantes da biblioteca. Deixei que ela me alcançasse, só para agarra-la de repente e encostá-la contra a parede. O riso dela se apagou junto ao meu, e por um instante o mundo parou, só existia a respiração dela misturada à minha. Eu poderia beijá-la para sempre, se fosse possível.

Meu caderno de rascunhos tinha ficado aberto sobre a mesa, esquecido na pressa. Quando ela voltou para pegar o lápis que deixara cair, seus olhos pousaram na página.

Je t'aime.

(Eu te amo).

Meu coração disparou. Droga. Eu tinha rabiscado sem pensar. Fechei o caderno o mais rápido que consegui. Ela começou a organizar os lápis no estojo tão calada que tive certeza de que tinha lido.

Eu queria dizer isso a ela, um dia, é claro, mas em uma ocasião especial.

Sentamos um ao lado do outro e nos encaramos sorrindo. Envolvi seu rosto e roubei mais um beijo. Ela riu e correspondeu.

"Osten?"me chamou em voz baixa, junto a um suspiro de sua parte.

"O que foi, mon amour? "

"Tenho aula de violino... com sua mãe."

Pisquei, confuso. "Agora?!"

Ela confirmou com a cabeça. "Sim. Preciso ir... Obrigada pela ajuda."

"...Por nada." retribui seu sorriso.

Ela se levantou, e eu já ia guardando meus pertences quando retornou e sussurrou no meu ouvido.

"Je t'aime aussi".

(Eu também te amo).

Quase perdi o chão. Ela tinha lido. E tinha entendido. Segurei-a firme e a beijei com urgência.

"Je t'aime, Rosie."

Os olhos dela encontraram os meus, seu sorriso sempre me fazia esquecer do mundo. Minha mão deslizou para acariciar seu rosto, beijei sua testa, a ponta do nariz, e continuei com uma trilha de beijos pela sua pele até alcançar sua orelha, arrancando dela um riso baixo.

Tivemos um pequeno atraso para perceber, e então nos demos conta: a porta estava aberta... e por ninguém menos que minha mãe, que sorria ternamente, alternando o olhar entre mim e Rosie.

"Espero não ter atrapalhado. Amy disse que você estaria aqui, Rosie. Desculpe. Eu ia avisar que precisaria de mais uns quinze minutos para só para tomar um café."

"Sem problemas."respondi"Te perdoamos, não é?" segurei a risada, olhando para Rosie, que simplesmente travou.

"Tudo bem, então...Até daqui a pouco, querida."piscou para Rosie."Juízo, filho."

"Sim, senhora!"

"Eu... acho que já vou para sala de música afinar meu violino, Osten." Rosie sorriu brevemente para mim e saiu depressa da biblioteca, tomando a direção oposta da minha mãe.

Eu ri sozinho, sabia que ela só precisava de um momento para surtar em paz pela vergonha. Parei no batente da porta, acompanhando-a até ela sumir para outro corredor.

Alguém limpou a garganta. Dessa vez, o assustado fui eu quando virei e dei de cara com o meu pai. Ele cruzou os braços, humorado.

"Já tem um tempo que eu queria te perguntar..."

"Hum? Perguntar o quê?"

"Ela é a minha futura nora?"

Ergui as sobrancelhas, e em seguida assenti.

"Não tenha dúvidas."

"Eu sabia que era ela!"Ele vibrou de um modo engraçado."E... então, quando vão oficializar isso?"

"Em breve, se possível. Eu..."

"Vai fazer a viagem com a Elite, certo?"

"Isso, eu estou cuidando de todos os detalhes para fazer o pedido no melhor momento."

"Vai dar certo, eu sei que vai." Sua mão repousou em meu ombro com um sorriso."Desejo felicidades para vocês."

"Obrigado, pai."