Uma Paixão de Andrômeda
10 Mãe e filha
Notas iniciais
O jantar entre mãe e filha era silencioso. Talheres batiam contra o prato quebrando o silêncio, mas também o celular de Lívia fazia o favor de não deixar a cozinha totalmente quieta. O aparelho transmitia uma aula sobre Expressionismo que Lívia sequer estava prestando atenção. Além do jantar delicioso, a mente da garota ainda vagueava pelo beijo de Shun, às vezes abrindo um sorriso sobre seu rosto.
Lívia sentia muitas dúvidas, principalmente sobre si mesma. O sentimento era real ou puro instinto? Ela gostava de Shun, portanto seria homossexual, ou a similaridade de Shun com um garoto diminuía esse status? E mesmo assim, Shun ainda era uma garota. É a primeira pessoa por quem Lívia se sentiu atraída — independente da dúvida se o sentimento era real ou instintivo.
Entre todas as dúvidas, ela tinha uma certeza: Luísa não iria gostar. Além de faltar à noite de “estudos”, Lívia estava se aproximando de, aos olhos de Luísa, uma aberração da natureza. Um tipinho de gente com quem garotas populares não andavam.
Pousou os talheres sobre o prato de macarrão e tirou o vídeo. Ela precisava de um conselho e só confiava em uma pessoa para isso.
— Mãe, você era popular na escola?
Leonora olhou com surpresa para Lívia.
— Popular como?
— Como se vê nos filmes. Rodeada de amigas, desejada por garotos, essas coisas. Uma amiga me disse que um garoto estava… de olho em mim. — “Ela não precisa saber que ele secava a minha bunda”, pensou Lívia.
— Bom, eu tinha muitas amigas e era desejada por garotos, mas não sentia que era popular como se vê nos filmes. Sabe por que?
— Por quê?
— Porque eu não era uma vadia com as outras pessoas.
Lívia deu uma risadinha. Não era comum Leonora usar uma palavra tão ofensiva quanto essa.
— Eu também não sou, eu juro. — Lívia garantiu ainda rindo.
— Que ótimo, filha.
— E seu primeiro beijo, como foi?
— Ah. — Leonora sorriu, o mesmo tipo de sorriso que Lívia soltava nas conversas com Shun. — Foi há tanto tempo que nem me lembro bem da sensação. Mas eu acho que tinha quase a sua idade, ali por volta dos 14, 15 anos. — Lívia se assustou, afinal tinha 17 anos. Um primeiro beijo tardio. — Lívia, você beijou um garoto? Devo saber quem é o sujeito por quem minha filha está tendo uma queda?
Lívia suspirou. Era hora da revelação. Um nó se formou em seu estômago, pensando na reação da mãe. Tudo bem, ela era defensora dos LGBTs, mas uma coisa era a relação profissional, outra coisa era a própria filha se identificar com a causa. Outro suspiro e, com o coração quase saindo pela boca, falou:
— Eu beijei, mas não era um garoto. Ela se chama Shun e ela é uma garota que… se parece… com um garoto.
Leonora tocou na mão de Lívia, um gesto que acalmou o coração de Lívia. Ela sabia por relatos na internet que os pais não lidavam bem com filhos que ‘saíam do armário’. Qualquer dúvida de Lívia sobre o apoio de Leonora se dissipou em um toque caloroso de mão.
— Mãe, eu não sei exatamente se eu prefiro garotas, mas eu gosto dela.
— Tudo bem. Eu fico feliz por você, filha.
— Obrigada.
As duas se abraçaram, um momento terno que mãe e filha gostariam de manter por muito mais tempo, algo que não tiveram desde que se mudaram. No máximo trocavam palavras rápidas durante o jantar, pois Leonora passava a maior parte do dia no escritório. Lívia sabia que a mãe estava atolada de trabalho, sabia que não poderia incomodá-la com coisas banais como namoro escolar. Felizmente, Leonora era a mãe mais compreensível do mundo.
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