Uma Noite

2 Não é um sonho


Ao acordar, sempre aquele cheiro. Um sussurro que lhe fazia cócegas. Às vezes, um toque com os lábios à sua orelha, que o despertava completamente, tamanho era o constrangimento. Mas aquele dia foi diferente.

Os lábios de Ciel estavam sendo pressionados, e o pequeno sentia em sua boca um hálito provocante, delicioso. Ao não sentir mais aquela leve pressão, ainda de olhos cerrados levantou parte do corpo em busca daquele sabor viciante. Ouve-se um riso.

– Abra os olhos, bocchan. — diz Sebastian, com o rosto muito próximo do garoto.

Ao perceber o que se passara, Ciel, com o rosto avermelhado, mergulhou para debaixo dos lençóis. E mais risos vindos do mordomo. Irritado, Ciel pergunta, ainda escondido para não mostrar a face:

– Desde quando você faz isso?! E por quê?!

– Perdão, mas suponho que essas coisas lhe agradem.

– O que o leva a tirar semelhante conclusão?!

– Isso também tem um gosto bom? — indagou, ignorando completamente a pergunta feita pelo seu mestre.

Ciel não queria mais vê-lo, pois sempre que o fizesse, lembraria não só daquilo como de outras memórias que transitavam entre a realidade e o sonho. Não sabia, portanto, se já fizera 'coisas' com o mordomo ou eram apenas delírios de uma mente confusa.

Sebastian buscou-o por debaixo dos lençóis, assustando-o. Estava com um pouco de medo e com muita vergonha. Fechou os olhos, na inútil tentativa de desviar-se do perigo.

– Bocchan, não é um sonho.

Não é um sonho.

– E você não me deseja? Meu perfume, meu corpo? — e Sebastian continuou, tocando com as duas mãos o rosto quente do garoto, a fim de evitar que a expressão que ele fazia lhe fugisse da visão. — Tudo isso já lhe pertence.

– Sebastian... Por quê me seduz? — perguntou, enquanto tentava se proteger dos braços do mordomo, que se entrelaçavam em seu corpo.

– Todos precisam de uma pausa para diversão.

E seus rostos aproximaram-se um do outro. Ciel, um pouco hesitante, deliciava-se de todo o prazer que os sentidos lhe proporcionavam. Audição, visão, paladar, olfato e tato, principalmente; misturados, todos ao mesmo tempo numa sinestesia.

Ao acordar, como sempre, já não sabia se aquilo realmente acontecera ou se fora mais um de seus sonhos estranhos.

Sebastian abriu as cortinas e agiu como se nada tivesse acontecido. Ciel ficou um pouco frustrado.

Provavelmente era um sonho.