Era manhã. O sol iluminava o imenso quarto, coberto de adornos dourados. Vivia Ciel na luxúria; mas obviamente, com o cuidado de não enodoar a alma, o demônio estava sempre atento aos pecados que ele cometia.

E vem a rotina. Compromissos, reuniões, estresse. Por quê não uma pausa? "Não, eu tenho um objetivo a cumprir. É por isso que ainda estou aqui, neste mundo." Via-se que o demônio divertia-se com a precipitação do pequeno; pudera, tão inocente! Sabia lidar com o mundo sujo, mas caminhava ao inferno... Rapidamente, perdidamente.

Ah, finalmente escurecia. A refração da luz do crepúsculo transformava o quarto em uma previsão do universo em que Ciel mergulhava, cada vez mais profundo: as paredes ficavam com um rubro cor de sangue; e tudo isso abalava seu coração, trazendo lembranças que o tornaram aquilo que era hoje. E sabia; sabia que com o pôr-do-sol a escuridão viria, e esse era seu destino.

Conturbado com o pensamento que tivera, algumas escassas lágrimas surgiram. O demônio sente um aroma agradável... O aroma do desespero. Assim, logo o encontra, aturdido e isolado no quarto. Com um gesto, quase que um abraço, ele desperta-o das lembranças.

– É hora de dormir, bocchan.


***


Ternura. Uma ternura inimaginável o demônio apresentava diante do pequeno ser. Tão frágil, aquela alma! Como é possível suportar tanta dor, tanta desilusão? E o pequeno estava adormecido, ao passo que o monstro sorria, e vagarosamente se aproximava.

Um fogo brando aquecia o pequeno Ciel.

Uma pele suave, um corpo frágil e olhos penetrantes, da cor do mar, que conforme a profundidade enegrece. Uma personalidade terrível, mas fascinante: era sádico e amoroso, ao mesmo tempo. Essa era a alma que o demônio cuidava e nutria.

O pequeno Ciel dormia e se contraía, talvez estivesse tendo algum sonho. Mas isso mais parecia ser uma provocação para o demônio. Pernas expostas e braços agarrados firmemente ao cobertor, no qual Sebastian, sem querer, imaginou-se no lugar.

O demônio estava faminto. Sua pupila estava contraída e seus dentes pontiagudos expostos, e quase rosnava. Mas nada perceptível a humanos. Suas mãos tremiam um pouco, na tentativa de conter o desejo daquela alma. Devorava-o com os olhos. “Será uma boa refeição. A melhor de todas."


***


Ciel acordou pela manhã, com os raios de sol iluminando seu rosto.

Ao contrário da maioria dos dias, estava com boa disposição. Era como se seu corpo tivesse descansado por dias. Apesar de alguns músculos estarem um pouco rígidos.

Ao sentar-se na cama para trocar de roupa, Ciel percebeu que seus lábios estavam um pouco molhados.

– Sebastian... Você me serviu algo ontem, antes de dormir? Não me lembro.

– Não, por quê a pergunta?

– Nada, eu apenas sinto um gosto adocicado na boca...

– E esse gosto é bom?

– Não sei... Provavelmente sim.

E o mordomo sorriu, com um ar de satisfação. O pequeno garoto não entendeu. Por um longo tempo, fez suposições. Até que levantou a cabeça de modo a fitar Sebastian, com olhos assustados.

– Sebastian, poderia ser...?

– O que, bocchan? — indagou o mordomo, ainda sorrindo.

– Não, nada. — respondeu Ciel, desistindo da ideia por achá-la absurda. Afinal, Sebastian nunca faria algo com ele sem sua permissão.

O mordomo ainda sorria, com um olhar malicioso.

– Sebastian, dê-me o jornal. Disse Ciel por fim, após um longo suspiro.

Isso mesmo. Sebastian nunca faria algo com ele sem sua permissão, ainda mais aquilo...

No entanto, desejava que o mordomo tivesse desrespeitado as regras pelo menos daquela vez.