Notas iniciais
Voltamos! E um obrigado a Armando Groizer por ter comentado no capítulo anterior! :)

Os dias passaram sem dramas para Shun. Embora quisesse manter distância de Lívia, Shun interagiu com a garota ruiva com mais frequência do que gostaria, não sabendo se era por descuido próprio ou se Lívia era um ímã lhe atraindo para mais perto. Estava descobrindo sobre sua personalidade, sobre seus gostos e, odiava admitir em voz alta, mas estava se afeiçoando a ela. Talvez seja culpa da personalidade curiosa de Lívia, que consegue ser irritantemente adorável e adoravelmente irritante.

Entretanto, em paralelo, Shun observou uma metamorfose na garota ruiva. Aos poucos o uso de suéter da primeira semana de aula deu lugar a uma roupa rosa xadrez, as traças foram encurtadas até a altura dos ombros e uma maquiagem pesada passou a cobrir as sardas faciais. Luísa estava agindo, Shun sabia disso, mas não tinha ideia de como evitar esse avanço. Não queria interferir, afinal a vida alheia não lhe interessava, mas seu desejo de proteger Lívia crescia a cada dia.

As primeiras avaliações mensais davam o ar da graça no colégio. Física, Matemática e História já haviam marcado suas provas para o decorrer da semana, enquanto que Geografia, Literatura e Português propuseram trabalhos individuais.

Na aula de Artes, a professora Nat estava distribuindo as duplas — continuava irredutível à sua decisão, mesmo sob resmungos e protestos dos alunos. Para sorte de Luísa, ela conseguiu fazer dupla com Joana. Bruna ficou com Susan, uma ironia que Shun achou adorável.

— Lívia e… — Shun observou o dedo da professora deslizando para o final da lista de chamada. — Shun.

Shun sentiu dezenas de olhares pousando sobre si, julgando-a, desprezando-a. Mas, na prática, só uma pessoa olhava para ela, apresentando um sorriso simpático e amigavelmente honesto, sem esconder a satisfação por fazer um trabalho em dupla com Shun.

Essa pessoa era Lívia.

Shun nem prestou atenção no resto das duplas — ou mesmo se importou que a turma tinha um número ímpar de alunos e algum azarado chamado Gabriel faria o trabalho sozinho. O pensamento de Shun era de agradecimento, pois não é sempre que uma pessoa olhava de forma amigável para a garota andrógina, principalmente uma garota olhando daquele jeito.

Por outro lado, estava preocupada. Ao invés de evitá-la, o destino parecia querer aproximar Shun de Lívia, ir contra seus planos de afastá-la para não causar problemas com Luísa. Shun xingou mentalmente, sentiu as mãos suarem frio com a possibilidade de algum tipo de retaliação por aquela formação de dupla. Tinha que conversar com a Nat sobre isso.

Ao fim da aula, Shun seguiu até a professora, ajudando-a a levar os equipamentos de aula para a turma seguinte.

— Professora, será que eu posso ficar sozinha e deixar a Lívia com outra pessoa? — perguntou Shun enquanto seguia Nat pelo corredor.

— Por quê?

— Eu prefiro trabalhar sozinha — explicou de maneira descomplicada e direta.

Nat parou de andar e virou-se para Shun. A professora sorriu de forma indecifrável. Poderia significar um sinal de perigo ou algo amigável.

— Eu te observei nos últimos dois anos, Shun. Você é tão calada e solitária, mas ao mesmo tempo tem as melhores notas em minha disciplina. Nem eu tirava notas tão boas quando tinha a sua idade.

— Obrigada, eu acho.

— De nada. Dito isso, acho que sua inteligência precisa ser compartilhada e essa garota nova, Lívia, precisa de uma boa orientação. Pense no caso de trocar de dupla, ou abdicar da dupla. Pense que isso pode prejudicar essa garota logo no início do ano. Você tira 10, mas e ela? Nota 6? Nota 3?

— Com todo respeito, mas não é problema meu se ela for burra em Artes — retrucou Shun com acidez.

— Tem razão. Portanto, façamos o seguinte: Vocês trabalham juntas agora, mas no próximo trabalho eu te deixo sozinha. Se você quiser, é claro.

Shun respirou fundo e aceitou o trato, ambas apertaram as mãos meio desajeitadas enquanto seguravam tanto equipamento. Nat riu meio boba enquanto Shun apenas exibiu um sorriso tímido. Não havia escapatória para ela, estava destinada a ajudar Lívia.

Quando voltou para a sala, por coincidência, esbarrou em Lívia de saída.

— Ah, oi! — disse Lívia, enérgica.

— Oi. — Shun respondeu tentando disfarçar.

— Parece que vamos fazer o trabalho juntas. Legal, né?

— É.

— Estou ansiosa para começar. — Lívia não escondia a empolgação.

— Vem logo, Lívia! — ordenou Luísa.

— Eu já vou! — gritou Lívia de volta. — Eu… É, desculpa, preciso…

— Vai. Depois a gente conversa — respondeu Shun.

Lívia assentiu e seguiu Luísa pelo corredor até o banheiro. Shun observou a garota ruiva andando depressa, analisando como o andar apressado — quase saltitante, com as duas mãos distantes do corpo — se assemelhava à forma como Luísa exigia que as amigas mantivessem a postura. Talvez este fosse o objetivo do qual estava destinada a cumprir: Impedir que Lívia se torne mais uma lacaia descerebrada de Luísa. Afastar-se não era mais uma opção, aproximar-se era obrigação.

— Amiga, você tem que pedir urgentemente pra trocar de dupla. De preferência, implorando de joelhos pra Nat — afirmou Luísa enquanto se olhava no espelho.

Lívia fazia xixi enquanto ouvia Luísa tagarelar pela enésima vez que Shun é uma esquisitona de classe baixa e que gente como ela não andava com esse tipinho. Ela revirou os olhos, felizmente barrada pela porta fechada do boxe.

— Tá ouvindo, Liv? Ou o mijo entupiu o seu ouvido?

— Eca! — Enojou-se Bruna, fingindo tremeliques ao imaginar a cena nojenta.

— Ouvi — respondeu Lívia, também enojada com a imagem mental criada pelo comentário.

— Ótimo. Vai falar com ela quando?

— Daqui a pouco.

Lívia tentou manter a voz firme, mas sua intenção era outra. Queria adivinhar o quanto Luísa era boa em detectar mentiras e se ela, Lívia, ainda sabia mentir como antigamente. Não desejava trocar de dupla, um trabalho com Shun era exatamente o que ela queria para poder se aproximar e, quem sabe, entender melhor quem é a garota andrógina.

— Muito bem. Ei, sabe aquele Edmundo? Acho que ele tava secando a bunda da Lívia ontem.

— Sério? Ele é um gatinho! Liv tirou a sorte grande — afirmou Joana, empolgada. — Tu namorou com ele, Bruna?

— Não, só ficamos numa festa. Ele beija bem, mas nada excepcional.

Lívia se juntou à conversa, seu rosto estava meio vermelho. Joana começou a rir, sabendo que ela estava envergonhada por saber que um rapaz estava de olho nela.

— Vai dar uma chance pra ele? — perguntou Bruna.

— Não sei.

— Por mim, tudo bem, tá? Não rolou nada sério entre a gente.

Luísa bateu uma palma bem forte. Joana deu um pulo exagerado enquanto Bruna gritou. Lívia não reagiu, apenas fechou a torneira.

— Meninas, acho que está na hora de desvendarmos a Liv num encontro de meninas na minha casa. Que tal… uma noite do pijama?

— Que ótima ideia, Lu! — afirmou Joana, empolgada.

— Sim! Uma ótima ideia! — concordou Bruna.

— Que tal, Liv? Na minha casa, hoje.

Lívia continuou quieta, pois achava uma péssima ideia. Estavam em semana de provas e entregas de trabalho. Não havia motivo para passar a madrugada de terça-feira para quarta numa festa do pijama com essas garotas, ela queria estudar, fazer o trabalho com Shun e dormir cedo para poder aguentar o resto da semana. Entretanto, ela sabia que não tinha voz no grupo e contrariar a líder parecia uma ideia tão ruim quanto uma festa do pijama.

— Eu não sei. Tenho que conversar com minha mãe sobre isso — Lívia tentou despistar.

— Conta que vamos estudar — sugeriu Bruna. — Bora, miga. Vai ser divertido.

— Tá, eu vou dizer isso pra ela — garantiu Lívia. Bruna e Joana comemoraram com um hi-five. Já Luísa manteve um sorriso arrogante no rosto, como se mais uma vez tivesse conseguido o que queria. Lívia forçou um sorriso amigável, tentando parecer feliz com a ideia de passar a madrugada acordada às vésperas de uma prova.

O intervalo para o lanche durava cerca de 15 minutos, mas a sensação de Shun era que esse tempo era menor.

Diferentemente de quando chega ao colégio, quando o pátio está vazio e ela tem dezenas de opções de mesa, o intervalo já começava cheio e com poucas opções para sentar. Não faz muito tempo que Shun abdicou de um lanche coletivo para se alimentar sozinha na porta da sala de aula. Quando terminava mais cedo, como foi o caso, entrava e esperava bater o horário para a próxima disciplina. Costumava tirar fotos da parede ou dos objetos locais, como mesa e cadeiras, pois eles não reclamariam de intrusão como faziam as pessoas normais.

Foi com surpresa que, no mesmo instante em que tirava foto da entrada da sala, a porta se abriu revelando Lívia. O flash quase cegou a garota ruiva.

— Uau! Agora tirou uma foto minha! — disse Lívia, abaixando a mão sobre os olhos.

— Desculpa, vou apagar.

— Não. Eu posso ver?

A pergunta de Lívia fez Shun erguer uma sobrancelha de surpresa, logo substituído por um sorriso. Ela assentiu, mostrando para a colega de turma a cena esquisita que havia registrado. Lívia estava quase irreconhecível na foto, assim como a porta que se abria.

— Ficou um lixo.

— É, ficou. Quer tirar outra?

— Tem certeza?

— Claro.

Lívia se posicionou em frente ao quadro branco, arrumou o cabelo, mexeu na roupa e deixou as mãos sobre a cintura. Shun se posicionou alguns passos atrás, queria uma foto apenas da barriga para cima, mas mudou de ideia para não cortar as mãos da garota. Mostrou o resultado para Lívia.

— Você é boa.

— O mérito da modelo — elogiou Shun, evitando contato visual.

— Obrigada.

Depois de alguns segundos de quietude, com Shun recuando para sua cadeira enquanto Lívia buscava alguma maneira de quebrar o silêncio, as duas falaram ao mesmo tempo:

— Sobre o trabalho… — Tanto Lívia quanto Shun riram, lembrando da mesma sintonia que tiveram semanas atrás no banheiro. Desta vez, Lívia foi cortês: — Por favor, fale.

Shun achou graça na permissão e falou:

— Sobre o trabalho, eu estava pensando em falar sobre Expressionismo.

— Parece ótimo. Onde nos encontramos para começarmos o trabalho?

Shun hesitou. Era a chance de dispensá-la, dizer que não se importava em fazer todo o trabalho sozinha enquanto Lívia recebe apenas a nota 10 com esforço zero. Porém, viu no fundo dos olhos da garota que ela havia gostado da ideia. Lívia não parecia ser uma folgada igual a Luísa, Bruna e Joana, ela realmente parecia querer ajudar. Se o destino estava mesmo tentando empurrá-las para uma amizade, então tinha que colaborar com os sinais.

Este parecia um sinal.

— Eu conheço, ou melhor, eu trabalho numa lan house. Podemos ir pra lá depois da escola.

— Uma lan house? Uau, que massa! — comentou Lívia, sorridente. — Bem retrô.

O sinal do intervalo tocou indicando seu fim, logo mais a sala estaria lotada novamente. A conversa se encaminhava para o fim, por mais que Shun desejasse estendê-la mais um pouco.

— Podemos ir juntas. Que tal? — perguntou Shun, quase se corrigindo depois. — Ou então posso te mandar o endereço.

— Eu adoraria ir contigo — respondeu Lívia, o tom amigável na voz fez Shun sentir os pelos arrepiarem.

— Tudo bem, então.

— Tudo bem, então — repetiu Lívia, que não escondia o sorriso.

Shun se despediu com um aceno de mão e foi para seu lugar. Lívia saiu da sala, ainda sorrindo bobamente. Finalmente Shun estava se permitindo criar uma amizade, finalmente Lívia estava se aproximando da garota andrógina.

Pela primeira vez, ela escolheu uma amiga e não o contrário.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Ainda estou com falta de capítulos prontos, então o próximo vai demorar novamente. Se alguém estiver lendo, comente aí o que está achando.