— Definitivamente não — disse encarando três patetas diferentes, que provavelmente estavam pensando algo semelhante ao meu respeito.

— Taeyang, querido — disse minha assessora de imagem corpulenta, estava extremamente bem-vestida hoje com um terno social giz e o cabelo fortemente preso em um rabo, mas talvez ela estivesse assim todos os dias. Ela fazia um esforço absurdo em momentos como esse para manter a tonalidade na voz. — Esse tipo de coisa fará muito bem para sua imagem, uma entrevista com Riza sempre te coloca em destaque.

Eu revirei os olhos. Eles não entendiam que eu não ligava para isso.

— Um cantor não precisa de imagem — disse apertando a espuma da poltrona de couro na qual estava sentado — precisa de música, apenas.

— Você cuida da sua música. — Meu pai interveio, e pela primeira vez no dia, eu o olhei sem qualquer julgamento — E nós, da sua imagem, portanto, faça o que estamos mandando.

Foi um breve momento. Pateta.

Ele parecia comigo, mas tinha alguns fios grisalhos na cabeça, mas o rosto fino e o nariz levemente inclinado eram os mesmos. Perturbador. A mulher atual dele estava ao seu lado segurando seu braço, talvez ela achasse que eu o irritaria a ponto de fazê-lo perder a compostura na frente dos outros.

Ela me olhou com urgência, silenciosamente pedindo para que eu parasse. Talvez nós dois tivéssemos uns 8 anos de diferença. Os cabelos dela estavam presos em um coque alto, eram acobreados assim como seu vestido provocante. Assenti na sua direção. Afinal, em alguns momentos ela entendia o que era estar na minha pele.

— Então concorda? — minha assessora perguntou esperançosa.

— Se eu disser que sim, vocês vão sumir? — perguntei ainda mais esperançoso. Cruzei os braços, o ar-condicionado estava começando a me causar calafrios, e a esse ponto do dia, eu mataria por um café quente.

Meu pai me lançou um olhar cortante, o qual devolvi quando me levantei da poltrona em que estava esparramado. Via a raiva quase transpassando sua camada de fingimento. Eu subi meu capuz por cima do boné, peguei minhas chaves e um óculos escuro, o primeiro que encontrei na mesa de descanso arredondada perto da porta.

Olhei por cima dos ombros, os quatro me encaravam desacreditados.

— A reunião acabou — disse caminhando até a porta branca de aço escovado — se vocês não somem da minha casa, sumo eu.

Com isso fechei a porta estrondosamente atrás de mim. Uma das coisas boas de estar na minha pele é que eu sabia que nenhum deles viria atrás de mim a não ser que precisassem de algo. Me olhei no retrovisor enquanto o ajustava. Minha maquiagem nos olhos estava mal feita e agora estava quase sumindo junto com os raios de sol e as lentes de contato lilases combinavam com meu boné.

Coloquei o óculos sob o banco, provavelmente precisaria dele para comprar lattes e ir para o mesmo lugar de sempre, o Rio Han. Olhei mais uma vez transtornado no espelho e dei ré com um cantar de pneus.

Faria um debut idiota que eles queriam, mas não faria essa merda por mim. Depois de olhar as luzes refletidas na Ponte Banpo e ouvir o leve ruído das águas talvez toda essa ideia não me irritasse tanto assim. Ela é responsável por ligar os distritos Seocho e Yongsan. O Rio Han é o centro de Seul, de certo modo, seu coração e todas as 27 pontes funcionam como suas veias.

No caminho eu costurei entre os carros enquanto encarava o painel do meu carro para a ligação recebida, era o velho.

— Pronto — disse ao apertar o botão no volante para o viva-voz — Taeyang na linha.

— Escuta aqui seu moleque, — de perto eu ouvi a atual esposa sussurrar o nome dele em súplica, ela estava me defendendo seja lá do que — essa é sua chance de passar por cima de todo mal que fez para essa família, está me entendendo?

Me controlei para pisar no freio e não no acelerador quando as luzes do carro da frente se acenderam.

— A minha chance? — perguntei, ligeiramente curioso. A voz dele estava carregada de álcool, sabia de longe. Pelo menos agora não morávamos mais juntos eu não precisaria abrir tanta distância entre nós — A vida é minha e eu estou na reserva assistindo vocês jogarem.

— Você deve isso ao seu irmão, Taeyang — disse o velho, e em seguida escutei três bips, ele havia desligado.

Eu soquei o volante, e sem querer acabei buzinando.

No final daquele dia, eu estava com dois lattes com chocolate extra sentado na grama observando a água sussurrar algumas respostas para meus problemas. Olhei por cima do ombro enquanto algumas pessoas passavam e admiravam meu carro azul sem perceber que eu estava perto, sem luzes e cores eu não era um cantor famoso, afinal de contas.

Encarei a ponte, ela tinha muito mais brilho e ninguém além de mim parecia olhar para ela.

— Um brinde ao debut de merda — disse erguendo o meu latte, enquanto o outro permanecia intocado ao meu lado na grama fria.

Como permaneceria o resto da vida.

Notas finais
Latte - bebida de café expresso com uma quantidade generosa de espuma; Debut – a estreia de um grupo ou artista.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.