Uma Paixão de Andrômeda
2 Lívia
Notas iniciais
Lívia se adaptou bem às primeiras horas no novo colégio. Depois que se separou do garoto da câmera fotográfica, Lívia fez amizade com Luísa, sua ‘salvadora’, e as amigas de Luísa, Bruna e Joana. As três formavam um trio inseparável naquele ambiente, sendo honestas e protetoras umas com as outras.
No intervalo entre a primeira e a segunda aulas, Lívia estava próxima do trio de Luísa quando elas receberam panfletos de um grupo de pessoas que carregavam cartas de Yu-Gi-Oh no bolso da camisa. O panfleto anunciava um torneio que aconteceria na quarta-feira para definirem os membros do clube no novo ano letivo. Luísa, sem pudor em parecer mal educada, assoou o nariz com o panfleto, dobrou-o e o devolveu ao rapaz. Enquanto Bruna e Joana gargalhavam e amassavam os panfletos, Lívia percebeu a cara constrangida do garoto.
Lívia entendeu depressa quem estava no comando do trio. Luísa era a líder, aquela que zomba dos nerds e que, Lívia teorizava, se jogava de corpo e alma para os braços dos atletas. Ela tinha que admitir: Luísa era linda, a mais bonita das três garotas, talvez do colégio inteiro. Seu cabelo exalava cheiro de morango, suas roupas estavam tão bem passadas que pareciam novas e bem custosas. Não podia deixar de comparar a uma Barbie humana, mas, quem sabe, a Barbie não era uma Luísa em formato de boneca.
Bruna e Joana eram iguais a duas cadelinhas bem adestradas por sua dona, andando com coleiras invisíveis pelo colégio e acatando ordens sem questionar. Por algum motivo, Luísa sugeriu a entrada de uma quarta integrante para substituir a garota anterior. A escolhida acabou sendo a Lívia.
— O que houve com ela? — perguntou Lívia.
— Acho que se mudou. Ou entrou em coma, não sei ao certo.
— Que terrível.
— Nem tanto. Tem formas piores de sair do meu grupo.
A indiferença de Luísa quanto à ex-amiga fez Lívia refletir se era mesmo uma boa ideia se juntar ao trio. Por enquanto ficaria perto delas, melhor tê-las como aliadas do que como inimigas.
O garoto da câmera fotográfica vez ou outra aparecia no corredor. Parecia um ser deslocado, sem vontade de interagir com os outros, preso em um mundo próprio guiado apenas por seus fones de ouvido. Nas três aulas do dia, permaneceu no fundo da sala quase em silêncio, ora perdido em pensamentos, ora anotando alguma coisa no caderno.
Ele havia passado pelo corredor naquele instante, chamando a atenção de Lívia e tirando-a da conversa de Luísa sobre o quanto a aula de Literatura era sem graça, porque ler é uma atividade chata. Bruna e Joana concordavam.
— Ei, garota! — Luísa puxou a trança de Lívia.
— Ai!
— Ouviu o que eu falei? — Luísa parecia bastante ofendida por ter sido ignorada por Lívia.
— Não, desculpa. Eu me distraí.
— Ela tava olhando para a aberração — dedurou Bruna em tom de zombaria.
— Ai, nossa. Você gostou daquela coisa? — Luísa perguntou sem esconder uma expressão de nojo ao apontar para Shun.
— Não, não. Não é isso, é que ele parece um cara diferente.
Bruna e Joana começaram a rir enquanto Luísa revirou os olhos. Lívia ficou confusa e riu meio nervosa, mas também incomodada com a situação.
— Eu disse algo errado?
— Sim. Muito errado. Aquele “garoto”, na verdade, é…
— Shhhh! — Luísa interrompeu a revelação de Joana. — Quietinha, Joaninha. Deixa a novata descobrir sozinha. — Luísa encostou o dedo indicador contra o peito de Lívia. — Amiga, um conselho: Fica longe daquele cara. É encrenca.
— Sim, amiga. E seu status social vai lá pra baixo. Tipo, muito pra baixo — completou Bruna.
— Aqui não andamos com gentinha de status baixo. Caso veja aquela criatura de novo, apenas ignore e siga em frente. Estamos entendidas?
Lívia assentiu com a cabeça, mas sem confiança no próprio gesto. Aquele mistério intrigava a garota. Por qual motivo o garoto era esquisito? O que ele esconde? Sendo honesta consigo mesma, Lívia não gostava como Luísa e as meninas tratavam o rapaz da câmera, como se ele fosse um ser extraordinário, algo próximo de um monstro deformado. Parecia tão normal quanto qualquer outro menino do colégio, achou-o bonitinho também.
Talvez devesse arriscar uma nova conversa, desta vez sem chamá-lo de stalker pervertido. “Concentre-se, Lívia”, pensou ela ao mesmo tempo em que ria de algo que Luísa comentou. “Isso. Fingiu bem”.
Fale com o autor