Uma Paixão de Andrômeda
3 Interação
Os horários finais eram os mais esperados por Shun na segunda-feira. Não apenas pelo dia estar se encerrando, ou por sua barriga estar roncando à espera de uma boa refeição. Diferente dos cinco horários anteriores, quando se escondeu no fundo da sala, Shun escolheu a primeira fileira para os dois horários de Matemática que teria antes de ir embora.
Shun possuía um interesse genuíno por Matemática, cálculos e equações, mas não passava da média 7. Nos dois anos anteriores, sua maior nota foi 8, ainda bem longe do que desejava para o futuro pós-ensino médio, como cursar Tecnologia da Informação. Se quisesse realizar esse sonho, teria que maximizar os resultados desde o primeiro dia. Mostrou empenho ao entregar as atividades e participou ativamente durante as explicações, atitude que rendeu elogios do professor Greg.
— Nerd — provocou Luísa em tom de desprezo, arrancando risos de Bruna e Joana. Gritou para a turma inteira ouvir: — Você é muito nerd!
Lívia também estava presente na aula de Matemática, estando impressionada com a proatividade de Shun. Talvez fosse essa a esquisitice? Ser um nerd em Matemática? Não, não fazia sentido. Pessoas são boas em diferentes matérias e ruins em outras. Lívia se via como exemplo ao ser boa em humanas e ruim em matérias exatas. Além disso, os garotos costumavam ser melhores nas matérias exatas. Não havia nada de esquisito nisso, pelo menos na visão de Lívia.
Quando o final da aula foi anunciado, o trio de Luísa foi o primeiro a fechar o caderno e ir embora. Lívia guardou lentamente seus pertences, um olho estava na mochila e o outro estava no rapaz da câmera. Quando ele se levantou, Lívia esperou alguns segundos e o seguiu.
Um mar de alunos rumava para o portão de saída, Lívia precisou atravessá-lo para manter-se atenta aos passos do garoto estranho. Saíram do pátio e estavam na rua, o garoto ouvindo música em seu fone de ouvido e a garota a alguns passos de distância, repetindo silenciosamente palavras que poderia dizer a ele caso pudesse puxar algum assunto. Mas então ele parou e Lívia não prestou atenção, batendo o rosto nas costas do garoto.
— Desculpa — disse ela, recuando.
Shun se virou com uma expressão impaciente, olhando para Lívia paralisada na calçada. Respirou fundo e tirou os fones de ouvido.
— Já pode parar de me seguir, conseguiu minha atenção — disse Shun.
— Te seguir? Não, não — Lívia riu meio desconcertada e se aproximou de Shun. — Minha casa é por aqui — explicou-se, sendo sincera mesmo que, de fato, estivesse seguindo Shun.
— Que sorte a sua.
— E você? Mora aqui por perto?
— Não.
Shun seguiu em frente. Havia uma parada de ônibus alguns metros adiante. Lívia continuou seguindo Shun, a curiosidade crescendo a cada passo. Shun ficou de pé na parte coberta da parada enquanto Lívia se sentou no banco.
— Então, você pega um ônibus para ir pra escola?
— Dois ônibus. O que você quer de verdade?
A pergunta pegou Lívia de surpresa. Não planejou essa parte. Sua intenção era seguir o garoto, descobrir algo que justificasse a estranheza das meninas e entender o seu lado. Mas, cara a cara, Lívia não sabia exatamente como interagir. Qual seria o próximo passo? Chegou a uma resposta rápida:
— Podemos conversar? Tipo, qual seu nome? Idade? O que você faz? Você tem namorada?
— Me chamo Shun. E, como você viu, as mulheres me amam, fazem fila pra namorar comigo. — Shun não escondeu o sarcasmo.
— Não precisa ser grosso — retrucou Lívia, irritada. — Eu pensei que poderíamos ser amigos.
— Você não precisa de mim, já tem a Luísa como amiga. Eu vi vocês duas no corredor, aposto que ela falou um monte de porcaria sobre mim.
— Sim, falou. E mesmo assim…
— E mesmo assim tu me seguiu igual a, como você disse mesmo, uma “stalker pervertida”. — Shun fez aspas com os dedos.
— É. — Lívia sentiu o rubor subindo por seu rosto, desconcertada por ouvir aquelas palavras se voltando contra si. — Eu pedi desculpas.
— E eu aceitei. — Shun procurou algo no horizonte. — Cadê esse maldito ônibus?
Lívia se levantou e se aproximou de Shun, encostando em seu ombro. Shun se afastou depressa enquanto a garota nova espalmou as mãos em sinal de rendição.
— Eu quero saber quem é você. Tipo, você age feito um babaca, mas eu sinto que há algo a mais nessa sua carapaça de bad boy. Me diz: Por que a Luísa te chama de aberração? Você me parece um garoto tão… normal.
— Normal? — Shun soltou uma risada sincera. Notou também que seu ônibus havia aparecido. O braço esticado ativou um alerta na cabeça de Lívia.
— Sim. Normal.
Ao ver o ônibus desacelerar, Shun abaixou o braço e encarou Lívia. Shun tinha aproximadamente 3cm de altura a mais. Era o suficiente para encarar Lívia nos olhos. Shun escondeu o sorriso e não falou nada, apenas apontou dois dedos para a própria face. Lívia pareceu confusa inicialmente, tentando identificar o que aquele gesto significava. Até que a ficha caiu.
Shun não tinha pomo de adão, sua face, apesar da ausência de maquiagem, apresentava delicadezas que um rosto masculino não costumava ter. Lívia olhou o restante do corpo, procurando por curvas e até pelo tamanho dos seios, mas a camisa larga atrapalhava sua busca. Lívia manteve a boca aberta, tentando encontrar as palavras para revelar sua descoberta.
— Shun, você… Você é… É…
O ônibus parou atrás de Shun que, com um meio sorriso, virou-se para entrar no veículo.
— Pois é, Lívia. Não sou um garoto nem sou normal. Até amanhã.
Lívia ficou parada acompanhando cada passo de Shun no ônibus. Ela apresentou seu passe ao cobrador, que liberou sua passagem. O ônibus se moveu enquanto Shun se sentava. Colocou os fones de ouvido e manteve o olhar fixo para frente, sem desviá-lo para uma última conferida na expressão de Lívia.
— Shun, você é…
Lívia seguiu o caminho para casa tentando pensar na palavra, ou conjunto de palavras, que faltou para completar a frase. Uma garota? Sim, Shun é uma garota, mas não era esse o conjunto de palavras que estava faltando. Anormal? Não, isso é o que todos dizem para ela. Lívia não queria ser igual a todo mundo. E, pensando agora, nem Shun parecia ter esse interesse. Por isso as roupas largas e o corte masculino, talvez? Achava seu estilo visual bem bonito e diferenciado.
Lívia parou e sorriu. Era isso. A palavra finalmente veio. Não era anormal, ou normal, ou garota. A palavra veio e Lívia gritou a plenos pulmões:
— Linda! Shun, você é linda!
Os poucos pedestres ao redor olharam torto para Lívia que, passada a euforia da descoberta da palavra, veio a vergonha. Shun não estava mais ali e era impossível ouvir aquela frase. “Que estúpida”, pensou Lívia, correndo para dentro de casa, sentindo seu coração quase saltando pela boca. As batidas aceleradas eram o único ruído ouvido dentro de sua casa silenciosa.
Passada a vergonha, Lívia seguiu para o quarto e tirou a roupa. Seguiu para o banheiro apenas de roupa íntima e, enquanto se olhava no espelho, se lembrou da cena e riu.
— Uau, que vergonha — disse ela.
Precisava pensar numa forma de conversar com Shun sobre isso no dia seguinte. Ao menos sabia o que gostaria de dizer. Shun não era anormal ou esquisita.
Ela é linda.
Fale com o autor