Uma Paixão de Andrômeda
4 Espaço coletivo
A fachada da lan house anunciava seu nome num letreiro ainda desligado: Lan House Andrômeda. O horário vespertino era o mais agitado durante o período das férias escolares, muitos adolescentes se encontravam para jogar partidas de Counter Strike, Call of Duty, Battlefield ou qualquer jogo com conexão online que estivesse instalado nos computadores. Apesar do início do ano letivo, a expectativa era que o movimento não diminuísse, já que os estudantes também aproveitavam para fazer suas atividades escolares — e alguns para não fazê-las.
Shun não precisou de dois ônibus como havia dito para Lívia. Desceu algumas quadras depois do ponto de ônibus e seguiu a pé para a Lan House Andrômeda. Respirou fundo e passou pela porta de entrada. Os computadores estavam ligados e à espera da turma de sempre — o primeiro dia de aula era sempre o mais tranquilo, portanto era como um dia de férias, mas interrompido pela escola. Shun avistou um homem corpulento mexendo no gabinete do computador da mesa 07, sua calça mal escondia a cueca. Uma cena desagradável, pois Shun via muito mais do que seus olhos gostariam de captar.
— Aí, Homão, vou enfiar uma moeda nesse teu cofrinho se continuar mostrando ele pra mim — brincou Shun, largando a mochila em uma cadeira giratória.
— Shun? É tu, guria?
— Pro teu azar, sim — Shun manteve o bom humor na voz.
Homão afastou-se do gabinete e ficou de pé, ajeitando as calças. Shun percebeu que ele estava sem cinto, o que explicava as vestes do seu chefe caindo mesmo depois de ajustá-las.
— Como foi teu dia na escola?
— Um saco. — Shun sentou-se na cadeira do computador 08 e tirou o sapato. — Mal posso esperar pra me livrar daquele lugar pra sempre.
— Que exagero, tchê. A escola é a melhor fase da tua vida. Vai por mim.
— Talvez na sua época fosse a melhor fase, mas isso foi quando? 1920?
— Engraçadinha. — Homão soltou uma gargalhada tão genuína que fez Shun rir também. — O velho aqui não é tão velho assim.
— 1950, então.
Homão era o gerente da Lan House Andrômeda e o responsável por Shun ter um emprego. Seu apelido se devia ao tamanho de seu corpo, com mais de 120 kg de gordura com o acréscimo de alguns gramas de músculo escondido, como Shun gostava de descrever. Ele também era muito alto, o que combinava com seu corpo nada atlético. Shun era grata por Homão, pois, além do emprego, lhe dera um lar — não exatamente a própria lan house, apesar de Shun considerar sua casa também, mas sim um quarto no andar de cima.
— Bah, eu sei mexer nos PCs — argumentou Homão.
— Parabéns, você é um millennial — brincou Shun.
— Vai ficar me provocando ou vai trabalhar um pouco?
— Banho, almoço, trabalho. — Shun exibiu os dedos para exemplificar a ordem das ações que tomaria a seguir. — Só quis bater um papo antes do banho.
— Sei. E a câmera nova?
— Curti. É maneira. — Shun entregou a câmera digital para seu chefe. — Tirei algumas fotos como teste.
Homão começou a vasculhar a memória da câmera. Cerca de 30 fotos foram tiradas ao longo da manhã, imagens registrando momentos específicos principalmente durante a primeira hora do colégio. Shun olhava por cima do ombro do chefe.
— Algumas ficaram borradas. Vou editar mais tarde — Shun comentou mais para si do que esperando uma resposta de Homão.
— Quem é essa ruivinha? Apareceu bastante até aqui.
— É uma novata. O nome dela é Lívia, eu acho.
— Já fez amizade com ela?
— Não. A Luísa já começou a fazer lavagem cerebral.
— Tu precisa ser mais ligeira se quiser fazer uma amiga. — Homão devolveu o objeto fotográfico.
— Bom, eu não quero amizade, logo não preciso ser ligeira. — Shun recolheu a câmera. Em tom provocativo e bem-humorado, completou: — Ligeira. Credo, quem ainda fala assim?
— Vá tomar seu banho, vá! — retrucou Homão enquanto Shun gargalhava.
Shun subiu para o segundo andar. Havia três portas no corredor simples e acanhado: no centro ficava o quarto de Homão, cuja porta sempre ficava fechada. À direita, um banheiro dividido entre chefe e inquilina funcionária. À esquerda, o lugar que Shun adotou como seu quarto. Apenas o essencial estava ali, como um colchão inflável azul que fazia muitos ruídos à noite, um armário velho de madeira para guardar suas roupas e vários monitores e CPUs abandonados.
Shun gostava da cor cinza na parede, apesar do aspecto triste que atraía para o ambiente. “Deus, eu pedi um quarto, não um palácio” era a frase emoldurada na parede, um dos dois únicos toques pessoais que escolheu para enfeitar aquele cubículo.
Ao lado do colchão inflável havia um porta-retrato com a imagem de Shun pré-adolescente num vestido florido. Ela sorriu, pois aquela foto lhe lembrava que, um dia no passado, foi feliz em vestes femininas. Aquela garota sorridente ainda não sabia as decisões que seriam tomadas, o preconceito que encararia por quem não entendia o que ela gostava de vestir.
Tirou a roupa e seguiu para o banheiro. Ao passar em frente ao espelho, notou que seus seios ficavam maiores de lado do que quando ela se posicionava de frente. Respirou fundo, pois, enquanto todas as garotas se turbinavam corporalmente durante a adolescência — algumas naturalmente, outras nem tanto — os seios de Shun não cresceram tanto, seu quadril não aumentou e tinha certeza que sua bunda não atraía o olhar de ninguém, parecendo reta demais e rendendo o apelido de ‘garota-tábua’. Esse corpo travado foi uma das razões para adotar um visual tão radical que sua antiga ‘eu’ se tornasse apenas lembrança de um porta-retrato.
Desde que assumira uma identidade dúbia, Lívia era a segunda pessoa que se confundia e ficava muda após descobrir a verdade. Mas não precisava de palavras, Shun viu o choque da surpresa nos olhos de Lívia e também em sua boca aberta e estática. Admitia que gostava da insistência da novata, mas pretendia manter distância, não queria metê-la em encrenca — Shun sabia das coisas que Luísa era capaz de fazer quando se sentia contrariada. Se precisasse magoar Lívia para protegê-la, Shun faria isso.
Esperava não precisar chegar a esse ponto.
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