Uma Paixão de Andrômeda
6 Faíscas
Na manhã seguinte, Shun chegou ao colégio com a mesma disposição do dia anterior. Estava tão cedo que dava para contar nos dedos quantos estudantes se faziam presente. Shun não cumprimentou ninguém, sentou-se na mesa mais centralizada e imergiu no mundo criado por seu fone de ouvido.
Na noite anterior, depois do trabalho, planejou maneiras diferentes para afastar Lívia. Pensou em ser grosseira, mas achou exagerado. Ensaiou uma abordagem mais direta, mas, do pouco que conhecia Lívia, isso não funcionaria de jeito nenhum. Por fim, decidiu deixar acontecer naturalmente. Se Lívia viesse falar com Shun, faria o seu melhor para magoá-la. Caso não viesse, pouparia um tempo de socialização forçada para concentrar-se nos fones de ouvido.
Shun também havia decidido que tiraria mais fotos durante o dia, gostaria de criar um portfólio pensando em um futuro hipotético de fotógrafa profissional, talvez como uma segunda profissão caso se tornar técnica em T.I não funcione. Ela gostava de criar possibilidades, mas sabia que sua imaginação não era muito criativa.
Aos poucos o pátio foi enchendo. O grupo de nerds foi se juntando no mesmo canto da manhã anterior, assim como os atletas. Luísa, Bruna e Joana chegaram juntas. Para a surpresa de Shun, uma quarta garota apareceu seguindo o trio. Não era Lívia, para o alívio de Shun, já que essa garota nem era ruiva, mas parecia bastante esforçada ao carregar cinco bolsas diferentes e alguns cadernos. Quando ela largou as bolsas sobre a mesa do trio, Shun conseguiu ouvir de Luísa:
— Obrigada, Susan — Luísa mexeu alguns segundos no celular, depois mostrou a tela. — Mandei um pix pra ti. Tchauzinho. — Luísa acenou com um sorriso debochado.
— Mas você disse que eu podia andar com vocês.
— E andou, queridinha. Da entrada até a nossa mesa. Já é demais pra gente da sua laia. Agora xô antes que eu exija meu dinheiro de volta.
Shun observou Susan sair com passos firmes contra o chão, deduzindo que era outra novata que caiu no papo de amizade da Luísa. Ela própria já havia sido alvo desse papinho, mas é um período do qual não se orgulhava de se lembrar.
Shun ignorou as garotas mimadas e olhou para a entrada no exato momento em que Lívia chegou. As tranças ruivas estavam para frente, destacando-se sob a luz do sol que invadia o pátio. O sorriso a deixava mais radiante conforme descia os degraus, Shun era uma dessas pessoas que não piscavam enquanto Lívia atravessava o pátio. Em seu íntimo, ela aguardou Lívia vir conversar, como foi no dia anterior, mas a garota de tranças passou reto em direção à mesa de Luísa.
— Oi, miga — Luísa cumprimentou Lívia com dois beijinhos no rosto. Bruna e Joana também abraçaram a novata.
Shun suspirou. É claro que Lívia havia perdido o interesse nela, Shun não era um garoto. Shun é uma garota, uma esquisita que preferia usar camisa larga e calça cargo do que um vestido com barra xadrez. Deveria ser isso que Lívia passou a enxergar após a conversa no ponto de ônibus.
“Tudo bem”, pensou Shun, fingindo mexer em sua câmera digital. “Eu queria afastá-la mesmo. Poupou meu trabalho”, refletiu com certo agrado, mas ainda sentindo que não deveria ter sido desse jeito. A verdade é que enquanto uma parte de Shun quer evitar Lívia, outra quer alertá-la de que uma amizade com Luísa pode ser um caminho sem volta.
…
Lívia se sentia mais confortável com o trio de Luísa neste segundo dia de nova escola. Luísa parecia uma nova pessoa, perguntando como foi a tarde anterior, se dormiu bem e se acordou revigorada. Lívia tinha uma resposta positiva para todas essas perguntas e pensou que seria o suficiente, mas Luísa puxou um outro assunto:
— Amiga, tinha um cara do time de futebol que estava te olhando enquanto tu descia as escadas.
Lívia se virou para olhar, mas não sabia de quem Luísa estava falando. Todos os membros do time de interclasse pareciam iguais.
— Os garotos sempre estão de olho na gente, mas nenhum deles é capaz de dizer um “oi, linda”, oi, gata” ou “oi, gostosa” — reclamou Joana, decepcionada.
— Eles não querem mentir na sua cara — provocou Luísa, arrancando risadas de Bruna. — Tô brincando, miga. Você é linda se vista de costas.
— Own! Obrigada, miga — disse Joana, mandando um coração com os dedos.
Lívia, por outro lado, não entendeu aquilo como um elogio, mas ficou quieta quanto a isso. Seu foco estava em fingir dar atenção à Luísa ao mesmo tempo em que decifrava Shun. Houve um instante, um pequeno instante, em que Lívia sentiu muitos olhos pousando sobre si enquanto descia das escadas. E de todos os olhares, o único com quem sua vista prejudicada pela miopia cruzou foi o de Shun. Lívia sentiu os pelinhos do corpo se arrepiarem, como se uma faísca tivesse percorrido seu corpo através dos olhos. Depois que passou por Shun, sorriu, pois agora sabia a verdade.
Shun é uma linda garota.
…
A aula de Artes dominou os dois primeiros horários da terça-feira. A professora se chamava Natália, mas deu liberdade aos alunos de chamarem-na de Nat. Ela também foi franca nos primeiros minutos de aula:
— A prova mensal será uma apresentação de trabalho em dupla.
Luísa cutucou Joana, que fez a pergunta clássica após a professora anunciar o método das provas:
— Professora, pode ter três pessoas no grupo? Ou talvez quatro?
— Nada de grupos de três. Quero duplas. E eu mesma vou escolher as duplas.
Alheia aos chiados, Shun estava na fileira da frente, tal qual foi na aula de Matemática um dia antes. Lívia pensou se este era o padrão da garota: sentar na frente e ser participativa nas aulas que gostava, viver em um mundo próprio nas carteiras do fundo da sala nas matérias em que estava pouco se importando. Não a julgava por isso, se pudesse também escolheria ficar no fundo durante as aulas de Física.
Depois de uma aula longa e com vários slides sobre a Arte Moderna, Lívia precisava ir ao banheiro. Aproveitou o breve período de transição entre professores e se ofereceu para ajudar Nat na transferência do equipamento de aula — datashow, pincéis e o apagador, além do notebook pessoal da professora.
Estava lavando as mãos no banheiro quando Shun apareceu. Uma breve saudação silenciosa, com acenos de cabeça, foi dada. Shun entrou em um dos boxes e Lívia, de forma proposital, demorou lavando as mãos. Quando a garota da jaqueta de couro reapareceu, Lívia encerrou a lavagem e pegou papéis-toalha. Ofereceu para Shun, que aceitou prontamente.
— Obrigada.
Enquanto a torneira encerrava o silêncio, Lívia mordia os lábios e olhava para os próprios pés. Estava pensando em como puxar assunto, queria muito conversar com Shun sobre sua descoberta. Sem Luísa, Bruna e Joana, aquele era o momento perfeito.
— Eu quero falar uma coisa — Lívia e Shun disseram apressadas e ao mesmo tempo, cada palavra repetida de maneira perfeitamente sincronizada. Lívia sentiu um momento cômico enquanto Shun reprisou o mesmo meio-sorriso da tarde anterior.
— Eu quero falar uma coisa — Lívia repetiu pausadamente, por algum motivo pensou que Shun repetiria a sincronia.
— Fale — disse Shun enquanto enxugava as mãos.
— Você é uma garota andrógina, não é? Tipo, pelo jeito que se veste, pelo corte de cabelo. Eu achei demais, sabe? — Um sorriso nervoso se apossou do rosto de Lívia. Shun mantinha o olhar tão fixo que intimidava. — Quer dizer, na minha antiga cidade não tinha ninguém igual a você.
— Esquisita?
— Você não é esquisita, você tem seu estilo e eu acho bem maneiro.
— Só isso?
— Sim... Não! Eu tenho muitas perguntas, na verdade. Você prefere qual pronome? E você… hã… Você gosta de garotas? E o que você usa por baixo?
— Quer ver minha calcinha? — Shun ameaçou abaixar a calça cargo.
— Não, não. Por favor, não. Isso saiu sem querer. — Lívia riu, tentando esconder o constrangimento.
— Tô só zoando, garota. — Shun riu da cena, a primeira vez que Lívia viu Shun rir de maneira genuína e sem parecer sarcástica. — Eu uso o mesmo pronome que você, hoje estou usando um boy-short e um top esportivo, mas ainda uso calcinha de vez em quando. E a outra… Por que quer saber se tenho preferência por mulheres?
Lívia arregalou os olhos e deu um pulinho. Não esperava por essa pergunta.
— Por que eu quero saber? Porque… Porque… Porque!
Shun deu um passo à frente, a diferença de 3 cm se mostrando evidente outra vez. Lívia travou, sentindo-se intimidada por estar tão próxima de Shun, quase encostando peito com peito. Lívia sentiu a mão da garota subir sobre seu braço, seu coração batia com força, era capaz de quebrar as costelas, e com intensidade, praticamente abafando o som da torneira pingando.
A garota andrógina afastou uma mecha que estava sobre o rosto de Lívia, colocando-a atrás da orelha. Um sorriso de canto dominou a boca de Shun, o mais amigável já testemunhado pela garota ruiva.
— As garotas parecem me odiar, os rapazes me veem como um ‘mano’. É difícil, então… — Shun soltou um suspiro pesado. — Não sei dizer qual a minha preferência.
— Entendi — murmurou Lívia, tentando se recompor, engolindo a saliva. Sua garganta fez um movimento sutil, porém agradável para os olhos de Shun.
Ficaram alguns segundos em silêncio, o coração de Lívia recuperando o ritmo normal de batidas. Shun jogou o papel-toalha no lixo e fechou a torneira que pingava. Foi ela quem quebrou o silêncio:
— Melhor voltarmos para a sala. Não seria bom entrarmos juntas, então você vai primeiro.
— Espera. — Lívia segurou a mão de Shun, novamente sentindo faíscas arrepiarem seu corpo. Shun rapidamente se desvencilhou, encerrando a sensação de eletricidade. — O que você queria me dizer?
Shun analisou Lívia, o rosto sardento assumia uma coloração rosada, como se estivesse envergonhada. A garota andrógina iniciou a manhã pronta para magoar Lívia. Precisou de apenas uma conversa rápida no banheiro para decidir que Lívia não podia ser magoada, mas precisava ser protegida.
— Nada importante. Falo em outra hora. — Shun sorriu.
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