Shun deslizou as costas pela parede até sentar, enquanto Lívia se jogou para longe da calçada encharcada, ofegante. Enquanto recuperava o fôlego, Shun riu de maneira contida. Não havia se divertido na chuva desde os tempos em que era uma criança ingênua e feliz que pulava em poças de chuva sem medo de ficar gripada. A risada chamou a atenção de Lívia.

— Que foi?

— Foi divertido — respondeu com um sorriso sobre o rosto.

— É — Lívia concordou, entregando a jaqueta para a amiga. — Toma. Obrigada, mas não adiantou muito.

— Seu cabelo tá seco? Seu rosto?

— Sim.

— Então valeu a pena. — Shun se levantou apoiada na parede e ajudou Lívia.

Lívia olhou ao redor da lan house. Seu interior era como voltar no tempo quando locais assim eram comuns. Lívia não pegou a época áurea das lan houses, apenas o declínio, mas ver a Andrômeda lotada de computadores e de pessoas fez ela criar uma sensação de nostalgia, pois despertou uma lembrança da época em que Lívia, criança, acompanhava Leonora, uma mera estudante de Direito, nas aulas noturnas da faculdade. Enquanto a mãe estava digitando algo para a aula seguinte, Lívia se divertia jogando Paciência e Paciência Spider.

— Vamos nos enxugar antes que o Homão apareça e nos veja molhadas.

— Homão?

— É meu chefe.

Shun guiou Lívia para os fundos da lan house, subindo as escadas. A chuva estava mais forte e barulhenta, fazia um som quase ritmado e hipnotizante ao bater nas telhas que protegiam as escadas. Ao passarem pela porta ao fim da escada, Shun explicou onde cada quarto e banheiro ficavam, apesar de não ser tão difícil de identificar. Lívia olhou com surpresa para Shun.

— Seu quarto? — Sua voz não disfarçava a curiosidade.

— Eu vivo aqui a maior parte do tempo.

— E aquela história de pegar dois ônibus?

— Meia-verdade. — Shun sorriu enquanto abria a porta do quarto. — Meus pais moram longe, às vezes faço uma visita. Aí preciso pegar dois ônibus para ir pra casa.

Lívia analisou o ambiente, achando curiosa a placa “Deus, eu pedi um quarto, não um palácio”, considerando que tinha tão pouca mobília naquele ambiente. Shun entregou uma toalha para Lívia.

— Obrigada. — Lívia agradeceu com um sorriso no rosto.

Shun conseguia imaginar Lívia julgando seu quarto com pena, já que dormir numa cama inflável parecia muito desconfortável e as paredes sem cor traziam um aspecto triste ao ambiente. Apesar de Lívia ser diferente da maioria das pessoas, ainda era alguém com olhar julgador.

— Eu gostei do quarto — comentou Lívia.

— Sério? Não vai dizer “nossa, você dorme nessa cama”?

Lívia balançou a cabeça.

— E que tal: “Você precisa pintar as paredes”?

Lívia repetiu o balanço negativo.

— Sério, seu quarto é legal. Compacto, utilitário. Você tem tudo o que precisa e não acumula coisas. Quando me mudei, encontrei tanta tralha que eu nem lembrava mais que existia. E não precisa mudar as paredes, elas combinam contigo. Trazem um ar de…

— Tristeza e desesperança?

Shun tentou interromper, mas Lívia não sentiu o corte e completou:

— …Mistério e seriedade.

Elas falaram ao mesmo tempo, uma sintonia quase perfeita pela segunda vez no mesmo dia, apesar das palavras diferentes. Desta vez não sorriram. Shun ficou estática, absorvendo aquela visão distinta sobre seu quarto, a água ainda pingando de sua blusa branca, revelando com mais evidência o sutiã. Lívia engoliu em seco, novamente enrubescendo por notar o detalhe íntimo no corpo de Shun.

— Você… Hã… Quer trocar de roupa? Posso esperar no corredor — falou Shun, quebrando o silêncio.

— Não. Meu anjo da guarda me protegeu da cintura pra cima.

— Seu anjo da guarda? — Shun sorriu.

— É. Ela invocou uma proteção para mim.

— Que gentil da parte dela.

Shun deixou a jaqueta embolada perto do armário e, sem cerimônias, tirou a blusa branca. Lívia ficou travada por alguns segundos, hipnotizada pelo corpo esbelto da garota andrógina, depois virou-se cobrindo o rosto.

— Pode me ajudar? — perguntou Shun. Lívia olhou para a amiga, ela estava de costas, apontando para o fecho do sutiã. — Não estou acostumada com sutiã que abre por trás.

— Posso. — Lívia não demorou a abrir o fecho. — Pronto.

— Valeu — agradeceu Shun, cobrindo os seios enquanto procurava um top esportivo no armário. Notou que Lívia continuava enrubescida, portanto tentou tranquilizá-la. — Não precisa ficar envergonhada. Apesar de pequenos, meus peitinhos são tão femininos quanto os seus.

— Não é vergonha, eu só fui pega de surpresa — argumentou Lívia, tentando evitar olhar o busto nu de Shun. — E acho que seios compactos têm um certo charme.

— Seios compactos? — Um sorriso dominou o rosto de Shun enquanto cobria parcialmente o corpo com uma toalha.

— É. Era como minha mãe dizia quando eu estava em fase de crescimento e eles não cresciam comigo. — Lívia apontou para o próprio busto.

— Legal. Pelo menos cresceram. Os meus decidiram ficar pequenos para sempre. A menos que eu fique de lado. Tipo assim. — Shun ergueu as mãos e ficou de lado, pulando para que seus peitos também balançassem.

Lívia se divertiu com o momento descontraído, mas não focou nos seios saltitantes. Seus olhos estavam fixos no rosto de Shun, analisando como a alegria e a descontração deixavam-na leve, bem diferente daquela Shun tradicionalmente sisuda e sarcástica. Lívia, inspirada pelo momento leve, decidiu soltar as palavras que estavam presas desde o dia em que se conheceram melhor no ponto de ônibus:

— Você é linda, Shun. Não importa o ângulo, o que está vestindo ou o tamanho dos seus peitos. Você é incrivelmente linda!

Shun parou de pular e olhou para Lívia. A ficha não havia caído no começo, afinal não estava acostumada a receber elogios por ter peitos pequenos, mas saber que Lívia os achava charmosos fez seu coração se aquecer. Entretanto, ouvir da garota ruiva um elogio tão sincero quanto esse fez Shun se aquecer por completo a ponto de seu rosto ficar vermelho.

Lívia, por outro lado, perdeu toda a vergonha no rosto. Sentia-se livre por soltar aquilo do peito e finalmente contar o que achava da aparência de Shun. Vagarosa, Lívia se aproximou e passou a mão sobre o rosto da garota andrógina, a diferença de altura perceptível mais uma vez. Uma diferença que foi diminuindo à medida que Shun aproximava a boca até os lábios de Lívia.

Nenhuma das duas recuava, ambas queriam aquele contato. Estavam separadas por centímetros, sentiam a respiração uma da outra, a mão de Shun tocando o queixo de Lívia. Era o momento perfeito para se beijarem.

E o beijo veio. Tão quente quanto o verão, tão caloroso quanto um abraço amigável. Tão bem-vindo quanto a chegada de uma boa amiga. Lívia não sentia os pés tocando o chão, a sensação era de uma leveza tão forte que ela poderia estar flutuando. A mão de Shun percorria a pele de Lívia, gerando tanta faísca que a própria garota andrógina sentia o arrepio dos pelos da amiga ruiva.

Até que um trovão rompeu o silêncio e forçou a queda de energia.

O beijo foi interrompido após o estrondo trovejante. Estavam tão próximas que conseguiam se enxergar mesmo sob o breu absoluto, Lívia sentia o peito de Shun colado em seu corpo. Aquele beijo, um ato quase impensado e totalmente instintivo, parecia um sinal do destino, praticamente um teste para descobrir quais os limites que Shun e Lívia estavam dispostas a ultrapassar. A resposta era todos.

— Shun? — murmurou Lívia.

— Estou aqui. — Shun segurou a mão de Lívia. — Vou ter que verificar se os computadores não queimaram lá embaixo.

O dever chamava a garota andrógina.

— Tá. — A decepção se destacava no tom de voz de Lívia. — Sem luz, acho que vamos ter que adiar nosso... — Lívia sentiu um sorriso bobo vacilando por seu rosto. — …Nosso…

— Pois é. Mas, se quiser, nós podemos conversar sobre o beijo…

— Não! — Lívia respondeu depressa demais e corrigiu-se na sequência: — Quer dizer, eu quero, mas não sei o que falar agora. Eu não pensei em nada, apenas segui um instinto.

— É, eu também.

A única fonte de luz no quartinho vinha do corredor, atravessando a porta aberta. Era o suficiente para Shun tatear o armário à procura de roupa limpa. Lívia estava parada, pensando no beijo. Era instinto, puro instinto, seguindo o que seu coração dizia e não o que o seu cérebro mandava. Mas ele mandou em algo? Lívia tinha certeza de que ele estava calado, uma testemunha silenciosa julgando a atitude impensada de beijar a amiga.

Foi o primeiro beijo de Lívia e a sensação foi agradável. Maravilhosa! Perfeita!! A melhor sensação que ela teve em muito tempo. Ela não poderia esperar um primeiro beijo tão incrível. Lívia tinha quase certeza de que Shun também queria o beijo, ela não recuou um centímetro até a queda de energia.

Então, era um sentimento correspondido? Na verdade, era um sentimento? Ou foi apenas um ato no calor do momento?

— Liv?

Shun estava com roupas secas. Sem jaqueta, com uma blusa preta com estampa quase invisível, usando calça jeans e botas marrom. Continuava incrivelmente linda aos olhos de Lívia.

— Oi. — Lívia se posicionou de frente, sorridente, encarando os olhos de Shun sob uma nova ótica.

— A chuva passou.

— Tá. — Lívia tinha entendido o recado. Não estava chateada, realmente precisava ir para casa. — Obrigada pela companhia.

— Ei, se quiser conversar comigo sobre o beijo, é só pedir.

Lívia percebeu um sorriso discreto passeando pelo rosto de Shun quando ela pronunciou “beijo”. Será que ela gostou?

— Amanhã conversamos. — Lívia sorriu, despedindo-se com um toque na bochecha de Shun.

Shun notou como o sorriso de Lívia estava tão cheio de alegria quanto de dúvida. Era a primeira vez que via ela assim. O que estava se passando dentro da mente da garota ruiva era um mistério, mas Shun sentia que compartilhava as mesmas incertezas.

Notas finais
Espero que tenham gostado! =) A partir daqui entramos na reta final da fic.