Notas iniciais
Esqueci de avisar que o capítulo anterior é contraindicado para menores de 4 anos e possui cenas que nunca devem ser praticadas em casa, ou na festa de aniversário dos outros. Acrescento que não concordamos com nenhuma apologia a barracos. Divirtam-se.

Enzo começou a tossir violentamente, e Elsa temeu que seus pensamentos tivessem se cumprido. Mas logo ele cuspiu um brinquedo mostrando ser este o verdadeiro causador do engasgo. Mesmo tendo sido o menino quem se engasgou, ninguém respirou com mais alívio do que Elsa nessa hora. Só que o alívio durou pouco, pois logo a menina viu na pecinha cuspida os nítidos sinais de gelo lambido. “Será que ele viu?” pensou Elsa. Enzo foi e pegou a pecinha de volta. Elsa lhe lançou em um olhar de profunda apreensão aguardando as palavras dele como o condenado espera a guilhotina. Mas ele não disse nada, só colocou a peça na boca e voltou a encara-la. Ficando claro que ele não notou nada, Elsa resolveu sair correndo de perto dele. Enzo sorriu triunfante, achando que ele finamente estava conseguindo intimida-la.

Elsa já estava com a mão na maçaneta quando as crianças gritaram o seu nome. A menina se paralisou de medo, será que eles haviam notado? Para o seu alívio, não. Eles só queriam mostrar o que estavam escrevendo na parede. A brincadeira da vez era escrever seus nomes e pelo o que seriam conhecidos e Elsa ficou muito contente em saber que haviam a intitulado de “sábia”, embora ela modestamente discordasse dessa tal sabedoria. Essa pequena distração já serviu para acalmar a menina e logo ela entrou despreocupadamente na brincadeira. Ela havia acabado de terminar o título de Anna quando ouviu um pesado ruído de giz se aproximando.

Enzo com seu ameaçador giz de cera estava prestes a riscar o nome de Anna, até que alguém apetou sua mão. Um inesperado calafrio lhe percorreu a espinha e seus agora arregalados olhos dourados encontraram os destemidos olhos azuis da princesa. Ela já tinha aguentado muitos dos atentados dele contra a sua paciência, mas tentar mexer com qualquer coisa relacionado a Anna...Ah, isso sim era o cúmulo. Tomou bruscamente o giz de Enzo e apertou com tanta força em seu punho que esmigalhou o giz. E ela só abriu a mão para deixar cair os pedacinhos (discretamente) congelados do giz.

Todos foram ao delírio com essa fantástica demonstração de força e quando se voltaram para ver a cara com que seu adversário deve ter ficado, se surpreenderam com a reação. Enzo estava tão estranhamente maravilhado com a queda daquele pozinho brilhante que só entrando na cabeça dele para entender o porquê disso.

“Nossa!” pensou Enzo. “Que bonito! Como ela fez ele brilhar tanto? E ela é tão forte que pulverizou o giz! Imagina se tivesse pego...”. Mas o silêncio absoluto fez ele interromper seu raciocínio. Então ele se deu conta de que estava sorrindo bobamente para sua arqui-inimiga, que a essa altura já tinha trocado sua cara de brava para de confusa, pois esse sorriso amigável não fazia o mínimo sentido. Enzo até que tentou voltar a sua estranha careta de implicância mas ficou em dúvida se encarava ou terminava sua linha de raciocínio. Ele tentou fazer os dois, querendo achar uma expressão “pensativo mas bravo”. Desnecessário dizer isso foi uma péssima ideia, aliás aquilo tudo era um desastre. Enzo contorcendo o rosto, Elsa sem saber o que fazer e a plateia perdendo a paciência. Apesar do curto tempo de vida aquela devia ser, sem o menor sinal de dúvida, a briga mais ridícula que já viram. Até um anônimo tentar salvar o barraco:

—BRIGA! BRIGA!

E todos eles começaram a berrar isso, como se essa palavra fosse a lenha da grande fogueira da discórdia. Como Elsa já tinha feito sua parte destruindo o giz, sobrou para Enzo dar prosseguimento a contenda. E como ele deu, pois logo ergueu as sobrancelhas e sorriu de novo para garota, o que já serviu para irritar não só ela como todo mundo. Os meninos estavam tão sedentos por uma violência que se Enzo começasse aquela gracinha com a cara outra vez, eles mesmos quebrariam a cara dele. Mas não foi preciso.

Enzo pegou outro giz, foi até o nome de Elsa e riscou com brutalmente o “a sábia”. E para fechar com chave de ouro ainda escreveu “a chata” em cima, e com bastante destaque. Isso já bastou para angariar os relinchos do curral dos barraqueiros. E incentivado por esse vozerio do recalque, ainda terminou dizendo.

—Combina mais com você.—Finalmente Enzo abriu a boca dando agora um sorriso de deboche e ainda oferendo o giz para ela.

Elsa não se deixou intimidar. E sem nem olhar para Enzo e seu giz estendido ou dizer uma palavra, foi até o nome dele e fez isso:

Enzo, o engraçado O ESQUISITO

Agora pronto. Haviam oficialmente começado uma briga e não tinha mais volta, pois agora estavam cercados por uma plateia de moleques ávidos por um barraco, e “ai” deles se não tivesse. Porém Enzo ficou desnorteado, não por ter sido profundamente ofendido, mas sim por Elsa não ter pego o giz dele. O que acabou com o plano mais idiota que aquele menino podia ter tido naquele dia: fazer Elsa arrancar o anel dele enquanto disputavam pelo giz. Ele estava ciente de isso doeria muito, mas o que era um dedo esmagado frente a possibilidade fazer Elsa chorar de medo ao ver ele incendiar as próprias mãos?

Com certeza isso não tinha preço. Então depois de um tempinho bolando algum pretexto para essa luta pelo giz, ele conseguiu improvisar algo e começou a desenhar na parede:

—Era uma vez...— Começou Enzo, sempre encarando Elsa para ver se irritava mais.— Uma garota muito, muito, mas muito mesmo, chata!- Disse Enzo assim que terminou o boneco de pau.— Tão chata que veio um grande dragão...- Ele desenhou o dragão.­— E torrou ela! E fim.

—Mas...—Disse Elsa prontamente e de novo ela estava com outro giz.—O que o dragão não sabia era que a menina não era só uma menina.—Ela começou a desenhar.— Ela era na verdade, uma feiticeira. E ela tinha poderes de neve e gelo. E por isso ela foi e congelou a fuça do irritante dragão. E ele nunca mais foi visto. Em todo universo! E fim!

Enzo foi tentar pegar o giz dela, mas não é que ela pulverizou o giz de novo. Não tinha jeito, ele teria que continuar a história até conseguir lutar por giz e por sua liberdade.

—Mas o dragão voltou. —Ele foi desenhando. — A feiticeira além de ser muito chata era muito burra. Porque não tem como congelar um dragão. Todo mundo sabe disso. Então ele engoliu ela. E fim!

—Ah! — Retrucou Elsa sarcástica. — Mas o dragão era tão idiota que engoliu a feiticeira sem mastigar, por isso ele era tão burro e gordo.—O pessoal deixou escapar um “eita!”— Então a feiticeira congelou tudo que tinha dentro do dragão e ...

—Fez ele vomitar picolé!—Enzo agarrou a mão de Elsa e tentou desenhar com ela, mas ela conseguiu se livrar de sua força roliça.

—E ele vomitou a feiticeira também! Então ela...—Elsa usava outro giz.

—Então agora ele cuspia gelo!—Enzo tentou usar o dela.

—Não cuspia não! Os dragões não são animais quentes?!—Ela acabou com o giz de novo.

E quando bem viram lá tinham lotado a parede de desenhos, então começaram a pegar coisa para subirem e continuarem a história, que ia ficando cada vez mais bizarra e escabrosa. A disputa estava acirrada, eles estavam ficando sem criatividade. No entanto, Enzo parecia ficar cada vez mais empolgado e inevitavelmente dava mostras dessa inexplicável alegria. Alegria essa que só piorava as coisas para Elsa, pois a fazia pensar que ele talvez tivesse chance, por mas mínima que fosse, de ganhar. E só a ideia de perder para aquele menino a deixava tão apreensiva que ela acabava congelando os gizes e tinha que destruí-los antes que notassem. A temperatura da sala também andou caindo, mas a baderna da briga deixou as crianças agitadas demais para perceberem. Só que elas foram se silenciando a medida que aquela briga ia ficando cada vez mais feia.

Enzo e Elsa enfim chegaram no cume de sua gigantesca torre da discórdia, olho no olho, pé com pé e isso em uma minúscula cadeira trêmula que prometia cambalear a qualquer momento para uma queda bastante dolorosa. Então finalmente estavam com o último giz. Todas as mãos deles agarradas no giz enquanto faziam um fatal cabo de guerra. As crianças tão tensas com essa cena que começaram a ter calafrios, embora a verdadeira fosse o frio dominando a sala. Elsa sabia que ia acabar congelando aquele giz e agora que Enzo estava tão perto que não havia chance de não ver, aliás a mão dele já estava dentro da dela. Ela sentia o gelo começando a tomar com do giz, tinha de tira-lo da posse de Enzo imediatamente. Enzo sorriu triunfalmente ao sentir que as unhas dela estavam prestes a levar o anel junto. Ele já via a pedra vermelha do anel perdendo sua cor e portanto perdendo seu efeito. As janelas de abriram de repente trazendo uma forte e fria corrente de ar. E quando parecia que os dois precipitariam para uma chocante revelação de gelo e fogo, uma voz surgiu:

—Elsa!

Elsa se virou sobressaltada, era a voz de Anna e era primeira vez que falava o seu nome. Enzo, extremamente impaciente, também acabou se virando para ver o que estava o atrapalhando. E arregalou os olhos ao ver Lore com um braço carregando um bebê que segurava a caveira entupida de doces, e no outro segurando a roupa de uma mulher desacordada. Essas fortes emoções foram demais para a cadeira e ela desmaiou fazendo Enzo e Elsa despencarem. Por sorte havia usado as ruínas do reino de madeira como base, o que fez eles rolarem até o chão ao invés de se espatifarem.

—Anna!- Exclamou Elsa cuja alegria de ouvir a irmã substituiu toda aquela raiva.

—Lore!—Disse Enzo igualmente mais feliz por ver que sua irmã tinha voltado.

—Enzo!—Retribuiu Lore.

—Elsa!—Disse o Anna novamente com perfeição.

—Anna?!—Exclamou a babá extremamente aliviada que havia acordado com todas essas exclamações.

—Doces!—Gritaram as outras crianças já atacando.

E sendo assim, doces e reencontros eram o acordo de paz mais perfeito que poderia se fazer. Na verdade, paz para os outros e apenas uma trégua para Enzo e Elsa que agora estavam menos belicosos ficando cada um com sua irmã.

O resto do dia decorreu sem incidentes e o jantar foi particularmente muito bem sucedido para selar a amizade entre as duas famílias. Os pais das princesas conversavam animadamente com Neliel, Lore e Anna trocavam risadas lembrando de suas travessuras com a babá enquanto Elsa e Enzo deixavam a comida de lado para ficarem se encarando com desprezo.

Nos dias que se seguiram os convidados foram partindo pouco a pouco. Só a família Bratizzi teve sua estadia prolongada, devido a crescente estima que estava se criando entres famílias, ou pelo menos em boa parte das famílias. Tanto é que os sentimentos de Enzo e Elsa só foram se igualar a dos seus familiares quando finalmente chegou o dia da despedida: enfim a satisfação. O Rei e Rainha estavam muito satisfeitos por terem feito mais um aliado, Anna por ter feito mais uma amiga e Elsa estava satisfeitíssima em ver aquele barco lasteriano ficando cada vez mais longe. E pela primeira vez, em uma única coisa os dois rivais concordaram:

—Que nunca...—Começou Elsa.

—Jamais...—Continuou Enzo.

—Nunquinha mesmo...

—Desde agora...

—E para todo o sempre...

—EU NÃO TE VEJA DE NOVO!— Pensaram eles em uníssono.