Elsa não sabia o que fazer. Por enquanto estava só observando como toda aquela garotada tinha transformado um lugar que lhe era tão familiar em um ambiente completamente estranho. Diante disso, ela foi logo recorrer a única coisa que ela ainda conhecia: Anna. Porém, a menina já estava se divertindo tanto atormentando a pobre babá com suas estripulias que Elsa não achou justo atrapalhar, por mais dó que tivesse da azarada mulher. Mas agora não tinha outro jeito, era obrigada a se enturmar. Então começou a procurar pelos cantos da sala por alguém que ainda não tivesse se socializado. Nesse interim ela achou um garoto rechonchudo com exóticos olhos dourados encostado na parede mordendo ferozmente... O próprio dedo.

Enzo tentou de todos os jeitos tirar o anel-selo, essas coisas não chegavam a parar os poderes de quem o usava mas os diminuía bastante, por isso era usado para controlar as crianças pequenas. E por mais que não admitisse, ele ainda estava nessa classe.

—Mas que droga!—Ele esbravejou depois de mais uma frustrada tentativa de tirar o minúsculo anel de seu roliço dedo. — Você conseguiu?

Enzo olhou para o lado para ver se sua irmã tinha feito algum progresso. E como fez. A menina nem estava mais ali e só tinha sobrado o anel dela jogado no chão. Enzo não pode acreditar, ela foi embora sem ele. Assim que pensou isso o menino sentiu uma mão puxar seu cabelo fazer a cabeça dele bater na parede.

—Ai!—Ele resmungou.

—Ainda está aí?—Disse a voz de Lore.

—Estou.— Ele disse colando a testa na parede para ela o ouvir melhor.

—Então tá. Tchau!—Ela disse indo embora.

—Não!—Protestou Enzo—Me espera. Lore. Lore!–Ele encostou os ouvidos na parede para ver se escutava os passos dela.

Mas o que ouviu foi uma cabeçada bem no seu rosto seguida de uma familiar gargalhada.

—Só vou pegar minha máscara e aí depois eu trago muito chocolate para gente.—Disse Lore e depois deu outra cabeçada no seu irmão.

—Ah é?—Disse ele em tom desafiador, e não é que ao invés de esperar a cabeça dela atravessar a parede, o menino ficou metendo a própria cabeça na parede para ver se acertava a irmã quando ela aparecesse.

Enquanto isso, tudo que Elsa viu foi um menino falando sozinho, rindo e agora batendo a cabeça na parede. A garota fez uma cara de “desisto!” e deu meia volta. E agora, de volta a estaca zero. Resignada com seu fracasso social ela vai brincar com os bloquinhos de madeira esquecidos no centro da sala, e começa a construir um castelo para ela se esconder até aquela terrível festa acabar. Mas essa tarefa de construir era algo tão terapêutico para ela que fez com que ela se esquecesse de tudo, até de onde estava e o que estava acontecendo. E quando bem viu ela tinha feito um trabalho tão colossal e caprichado que todas as outras crianças pararam para assistir aquela obra de arte. Elsa apareceu no alto de sua criação e se espantou com toda a atenção que estava ganhando. As crianças estavam boquiabertas e a pobre menina não sabia se isso era bom ou mau.

—Nossa!—Eles disseram admirados.

—Posso brincar com você?—Pediu uma menina.

—Eu também!

E logo tudo mundo começou a se juntar para criar um reino em miniatura.

—Eu vou construir as muralhas!—Disse um menino e em seguida se curvando—Majestade.

—E eu vou ser o seu guarda!—Disse outro também fazendo reverência.—Majestade.

—E vou ser sua mensageira.—Disse uma menina entregando o telefone de lata para Elsa.—Está me ouvindo Majestade?—Ela disse pelo telefone.

—Er...—Elsa demorou um pouco para se tocar que ela era Majestade. —Sim.

E é realmente parecia que as coisas iam incrivelmente bem e a jovem princesa venceu a timidez inicial para se envolver com seus colegas. O reino parecia pronto, mas Elsa sentiu que faltava algo, e assim que fez essa observação metade do seu castelo foi abaixo. O autor do crime estava de costas e estava tão ocupado puxando alguma coisa do braço que nem notou o que fez. Mas quando se deu conta dos olhares perplexos apontados para ele, o garoto não se desculpou nem ficou desnorteado, ele apenas sorriu.

—E eu ...—Disse o menino de olhos amarelos com um sorriso maquiavélico.— Sou o Dragão Maldito!—Ele exibiu seu braço envolto em uma caixa de madeira esculpida no formato de um dragão.—E vou destruir vocês!!!

Então ele começou a derrubar e bagunçar com seu braço fantasiado. Então isso que faltava no reino, o problema. As outras crianças foram na onda e começaram a fugir do monstro. Só Elsa que continuou estática sem fazer a mínima ideia do que fazer com essa loucura. Até que o menino que era para ser seu guarda declarou:

—Vamos matar o dragão!—Ele ergueu a espada de madeira.

Agora ninguém mais tinha medo de Enzo e cada um pegou alguma coisa para ir matar o dragão na base da porrada. E essa correria deu uma zona tão generalizada que até Anna quis entrar na brincadeira, mas a babá logo a tirou da massa de selvagens:

—Te peguei!—Disse a babá pegando um moleque que não era Anna.—Ai meu Deus!

***

Enquanto isso, em algum lugar do castelo...

Lore já tinha voltado do jardim com sua temível máscara toda suja de terra, o que não incomodou pois isso parecia dar um toque muito mais medonho a ela. Estava flutuando discretamente pelas dependências do castelo quando a caminho da sala de brincadeiras algo lhe prende a atenção. Era um bebê, o bebê mais fofo e rosinha que ela já tinha visto na face da Terra. Admirada por essa gracinha Lore baixou seu voo para observar ela brincar. Mas não era uma brincadeira, Anna estava aos pés de uma armadura balançado o manequim para conseguir pegar seu machado. E funcionou pois o machado estava prestes a cair em cima dela quando Lore agarrou e fez as duas atravessarem o chão.

—Ufa, Bebê essa foi por pouco.— Disse Lore com Anna nos braços.

Lore então lembrou que estava com sua demoníaca máscara encarando uma criança que estava com os olhos tão arregalados que parecia que eles iam cair. E como se não bastasse quando olhou para baixo e viu que elas estavam bem em cima da mesa onde todos os convidados estavam reunidos, e isso bem na hora que todo mundo fez silêncio para ver qual seria o presente de Nelliel. Lore olhou para Anna de novo mas agora era a própria menina que estava com medo do eminente grito do bebê. Elas ficaram se olham sem se mover até que Anna tocou na máscara com suas fofinhas mãozinhas e sorriu. E depois deu uma sonora gargalhada. Mas por sorte só assustaram um homem que deu um épico e agudo berro.