Uma Paixão de Andrômeda
5 Espaço individual
Do outro lado do bairro, Lívia andava de um lado para o outro pelo quarto. Teve muitos pensamentos ao longo da tarde, todos referentes à Shun. O primeiro deles: Shun é uma garota trans? Qual seria o pronome de preferência?
Após esses pensamentos iniciais, decidiu pesquisar sobre a vida de Shun. Seu notebook rosa estava com a tela acessada na Wikipédia, pois o máximo que conseguiu achar foi sobre Shun, o Cavaleiro de Andrômeda e personagem de um anime chamado Os Cavaleiros do Zodíaco. A internet não tinha todas as respostas, mas acabou encontrando informações de que ele seria um exemplo de androginia masculina.
Androginia. Aquela palavra ecoava na cabeça de Lívia. Pesquisou rapidamente sobre androginia na internet, encontrando imagens que resolviam essa parte da charada. Homens que se assemelhavam visualmente com mulheres e também mulheres com aparência dúbia, um estilo visual que parecia em voga, apesar de Lívia não ter visto com constância em sua antiga cidade.
— É isso. Tem que ser isso! — exclamou para si mesma, eufórica.
A partir daquele momento, seus pensamentos se voltaram para as possibilidades de um diálogo de… reconciliação? De início de amizade? De elucidação? A cabeça de Lívia estava a mil por hora, tentando organizar os pensamentos. Ela tinha tantas perguntas.
Lívia parou de frente para o espelho do quarto e fechou os olhos, concentrando-se. Quando os abriu, imaginou a cena: Estava no corredor do colégio, todos andando de forma despreocupada, Luísa e o trio se oferecendo para os jogadores de futebol. Shun apareceu. Lívia chegou perto dela.
— Oi, Shun. Bom dia. — Lívia sorria, imaginou que Shun estaria com fones de ouvido. — Como foi seu trajeto para… Não.
A imagem se refez como uma fita rebobinando. Ela tentou outra vez.
— Oi, Shun. Bom dia! Chegou bem em casa… Não! Bom dia, Shun. Podemos conversar sobre ontem?
Imaginou uma resposta atravessada de Shun, algo como “Tenho mais o que fazer” ou “Vá embora”. Lívia começou outra vez.
— Shun! Bom dia, como vai? Eu pensei que poderíamos conversar sobre ontem, queria me desculpar por… Saco! — Um celular começou a tocar, distraindo a mente de Lívia. A imagem se desfez por completo.
O cenário escolar deu lugar ao seu quarto rosa-choque com diversos livros espalhados pela parede em estantes de madeira. O notebook já havia entrado em modo de suspensão por falta de uso. O celular insistia em tocar, era um alarme que Lívia havia programado para começar a fazer o jantar.
Depois que desativou o alarme, deitou-se sobre a cama, sentindo-se acolhida pela maciez do móvel. Olhar para o teto lhe trazia a lembrança de sua antiga cidade, de seu antigo quarto. De sua antiga vida.
Puxou o celular e acessou a galeria, visualizando as lembranças que o Google Fotos preparou para o dia. Muitas fotos de Lívia sorrindo ao lado do pai, jogando futebol com ele — Lívia era péssima chutando uma bola, mas seu pai era pior. Era doloroso pensar que algumas dessas fotos tinham apenas 8 meses.
— Filha, cheguei — anunciou a mãe.
Lívia tentava não ouvir as conversas de adulto, era uma regra estipulada por sua mãe lá pelos seus 12 anos. Mas era impossível deixar de ouvir os gritos do pai porque a mãe voltou embriagada de uma festa da firma. Ou dos gritos da mãe porque o pai não pagou a conta de luz, assim convivendo com o calor e a escuridão por quase três dias.
Esses gritos se tornaram mais frequentes ao longo dos anos, até que seis meses atrás os pais assinaram um acordo de divórcio. A mudança de cidade levou três meses para ser concretizada, Lívia precisou deixar a escola no final de novembro, depois das provas bimestrais.
Lívia continuou passando pelas fotos, olhando para suas inseparáveis amigas de infância, Shirley e Madalena. Fotos na piscina, fotos dentro da igreja durante uma missa, fotos no meio da sala de aula, quando não tinha professor. E também quando tinha algum professor, momentos que fizeram Lívia sorrir. Lembranças não apenas de uma amizade saudável como de momentos de rebeldia e diversão.
Duas batidas na porta trouxeram Lívia de volta à realidade. O cabelo vermelho e as sardas no rosto faziam Leonora, mãe de Lívia, parecer a própria filha vinda do futuro, porém com a experiência de uma mulher de 37 anos. Trajar aquele terninho formal era o sonho de carreira de Lívia, mas ainda não tinha certeza se desejaria seguir o mesmo caminho de advogada e defensora da causa LGBTQIA+ da mãe ou se seguiria um percurso diferente.
— Oi, filha.
— Oi, mãe.
— Como foi o dia na escola?
— Foi legal. Já fiz uma amiga. — Não deveria ter usado essa palavra, estava pensando em Shun. Ao se lembrar de Luísa, Bruna e Joana, se corrigiu: — Mais de uma, na verdade.
“Só não sei por quanto tempo”, pensou Lívia, lembrando do quão instável essa amizade poderia ser caso insistisse em conhecer melhor a Shun.
— Que ótimo, querida. — Os olhos de Leonora brilharam de orgulho.
— Eu já ia preparar o jantar, é que me distraí com… — Lívia escondeu o celular. — uma pesquisa.
— Tudo bem, filha. Eu preparo o jantar.
— Mas você está cansada — protestou a garota.
— Não. Eu faço, sem problemas — insistiu a Leonora, que manteve um sorriso trêmulo no rosto. — Pode continuar sua pesquisa. Daqui a pouco eu te chamo.
Leonora mandou um beijo, que Lívia fingiu morder no ar, e saiu do quarto. Lívia voltou a pensar em Shun. Será que Shun tem família? O que eles achavam de sua adesão à androginia?
Shun, Shun e Shun! Lívia não tinha outro nome passando por sua cabeça. Shun isso, Shun aquilo. Lívia estava quase obcecada. Talvez o ideal não fosse falar com Shun, mas evitá-la, como Luísa gostaria. Balançou a cabeça e riu.
— Fazer a vontade de Luísa? Nem pensar! — continuou rindo até que respirou fundo e falou: — Tem que haver algum jeito.
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