Uma Noite De Amor E Música
1 Pensamentos de Freddie Benson
Notas iniciais
O dia começa no meio da noite. Não presto atenção em nada, só no contrabaixo em minha mão, o barulho em meus ouvidos. Enquanto Zayn grita e Avan se contorcem desconsoladamente, eu sou o mecanismo do relógio. Sou eu que pego essa coisa chamada música e a alinho com a coisa chamada tempo. Eu sou a marcação, sou a pulsação, eu estou por trás de cada parte deste momento. Não temos baterista. Zayn tirou a camisa, Avan está exagerando no feedback, e eu estou por trás deles, eu sou o gerador. Estou ouvindo e não escuto porque o que toco não é algo sobre o qual eu raciocino, mas algo que me toma por inteiro. Todos os olhares estão em nós. Ou pelo menos é o que posso imaginar durante a minha cegueira no palco. O espaço é pequeno, fazemos um barulhão, e eu sou o baixista que enche a sala de murmúrios enquanto Zayn canta aos berros. Estou pontuando, eu perfuro e soco o ar com meu corpo enquanto meus dedos pressionam firmemente as cordas. Suor, rancor e desejo se derramam de mim. Isto é libertação, ou talvez seja apenas um pedido de libertação. Zayn agora geme, Avan está a toda e eu estou viajando legal, embora meus pés não se mexam. Olho a luz e vejo pessoas se sacudindo, pulando e assistindo ao Zayn levar o microfone à boca e continuar gritando a letra. Atiro as cordas para eles, eu os encharco de ondas sonoras, marco o tempo tão alto que eles têm de ouvir. Sou mais forte do que as palavras e sou maior do que a caixa em que me encontro, e então a vejo na multidão e me desintegro.
Merda, eu disse a ela para não vir. Enquanto ela estava ocupada me desfazendo em pedaços, esse era o único fragmento meu que implorei a ela que deixasse. Por favor, não vá aos shows. Não quero ver você lá. E ela disse sim, e na hora não foi mentira. Mas em algum momento passou a ser. E eu me vejo sem o menor controle emocional, tudo em minha volta vai do grito ao choro — tudo isso no tempo que levo para ver o formato de seus lábios. E depois eu vejo que ela não está sozinha, que está com um cara; embora ela vá dizer que veio me ver, não tenho dúvida nenhuma de que ela veio para que eu a visse. Acabou, disse ela, e isso não soou como a maior mentira do mundo? Estou cambaleando nas notas, Zayn chegou ao verso seguinte e Avan toca um pouco mais rápido do que deveria, então tenho que correr atrás do prejuízo enquanto ela se inclina para o cara e balança a cabeça como se eu estivesse fazendo esta música para ela, quando, na verdade, se eu pudesse, pararia com tudo e dedicaria a ela um silêncio equivalente à dor que ela me deu. Procuro acompanhar Zayn e Avan. Esta noite nos chamamos The Fuck Offs, mas é um nome novo e não deve durar nem três apresentações; afinal, até lá, Zayn pode inventar outro. Já fomos The Black Handkerchiefs, The VengefulHairdressers e None of Your Business. Não faço uso de meu voto, a não ser para vetar as ideias mais imbecis de Zayn ("Cara", tive de dizer a ele,"ninguém quer ver uma banda chamada Dickache"). Zayn quer drogar o drogado, tatuar o tatuado e tem um jeito todo especial com aqueles punks perturbados que vêm aos nossos shows sem imaginar que vão acabar querendo se atracar com o cara que desafia a plateia.
Zayn é de uma cidade em Jersey chamada Lodi, e isso faz todo sentido para mim, uma vez que ele não passa de um ídolo às avessas. Avan é de South Orange. Eu sou de Hoboken, o mais perto de Nova York que se pode chegar sem que você realmente esteja em Nova York. Em noites como esta, com a oportunidade de tocar diante de mais gente do que nossos amigos, eu atravessaria o Hudson a nado só para chegar a este clube, que mais parece uma caverna. Pelo menos até Madisen aparecer e eu perceber que estou sangrando no palco de maneira invisível.
Zayn está levando a música a um lugar que não fora antes: um intervalo de quarta. Agora fiz uma pausa, esperando pelo fecho. Avan parece estar à beira de um solo, que nunca é um lugar muito seguro para ele. Eu mexo os pés, desvio-me dela, procuro fingir que ela não está presente, o que é uma piada tão escrota que nunca me fez rir. Tento atrair a atenção tão periférica de Zayn, mas ele está ocupado demais enxugando o suor do peito para perceber. Por fim, porém, ele consegue uma explosão de energia com força suficiente para dar vazão àquilo tudo. Então ele estende os braços e uiva, e eu paro tudo com uma última guinada. A multidão nos dá uma explosão de seu próprio barulho. Procuro ouvir a voz dela, tento distinguir aquele tom único entre gritos e aplausos. Mas ela está tão distante quanto estava na noite em que chorei e ela nem se virou para ver se eu estava bem. Três semanas, dois dias e 23 horas atrás. E ela já está com outro. A banda seguinte está na lateral do palco. O dono do clube gesticula que nosso tempo acabou. Mas eu não estou tão na urgência de fugir daqui a ponto de não me sentir recompensado pelos pedidos de bis, por aqueles gritinhos de decepção quando as luzes se acendem e revelam à multidão o caminho do bar. Então, enquanto Zayn pula na multidão e encontra sua admiradora mais apaixonada, e Avan sai de fininho para encontrar sua amiga emo-sensível, eu tenho de imediatamente me recompor para poder guardar nosso equipamento. Vou dos acordes às cordas, da introspecção à ralação. Um dos caras da banda seguinte é gente boa e me ajuda a pegar as caixas que estão lá no fundo do palco. Mas eu sou o único que pode tocar nos instrumentos, colocá-los com cuidado para dormir à noite. Depois me ofereço para ajudar a nova banda a se preparar e fico feliz quando eles aceitam; assim eu posso conectá-los ao painel de som em vez de consumir toda minha energia resistindo a ela. Meus olhos ainda estão acostumados a procurar por ela numa multidão. Minha respiração ainda está acostumada a parar quando a luz está no ângulo certo e eu a vejo. Meu corpo ainda está acostumado ao dela se movendo ao lado do meu. Então, a distância — qualquer falta de contato – é uma rejeição constante. Ficamos juntos por seis meses, e em cada um desses meses meu desejo encontrou novas maneiras de ser incitado por ela.
Acabou, e isso não pode ser o fim. Todas as canções que compus em minha mente foram para ela e agora não consigo evitar que elas toquem. Essa trilha sonora de história nenhuma. — Estou cansada, ela disse, e eu disse a ela que estava cansado também, que queria tirar algum tempo para nós. E depois ela disse, — Não, estou cansada de você, e eu resvalei num universo paralelo, porém verdadeiro — uma dimensão onde o término chega antes do fim. Ela não estava mais em nenhum lugar que eu pudesse alcançar. Fico de costas para o público enquanto guardo o equipamento e os instrumentos em um lugar seguro. Logo chegou o momento em que não dava mais para ficar de costas, afinal, é bem limitado o tempo em que se pode ficar encarando uma parede sem se sentir um idiota. Então sou salvo pela banda seguinte, que coloca o volume ainda mais alto e logo instaura em todos nós um lindo caos. Eles se chamam Are You Gibby ? e o vocalista está realmente cantando, não aos berros bancando os Ramones. Atrevo-me a olhar a plateia e não a vejo mais. Não vejo muitas elas na verdade — é um mar de eles se espremendo e se esbarrando uns nos outros quando o vocalista lhes fala do estado das coisas, avaliando o público com músicas como I Want You to Want Me, Blue Moon e All Apologies enquanto faz sua própria dança dos sete véus. Acho que Madisen vai gostar dessa banda, e saber isso me apunhala de novo, porque agora tudo o que sei de que ela gosta é completamente inútil. Pergunto-me quem é o cara. Pergunto-me se eles se conheciam três semanas e três dias atrás. Fico feliz por não tê-lo visto direito, porque eu acabaria pensando nos dois juntos sem roupa. Agora penso só nela nua, e é uma lembrança tão nítida que meus dedos chegam a se mover para tocá-la. Viro a cabeça, como se realmente a estivesse vendo, e vejo Avan e a namorada Jade se agarrando ao som da música, daquele jeito que só se faz nos cantinhos. Zayn, imagino, ainda está no bar, ainda se exibindo. Somos menores de idade, mas isso não tem importância por aqui. A maior parte do público é mais velha do que nós — universitários ou com idade para estar na universidade — e tenho consciência de que realmente não me encaixo aqui. Alguns caras mais velhos da plateia me encaram, e até me cumprimentam com o olhar. Às vezes retribuo o gesto, quando acho que é um reconhecimento pela música, e não um convite. Mas sempre vou em frente, nunca paro. Encontro Zayn no bar, falando com uma menina da nossa idade que parece familiar àquele modo de ser e de vestir. Quando chego até eles, sou apresentado como "o deus do baixo, Freddie" e ela é apresentada como a "Carly do Parque". Zayn me agradece por mais uma vez ter desmontado todo o palco sozinho e, pelo modo como a conversa não continua a partir daí, entendo que estou interrompendo. Se fosse Avan, minha agitação provavelmente teria sido percebida. Mas Zayn precisa que a gente decifre as emoções para ele, e agora não estou com humor algum para isso. Então só digo onde deixei as coisas e finjo que vou procurar um lugar vago no bar de onde consiga chamar o barman. E uma vez que estou fingindo que a verdade é essa, imagino que poderia realmente ser verdade. Ainda não consegui ver Madisen, e há uma pequena parte de mim que se questiona se ela estava mesmo no meio da plateia. Talvez fosse uma garota parecida com a Madisen, o que explicaria o cara que não se parecia com ninguém. A Are you Gibby ? para de tocar seus instrumentos um por um, até que o vocalista solta uma última nota a capella. Para o bem deles, eu gostaria de poder dizer que o clube se comoveu com isso, mas, na verdade, o ambiente estava era cheio de conversas. Ainda assim, foi algo melhor do que a média, e a banda consegue uma rodada de aplausos e gritos. Eu também aplaudo e percebo que a garota do meu lado usa os dois dedos na boca para assoviar como antigamente. O som é claro e vivo, me faz pensar em quando eu jogava beisebol na Liga Infantil. A garota veste uma camisa de flanela, e não sei dizer se é porque ela quer resgatar o único estilo de roupa dos últimos cinquenta anos que não foi resgatado ou se é porque a camisa é tão confortável como parece. Ela tem a pele branca e o seu cabelo passa do ombro, embora tenha desgrenhado tudo para esconder isso. A banda seguinte abria o show do Le Tigre na última turnê, e eu imagino que essa garota esteja aqui por causa deles. Se eu fosse um cara diferente, podia tentar puxar uma conversa simpática, só para sermos, sei lá, amigos. Mas sinto que se eu falar com alguém agora, tudo o que vou conseguir fazer vai ser desabafar. Avan e Jade estariam prontos para ir se eu quisesse, mas tenho certeza de que Zayn ainda não sabe se vai voltar com a gente ou não, e eu seria um babaca de criar dificuldades pro cara perguntando isso. Então estou ferrado e sei disso, e é aí que olho à direita e vejo Madisen e o cara novo se aproximando do balcão cheio de cerveja derramada para pedir outra rodada do que eu não estou bebendo. Definitivamente é ela e, definitivamente, estou ferrado. Afinal, estamos no intervalo entre as bandas e tem muita gente me empurrando e, se eu tentar ir embora, vou ter que abrir caminho à força, e se eu tiver de abrir caminho à força, ela vai me ver tentando escapar e terá certeza de que eu não aguentei e, embora esta seja a verdade, não quero que ela tenha prova alguma disso. Ela está arrasando, eu me sinto arrasado, e o cara com quem ela está, segura seu braço de um jeito que um amigo gay jamais faria, nem pensar — e isso funciona como uma prova. Eu sou o modelo antigo e este é o modelo novo, e eu poderia ficar ali durante um ano caprichando no som do meu contrabaixo e nada, absolutamente nada, iria mudar. Ela me vê. Não consegue fingir surpresa ao me ver, porque é evidente que eu estaria aqui. Então ela abre um sorrisinho e cochicha alguma coisa para o modelo novo, e eu sei, pela expressão dela, que depois que pegarem as bebidas que agora são servidas, eles vão se aproximar e dizer “Oi”, talvez ”Bom show” e “Como você está ?” Eu não suporto essa ideia. Vejo que tudo está se desenrolando. Sei que preciso fazer alguma coisa — qualquer coisa — para impedir. Então eu, este baixista qualquer de uma banda, viro-me para a garota de blusa de flanela que nem conheço e digo:
— Sei que isso vai parecer meio estranho, mas poderia ser minha
namorada pelos próximos cinco minutos?
Notas finais
E a capa está passando pelo processo de criação da vadia da Ana Victória ;)
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