Uma História com neve, fogo e muita briga
2 Uma Garota de Olhos Amarelos
Enquanto se dirigia para o castelo, a ansiosa multidão de convidados tagarelava as mais mirabolantes teorias sobre como seria a tal Rainha de Lastero. E eles estavam tão ocupados competindo para ver quem inventava a história mais ridícula que nem se deram conta de que a dita cuja estava o tempo todo bem na frente deles. Mas eles não estavam vendo a Rainha de Lastero mas sim uma garota, tão normal quanto qualquer menina de 15 anos. E ela caminhava despreocupada e orgulhosa repetindo para si própria que não havia ninguém mais normal e imperceptível do que ela.
Já estavam entrando no jardim faltando poucos passos para chegar na segurança do castelo quando ouviram um estrondo que faltou rachar o chão.
—Terremoto?
Indagaram-se todos, mas antes fosse pois esse bagulho veio direto das malas da moça. As bagagens eram tão grandes e pesadas que uma dupla de robustos empregados penava para carregar aquilo. Nelliel nem lembrava de ter trazido malas ainda mais aqueles dois caixotes. Mas aquelas coisas estavam com o seu brasão e prometiam ameaçar sua impecável discrição. Foi até os dois homens com toda a calma e elegância de quem disfarça uma preocupação, agradeceu os serviços e disse que ela mesma cuidaria daquilo.
Ela nem teve que esperar o pessoal ir embora, todo mundo já havia se socado no castelo louco para ver se a tão aguardada Rainha já tinha chegado. A garota olhou para um lado olhou para o outro e só depois de ter total certeza de que não havia uma única alma viva (ou morta) por lá tirou seus numerosos anéis dos dedos e em um segundo criou um matagal escondendo ela e as malas. E assim que ela foi tocar em uma delas uma mão atravessou o caixote (literalmente!) e agarrou a mão dela. Depois o outro caixote se incendiou sozinho. As duas entidades do caixote gritaram em uníssono:
—Surpresa!!!
—Calem a boca!—Ela berrou depois se arrependeu e disse bem baixinho.—Calem a boca!
Mas não calaram e enquanto tagarelavam a trabalheira que foi essa viagem clandestina, Nelliel estava prestes a arrancar os cabelos. Para o seu total e mais profundo desespero aquelas coisas não eram entidades, e pela cara da jovem devia se tratar de algo muitíssimo pior. Os seres diante dela eram as duas piores pestes de seu reino, a dupla da destruição, os emissários do caos, o flagelo da sua vida e simplesmente o par da pior coisa que podia acontecer nessa vigem. Eles eram Lourenzo e Lourena Bratizzi, seus terríveis irmãos caçulas. E a jovem Rainha estava tão distraída imaginando todos os estragos que eles iam fazer que nem notou os preparativos para a escapada . E eles já estavam indo consumar as tais previsões quando gigantescas raízes os prenderam no chão.
—Para onde vocês pensam que vão?- Ela vociferou sussurrando, ainda fervilhando de raiva.
—Para a cozinha.—Disse Enzo.
— Para a festa.—Respondeu Lore.
—É! Foi o que eu disse.—Confirmou Enzo.
—Não é festa de criança! —Sussurrou Nell furiosa.
—E por que aqui está cheio de crianças?—Desafiou Lore.—Mesmo nessa caixa dava para ouvir de longe o barulho da molecada.
—É! E você nem para nos chamar.—Protestou Enzo.— Foi embora no meio da noite só para gente não te seguir.
—Mas fomos mais espertos! —Disse Lore triunfante.
—Muito mais espertos!— Frisou Enzo.
—E agora estamos aqui.—Disse a garota satisfeita e agora ela e seu irmão faziam uma cara como quem diz “Lide com isso!”.
—Ótimo.—Disse Nell com deboche.
—Ótimo. —Os gêmeos repetiram imitando a voz dela.
—Agora vocês ficam aqui.—Disse Nell sorrindo.
—Agora vocês... O que?!—Eles indagaram.
Nelliel apertou ainda mais as raízes e se levantou.
—Estão de castigo e vão ficar aí plantados até eu voltar.—Disse a rainha fazendo menção de sair.—Adeus, espertões.
—Não! Espera!— Disse Lore.
Nelliel esperou mas nenhum dos dois conseguiu pensar em algo para convence-la.
—Nós vamos...—Enzo torrava os miolos por uma ideia.— Nos comportar!
—É mesmo?—Rebateu Nell fingindo surpresa.— E como? Será que vocês sequer sabem o que significa se comportar?
Eles não sabiam nem o que era “sequer” e se entreolharam como se estivessem diante de um complicadíssimo enigma.
—Lore, fala para ela o que é.—Disse Enzo.
—Eu não. Foi você quem falou.—Disse Lore.
—Se acertarem ficam livres.—Declarou a soberana e seguida sorriu maliciosamente.—E se errarem continuam aqui e ainda encho de folhas as bocas de vocês.
—Sua sádica!–Reclamou Enzo.
—E só o Lourezo responde agora!—Exigiu Nell.—Vamos! O tempo tá passando!
—Er...Comportar é...É...Quei...
Mas antes dele terminar, Lore tentou balançar a cabeça intensamente para ele não dizer aquilo.
—O que?—Enzo não entendeu esse contorcionismo.—Isso é um sim? Um não?
—Não olhe para ela.— Disse Nell segurando a cabeça dele.—Diga.
—Brincar?—Ele chutou.
—Como?—Ela perguntou.
—Se comportar é brincar.—Ele declarou com pouca convicção.
—Como?—Ela repetiu.
—Brincar!—Interveio Lore impaciente.—Ele disse brincar, não está ouvindo Nell?!
—Brincar como, suas antas?!—Gritou Nell mas foi interrompida pelo som das trombetas, o Rei e Rainha estavam chegando.—Temos que ir.
Ela acabou soltando eles pois obviamente nunca foi sua intenção adubar esses moleques no jardim dos outros (ela não era má desse tanto), se fosse em Lastero até ia mas não aqui onde podiam fazer um escândalo.
—Vocês podem brincar.—Disse ela.
Os dois comemoram com um toque de mão. Enzo estava esquentando suas mãos e Lore já estava com a máscara de caveira na cabeça, mas logo a irmã deles pegou a máscara e enterrou nas profundezas do solo e ainda enfiou os anéis bem apertado no dedo de cada um.
—Mas como crianças normais.
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