Minha mãe me levou até o aeroporto de Guarulhos com as janelas fechadas e o ar-condicionado no último. Estava beirando seus 37° em São Paulo, um típico dia de verão numa selva de pedra. Eu estava preparada para voar, vestia meu melhor pijama de Star Wars, onde estava grafado na minha camiseta cinza “vida longa a resistência” um pouco acima da princesa Léia. Usando-o como um gesto de afronta para minha mãe que estava quase encostando o carro para comprar alguma roupa para me enfiar a força.

— Você tem certeza? — ela perguntou pela décima vez apertando os lábios ao encarar minha roupa — O shopping não está tão longe...

Nós duas não nos parecíamos em nada. Minha mãe tinha cachos com curvaturas menores e mais volume nos fios ébano, assim como sua pele que era dois tons acima do meu. Lembro-me bem das tentativas dela de amenizar as piadas em reuniões de família, eu era clara demais para uma filha de negros e bronzeada para uma família de coreanos.

Essa sou eu, Nicole Dias, nunca no tom certo e filha de pais divorciados.

— Você não precisa ir. — Ela tinha encostado o carro na área de embarque. Eu já tinha feito aquela viagem para Seul inúmeras vezes, poucas desacompanhadas, mas eu sabia muito bem como me virar. — Pode esperar até o natal, e ele virá como combinamos. — Acrescentou a última parte com algo que não reconheci.

A situação dos dois não era complicada, divórcio por conta da imersão excessiva do meu pai no trabalho, e a da minha mãe era passar o tempo com a família, dualidades que não souberam equilibrar. Mas o divórcio só aconteceu mesmo quando eu tinha 10 anos, desde então sempre ganho dois em tudo, o que nem sempre é ruim.

— Eu quero muito ir.

E era parcialmente verdade, mas minha mãe estava usando todas forças para me convencer do contrário durante a semana, já não sabia até que ponto era “querer” ou o que ela classificava como “fazer para irritar”.

Ela me abraçou tão apertado que tive que conter meus órgãos dentro do corpo que estavam a um salto de escaparem, os cabelos macios dela acariciaram meu rosto e o cheiro de colônia masculina amadeirada dela ficaria em mim, eu sabia. Toquei o topo de sua cabeça.

— Eu te amo tanto, meu bebê — ela disse sem cerimônias, como sempre fazia, acrescentando um “bebê” em todas nossas despedidas, não importando o fato de eu ter 19 anos.

— Também te amo, mãe. — Me desvencilhei de seu abraço apertado e estiquei o braço para pegar minha bagagem de mão, e uma blusa grossa, aqui o sol estava insuportável, mas duvidava que meu amigo infernal fosse me aquecer assim na Coreia.

— Vejo você daqui um mês para o aniversário da vovó Maria — ela disse enquanto eu checava se minha mochila roxa estava bem fechada e o passaporte fácil de ser alcançado, meneei a cabeça em concordância. Em um mês muita coisa poderia acontecer.

Olhei uma última vez para os olhos castanhos e doces da minha mãe, e saí apressada do carro no exato momento em que o táxi branco buzinou para que ela retirasse o carro da zona de desembarque rápido. Respirei fundo e me preparei para entrar naquele avião que me levaria até meu pai, e a um mar de oportunidades desconhecidas.

***

Quando meu avião pousou no aeroporto de Daegu, eu não sabia dizer ao certo se ainda era capaz de sentir minhas pernas, mas sabia que o pijama tinha sido a melhor decisão que eu havia tomado na minha vida inteira.

Acertei no clima, minha blusa seria eficiente para esconder a imagem da atriz Carrie Fisher e me aquecer, estava nublado, mas não fazia frio severo, sabia que quando eu estivesse prestes a voltar para o Brasil seria o início de jangma, a menos que estivesse errada, mas sem dúvida espero estar, a Coreia costuma me assustar com essas mudanças climáticas, e jangma significa muitos tufões ou pelo menos, ventos fortes o bastante para desestabilizar minhas estruturas.

O Brasil podia ser muitas coisas, mas tinha um clima parcialmente abençoado, e sem tufões. Um voo do Brasil para a Coreia do Sul levava em média 26h quando o sol nasce em um, se põe noutro, eu sempre perco e ganho tempo nessa linha de raciocínio, mas voar esse tempo todo estressaria qualquer pessoa normal, no entanto eu gostava de estar sobre as nuvens, o céu parecia um campo de algodão-doce.

Quando atravessei o mar de gente, e passei pelos tubarões da migração logo encontrei meu pai, no mesmo lugar onde ele sempre costumava ficar, tinha trocado novamente de carro. O que já era de se esperar, a cada ano ele sentia a necessidade de um automóvel novo, e bom, não nos víamos há três verões. Ele ergueu uma mão para mim, como se eu não tivesse o reconhecido.

Ele apertou minha mão quando saí aos tropeços para a rua, como se fossemos sócios de negócio. Pisquei um tanto surpresa, não era assim que esperava ser recebida pelo meu pai.

— Muito bom te ver, Nick — ele disse em português, arrastando as palavras. — Você cresceu bem. — Ele rapidamente pegou minha mochila e me guiou até o carro, como se eu estivesse perdida. — Como foi seu voo?

Até o final do dia, eu fecharia um negócio com meu pai nesse ritmo, pagaria quantos wons ele quisesse para me tratar como sua filha.

— Foi tranquilo, sem turbulências. — Eu o olhei tranquilamente quando fechou a porta do carro para mim, colocou minha mochila como se fosse algo precioso no banco de trás e ligou o carro — bom te ver também, papai.

Ele sorriu ao ouvir isso, e deu partida para seu apartamento no complexo de condomínios em Dokseodang-ro, Hannam The Hill. Era um lugar estimado na Coreia pois era o lar de alguns famosos, eu gostava por estar perto do Starbucks e da ponte Hannam.

Se bem que eu estava fugindo de café nas minhas férias, já que eu trabalhava diariamente com isso.

***

A maior parte das minhas roupas ficavam na casa do meu pai, e bom, eu torcia para que elas ainda me servissem como se três verões não tivessem passado. Meu guarda-roupa daqui era bem diferente do Brasil, aqui eu não precisava usar vários casacos no frio, um bastaria por ser mais pesado, e lá eu poderia usar camisetas com gola “v” sem me preocupar em atrair olhares negativos.

— Comprei roupas novas para você — ele anunciou, talvez sem perceber, mudando o tom da conversa para o coreano, o que pra mim era um enorme tanto faz, eu cresci imersa nos dois idiomas, eu só não sabia ler e escrever muito bem — fiquei com receio que aquelas não te servissem.

— Oh — exclamei entrelaçando meus dedos sob o colo, enquanto de fundo a mini tv do carro noticiava — obrigada, pai.

O silêncio recaiu, e quando ficou um pouco constrangedor, papai aumentou o volume do noticiário.

— Morreu aos 20 o cantor Jeong do grupo S.T.A.R. — disse a repórter que vestia um terno azul, e a imagem avançou para um grupo de jovens que colocava flores em frente a uma casa — encontrado hoje...

— Você gostava dele?

Eu nem sabia que ele existia.

— Eu não gosto muito de k-pop — digo, e papai me olhou de relance como se eu tivesse contando algo engraçado, mas ao ver que falava sério, ele contornou o assunto.

— E o que você ouve?

— Coisas que não me irritem — respondi automaticamente.

— K-pop te irrita? — pergunta, um pouco atordoado, sei que aqui alguns jovens são obcecados por isso, mas vivo bem sem.

— Não tanto quanto o presidente.

— Ah, isso é uma pena. — Observou, um pouco antes do silêncio recair novamente.

O nome do papai nunca era mencionado em casa, Do-yun, literalmente queria dizer “caminho”, gosto da etimologia dos nomes, ainda mais os coreanos. Mamãe disse que se dependesse do papai meu nome teria sido algo como “Bada”, não acho que eu gostaria de ser chamada assim.

A verdade é, acho que eu não gostaria de pensar em ter mais espaço na vida do papai, com o divórcio, aos poucos eles foram perdendo o contato um com outro, trocando apenas informações básicas sobre mim, e eu era a responsável pela minha comunicação com ele, usualmente fazíamos chamadas de vídeo pelo Line de dia pra mim, e de madrugada para ele, mas isso acontecia uma vez por mês.

Em resumo, não conversávamos muito.

— Eu tenho ingressos para um show, como sou o responsável pela produção do álbum é esperado que eu vá. — Ele me olhou de soslaio.

Ah. Por isso a roupa nova. Não que eu me importasse de andar por aí com pijamas, aliás, acho que mais pessoas deveriam fazer isso.

— E você quer que eu o acompanhe. — Presumi e puxei o cinto cinza do carro que estava na base do meu pescoço. — Okay — disse de modo hesitante.

Papai havia decidido arrumar um tempo pra mim, tentaria ser legal.

E além do mais, o quão ruim poderia ser?