Notas iniciais
Este é o penúltimo capítulo, o último sai amanhã.

Lívia passou pelo portão da escola com um novo vigor. Voltou a alongar as tranças e evitou passar maquiagem sobre o rosto, deixando as sardas evidentes como na primeira semana de aula. A roupa rosa xadrez permanecia, era cara demais para ficar no guarda-roupa.

Quando passou pelo pátio, sentindo os olhares pousando sobre si, principalmente o tal de Edmundo secando ela, Lívia ignorou todos e olhou para o centro. Shun estava solitária como sempre, na mesma mesa de sempre com os fones de ouvido a isolando do resto do mundo. Bruna e Joana já estavam na mesa de Luísa, porém nem sinal da rainha. Lívia desceu os degraus e se aproximou de Shun, sentou-se sem ser convidada.

Com um raro sorriso simpático, Shun tirou os fones de ouvido.

— Oi.

— Oi. Dormiu bem? — perguntou Lívia.

— Sim. Você?

— Também. — Lívia arrastou a cadeira mais para perto de Shun. — E os computadores?

— Estão bem. Nenhum deles queimou, felizmente.

— Que ótimo.

— As sardas voltaram — apontou Shun. Lívia fez que sim com a cabeça.

Estava jogando papo fora, Lívia sabia disso. Ela não sabia como iniciar o tópico sobre o que realmente queria conversar: o beijo. Shun também parecia procurar o momento certo para puxar o assunto. Depois de uma troca rápida de olhares, Shun disse:

— Quer conversar sobre… você sabe?

— Quero. Estou pronta.

— Você gostou?

— Adorei — Lívia sorriu, mas abaixou o rosto avermelhado de vergonha.

— Que bom. Tô meio enferrujada, pensei que teria sido ruim.

— Foi ótimo. E foi também meu primeiro beijo.

— Jura? — Shun sorriu após uma reação genuína de surpresa.

— É. Você é a dona do meu primeiro beijo.

— Que honra. Posso ser a dona do segundo também?

— Pode. — Lívia não segurou o riso. — Pode ser a dona de quantos beijos desejar.

A interação estava chamando a atenção de Joana e Bruna, que se entreolharam com preocupação. Não bastava Lívia ter faltado à noite do pijama na casa de Luísa, ela também tinha que interagir com essa… coisa! Duas afrontas em tão pouco tempo.

Joana tomou uma decisão. Levantou-se da mesa, deu alguns passos e se encontrou com Lívia. A risada entre as garotas cessou, Joana era o centro das atenções. Shun percebeu como a visitante fechava as mãos com força excessiva, mantendo os braços bem próximos ao corpo.

— Oi, Liv.

— Oi, Joana. Tudo bem?

— Comigo sim. Mas você vai estar encrencada se não sair dessa mesa agora.

Lívia olhou para Shun, que segurava o sorriso.

— Por quê?

— Você sabe o motivo. — De maneira pouco discreta, Joana apontou para Shun com a cabeça.

— Você está bem mesmo? — perguntou Shun. — Parece nervosa. Senta aí e relaxa.

— Não! Não posso! Não quero! — Joana exagerou na gritaria, alguns estudantes olhavam para ela. Bruna, alheia à situação, decidiu se levantar também para ajudar Joana. — Você sabe que não podemos conversar contigo, você é uma esquisita que se veste de menino e se acha superior, mas não é superior. Você é… é… É…!

— Joana, acalme-se — pediu Lívia. Bruna chegou e pousou as mãos sobre os ombros da amiga.

— Melhor se afastar dela, Liv. Aproveita enquanto Luísa… — Bruna parou de falar quando olhou a escadaria.

O pátio inteiro pareceu emudecer com a chegada de Luísa, mas foi apenas impressão de Lívia. A rainha do grupo desceu com a cabeça erguida, Susan vinha logo atrás carregando duas bolsas escolares. Lívia ouviu alguém assobiar de maneira sensual, prontamente respondido por um beijinho voando pelo ar.

Lívia se lembrava que, no primeiro dia de aula, considerava Luísa a garota mais bonita que já tinha visto na vida, praticamente uma Barbie humana. Naquele instante, ela teve uma nova visão: Luísa parecia plástica e artificial, forçando uma beleza que atendia aos desejos alheios, seja através das roupas caras, da maquiagem que deixava a face perfeita ou do cabelo perfeitamente penteado e saído da chapinha. Em contrapartida, olhou para Shun e pensou no quanto sua autenticidade na escolha de roupas e ausência de maquiagem era o suficiente para torná-la linda, sem se preocupar com a opinião masculina. Talvez, de maneira inconsciente, Lívia tenha deixado as sardas evidentes por ser sua maneira de demonstrar autenticidade estética.

Luísa se aproximou da mesa do quarteto, os óculos escuros não eram suficientes para esconder um olhar de reprovação.

— Que porcaria tá acontecendo aqui? — disse Luísa, olhando de Bruna e Joana para Lívia e Shun.

— Nada — Shun respondeu com um sorriso cínico sobre o rosto.

— A conversa não chegou no inferno, aberração! — ofendeu Luísa.

— Não precisa falar assim com ela — defendeu Lívia. Shun pousou a mão por cima do pulso de Lívia, impedindo que a garota ruiva se levantasse para um conflito mais direto.

— Joana, me diga o que está acontecendo. — Luísa preferiu ignorar a intervenção de Lívia.

— Elas estão… Hum…

— Nós estamos conversando como boas colegas de turma que somos — falou Shun, ainda mantendo o tom cínico. Lívia deu uma olhada rápida para Shun, que retribuiu com uma piscada indiscreta.

— Tô esperando, Joana — indagou Luísa, ignorando a fala de Shun.

— Você sabe, Lu, ontem elas saíram juntas, estavam no ponto de ônibus e deram as mãos! — Joana murmurou como se segurar as mãos em público fosse um ato criminoso. — E agora, olha! Juntas de novo na mesma mesa. E conversando e… E… Eu não sei o que dizer!

Joana entrou em desespero. Bruna a abraçou com carinho enquanto a colega soluçava. Luísa estava com a cara amarrada enquanto Lívia demonstrava preocupação e Shun expressava total indiferença.

— Viu o tu causou? — Luísa apontou para a cara de Shun.

— Agora a conversa chegou em mim? Bem-vinda ao inferno — ironizou a garota andrógina.

— Você é uma vadia insuportável, repugnante e desprezível! Lívia, sai de perto dela agora e venha para a nossa mesa.

— Não.

A negativa de Lívia ecoou pelo pátio. Desta vez, além da falta de som, Lívia teve a sensação que não havia testemunhas. Bruna, Joana, Susan, Shun, todos os garotos do time de futebol, os nerds jogando Yu-Gi-Oh, todo mundo havia sumido da face da Terra. Todo mundo, exceto Luísa.

Uma vermelhidão subiu pelo rosto da Barbie humana, fumaça parecia escapar pelas narinas e ouvidos, as sobrancelhas arqueadas para baixo sincronizando o movimento com a testa enrugada e a boca, também para baixo, denunciavam a raiva que Luísa começou a sentir. Se um vulcão estava entrando em erupção do outro lado do mundo, era culpa de Luísa.

Todas as testemunhas voltaram após o segundo de raiva. Os peitos de Luísa arfavam conforme respirava fundo. Lívia sentiu a boca secar, um frio percorrer pelo corpo e uma grande vontade de urinar.

— Como assim não? — perguntou Luísa num tom neutro, disfarçando a raiva.

— Eu e Shun temos que conversar sobre o trabalho de Artes — respondeu Lívia, mantendo a voz firme e sem perder a compostura para o medo.

— Tu não tem nada a conversar com essa coisa! Sua única obrigação é obedecer às minhas ordens e eu estou ordenando que saia dessa mesa e venha se sentar com a gente!

— Eu não tenho que te obedecer, Luísa. Não sou uma de suas lacaias sem cérebro. — E acrescentou em direção a Bruna e Joana: — Sem ofensas, meninas

As vozes dos alunos ao redor diziam que Lívia havia enlouquecido, que enfrentar Luísa era suicídio, mas também diziam o quanto ela era corajosa e o quanto Luísa era ridícula por insistir naquilo.

Luísa soltou outra respiração profunda, dessa vez seguida por uma contagem de um a dez. Quando chegou ao final, respirou fundo de novo e mandou um ultimato:

— Você tem até o intervalo para mudar de ideia. Ou escolhe essa vadia ou escolhe a minha amizade. E se tu fizer a escolha errada, eu garanto que você vai se arrepender pelo resto de sua vida.

Luísa virou-se de maneira dramática e caminhou para sua mesa. Ao mesmo tempo da virada ela estalou os dedos, Bruna, Joana e Susan, que sentia os braços cansados, a seguiram. Shun segurou a mão de Lívia, era um toque quente e amigável, seu rosto demonstrava orgulho pela atitude.

Elas teriam uma longa manhã até o intervalo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! =)