Uma Noite De Amor E Música
2 Pensamentos de Sam Puckett
Notas iniciais
Gibby, da Are You Gibby ?, insiste que o baixista da outra banda é homo, mas eu digo a ele "Não, o cara é hetero". Não faço ideia se ele é ou não responsável pelas letras de sua banda de merda. Mas ele não é homo. Pode acreditar. Há certas coisas que uma garota simplesmente sabe, por exemplo, que um intervalo de quarta numa música punk é uma péssima ideia, ou que de jeito nenhum um baixista de Nova Jersey com cabelo de Astor Place, vestido de calça preta toda rasgada e manchada de água sanitária, que usa uma camiseta preta desbotada, se pega com meninos; ele se esforça demais na pinta Johnny Cash, e ele é punk e irônico demais para ser homo. Talvez ele seja um emo, eu disse ao Gibby, mas só porque ele não parece uma relíquia do Whitesnake como todos da sua banda, não quer dizer automaticamente que ele seja gay. O fato incidental de ele ser hetero não quer dizer que eu queira ser a namorada de cinco minutos de um não-homo, como se eu fosse um lanche rápido na loja de conveniência, um serviço prestado à sua galinhagem. Só porque eu sou a única aqui que não perdeu os sentidos de tanta cerveja, drogas ou hormônios, eu tenho o senso de refrear meu instinto original — gritar para ele "NÃO !" em resposta à pergunta do Não-Homo. Tenho que pensar em Ariana. Eu sempre tenho que pensar em Ariana. Percebi que o Não-Homo estava guardando o equipamento da banda sozinho, enquanto os colegas o abandonaram para curtir a noite. Entendo essa cena. Aliás, me identifico com isso de arrumar a bagunça de todo mundo.
O Não-Homo se veste tão mal — ele tem de ser de Nova Jersey. E se o Cara de Jersey é o roadie da vez, ele tem um furgão. O furgão deve ser uma lata-velha com um carburador vazando e que ainda pode estourar um pneu ou ficar sem gasolina no meio do túnel Lincoln, mas é um risco que tenho de assumir. Alguém tem que levar Ariana em casa. Ela está bêbada demais para se arriscar a pegar o ônibus. Está tão bêbada que iria para casa de ônibus com Gibby, se eu não estivesse aqui para levá-la para minha casa, onde ela pode dormir tranquilamente. Se não a amasse tanto, eu a mataria. Ela tem sorte por meus pais gostarem dela tanto quanto eu; o pai e a madrasta dela estão passando o fim de semana fora, não dão a mínima para o que ela faz, desde que ela não engravide nem namore nenhum cara de uma família com renda inferior a seis dígitos. Babacas. Já meus pais adoram a Ariana, a linda Ariana e o seu cabelo ruivo comprido, e sua passagem pela prisão por delinquência juvenil. Eles não vão ligar se ela cambalear do meu quarto até a cozinha amanhã à tarde, toda desgrenhada e de ressaca. É ela, e não eu, que atende às expectativas deles sobre o que deve ser a filha do diretor de uma gravadora multinacional que mora em Englewood Cliffs: doida. (Ariana não é uma Grande Decepção como a filha sem-graça, que usa camisa de flanela). Eu sou careta, responsável e também a melhor aluna da turma. Decidi passar um ano num kibutz na África do Sul em vez de entrar para a Brown.
“POR QUE, SAM, POR QUÊ?”
Meu ensaio para a admissão à Brown era todo sobre a forma como meu pai se apropriou de uma música do The Street e depois a arruinou para lucrar com The Man. Eu não sou mesmo um hippie corporativo de merda, disse papai, rindo, depois de ler meu texto. Meu pai não nega que é responsável por emplacar nas mais pedidas do rádio uma porcentagem absurda de seus hits insuportáveis, mas ele tem orgulho de ter me doutrinado em todo tipo de música desde a infância e assim, agora, aos 18 anos de idade, eu posso arrasar como DJ quando quero, mas também assumo que sou uma esnobe insuportável quando o assunto é música. Meus pais também me fizeram a desgraça de serem felizes no casamento por um quarto de século, o que sem dúvida condena minhas perspectivas de chegar a viver o amor verdadeiro. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Meus pais me deserdariam se soubessem que eu estava neste clube hoje à noite. É patético, mas, eu poderia estar comprando uma erva agora mesmo, a caminho de um bar, e meus pais simplesmente aplaudiriam. Mas, aqui, neste clube, este é o único lugar em toda Manhattan a que eu supostamente seria proibida de ir, devido a uma antiga confusão envolvendo um contrato ruim que meu pai fechou com Crazy Lou, o dono deste clube (que antigamente era meu padrinho, o tio Lou, até que toda a situação levou Lou a ser rebatizado de Crazy). Mas minha mãe e meu pai me deserdariam mais rápido ainda, e até me matariam, se pensassem que eu não estava cuidando de sua amada Ariana. Ela inspira esse tipo de devoção nas pessoas. É um nojo, só que eu também caio totalmente no feitiço de Ariana, sou sua babá desde o maternal. Dou uma olhada no clube enquanto aquela massa de gente que circula no intervalo dos shows passa como um enxame através de mim como se eu fosse um fantasma, com a inconveniência de um corpo maleável atrapalhando o caminho até a cerveja. Que droga, perdi Ariana de novo. Ela está a fim de ficar com o Gibby esta noite, o que é legal — a Are You Gibby ? não é uma merda completa —, mas o próprio Gibby está alucinado de ecstasy; eu preciso ter certeza de que ele não vai ficar sozinho com ela num canto. Mas eu só tenho 1,60m na ponta dos pés, e o Não-Homo de l,80m está parado na minha frente, bloqueando minha visão, esperando para saber se eu quero ser sua namorada por cinco minutos e parecendo aquele bicho perdido dos livros infantis que fica perguntando, "Você é minha mãe?" Olho por trás dele e não vejo Ariana, mas vejo aquela piranha idiota, a Madisen, afinal é exatamente como uma profissional que ela age com os homens, ela os devora por dentro. Ela está fazendo seu andar de Madisen, com os pequenos peitos empinados, rebolando a bunda de um jeito que chama a atenção de todo homem idiota que passa por ela, até os gays, que parecem estar bem representados aqui hoje, apesar do Não-Homo. Ela está vindo na minha direção. Não, não NAAÃÃAAOOOO. Como foi que ela descobriu Ariana e eu aqui? Ela tem olheiros com GPS em cada canto aonde Ariana e eu vamos numa noite de sábado, ou o quê? Namorado, aqui vou eu! Respondo à pergunta do Não-Homo colocando a mão em seu pescoço e puxando sua cara para a minha. Meu Deus, eu faria qualquer coisa para evitar que Madisen me reconhecesse e tentasse falar comigo. Eu não esperava que o Não-Homo beijasse tão bem. Babaca. Está vendo isso, Gibby ? — Ele não é HOMO. Confirmado. Mas não estou procurando química nenhuma, só uma carona pra casa para minha amiga. Também não estou procurando língua nenhuma, mas o Não-Homo não perde tempo e logo desliza a dele na minha. Minha boca se revolta contra minha vontade, Humum, está bom isso aqui, né ?, agora aguenta, garota, agueeeenta! Por melhor que seja o gosto dele, esta namorada de cinco minutos ainda precisa de alguns segundos para tomar ar. Separo minha boca da dele, na esperança de recuperar o fôlego e pegar Madisen se afastando de nós sem ter notado a minha presença. Uau. Apesar de toda a confusão, sinto um frio na barriga. Vamos esquecer minha necessidade de oxigênio. Minha boca quer voltar para o lugar de onde veio. Infelizmente, Madisen está parada diante de nós, pendurada em sua última vítima babona, que agora está perto o bastante para eu conseguir identificá-lo como um dos recentes rejeitados de Ariana; ele é amigo do Spencer, cuja banda, a Spencer Does Spencer, vai tocar daqui a pouco (de nada, Spencer, por apresentá-lo ao Lou). Madisen passa o braço firmemente na cintura do cara, talvez espremendo o que resta da vida que essa maldita sugadora de almas ainda não tirou dele nas três semanas desde que Ariana lhe deu um chute na bunda.
Madisen diz: — Freddie ? Sam ? Como assim? De onde vocês se conhecem?
Essa piranha não devia estar num lugar como este. Como se o seu jeito de falar já não fosse o suficiente, também tem a questão de sua roupa de loja vagabunda: saia de couro preta e curta com fivelas na lateral, camiseta "vintage" dos Ramones, daquelas produzidas em massa, e legging amarelo-mijo com um par horrível de sapatos de couro rosa. Ela parece uma abelha de néon numa fraude de Debbie Harry. Vou precisar ter outra conversa com o tio Lou sobre os padrões de possuir e administrar um clube. O cara pode até saber desencavar muito talento novo — do tipo cru ou faminto que está pronto para sangrar as tripas ou outras partes do corpo no palco do Crazy Lou em troca da oportunidade de se apresentar ali -, mas não sabe merda nenhuma de como administrar o negócio. Olha só a ralé menor de idade de Jersey que deixam entrar aqui ! Ele provavelmente até dá cervejas para os integrantes da banda! LOU! Por que acha que tantos desses babacas são alcoólatras e junkies ? Eles conseguiram a música certa. Podem tocar música punk com convicção— dura, rápida, irada — mas ainda não se tocaram de que agora o verdadeiro punk acredita na caretice: nada de álcool, nem drogas, nem cigarros, nada de roubos. Agora o verdadeiro punk é só o punk que restou de toda a loucura: a música, a mensagem. Bom, minha gente, continuem brindando a isso, porque quando eu voltar da África do Sul no ano que vem e assumir a gerencia desse clube como o tio Lou me prometeu, em vez de me candidatar novamente à Brown, como eu combinei com meus pais, vai ter um novo xerife aqui no Lower East Side, meus amigos. Aproveitem sua diversão devassa e suja agora, porque o tempo está se esgotando para vocês. Mas a futura proibição das ficadas eu posso reconsiderar. Afinal, a parte da pegação é legal, tem possibilidades, com o par certo de lábios. Não sei por quê, mas eu faço esse negócio que Ariana faz com suas vítimas masculinas: em vez de pegar a mão do Não-Homo, eu coloco minha mão em seu pescoço e arranho sua nuca suavemente, possessiva, enquanto Madisen fica olhando. Com os meus dedos, posso varrer seu corte de cabelo picotado bem na parte de trás e sentir os arrepios que sobem pela sua nuca. Gosto disso. Sinto uma satisfação em ver o lábio inferior de Madisen quase despencar do queixo, tamanho o choque. Essa é a Madisen nunca é discreta. O que quer que eu esteja fazendo, funciona. Ela de repente se afasta, sem falar nada. Ufa. Essa foi mais fácil do que eu esperava. Olho o relógio. Acredito que meu novo namorado e eu ficamos 2 minutos e 45 segundos sem nos separarmos. Fecho os olhos e viro de leve a cabeça, preparando-me para outra visita dos lábios dele. Ariana diz que eu sou frígida. As vezes acho que ela está me sacaneando, repetindo a fala preferida de meu Ex do Mal, então eu esclareço: — Você quer dizer que eu não sou fácil? — Ela esclarece: — Não, sua cretina, quero dizer que você intimida os caras com um olhar ou um comentário antes que eles possam decidir se querem ter uma chance com você. Além de ser frígida, você é muito crítica. O Não-Homo deve achar o mesmo de mim, porque não volta para outro contato boca-a-boca. Ele diz:
— Como assim, você conhece a Madisen ?
E então eu me lembro. A Madisen o chamava de Freddie. Nãããããão. É ele ! Freddie ! O cara de Hoboken! O cara que compôs todas as músicas e poemas sobre ela, o melhor namorado que nós, as outras meninas do Sagrado Coração, nunca tivemos, o carinha da banda que Madisen namorou depois de conhecê-lo no Trem no início do ano letivo, e desde então vem mentindo para ele e o traindo. Será que Freddie não acha estranho que ele a tenha namorado por tanto tempo e nunca tenha conhecido nenhuma das meninas da escola dela ? IDIOTA! Mas é claro que Madisen não o apresentaria a nós. Sua preocupação era que agente deixasse escapar suas perversões para Madisen, ela tinha medo era deque ele se apaixonasse por Ariana. Madisen pode ficar com os rejeitados de Ariana mas jamais ofereceu um dos dela. Madisen é tão Mulher Solteira Procura que costumamos brincar que Ariana devia conseguir um mandado de restrição contra ela, só que Madisen nos diverte tanto que não é possível deixá-la completamente excluída. É uma história de amor e ódio que temos com ela. Não nos sentimos culpadas, ainda temos um mês de aulas e nem imagino se a veremos novamente depois de nossas dedicatórias sentimentalóides de último dia de aula na escola, "Tenha um ótimo verão, boa sorte na faculdade". E, do ponto- de- vista do carma, eu já paguei minha dívida de menina má com a Madisen muitas vezes. Se ela passar em química e matemática este ano, será graças a mim. Que merda, se ela se formar, será graças a mim. Não me dou ao trabalho de responder à pergunta de Freddie sobre como eu conheço Madisen. Preciso encontrar Ariana. Fico de pé na bancada do bar. É a única maneira de localizá-la no meio de toda essa gente, essa música alta, esse fedor de suor, essa energia incitada pela cerveja neste dia interminável que parece que está apenas começando no meio da noite. Apoio a mão na cabeça de Freddie para me equilibrar enquanto passo os olhos pela multidão e minha mão não consegue deixar de revirar o cabelo zoneado dele, só um pouquinho. Lá está ela! Vejo Ariana sendo esmagada por Gibby na mesa do canto, perto da parede de tijolinhos, ao lado do palco, à direita de onde está Spencer do Spencer Does Spencer, que agora está pegando o microfone. Não sei que música a banda dele preparou, mas a letra das músicas de Spencer são claramente compostas na hora e não têm nada a ver com os acordes furiosos e acelerados da guitarra. Eu pulo do alto da bancada e disparo até Ariana, mas a mão de Freddie agarra meu pulso por trás, puxando-me de volta para ele. — É sério — diz Freddie —, como é que você conhece a Madisen ? Seus dedos beliscam o relógio no meu pulso e o ai que dei em resposta ao beliscão desvia meus olhos de Ariana e me fazem encará-lo. Percebo que Freddie parece perdido, ansioso para que eu fique com ele, seus olhos gentis e coléricos ao mesmo tempo, e isso me faz lembrar a letra de uma música que ele compôs para Madisen e ela mostrou para a turma na aula de latim porque achou que era idiota demais.
“Seu jeito de cantar na hora de dormir Seu olhar antes de pular As estranhas ilusões que você teima em guardar Você não sabe Mas eu percebo.”
A Madisen que se dane. Eu daria partes do meu corpo para ter um cara escrevendo algo assim para mim. Quer meu rim? Ah, quer os dois? Toma aqui, Freddie, é tudo seu — só componha músicas para mim.- Vou te dar um enredo: em um clube um cara pede a uma menina estranha para ser namorada dele por cinco minutos, a menina o beija, ele retribui, o cara depois encontra a garota — o que foi que você viu
Nessa garota ? Freddie, me deixa apresentar algumas letras para você. Por favor? Preparar. Apontar. Fogo. Quero pular de frustração — por ele e por mim. Porque eu sei que o que quer que Madisen tenha feito ou dito a Freddie, foi o que deu a ele esse olhar de desespero patético de cachorrinho abandonado. Ela é o motivo de ele provavelmente vir a se tomar um velho amargurado antes de ter idade para beber, sem confiar nas mulheres e compondo músicas rudes sobre elas, e basicamente pensando até a eternidade que todas as mulheres são vadias, mentirosas e traidoras, porque uma delas dilacerou seu coração. Ele é o tipo de cara que faz com que meninas como eu se tornem frígidas. Sou a garota que sabe que ele tem poesia, porque, como eu já disse, há coisas que eu simplesmente sei. Sou eu que posso inspirá-lo a escrever músicas com títulos antiquados como "Devoção" ou "Amor de Verdade (Mas Complicado)", se ele olhar duas vezes para uma garota como eu. Eu sou a namorada de menos-de-cinco-minutos que por um beijo breve demais fantasiou em dar o fora desse lugar com ele, sair dessa história de punk com ele e ir para um club de jazz de merda no Village ou coisa assim. Talvez eu andasse com ele pelo Battery Park ao nascer do sol, segurando sua mão, sabendo que eu me tornaria aquela que acreditaria nele. Eu falaria com ele que ouvi sua música, li sua poesia, não aquela porcaria que sua banda acaba de apresentar, mas aquelas letras de amor e as musicas que você compôs para Madisen. Eu sei do que você é capaz, e certamente é mais do que ser baixista de uma banda gay mediana — você é melhor do que isso; e, cara, arrume um baterista, é fundamental, vocês precisam de um. . Eu seria a roadie deles toda noite, sem reclamar. Mas não, ele é do tipo com um complexo pelo tipo da Madisen: risada idiota, a festeira. Literalmente. Você queria que fosse algo fácil — bom, você conseguiu, meu camaradinha. Arranco o pulso da mão dele. Mas, por algum motivo, em vez de me afastar, eu paro por um momento e coloco a mão novamente em seu rosto, acariciando sua bochecha, traçando círculos leves em seu queixo com o indicador. E digo a ele: — Pobre coitado
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