Notas iniciais
Oi, oi! Chegando para o evento de Romance Clichê. Isso vai ser interessante porque eu costumo iniciar minhas histórias com os personagens numa relação já estabelecida. Aqui vamos ver o início do romance. E romance também não é muito a minha área, não costumo ler ou escrever histórias românticas. Decidi me desafiar a fazer algo diferente. Espero que gostem da leitura.

O pátio do colégio estava agitado no início da manhã de segunda-feira. Muitos rostos conhecidos se cumprimentavam, alguns amigáveis apertos de mão entre rapazes, alguns beijinhos sensíveis no rosto entre meninas, alguns beijos românticos entre casais que pareciam estar aguardando o contato labial há eras, quando só se passaram algumas horas desde a última vez que se viram — isto é, considerando que se viram durante o fim de semana.

No centro do pátio, se isolando num mundo próprio criado por seus fones de ouvido, Shun estava feliz. Não por voltar à escola depois de um fim de semana improdutivo em casa. Ou só por voltar à escola numa manhã de segunda-feira. Shun estava feliz por ter comprado a câmera digital que sempre quis.

Desligou um pouco a música e sentou-se de frente para a muvuca de alunos, apontando a câmera e enxergando coisas que ninguém costumava enxergar. Um casal se agarrando decidiu entrar no banheiro. “Espero que usem proteção”, pensou ela enquanto registrava o momento. Um pouco mais a oeste, um grupo de rapazes trocando figurinhas de Yu-Gi-Oh. Nada interessante, mas tirou fotos mesmo assim. Clique.

A leste, garotos do time de futebol segurando bolas de futebol e, provavelmente, falando sobre a rodada de ontem no campeonato de futebol. Clique. Muito a sudeste, quase nos degraus de escada, um grupo de garotas de rosa murmuravam algo enquanto olhavam na direção de Shun. Clique.

— Vadias — murmurou Shun. Não precisava de leitura labial para saber que era algo depreciativo. Já estava acostumada com isso.

Shun se sentia um paradoxo em forma de pessoa. Ao mesmo tempo em que gostaria de passar despercebida aos olhos das pessoas, também tinha que lidar com o olhar de julgamento por conta da decisão pessoal que havia tomado. Desde o corte de cabelo, um mullet moderno, porém bagunçado, com volume no topo e cortado nas laterais, diferindo das garotas que passam horas penteando o cabelo para continuarem femininas, até as roupas mais masculinas, como jaqueta e calça cargo, algo bem confortável e pouco padronizado. Decerto o que mais incomodava era o rosto. Zero maquiagem, zero batom, zero bijuteria, um rosto limpo e natural do jeito que considerava perfeito.

No início, murmúrios como os daquelas garotas doíam em sua alma. Era estranha por se sentir bem vestindo roupas masculinas? Era uma aberração da natureza por não usar maquiagens? Com o tempo, percebeu que tais olhares julgadores e comentários depreciativos poderiam ser combatidos com uma ignorada ou, dependendo do seu humor, um dedo do meio.

Shun seguiu retratando o dia a dia na escola. Percebeu que alguns novatos estavam presentes, pareciam tão deslocados quanto Shun. Percebeu também que as matilhas pareciam farejar novos integrantes. O primeiro veio do grupo de jogadores de Yu-Gi-Oh saudando um garoto com camisa de Pokémon. Clique.

A segunda vítima foi uma garota loira. Uma das garotas de rosa a recrutou, provavelmente conquistando-a com um elogio falso ao cabelo.

As vítimas seguintes foram engolidas pela turma do futebol. O capitão do time de interclasse jogou uma bola e o primeiro que a dominou no peito foi o vencedor. O restante? Provavelmente iriam compor o banco de reservas.

Por fim, uma última garota. Seu cabelo ruivo estava trançado para trás, vários nós que seguiam até o bumbum. Um pouco sardenta, mas bonitinha com os óculos de aro rosa, usava um suéter verde que cobria todo o seu braço, além de uma saia xadrez de cor neutra. Nenhuma matilha apareceu para recrutá-la. Ou ela era invisível às outras pessoas ou era uma candidata a loba solitária.

À medida que Shun tirava fotos dela, a novata se aproximava de Shun. “Que droga”, pensou. Parou de pé em frente à Shun, as mãos segurando um livro contra o busto. Shun lentamente afastou a câmera do rosto e a encarou de baixo para cima.

— Bom dia.

— Quer ajuda? — perguntou Shun, meio indiferente.

— Posso me sentar aqui? Acho que todas as mesas estão ocupadas.

Shun assentiu com um balançar silencioso de cabeça. A garota se sentou à mesa. Por um instante Shun pensou que ela leria seu livro em paz com seus próprios pensamentos, apesar do barulho impedir qualquer pessoa de pensar em silêncio. Ao invés disso, sentiu os olhos da garota percorrendo seu rosto. Shun lançou um olhar felino e pouco amigável em troca.

— Algum problema?

— Você, por acaso, tirou fotos de mim?

— Não. — Shun engoliu em seco. — Eu estava apontando para outro lado.

— Ah. — “É agora que você lê seu livro e me deixa em paz?”, pensou Shun. — Você sempre tira fotos? Faz parte de algum clube de fotografia ou algo do tipo?

Shun olhou para a novata com certo incômodo.

— Isso é um interrogatório?

— Não. Eu só achei curioso. Um garoto isolado tirando fotos dos colegas de turma no colégio. Eu pensei em duas possibilidades e você já chutou pra longe a minha primeira ideia.

— E qual é a segunda possibilidade?

— Que você é um stalker pervertido. — Ela riu com nervosismo.

Shun não reagiu, não achou engraçado e nem se explicou, um silêncio que tinha significados diferentes para as duas pessoas. Para Shun, apenas não devia explicações para uma garota que acabou de conhecer.

Para a garota nova, era um silêncio de confirmação. Desfazendo o riso, ela abaixou os olhos e fez menção de começar a ler o livro que segurava. Segundos depois, quebrou mais uma vez a barreira do silêncio.

— Ei. Desculpa, foi uma brincadeira sem graça. — Havia arrependimento na voz.

— Já me chamaram de coisa pior — respondeu Shun, ainda séria e inexpressiva, analisando as fotos em sua câmera. Talvez isso fosse o suficiente para a novata ficar quieta. Era a esperança de Shun.

Uma garota se aproximou da dupla, ela não tinha intenções amistosas ou interativas, parecia muito mais interessada em ser a salvadora de alguém. Ignorando Shun, foi direto na garota nova:

— Ei, novata. Vem sentar com a gente.

— Eu pretendia…

— Vem. Deixa essa coisa aí.

— Calça nova, Luísa? Não tinha uma mais curta pra poder exibir esses cambitos de galinha? — perguntou Shun em tom provocativo.

— Cala a boca, aberração! E deixa a novata em paz! Vem, novata.

Enquanto era puxada, a garota nova deixou o livro cair sobre a mesa. Ela voltou depressa e o recolheu, mas antes soltou quatro palavras que ficaram na mente de Shun:

— Meu nome é Lívia, a propósito — disse Lívia, sorrindo e ajeitando o cabelo para trás da orelha.

Shun encarou os olhos de Lívia. Eram escuros, mas tinham sutis tons esverdeados. Seu cabelo, no entanto, pareceu variar rapidamente de vermelho para laranja quando o sol se encontrou com suas tranças.

— Vem logo, fulana! — Luísa puxou Lívia, que seguiu cabisbaixa até a mesa enquanto ouvia a ‘salvadora’ tagarelar sobre se manter distante de Shun.

Apesar da seriedade por fora, Shun sorriu por dentro. O ano letivo começou bem.

Notas finais
Espero que tenham gostado! No momento a frequência de postagens vai ser em dia de quarta e domingo. Se eu não postar em um desses dias, é porque minha reserva de capítulo acabou. E, por gentileza, comentem. Deixem suas impressões sobre o capítulo. É importante saber a opinião de quem está lendo :)