Uma Garota Sombria

12 Ryan Castellammare, o sobrinho


Notas iniciais
Eu sei, eu demorei. Culpada. Mil desculpas. Eu nunca paro de escrever, mas meu problema é a desorganização. Já tenho vários capítulos do final prontos, e sou uma bagunça em relação a ordem. Mas estou decidida a terminar essa história o mais rápido possível. Sou apaixonada pela Anne, e preciso terminar de contar a história dela. Muito obrigada aos meus queridos leitores. Boa leitura.

Acordei confusa. Estava no meu quarto e as cortinas estavam fechadas.

– Anne? – Aquela era a voz de Charlotte.

– O que...

– Calma, você desmaiou. Já está e casa.

– Como.. Eu... – As imagens em minha mente iam chegando aos poucos.

– Está tudo bem. Só precisa descansar.

– Fausto... – Charlotte tentou segurar um gemido sem sucesso. Todas as lembranças me bombardeavam. O enterro, a lápide, a saudade, a melancolia. O desespero. – Eu não sei o que me deu. – menti.

– Você é estranha. Gosta de cemitérios, mas odeia enterros. Eu entendo, quer dizer, perder alguém, meche com nossa cabeça. – Ela sentou na minha cama. – É normal ficar estranha.

– Desculpe-me. Deveria estar te ajudando, te apoiando, mas... É você quem está cuidando de mim agora.

– Eu cuido de você e você cuida de mim. São assim que as amigas fazem. – Eu sorri.

– Gostei do vestido. – Disse me ajeitando na cama.

– Sua tia me emprestou. Espero que não se importe – Ela riu. – Temos o mesmo tamanho desde que éramos meninas.

– Tínhamos vestidos iguais e dizíamos que éramos irmãs! Eu me lembro.

– Era uma época boa.

– Uma época ótima! – Disse Charlotte rindo.

Era ótimo vê-la rindo, mas seu semblante ficou sério de novo.

– Você me assustou hoje. Fiquei preocupada. – Eu abaixei a cabeça.

– Não conseguia parar de pensar no enterro do meu pai.

– Não foi só isso. Você... Estava conversando comigo e de repente começou a andar pro lado oposto de um jeito estranho...

– Eu sou estranha, você sabe.

– Foi alguma coisa que eu disse?

– Não, claro que não. Eu me distraí, lembrei de coisas tristes.

– Eu fiquei desesperada! Não faça isso de novo.

– Nunca mais. – Segurei sua mão. – Como você está?

– Péssima. Nunca me senti assim.

– Como isso aconteceu?

– Um acidente. Ele caiu enquanto cavalgava. Foi encontrado sem vida perto de casa.

– Que tragédia! E ele cavalgava tão bem...

– As ironias da vida.

– Vocês eram prometidos desde criança.

– Em segredo. Eu descobri há muitos anos, mas creio que ele só soube há pouco tempo.

– Eu me lembro. Você veio eufórica me contar. Quando os seus pais te contaram a verdade?

– Eles não contaram. Fausto não pretendia honrar a palavra de seu pai, Anne. Ele não me amava. Nunca me quis. Que sorte triste a minha!

– Você não sabe disso. Talvez estivessem esperando a hora certa.

– O almoço do qual lhe falei? Foi cancelado. As famílias brigaram. Por quê? Porque Fausto não aceitava se casar comigo.

– Quem te contou isso? Como pode ter certeza?

– Paguei uma empregada para que me contasse. Tenho plena certeza do que falo.

– Talvez ele...

– Ele não me queria, Anne! Na me queria... – As lágrimas rolavam pela sua face.

– Eu sinto muito. – De repente uma ideia absurda me veio em mente. Meu corpo ficou rígido.

– Quando descobriu isso?

– Há dois dias.

– Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, é... Assustador.

– Ele não devia ter me rejeitado. Eu o amava!

– Eu sei, eu sei... Ele não podia ter feito isso.

Abracei seu corpo trêmulo, que solucionava em desespero, e por toda a tarde a consolei angustiada. Eu não podia evitar, uma parte de mim estava desconfiada.

Rapidamente, a noite voltou. A lua estava exuberante, mas minha mente em destroços. Quem era Ryan afinal? Eu tinha pela primeira vez, medo de voltar ao cemitério. Mais do que medo. Pavor. Eu sempre soube que todas as casas guardavam segredos. Todas as famílias. Todas as pessoas. Li nos livros. E no olhar de cada pessoa a minha volta. Sim... Todos guardam coisas profundas. A diferença é que agora, eu precisava descobrir a minha história. Desci descalça, até a biblioteca. Ascendi uma vela e olhei ao redor. Algumas caixinhas, algumas abertas e outras fechadas. Com dificuldade para enxergar no escuro, tateei até encontrar a caixinha quebrada. Por que minha tia estava remexendo nessas coisas antigas?

“Estamos vendo coisas antigas e relembrando histórias.”

Passei horas procurando por algo, o meu corpo estava exausto. Não sabia o que estava fazendo ao certo, talvez eu apenas tivesse perdido minha sanidade. Até que finalmente a encontrei. A foto de Ryan Castellammare. Estremeci. Ela estava rasgada ao meio. Apaguei a vela com um sopro suave. Voltei para o quarto e tive por um momento a impressão de ter visto um vulto preto. Tranquei a janela rapidamente, e me escondi debaixo das cobertas. O escuro prega peças, assim como a mente. A noite não estava fria, mas eu estava tremendo. Tive pesadelos com o fogo.


Mais um dia triste se erguia. Com o sol, a loucura e a coragem. O céu estava limpo, e pela janela aberta corria uma brisa suave. Tão sonolenta, nem mesmo reparei no detalhe: Janelas não se abrem sozinhas.


Vesti um vestido longo, e uma calça por baixo. Escondi nela, uma pequena faca. Se ele estivesse vivo, não seria por muito tempo.

Saí escondida decidida a encontrá-lo. Eu precisava de paz.

Andei devagar, sempre olhando para trás. Eu estava totalmente insana e sabia disso. Estava a beira da loucura, e ele estava lá. Sentado perto das lápides, como se me esperasse. Como se tivesse me chamado. Que homem era aquele? Que alma perturbada era aquela? Como podia ter beijado um homem que não deveria nem sequer conhecer? Ele estava morto, não estava? Como a minha própria mente poderia inventar uma história como aquela? O que era real? Cheguei perto dele, mas ele continuava imóvel.

– O que... é você? – Falei trêmula.

Ele não respondeu. Apenas olhou pra mim com aqueles olhos negros profundos.

– Ryan... Não é? É você?

Ele não parecia surpreso. Parecia esperar por aquilo.

– Eu não sei o que lhe dizer.

– DIGA A VERDADE! – Gritei empurrando ele bruscamente. Avancei contra ele com tapas e gritos, totalmente fora de controle. Estava no meu limite. – PARE DE FUGIR! O QUE QUER? O QUE QUER DE MIM? QUER ME DEIXAR LOUCA?

Ele não se defendeu. Eu não o machucava? Ele estava mesmo morto? Porque eu podia vê-lo? Porque não minha mãe ou meu pai? Porque aquele homem? Porque eu? As lágrimas saltaram dos meus olhos, e as minhas pernas fraquejaram. Caí no chão, e agarrei a grama com fúria.

– Anne, eu lamento. Desculpe-me. Por tudo. Eu devia ter ido. Eu nunca... Nunca devia ter me aproximado. Eu... – A voz dele estava estranha. Levantei a cabeça e pude ver que chorava. Estava sofrendo. Estava agachado e seu rosto próximo ao meu. – Eu não sei como explicar...

– Quem é você? – Pergunte em súplica.

– Ryan.

– Por que... Como posso te ver?

– Porque estou vivo.

Eu não entendia. Eu havia visto sua lápide.

– Como é possível?

– Eles nunca encontraram meu corpo. Todos acharam que eu havia caído no rio e morrido. Aquele rio na floresta.

– Eu te vi lá! Como posso ter certeza que não é um espírito? Por que não diz a sua família que foi um engano? Por que me tortura dessa maneira?

– Nunca foi minha intenção. Eu não podia voltar.

– Por quê?

– Por que tentaram me matar. E iriam tentar novamente.

– Quem?

– Eu não sei.

– Isso é loucura!

– Eu sei! Mas é também a verdade. Você queria a verdade, certo?

– Eu não queria nada! Eu nunca pedi que me procurasse, que dissesse mentiras, para depois contar a verdade!

– Eu não menti para você.

– Não? Apenas brincou comigo. Fez com que eu acreditasse que estava morto, e que eu estava louca!

– Não queria que visse meu rosto.

– O que queria então? Eu sei apenas seu nome, não quem você é.

– Você sabe do meu maior segredo.

– Não... Você esconde coisas, Ryan. Quem decide qual é o maior segredo sou eu, depois de saber todos.

– Anne, eu estou confiando em você.

– Você está me manipulando, é diferente. Mesmo que eu quisesse contar, quem acreditaria? Nem eu mesma acredito.

– Você se surpreenderia em quantas pessoas acreditariam. Minha vida está em suas mãos.

– Não pedi sua vida.

– No entanto a têm por direito e por obra do destino.

– Não culpe o destino pelo seu egoísmo. Eu estava bem sem o seu segredo, não vê que é mais um fardo para suportar?

– Um coração egoísta, eu admito. Mas você não estava bem, Anne.

Eu dei um sorriso debochado.

– E acha que eu estou melhor agora?

Ele me olhou nos olhos. E eu tive certeza que a última coisa no mundo que aquele homem queria era me machucar. No meio de tantos segredos, havia algo sincero querendo transparecer. Ele colocou delicadamente suas mãos no meu rosto e se aproximou. Eu sabia o que ele queria, e apesar das suas mãos no meu rosto eu poderia me afastar a qualquer momento. Seu toque era suave e eu estava livre. Eu podia ir embora. Eu podia... Eu realmente estava livre? O meu coração estava batendo acelerado e os meus lábios se aproximavam cada vez mais dos dele. Que tipo de prisão era aquela, em que não se quer sair? Beijamos-nos e por alguns segundo pude ouvir seus pensamentos. Era como se cada toque, me dissesse algo especial. Por um momento, não havia dúvidas, questionamentos e desconfianças. Afastei-me de repente confusa. O que estava fazendo? Lembrei-me então a razão de estar ali.

– Feche os olhos. — Ele sorriu. – Feche. – Insisti sussurrando.

Ele fechou os olhos que agora estavam diferentes. Ou talvez fossem meus olhos que tivessem mudado. Passei a mão pelo seu rosto delicadamente.

Com a mão que estava livre, levantei o vestido e tirei a faca que estava escondida.

Segurei sua mão e a beijei. Aproximei a faca de sua palma. Assim que sentiu a lâmina contra sua pele, abriu os olhos assustados e puxou a mão para si. A faca fez um corte em sua mão e o sangue escorreu rapidamente. Ele fez uma expressão de dor, olhando para mim confuso.

– Porque fez isso?

– Só queria ter certeza que estava vivo. — Disse em tom provocador.

Eu não me deixaria ser presa por nenhum sentimento traiçoeiro. Ele merecia um corte bem maior que aquele, pelo o que havia me feito. Levantei e caminhei de volta para casa, com a faca em uma das mãos. Eu havia pelo menos descoberto o que ele era. Um homem real, cheio de mistérios igualmente reais. Já distante do cemitério, me permiti olhar para trás. Ele ainda estava lá, com suas vestes pretas. Ri ao lembrar seu olhar assustado. E me assustei ao lembrar que Anne, a garota estranha, não ria nunca. Não de verdade.

Notas finais
Qualquer erro ortográfico, ou falha minha, podem deixar no review. Podem criticar, elogiar, me dar bronca pela demora. É o seu comentário que me faz escrever. Estou muito feliz em estar de volta. Muitas surpresas estão por vir.