Uma Pestinha Em Minha Vida
27 Fim de um relacionamento e desabafo numa despensa
Notas iniciais
Estava caminhando em direção à sala na companhia de Levy, Jellal, Erza e Cana. Levy ainda estava meio chateada pela conversa que tivemos ontem em relação à Gajeel, mas eu nada disse com medo de fazê-la se sentir pior. Erza estava com fones de ouvido tocando alguma música no último volume, tudo para não dar atenção a Jellal que caminhava a seu lado emburrado com a situação. Queria conquista-la, mas ela dificultava cada vez mais a situação, sentia até uma pena do coitado.
– Que chato, quando é que vocês dois vão se resolver? – Cana perguntou se espreguiçado enquanto caminhava com a maior cara de tédio.
– Quando esta demônia deixar de ser chata. – Jellal respondeu suspirando, já Erza nem havia ouvido nada.
– Eu acho que vocês dois formam um belo casal. – comentei e Jellal abriu um sorriso constrangido, mas logo este constrangimento se transformou em malícia. Jellal olhou para nós e piscou.
Sem aviso prévio, ele pegou Erza no colo se saiu correndo com ela pelos corredores do colégio enquanto ela gritava e estapeava ele para coloca-la de volta no chão. E nós, como grandes amigas, ficamos apenas observando enquanto Jellal roubava um beijo da esquentada e ela batia nele com todas as forças por ter feito isso. O amor é lindo, não é? Acho que terei que visitar Jellal no hospital mais tarde.
Olhei para o lado e vi que Levy parecia cada vez mais desanimada ao ver a cena, Gajeel costumava fazer o mesmo com ela quando sabia que não havia ninguém olhando ou era alguém de confiança. Decidi puxar algum assunto para aliviar a tensão, mas fui cortada por um grito que ecoou pelo corredor.
– Por favor, Natsu, me responde! – era Lisanna.
– Lisanna, a gente conversa mais tarde. – Natsu desviava dela um tanto irritado. Indignada com a atitude do rapaz, Lisanna puxou com tudo o cachecol que estava enrolado no pescoço dele, forçando-o a olhar para ela. Nesta altura do campeonato, o corredor inteiro já havia parado o que estava fazendo para prestar atenção nos dois. Eu, Levy e Cana estávamos neste grupo também, obviamente.
– Não tem esta de conversar mais tarde, eu quero que você me responda agora!
Tenso.
Natsu apenas encarou-a e nada disse, suspirando irritado.
– Me responde: o que aconteceu com nosso relacionamento? Os beijos já não são mais os mesmos, é evidente que você já não me dá mais a mesma atenção, e na última vez em que eu disse “eu te amo”, você não respondeu nada, me diz: Por que isso?
Lisanna já estava histérica. O número de pessoas que paravam para assistir só aumentava, e o clima tenso também. Natsu continuou encarando-a sério e novamente nada respondeu.
– É por causa dela, não é? É POR CAUSA DAQUELA VADIA, NATSU?
O barulho de um tapa ecoou pelo local e depois só silêncio. Lisanna encarava Natsu atônita com uma marca vermelha em seu rosto. Ele havia mesmo batido nela! Nem eu mesma podia acreditar! Ninguém podia acreditar. E ele a encarava com raiva, muita raiva!
– Não ouse se referir a ela desta maneira! – disse de maneira fria, ao mesmo tempo que irritada.
Ela continuou olhando para ele atônita, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. Então seus olhos começaram a se encher de lágrimas e novamente aquela sensação estranha de pena dela me preencheu. Há muito tempo não via Lisanna demonstrando sentimentos sinceros.
– E o nosso amor, Natsu? – falou baixo, desta vez.
– Não adianta insistir em algo que não existe mais. Acabou, Lisanna, agora suma da minha frente!
Ninguém conseguia acreditar no que presenciava. Todas as pessoas, principalmente Lisanna, estavam sem reação, inclusive eu, Levy e Cana. Pensando apenas em mim mesma, eu deveria estar feliz pelo que está acontecendo, afinal, eu odeio Lisanna e o relacionamento dela com Natsu me atormentava muito e doía muito pensar que a pessoa por quem estou apaixonada estava comprometida. Lisanna era uma das pessoas mais falsas que já conheci, mas os sentimentos demonstrados em seus olhos eram muito sinceros. Não conseguia de maneira nenhuma ficar feliz vendo o que ela estava passando no momento. Lisanna estava sofrendo, e muito, a dor de ter o coração partido é uma das mais cruéis que existem, e se divertir com o sofrimento alheio é tão cruel quanto.
– NATSU, VOCÊ É UM IDIOTA! – gritou entre lágrimas, e saiu correndo.
Ninguém foi atrás dela. Natsu bufou e exclamou irritado.
– O que estão olhando? Vocês não tem mais nada pra fazer? – e saiu sem dar atenção a ninguém. Nem mesmo Gray, que estava próximo a mim, foi atrás dele. Quando o olhei questionando, ele apenas me respondeu “Ele precisa de um tempo sozinho.”
[...]
As aulas passaram se arrastando, nem Natsu, nem Lisanna, apareceram para elas. É bem compreensível na verdade, os dois devem estar sofrendo muito. Mesmo porque, eles não perderam muita coisa, a aula do Macao foi bem chata, até a Levy-chan conseguiu dormir na aula.
Estávamos no intervalo agora. Levy estava se martirizando por ter dormido na aula, enquanto Cana falava para ela relaxar, que isto era normal de vez em quando. Erza estava enfezada do nosso lado e ninguém ousava falar nada a ela que deixasse seu humor pior, e nada de Jellal. Mas sempre tem uma pessoa que cutuca fera com galho curto, não é?
– Erza, cadê o Jellal? – Cana perguntou com um tom de malícia. É, Cana, foi legal de conhecer...
– Numa cova, eu espero. – bufou irritada, virando o rosto. Erza acha que pode enganar alguém, mas eu vi muito bem que ela estava corada quando fez isso. Esses dois, de longe, são o casal mais complicado que eu conheço.
Ao longe, vi Lisanna se aproximando com os olhos vermelhos e inchados e novamente aquele sentimento de piedade apareceu. Por um segundo, até cogitei a possibilidade de ir falar com ela, mas isto morreu quando vi que ela encarava a mim com ódio e vinha na minha direção pisando firme. Fingi que não era comigo e desviei o olhar, tentando puxar um assunto com minhas amigas, mas fui bruscamente puxada pelos cabelos e forçada a me levantar, me fazendo soltar um grito de dor. Todos que estavam na cantina pararam o que estavam fazendo para assistir.
– Lisanna! O que pensa que está fazendo?! – Erza se levantou irritada, mas Lisanna a ignorou e apertou ainda mais meus cabelos.
– DESGRAÇADA! VAI PAGAR MUITO CARO, HEARTPHILIA! ESTÁ SATISFEITA? MEU RELACIONAMENTO COM O NATSU, ACABOU! ACABOU! E ISSO É TUDO SUA CULPA! NÃO SE CONTENTA EM JÁ TER DOIS CAIDINHOS POR VOCÊ? PRECISA ROUBAR MEU NAMORADO? VADIA — gritou ela pra escola toda ouvir.
Neste momento meu sangue ferveu e todo aquele sentimento de piedade foi embora. Sim, eu sou apaixonada pelo Natsu, mas respeito relacionamentos! Eu nunca tentei roubar Natsu de Lisanna, ela não podia me tratar desta forma!
– Lisanna, largue a Lucy agora! – Erza gritou, mas Lisanna continuou ignorando.
Fala sério, até quando vou precisar que os outros me defendam?
Parei de tentar segurar meus cabelos na tentativa de diminuir a dor e segurei seus pulsos, enterrando minhas unhas que por um milagre, não estavam muito curtas, nas costas de suas mãos. Ela soltou um grito de dor e imediatamente soltou meu cabelo. Nem queria saber como ele estava no momento. Ela olhava para as mãos que estavam com as marcas das minhas unhas e me encarou novamente com ódio.
– Escuta aqui, Lisanna, eu nunca tentei roubar o Natsu de você, nunca! Eu não sei qual foi o motivo de vocês terem terminado, mas nunca fiz nada para tirar ele de você! Somos só amigos, e você sabe muito bem disso!
– Como se atreve, vadia?! – ela apontou para mim em forma de acusação.
– E tira esse dedo imundo da minha cara.
Peguei seu dedo e o virei fazendo certa força, quase quebrando. Todos que assistiam estavam chocados, e devo dizer que eu mesma estava surpresa com minhas atitudes.
– AAAH! PARA! PARA! ESTÁ DOENDO! — gritou ela tentando soltar seu dedo.
– O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! — uma voz que eu temia ecoou pela cantina.
Todos pararam, inclusive eu e Lisanna, pra olhar pra o diretor que apareceu nesse instante. Perfeito. Ótima hora para baixar um espírito desmembrador em mim.
– Senhor Dreyer! Não é o que o senhor está pensando! Foi ela que começou e...
– Diretor, como pode não ser o que o senhor está pensando?! Essa assassina quer me matar, ela está quase quebrando meu dedo, acho que precisarei ir ao hospital! — e ela despencou no chão fingindo um desmaio.
Fala sério, quem acredita nisso? Além de ser um tremendo exagero da parte dela, é a pior atriz que eu já vi! Obviamente o diretor Makarov não vai acreditar em uma atuação tão ruim e forçada quanto esta!
– Lisanna, já converso com você. Lucy Heartphilia, na minha sala, agora!
MAZOQUE?
– Como é que é, diretor? – perguntei incrédula.
– A-G-O-R-A!! E vocês! Não tem nada para ver aqui, voltem para suas salas imediatamente! – o diretor gritou com uma fúria jamais vista e claro que todos voaram para suas respectivas salas, até mesmo Erza estava assustada e logo em seguida fui escoltada pelo diretor até sua sala.
[...]
Bem, estávamos na sala do diretor. Eu nunca havia entrado aqui antes, jamais havia passado da secretaria e devo dizer que a sala até que é bem grande e confortável, tem até um frigobar e uma televisão enorme aqui. Estava tão distraída desvendando os mistérios da diretoria que eu jamais havia visitado que até havia esquecido o nervosismo que estava sentindo por estar sendo mandada para a diretoria pela primeira vez na vida.
Foi então as luzes se apagaram e uma pequena luz se acendeu sobre minha cabeça, me dando a visão de um ambiente, que no momento mais parecia uma sala de interrogatório, com uma pequena mesa de madeira escura na minha frente. Mas que diabos está acontecendo aqui?
– E então, Heartphilia, o que tem a dizer em sua defesa? – o diretor perguntou com uma voz séria aparecendo de repente na minha frente segurando a lâmpada de um jeito que a luz viesse em meu rosto.
– Senhor Dreyer, eu sou inocente! – foi a primeira coisa que veio à minha cabeça.
– É o que todos dizem.
Filho da mãe!
– Nós podemos fazer do jeito fácil ou do jeito difícil. – continuou andando lentamente à minha volta. — Você escolhe.
– Eu escolho o fácil. – Obviamente escolheria o jeito fácil, mesmo sem saber o que é. Estou tão assustada com a situação bizarra em que me enfiei que acho que se continuar desta maneira, precisarei de fraldas!
– Certo. Você simplesmente se entrega e eu te expulso do colégio. Brigas são inadmissíveis!
– O QUE?! Mas diretor, foi a Lisanna quem começou, eu só me defendi, eu juro! Eu só queria quebrar o dedo dela, mais nada!
– Você pode estar mentindo! Você está suando, está nervosa... Vamos! Fale a verdade!
– Eu estou nervosa porque não esperava passar por um interrogatório policial! – falei como se fosse óbvio. Na verdade, era bem óbvio mesmo.
– Certo, certo, desculpe-me, velhos hábitos não morrem.
Então a lâmpada que ela segurava se apagou e as luzes se acenderam, me possibilitando ver novamente o mundo à minha volta. Definitivamente, esta visita à diretoria não foi nada parecida com o que eu imaginava, o diretor é louco!
– Certo Heartphilia, explique-me o que aconteceu.
Expliquei a ele o que aconteceu, desde o momento do termino do namoro, até o momento em que ele chegou, flagrando minha pequena cena de violência, me certificando de que havia deixado claro que eu nunca tinha feito nada para separar os dois e que Lisanna não tinha o direito de ter feito o que fez comigo. Ele ficou pensativo por um instante e murmurou irritado algo do tipo “estes jovens só me dão dor de cabeça”.
– Muito bem, Heartphilia, realmente não me interessa intrigas por casos amorosos, mas brigas não são permitidas de maneira alguma neste colégio. Ouvirei a versão de Lisanna logo mais, porém, você levará uma suspensão de um dia.
– O QUE?! – gritei indignada. — Mas foi um acidente e ela que começou a briga.
– Certo, mas eu vi você quase quebrando o dedo dela.
Ótimo, realmente eu sou a pessoa mais azarada do mundo! Já não basta ter problemas financeiros, um chantagista que está na minha cola, algumas meninas iludidas surtadas querendo minha cabeça e uma garotinha com carinha de anjo e alma de capeta que quer me ver em um manicômio, agora levo uma suspensão do colégio, o que mais falta?
– Deveria estar feliz, senhoria Heartphilia.
Certo, por que, claro, uma suspensão por uma briga que você não é culpada é motivo pra comemorar. Você está tirando uma com a minha cara, diretor?
– E porque diz isso?
– Porque as punições por violência são expulsões, e você só vai ganhar uma suspensão porque de fato é um motivo ridículo para uma briga e porque é uma excelente aluna. – falou por fim, cruzando os braços.
E deveria estar feliz por isso? Bem, uma suspensão não deve ser tão ruim assim e além de que, se eu fosse expulsa, meu pai me mandava pro mundo das preguiças voadoras! Sem falar que Grandine não iria mais me querer como babá de sua querida pestinha preciosa e eu realmente teria problemas para pagar as contas de casa!
– Certo senhor Dreyer. – suspirei derrotada.
– Dispensada.
Saí da sala do diretor e encarei o corredor. Não havia nenhuma alma passando por ali, aquele corredor parecia ficar cada vez mais comprido, e nesta perspectiva, suspirei. Comecei a andar em passos lentos, não tinha a menor pressa de chegar à sala, mas uma mão me puxou para trás de um pilar.
– Como foi a visita à sala do diretor? Aquele foi um show e tanto, devo dizer que me surpreendeu bastante, quem diria que a Blondie aqui, tão desastrada e meiga, escondia um lado agressivo? Devo dizer que gosto disso, torna as coisas ainda mais interessantes. – Sting disse debochado. Como o odeio!
– Obrigada pela consideração. – falei irônica. – Pelo menos, com a suspensão que peguei, não precisarei olhar para sua cara por um tempo.
– Que pena que pense assim.
– Agora, se me dá licença, tenho uma aula para assistir. Não deveria estar fazendo o mesmo? – falei já saindo e com a intensão de deixar a pergunta no ar.
– Muito bem, mas antes... – fui puxada de encontro a Sting.
Num movimento rápido, Sting me prensa contra o pilar e me rouba um beijo. Sim, um beijo! Não foi mais do que um toque de lábios, mas foi o suficiente para eu explodir. O empurrei usando uma força que eu não sabia que tinha e logo em seguida lhe dei um chute em suas partes baixas, fazendo-o cair com uma expressão de dor. Sting me lançou um olhar mortal, ao mesmo tempo em que tentava esconder a dor, mas nem me importei, caminhei de volta para a sala bufando irritada.
– Nunca mais faça isso.
– Eu sei que você gostou. – sussurrou.
[...]
A noite estava sendo bem tranquila. Não contei à Grandine sobre minha suspensão, nem à Mavis. Já havíamos jantado e eu e Mavis já havíamos feito nossos deveres de casa, então agora eu estava ajudando a pequena à montar um quebra-cabeça que ganhou de sua tia, mãe de Levy.
– Argh, tia Lucy, essas peças não encaixam! Pega um martelo! Isso tem que encaixar! – a pequena bufou irritada.
– Se não está encaixando, é porque é a peça errada, procure outra ou tente encaixar esta em outro lugar. – falei simplesmente enquanto encaixava mais uma peça.
Estava tudo realmente tranquilo, Natsu não estava aqui (completamente compreensível), mas havia me acostumado com a presença dele, e sem ele, este lugar já não tinha mais tanta graça, até que a campainha tocou.
– Só um segundo.
Abri a porta e me deparei com um jovem um pouco mais alto que eu, usando um casaco de moletom e com um capuz cobrindo sua cabeça enquanto mantinha o rosto abaixado. Se não fossem os fios róseos saindo por debaixo do capuz, eu não o teria reconhecido tão cedo.
– Natsu? Achei que não viria hoje. – visto que ele nada respondeu e continuou parado na minha frente, hesitei um pouco em continuar.
Quando abri a boca para convidá-lo para entrar, fui surpreendida por um abraço seu. Levei alguns segundos para raciocinar e retribuí o abraço. Não sei por quanto tempo permanecemos na porta, um abraçando o outro, estava com muita pena dele, realmente deveria estar sendo muito duro para ele, não posso dizer que o compreendo completamente, pois nunca tive um namorado e muito menos um ex para saber exatamente como é, mas é fácil de imaginar, e não é algo que alguém gostaria de enfrentar.
– Tia Lucy, tio Natsu, por quanto tempo vocês vão ficar aí parados? Não vão me ajudar com meu quebra-cabeças novo? – a pequena se pronunciou, com a maior cara de inocente, trazendo-nos para a realidade e separando-nos.
– Já estou indo, Mavis. – respondi. – Você vem, Natsu?
– Claro, estou precisando me distrair um pouco, o que você tem pra mim, pirralha? – falou se animando um pouco.
E pela primeira vez, vi um sorriso falso no rosto de Natsu.
[...]
Mavis estava quase terminando de montar seu quebra-cabeças, mas desde que Natsu chegou, ela estava pensativa, encarava-o um pouco e voltava a montar o jogo, depois olhava para mim e continuava o jogo. Esta menina está tramando algo, mas desta vez, realmente não estou me importando com isto, os olhos vazios de Natsu estavam me preocupando mais.
– Tia Lucy, você poderia ir até a despensa e pegar um pote laranja com tampa branca? Tem uns biscoitos lá dentro e eu estou sonhando com eles desde ontem! Mas eu não alcanço...
– Tudo bem, já vou buscar. – me levantei e fui em direção à cozinha.
Entrei na despensa e achei facilmente o pote a que Mavis se referia, mas ele estava no topo da prateleira. Tentei ficar na ponta dos pés, mas não era o suficiente, tentei pular, mas quase derrubei outras coisas, até que acabei desistindo de fazer isto sozinha.
– Natsu, você pode me ajudar? Eu não alcanço! – gritei de lá de dentro, ficando novamente na ponta dos pés numa nova tentativa de alcançar o pote. Logo Natsu chegou e alcançou o pote com facilidade, me fazendo me sentir uma baixinha.
– Como não consegue alcançar isto? Nem é tão alto assim, Lucy, sua estranha. – debochou.
– Não venha com essa! Me dá isso aqui! – arranquei o pote de sua mão, constrangida.
Já me dirigia em direção à saída, deixando Natsu para trás, mas a porta se fechou com tudo na minha frente. Um arrepio passou por meu corpo e uma sensação de claustrofobia começou a me atingir. Girei a maçaneta diversas vezes, mas a porta estava trancada. Droga.
– Mavis! Abre esta porta. – gritei entre batidas. Obtive o silêncio como resposta. — Mavis, isso não tem graça, abre essa porta! – gritei de novo, e novamente, sem resposta.
– Anda logo, pirralha, abre essa porta. – Natsu se juntou a mim, mas também não obteve resposta, com isto, ele suspirou alto e sentou-se no chão. – Parece que ela não vai abrir essa porta tão cedo, o jeito é esperar.
– Esperar? Este lugar está me dando arrepios! Eu tenho que sair daqui agora, MAVIS, ABRE LOGO ESSA PORTA!
Nada. Novamente um arrepio passou por meu corpo e comecei a abraçar a mim mesma numa tentativa de me acalmar. Comecei a ter a sensação de que as paredes estavam se aproximando. Sabia que nada disso estava acontecendo, mas não podia evitar os arrepios, eu preciso sair daqui logo.
– Lucy, você está bem? – Natsu perguntou visivelmente preocupado.
– Eu preciso sair daqui. – sussurrei me encolhendo.
– Você é claustrofóbica? Vem cá.
Os braços de Natsu me envolveram. Eram tão quentinhos e aconchegantes, impossível não relaxar estando envolta neles. Me abraçava como se eu fosse uma criança indefesa e acariciava levemente meus cabelos, me passando uma sensação de proteção e paz. Natsu, é tão bom estar com você... O que me fez lembrar de hoje de manhã.
– Natsu... Como é que você está? – sussurrei me martirizando por ter feito uma pergunta tão óbvia. Pelo comportamento dele, era óbvio que ele estava mal, mas de alguma maneira, eu queria que ele desabafasse.
– Não está sendo um dia incrível, você estava lá, viu o que aconteceu, mas de certo modo, estou bem, sinto que tirei um peso enorme dos meus ombros...
Fique encarando-o por alguns segundos, esperando que ele continuasse. Depois de alguns segundos encarando o nada, ele suspirou e continuou.
– Sabe, a gente vinha brigando muito nos últimos tempos. Ela mudou, eu mudei, já não é mais a mesma coisa. E mesmo porque... – fez uma pausa e continuou. – Meus sentimentos por ela mudaram, de uns tempos pra cá, percebi que o que eu sentia por ela não era tão forte quanto eu pensava. – Então ele pausou mais uma vez e olhou diretamente para mim, me causando um arrepio. – Também não entendo porque ela te odeia tanto, você é tão incrível...
– Talvez porque você estava deixando ela de lado pra vir aqui me ajudar com a Mavis? – retruquei completamente vermelha e com o coração completamente disparado. Estava dando graças por o ambiente estar escuro e ele não poder ver meu rosto direito. – E não fale de mim desse jeito, está me deixando sem graça.
– É mais divertido passar um tempo com você do que com ela. Você é estranha e nunca se sabe o que vai acontecer quando você está por perto. – falou simplesmente. Meu rosto entrou em completa combustão com sua fala e meu coração tropeçou nas batidas. Por que, Natsu? Por que faz isso comigo? – Ela era mais divertida antes, mas parece que desde que nos conhecemos, ela passou a ser uma pessoa mais amarga.
O abraço de Natsu tornava-se cada vez mais firme, a ponto de eu começar a me sentir sufocada, mas quanto a isso, não sei se ela realmente pelo abraço ou pela situação em que nos encontrávamos. Eu estava mais do que nervosa com a situação, Natsu estava perto demais de mim e isto estava acabando com a minha sanidade. Queria ter uma aproximação maior dele, mas isto é errado, ele acabou de terminar o namoro, não posso chegar logo de cara fazendo algo!
– Sinto muito por vocês, Natsu. – falei retribuindo o abraço.
– Não se preocupe, eu estou bem. É bom estar com você, você me acalma.
Ele começou a me olhar diretamente nos olhos eu imediatamente fiquei hipnotizada. Seus olhos eram tão profundos que foi impossível não se perder neles, e tinha algo escondido neles, que não sei dizer o que era, um brilho curioso talvez, e algo a mais. Tentando decifrar seus olhos, não percebi que Natsu se aproximava de mim lentamente, apenas percebi este fato quando ouvi o barulho da porta sendo destrancada. Imediatamente nos afastamos extremamente corados. O que íamos fazer? Natsu ia mesmo me beijar? Ai meu deus! MAVIS!!!!
– Oh, desculpe interromper! – a pequena falou completamente surpresa e corada. – pelo silêncio que estava aí dentro, achei que já tivessem se resolvido.
Eu realmente não sabia onde enfiar a cara! É muito constrangimento pra uma pessoa só! E tenho certeza de que não conseguirei dormir por pelo menos uma semana pensando no que teria acontecido se Mavis não tivesse nos interrompido. Natsu ia mesmo me beijar? Ia mesmo?
– MAVIS! Por que não abriu a porta quando mandei? – gritei completamente desconcertada tentando contornar a situação.
– Eu não iria abrir a porta até que as peças se encaixassem. – sua expressão sem graça tornou-se sapeca no mesmo segundo.
– Mas você já não tinha terminado seu quebra-cabeças?
– Quem disse que eu estava falando do quebra-cabeças? – e piscou, nos largando ali, com cara de idiotas.
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