Uma Paixão de Andrômeda
8 Chuva
Notas iniciais
O percurso do colégio até a lan house não seria demorado, pelo menos era o que garantia Shun. Ela havia explicado que um ônibus encurtaria esse caminho, mas o transporte coletivo estava demorando mais do que no dia em que Lívia havia seguido indiscretamente a garota andrógina. Na verdade, nenhum ônibus estava passando na rua naquele horário.
— Que droga. Eles estão de greve de novo? — resmungou Shun. Olhou para cima. O céu, antes claro, havia assumido um tom plúmbeo e ameaçador.
— Eu não me importo de ir andando — falou Lívia.
— Tem certeza? Acho que vai chover.
— Eu não tenho medo de uma chuvinha — Lívia respondeu com um sorriso.
— Tá bom. Vamos.
Shun ajeitou a mochila nas costas e liderou o caminho, com Lívia poucos passos atrás. A rua ao redor estava quase vazia, com alguns carros passando e poucos pedestres presentes, mas tão distantes da vista de Shun que pareciam borrões pincelados.Seu coração batia num ritmo diferente, como se estivesse nervosa por estar guiando Lívia ao seu local de trabalho.
Não havia pensado muito bem como fariam isso: Se ela fosse trabalhar, não tinha como dar a atenção devida à Lívia e ao trabalho escolar. Talvez pudesse apenas combinar como vão retratar o expressionismo e num outro dia, quem sabe num fim de semana, elas trabalhariam os detalhes. Mas aí poderiam ter combinado na própria escola.
Shun bufou com impaciência, desejando voltar no tempo para planejar melhor a sua tarde com Lívia. Mas era impossível, tinha que lidar com sua decisão ou improvisar.
Lívia apressou o passo e ficou lado a lado com a colega de turma. Ela havia percebido a impaciência de Shun.
— Que foi?
— Nada.
— Fala — insistiu Lívia.
— Não é nada. Sério. É que não tenho como te acompanhar e trabalhar ao mesmo tempo.
— Não tem problema. Eu posso estudar enquanto você trabalha.
— É que eu não queria te deixar na mão desse jeito.
Lívia segurou a mão de Shun, mais uma vez faíscas percorreram sua pele, arrepiando-se por baixo do tecido. No mesmo instante, um relâmpago rasgou o céu, algo que durou menos de um segundo, seguido por um trovão barulhento e ameaçador. Shun não sabia se sentia mais temor pela chuva iminente ou por segurar a mão da amiga ruiva, que finalmente falou:
— Relaxa.
Shun assentiu em silêncio com a cabeça, mordeu os lábios e olhou para a mão de Lívia, que rapidamente soltou a de Shun. A mordida de lábios sumiu na mesma hora, talvez fosse um sinal incorreto para o que Shun sentia. Não era para soltar a mão.
O céu ficava mais nublado à medida em que Shun e Lívia apressavam o passo. Quando os primeiros pingos de chuva caíram, os passos apressados se tornaram uma corrida. Ao virar uma esquina, Lívia avistou a lan house Andrômeda — apesar de desligado, o letreiro era bem chamativo mesmo distante.
Conseguiram uma cobertura para recuperarem o fôlego. A chuva começava a apertar.
— Estamos perto — comentou Shun. — A gente consegue.
— Sim. Vamos conseguir.
Shun tirou sua jaqueta. De imediato, Lívia percebeu que sua dupla de trabalho estava usando uma camisa branca que contrastava com o sutiã escuro, o que fez a garota enrubescer e virar o rosto. Por que havia percebido o sutiã? Não precisou pensar muito nisso, pois Shun lhe entregou a jaqueta. Lívia olhou de volta com confusão no rosto:
— O quê? Não precisa…
— Não quero que se molhe.
Antes que Lívia pudesse protestar, Shun partiu em correria. A garota ruiva demorou um segundo e correu atrás, tentando usar a jaqueta como escudo contra a água que caía do céu. Apesar da cabeça protegida, suas meias já se encontravam encharcadas pelas poças que já se formavam na calçada, o vento empurrava a chuva para a região abaixo de seu quadril, molhando sua saia. Alcançaram a porta de entrada não muito tempo depois, com Shun girando o trinco em desespero e permitindo que Lívia adentrasse na lan house.
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