Notas iniciais
Oi! E chegamos ao capítulo final. Nem parece, mas foi uma longa jornada. Eu não tinha parado pra pensar que eu lancei o capítulo 1 na Quarta-feira de Cinzas e estou terminando ela no domingo de Páscoa. Quero deixar meu muito obrigado a todo mundo que comentou: Vanilla Sky, João Vitor Guimarães, Armando Groizer, BlueL, Bibliolouca e Aquakid1995. Vocês são demais! =D

A diferença para o início da primeira aula até o intervalo era de três horas e meia e quatro horários de aula. Os dois primeiros horários estavam reservados para uma prova de Português enquanto o seguinte seria a definição dos grupos para um trabalho de Filosofia. Por fim, o último horário antes do intervalo era uma aula de Sociologia, provavelmente uma revisão para a prova na semana seguinte.

Lívia era boa em Português, tinha uma boa pronúncia na hora da leitura didática em frente à turma, sem gaguejos. Também sabia interpretar bem os textos, fruto de seu gosto por livros. Entretanto, passada a primeira meia hora de prova, o papel permanecia com as questões sem resposta, a caneta balançava entre os dedos da mão e a perna direita balançava com velocidade. Lívia não conseguia se concentrar na aula.

— Professor, posso ir ao banheiro? — Lívia levantou o braço.

— Já terminou a prova?

— É urgente. Estou com cólica. Por favor.

Lívia estava há pouco tempo no colégio, mas o professor de Português já havia se afeiçoado com a jovem ruiva, seja por suas participações em aula, seja por sempre entregar as atividades bem respondidas. Na cabeça dele, ela não havia motivos para mentir.

— Deixe o celular e a prova na minha mesa.

Lívia prontamente obedeceu e seguiu para fora da sala. Andou depressa e se trancou em um dos boxes, a perna ainda se mexia freneticamente. Era a pura sensação de medo.

Ouviu alguém caminhando pelo banheiro. Lívia não precisou de muito para decifrar quem estava ali, bastou olhar por baixo da porta do box, reconhecendo o sapato e a barra da calça.

— Você tá bem, Lívia? — perguntou Shun.

— Não! Nada bem! — Lívia saiu do box. — Não consigo pensar na prova, estou com a mente em branco.

— Relaxa.

— Não consigo me concentrar na prova por causa de Luísa, toda hora eu penso no que ela vai fazer comigo se eu escolher o que ela não quer que eu escolha, porque obviamente se eu escolher ficar contigo, essa é a escolha errada pra ela, mas pode não ser a escolha errada pra mim porque…

Lívia se calou quando Shun encostou os lábios em sua boca. Era o segundo beijo delas em menos de 24 horas, este mais surpreendente que o anterior. Mais nervoso. Mais bem-vindo e mais relaxante. Foi como se injetasse morfina, pois seu coração parou de bater tão rápido e a perna diminuiu o ritmo.

Ao se separarem, Shun segurou seu queixo.

— Melhorou?

— Sim. Obrigada.

— Ótimo. Olha, tu não precisa me escolher. Eu aceito ser preterida.

— Shun… — Shun tapou a boca de Lívia com o indicador.

— É sério. Na verdade, tudo isso é um erro. Eu não queria me aproximar. Lembra daquele dia no banheiro, quando eu queria dizer uma coisa, mas eu te deixei falar primeiro? Eu estava pronta para te afastar de mim, te magoar se fosse preciso, só para não te ver sofrendo na mão de Luísa. Mas você, Lívia, é uma pessoa tão incrível que me fez mudar de ideia. Eu me aproximei sabendo desse risco e agora… Agora, se alguém precisa ser magoada, que seja eu.

— Shun… — repetiu Lívia.

— Foi um erro. — Uma lágrima parecia escorrer do olho de Shun. — Aquele beijo de ontem, esse beijo de agora. Te levar pra Andrômeda para começarmos esse trabalho de Artes. Eu errei, deveria ter te afastado quando tive a chance. De alguma forma o destino fica nos empurrando uma pra outra, mesmo que não seja o certo. Droga, eu não devia ter vindo te ver.

— Shun, por favor.

— Escolha a Luísa. É só o que peço. Não vou ficar magoada nem nada do tipo. Estou acostumada a sofrer derrotas.

Shun deu as costas, ignorando os pedidos de Lívia para ficar. Lívia foi atrás, mas não encontrou a amiga no corredor. Aquilo aconteceu mesmo ou era sua mente pregando uma peça? O beijo pareceu tão real…

Lívia se olhou no espelho, seu rosto estava pálido e triste, mal conseguia se reconhecer naquele reflexo. Se era aquilo que Shun desejava, não podia concordar. Lívia gostava de Shun, no momento mais do que apenas como amiga. Não queria ser derrotada, pelo menos não sem lutar.

Respirou fundo e estava decidida quanto ao ultimato de Luísa. Voltou para sala com outra disposição, pegou sua prova e sentou-se na carteira. Quinze minutos depois, as questões foram preenchidas. Lívia sorriu consigo mesma, pensando naquele beijo alucinado, um toque labial suficiente para destravar sua mente, afastar os medos e devolver a verdadeira Lívia ao controle de suas ações. Não precisava se preocupar com Luísa ou com a prova, pois ela tinha tudo sob controle. O professor olhou com surpresa, porém exibindo um olhar de aprovação. Talvez estivesse pensando que ela havia colado, mas isso era problema para outro dia.

Sem o nervosismo, as aulas seguintes passaram mais depressa. Não havia ninguém destacável em seu grupo do trabalho de Filosofia, o que era ótimo. Se estivesse com Bruna, Joana, Luísa ou mesmo a Shun, teria uma distração para seus pensamentos. Sem elas, a nota viria tranquilamente. A divisão dos grupos consumiu uma parte do horário de Sociologia, portanto o professor, que é o mesmo para as duas matérias, permitiu uma primeira reunião de grupos nos 20 minutos que restavam.

O intervalo chegou.

Lívia andava pelo corredor vazio rumo ao pátio. Desceu as escadas sentindo excitação. Shun estava em sua mesa de sempre, lanchando a sós em seu mundo com fone de ouvido. Lívia caminhou até a garota andrógina e se sentou.

— Oi — disse Lívia.

Shun olhou de maneira suspeita para a garota ruiva.

— Tudo bem, Liv? — perguntou Shun.

— Tudo ótimo. Eu tomei uma decisão e queria sua permissão para compartilhar com todo mundo.

— Permissão concedida, soldado.

— De pé, por favor.

Shun deu de ombros e obedeceu. O pátio estava todo disperso, cada canto comentando coisas mundanas, talvez ninguém realmente interessado no drama de Lívia. Mas ela queria que todos soubessem. Por isso, subiu na mesa, encheu os pulmões e gritou:

— EI! — O pátio se calou. Seus olhos passavam por cada um daqueles rostinhos, o principal era de Luísa, que estava com Bruna e Joana. — Ótimo, agora tenho a atenção de todos.

— Mostra os peitos! — Algum pervertido gritou ao fundo. Lívia gargalhou enquanto todos os alunos ovacionaram e as garotas reviraram os olhos. Shun sorriu meio sem graça.

— Depois. Primeiro, eu quero deixar uma coisa clara: Ninguém mexe com a felicidade alheia. Ninguém tem o poder de tomar as minhas decisões por mim. Eu decido com quem eu quero passear, com quem eu sento no intervalo ou na entrada, eu decido qual mão devo segurar em público. E, principalmente, eu decido quem eu vou beijar. Luísa, sobre o que você falou pra mim, eu já tenho uma resposta!

Lívia desceu da mesa e agarrou Shun de surpresa, beijando-a com euforia e força, os braços atrás da cabeça enquanto a garota andrógina segurava sua cintura. “Um beijo público. Que ousado”, era o pensamento de Shun, abafado por todas as vozes que gritavam e aplaudiam a ação. O casal bisbilhotou rapidamente a reação de Luísa, uma cara fechada dominava sua expressão enquanto Joana fechava os olhos e era, mais uma vez, amparada por Bruna. Shun soltou um meio sorriso enquanto Lívia mostrava os próprios dentes.

Shun e Lívia se encararam rapidamente, conversaram apenas com os olhos, uma decisão silenciosa havia sido tomada. Ao se beijarem novamente, de maneira sincronizada e num gesto ousado, ergueram seus dedos médios na direção de Luísa, gerando mais gritos de empolgação.

Ao abrirem os olhos em direção à algoz, viram-na de boca aberta e ainda mais furiosa, erguendo-se de imediato da mesa e dirigindo-se para bem longe do casal. Bruna e Joana, leais como sempre, seguiram-na com vergonha enquanto alguns estudantes hostilizavam Luísa com palavras agressivas.

Shun sorriu para Lívia e deu um selinho rápido, comentando em seguida:

— Vencemos, Liv.

Na semana seguinte, uma nova balança começava a se equilibrar na escola. Se antes do início das aulas Shun gostaria de passar despercebida, seu plano foi arruinado por Lívia.

E era uma coisa boa.

Estava feliz ao lado dela, muito apaixonada, satisfeita com sua amizade e seu namoro. Lívia era a responsável por tornar Shun numa nova pessoa.

Luísa encontrou uma nova lacaia para seu grupo, o que Shun achou rápido, porém esperado: a carregadora de mochilas número 1 do trio, Susan, era a nova seguidora fiel de Luísa. Uma novata, igual a Lívia, porém menos inteligente, menos interessante e mais desesperada por atenção. Felizmente o grupo também parecia ter esquecido de Shun, mal olhavam para ela. Trocaram o nojo pela indiferença. Por Shun, estava tudo bem assim. Entretanto, ela ainda conhecia Luísa bem o suficiente para saber que o casal não teria paz. Luísa iria revidar a humilhação em algum momento no futuro.

Shun também havia percebido uma nova dinâmica de Lívia com os outros estudantes. Nerds, por exemplo, convidavam-na para participar de partidas de Yu-Gi-Oh — Shun era convidada por tabela. Os esportistas pediam para Lívia conselhos sobre conversar com garotas. Parecia absurdo, mas Shun testemunhou a timidez em jogadores de futebol da turma do Interclasse. No fim, a garota andrógina sabia que tanto nerds quanto esportistas respeitavam Lívia, pois foram duas atitudes corajosas: confrontar Luísa em público e sair vencedora; e sair do armário em público, por mais que muitos rapazes não sabiam que Shun era uma garota e tinham vergonha de admitir.

O trabalho de Artes foi apresentado, com aplausos da turma. A nota 10 viria, Shun sentia isso. Lívia estava sorrindo ao seu lado, era mais uma vitória para a novata de cabelo ruivo, a garota mais linda do colégio aos olhos de Shun e, definitivamente, a melhor pessoa do mundo.

Shun ajudou Nat como sempre fazia no pós-aula, carregando datashow e outros equipamentos para a próxima turma. No corredor, Nat puxou assunto:

— Eu soube que você e Lívia estão namorando. Não que seja da minha conta, sou apenas uma professora.

— Na verdade, só estamos namorando graças a esse trabalho de Artes, então eu diria que é da sua conta sim — retrucou Shun, um pouco ríspida, mas completou de maneira educada: — Obrigada.

— Não foi minha intenção, mas de nada — Nat sorriu.

— A senhora foi muito insistente naquele dia. Você nos comparou, disse que eu tinha notas melhores do que você na minha idade. Queria saber: conheceu seu marido no Ensino Médio também? Não que seja da minha conta, afinal sou apenas uma estudante.

Nat estalou a língua e sorriu, impressionada com a ousadia de Shun. Talvez uma ousadia puxada do namoro com Lívia.

— Sim, eu conheci no Ensino Médio. Mas é esposa, não marido. E gostaria de manter isso em segredo.

— Legal. Tenho uma professora lésbica. Posso conviver com isso em silêncio.

— Obrigada.

Depois que Shun deixou os equipamentos e voltou para a sala de aula, sentou-se ao lado de Lívia.

— Agradeceu a ela por ter sido nossa cupido?

— Agradeci. Olha só que coincidência: Ela conheceu sua alma gêmea no Ensino Médio também.

— Que incrível!

— É o destino falando conosco de novo.

— Você acredita nisso? — perguntou Lívia.

Antes de responder, Shun refletiu. Se essa pergunta fosse feita no primeiro dia de aula, quando elas se conheceram, Shun seria categórica: destino é bobagem. Mas, depois de tantos sinais, do início conturbado à consolidação, Shun tinha uma certeza e expressou em voz alta:

— Se existe destino, ele queria que ficássemos juntas.

Lívia sorriu, apoiando a resposta. O destino sabia das coisas.

Notas finais
E é isso! Espero que tenham gostado! =) Eu nem falei das inspirações, a principal foi "O cara que estou afim não é um cara", um mangá frequentemente aparece em promoção. Eu não li, mas o título meio que já dá a ideia do que se trata e eu gostei da ideia, então usei como premissa inicial dessa história. Começou um novo evento, mas não sei se pretendo participar. Talvez pela moldura, porque achei bonita. Caso se sintam à vontade, tem outras histórias minhas para ler e se divertir. A maioria é drabble, então são curtinhas. Estejam convidados :) Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!