Uma História com neve, fogo e muita briga
4 Inimigos Mortais
A situação estava feia. A molecada ainda estava naquela enlouquecida perseguição, o menino gorducho parecia só saber correr se esgueirando nas paredes e saia derrubando tudo para o pessoal se afastar dele. E como se não bastasse, o único adulto responsável que devia conter essa baderna tinha sumido. Enquanto isso nas ruínas do mini reino, só Elsa observava aborrecida todo esse caos, que nem teria começado não fosse a intromissão daquele menino esquisito, pensou a princesa. Aquilo não devia ter começado mas tinha que acabar e ao que parece tinha sobrado para ela essa penosa incumbência. E agora o problema era: Como é que ela vai acabar com isso?
Poderia congelar o chão e assim ninguém mais ia conseguir correr, poderia tacar uma enorme bola de neve na cara do menino e deixar os outros o pegarem. Poderia fazer isso e muitas outras coisas. Isso, se não tivesse prometido não usar magia. Parecia que cada hora que passava mais Elsa sentia como sua vida seria insuportável sem seus poderes. Mas agora não era hora de lamúrias e sim hora de pensar. Ela pensou e pensou, até que uma latinha com barbante vermelho do seu lado lhe deu a solução.
Enquanto isso, Enzo ficava cada vez mais esgotado com aquela correria sem fim.
—Vocês estão fazendo tudo errado!—Ele exclamou ofegante.— Eu que persigo e vocês correm! Parece até não sabem brincar.
Mas finalmente seu suplício encontraria um fim. Quando estava prestes a abrir o bico uma cordinha vermelha se ergueu derrubando Enzo e fazendo todo mundo cair sobre ele. Os moleques não tiveram piedade, agarraram e balançaram bruscamente o braço dele, como se fossem canibais famintos exibindo o rango, com direito a gritaria e tudo.
—Uai! Cadê o dragão? ‑ Eles se perguntaram ao se darem conta que o braço dele estava sem nada.
Sem nada mesmo, incluído o anel. Ao ver isso Enzo se levantou triunfalmente e ergueu sua voz de vilão:
—HA! Seus miseráveis! Vão pagar por cada gota de suor que derramei!—Ele fechou um dos punhos.—Agora vou dar um bom motivo para vocês correrem.
Então ele abriu sua mão e a sacudiu na cara deles. Não aconteceu absolutamente nada. Enzo olhou para suas mãos e viu...que estava o tempo todo olhando a mão errada e o anel ainda estava com ele.
—Então...—Disse Elsa chamando atenção.
Todos olharam para a menina que segurava o dragão perto da janela.
—Então...Depois de uma brava batalha o dragão foi derrotado e...—Ela tentou improvisar.—Fugiu!
Ela jogou a caixa pela janela. A queda foi tão longa que deu tempo de todo mundo correr para a janela e ver o dragão se espatifar todinho. As crianças urraram de alegria e carregaram Elsa como se ela fosse a salvadora da Pátria.
Mas nem todos se juntaram ao calor da vitória, só Enzo ficou lá prostrado na janela de luto pelo dragão. O que ele via não eram só os escombros de um brinquedo, mas sim os pedacinhos de sua esperança de recuperar seus poderes, de reencontrar Lore e principalmente de se entupir de chocolate estrangeiro!
O tempo que esse menino passou se lamentando foi mais do que o suficiente para as crianças voltarem a se divertir como se nada tivesse acontecido, mas para Enzo aconteceu. Aconteceu que agora estava naquele lugar chato, preso com esses moleques chatos que só sabiam fazer chatices, e tudo isso por conta daquela garota chata. “Ela nem se deu o trabalho de correr atrás de mim e eles ainda deram a ela a glória toda! É um absurdo!”, pensava Enzo cada vez com mais raiva da garota. E como não poderia ter sua liberdade, Enzo teria sua vingança. Aquela menina veria o dragão surgir das cinzas como uma grandiosa fênix da destruição! E ele não mediaria esforços parar derrotar a princesa impiedosamente! Buhahaha!
Terminado seu monólogo maligno, Enzo resolveu partir para ação e foi lá em Elsa para vence-la humilhantemente. Mas o garoto era péssimo em tudo. Ele era tão ruim em qualquer coisa quanto Elsa era boa em tudo. Então, para não se dar por vencido, ou simplesmente por não saber o que fazer, ele passou a provocar Elsa de uma maneira muito peculiar. Se ela estava jogando cartas ele ia e comia as cartas, se ela estava desenhando ele chegava e rabiscava, se estavam jogando xadrez ele engolia suas peças. E tudo isso sem ele dizer uma única palavra, apenas a encarando com aqueles olhos amarelos cheios de implicância. No começo, dada toda a esquisitice dessas situações Elsa mais estranhava do que se intimidava com aquilo, achando sempre melhor simplesmente ir embora. Mas o garoto estava sendo tão persistente, e irritante, que mais e mais a menina ia perdendo o receio, e a paciência. E quando Enzo mais uma vez meteu na boca um brinquedo seu Elsa por um segundo desejou que a língua dele congelasse.
—Cof! Cof!
Instantaneamente o menino começou a tossir.
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