Uma Garota Sombria

13 Entre tecidos e armadilhas


Notas iniciais
Olá! Desta vez não demorei :)
Um beijo para todos que estão acompanhando e deixaram review no capítulo anterior:
* DaniMines
* Gabi
Os comentários diminuíram, mas eu entendo que foi por causa da demora.
Um beijo também para Geissykelly Potter Jackson que recomendou a história. Fiquei muito feliz!
Boa leitura.

Sentada na minha cama, com um livro aberto nas mãos, observava aquela pétala entre as palavras melancólicas. Era surreal tudo o que havia acontecido. Seria o meu destino viver uma história com esse misterioso homem? Eu não podia negar a atração que sentia. Como se fosse uma força sobrenatural, meus pensamentos encontravam seu rosto a cada segundo do dia. Um rosto que ele não queria que eu visse. Fechei o livro quando percebi que a maçaneta se movia.

Minha tia sorriu, e veio em minha direção.

– Anne, que bom que está aqui.

– Onde mais eu estaria? – Ela ficou séria.

– Não seja irônica comigo. Não tenho mais idade para ficar me aborrecendo com essas coisas, e nem você, para me aborrecer. Já é uma mulher, deve se comportar como tal.

– Prometo me esforçar mais em manter as hipócritas aparências, com que tanto se importa.

– Não zombe de mim. Ainda não entende a importância do que faço por você, porque seu mundo é este, e sempre esteve protegida aqui. Não sabe o que é estar sozinha e ter responsabilidades.

– Parece que terei que aprender. Estou sendo empurrada para Marcony!

– O que há de errado com você? Porque está sendo tão arisca? Nunca lhe impus nada!

– Então não preciso me casar com ele?

– Anne, não se precipite! Você gostou do rapaz, um pequeno desentendimento pode ser resolvido.

– E se eu não quiser que ele seja resolvido? Se não estiver preparada para casar?

– É normal o nervosismo, a insegurança. – Minha tia sentou na minha cama, e acariciou meu braço delicadamente. – Toda garota passa por isso.

– Não entende tia.

– Então me explique no caminho. Iremos à cidade hoje.

– Sabe que não gosto de ir à cidade.

– Não gosta de muitas coisas, querida. A carruagem já está esperando por nós.

– O que vamos fazer na cidade?

– Comprar algumas coisas, visitar a família Pezzini, passear pela cidade...

– Eu irei por Charlotte.

– Use um vestido bonito. Coloquei alguns modelos novos no guarda-roupa, espero que goste. Estou lhe aguardando lá em baixo, não demore.

Minha tia saiu e eu me senti aliviada com isto. Enquanto me arrumava, admiti ter sido rude com Tia Elissandra. Eu despejei muitas coisas em cima dela. Como ela poderia entender, se nem eu mesma entendia? Entrei na carruagem em silêncio. Tia Elissandra me lançou um olhar de aprovação, mas não me fez perguntas. Eu estava adequada, e ela não queria entender nada além do que já entendia. E entre o silêncio, e observações sobre o tempo, chegamos à cidade. Eu estava exausta, odiava o balanço da carruagem. Preferia andar a pé, ou a cavalo. Eu nunca ia para muito longe, os meus passeios eram restritos ao jardim e ao cemitério. Flores e túmulos me entendiam mais do que pessoas.

A cidade parecia ter mudado desde a última vez que passei por aquelas ruas. Tudo tão moderno e sofisticado. Pessoas tão felizes a minha volta, damas e cavalheiros, cheios de sorrisos e leveza. Talvez eu realmente agisse errado, e tivesse algum defeito. Como todos podiam estar tão felizes? Que graça tinha as vitrines, para que todas parecessem tão satisfeitas? Eu me sentia sufocada naquele lugar. Como se aquele ar não fosse para mim, como se aquela cidade tão grande não tivesse lugar para uma garota como eu. Andei ao lado de minha tia, insegura com tantos olhares curiosos sobre mim. O que havia de errado comigo? Talvez pudessem perceber que eu não pertencia àquele mundo.

– Vê como fica linda, quando deixa sua beleza aparecer?

– Do que está falando?

– As pessoas são os melhores espelhos que se pode ter, querida. As mulheres podem lhe olhar com inveja, admiração ou desprezo. Sempre prefira a inveja.

– Não quero ser invejada.

– Você quer, acredite. Só não sabe ainda.

Tia Elissandra caminhava elegantemente olhando as vitrines. Quando era mais jovem deveria ser o centro das atenções. Ela continuava bela a cada ano que se passava.

– E os homens? O que seus olhares revelam?

– Os homens podem lhe olhar com desejo, respeito ou adoração.

– O que é preciso para ser desejada?

– Ser mulher. – Minha tia sorriu, virando seu rosto para mim, como se houvesse dito algo engraçado, mas verdadeiro.

– Então não precisarei me esforçar muito.

– Não queira ser desejada, Anne. Deixe estas vulgaridades para as criadas. Uma mulher como você deve ser idolatrada. Colocada acima do bem e do mal.

– Não sou nenhuma santa.

– E não é para ser. Mas todos devem vê-la como tal.

– Então sugere que eu viva uma farsa, com falas, encenações e um desfecho final? Não sou uma atriz, sou apenas eu mesma. Anne.

– A vida é uma peça. Só deve ter o cuidado de nunca subir ao palco, ou se sentar na platéia. Escreva e dirija o seu teatro, e tudo estará sob o seu controle.

– Não sabia que gostava tanto de peças teatrais. É uma novidade para mim.

– Não gosto, mas os poucos espetáculos que fui, com meu falecido marido, me fizeram entender, que podem ser mais reais do que parecem.

Refleti sobre as palavras de minha tia, e em pouco tempo meus devaneios estavam a quilômetros de distancia dali. Estavam em um homem. Em um olhar. Em uma rosa. Deixei as palavras escaparem.

– Não quero ser venerada, quero ser amada.

– Você será... Esteja no controle e Marcony será seu e lhe amará de verdade. Permita-se ser feliz.

– E é claro... Deixar todos felizes.

– Todos com quem se importa.

– Está é a sina de toda mulher?

– Não... É o privilégio que poucas possuem.

Ficamos por alguns minutos em silêncio. Ao dobrarmos a esquina, vi um rapaz alto e elegante caminhando em nossa direção. Ele tinha a cabeça baixa, mas algo nele era muito familiar. Ele levantou o rosto e eu o reconheci finalmente.

– Anne, olhe quem está passando por aqui! – Disse minha tia, sem se importar em demonstrar surpresa.

Ele sorriu, e eu me lembrei o quanto era perfeito o seu sorriso. Era natural como o meu jamais seria, mesmo que treinasse pelos próximos 15 anos. Ele também não estava surpreso. Era uma armadilha. Mais uma. Lancei um olhar severo em sua direção, mas ele parecia feliz demais para perceber.

– Senhora Elissandra. – Falou cortês, antes de cumprimentar minha tia.

– Marcony, que bom encontrá-lo.

Em seguida, se dirigiu a mim. Estendendo sua mão, a espera da minha.

– Fico feliz em vê-la novamente, senhorita Anne.

Mas em resposta, recebeu o meu silêncio e o meu desprezo. Permaneci onde estava sem mover um dedo ou dizer qualquer palavra. Ele abaixou a mão, um pouco constrangido. Minha tia preferiu fingir não perceber e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, interveio, como se nada tivesse acontecido.

– Marcony querido, pode fazer companhia a minha sobrinha enquanto compro alguns tecidos nesta loja? Será muito entediante para ela.

– Eu adoraria, mas acho...

– Está muito barulho aqui fora, vamos entrar.

Entrei atrás de tia Elissandra, e Marcony veio em seguida. Que conveniente nos encontrarmos na frente da loja que minha tia procurava. Ela se afastou nos deixando a sós. Marcony tentava achar as palavras certas, mas estava inseguro, e se dependesse de mim, continuaria assim. Mantive o silêncio perturbador.

– Eu a interpretei de forma equivocada. Pensei que havia me perdoado.

– O que o fez pensar isso?

– A sua tia falou comigo durante o enterro, me deu seus pêsames, e... Me fez pensar desta forma.

– Já havia lhe alertado que não levasse em conta tudo o que ela falasse ao meu respeito.

– Eu preferi acreditar. Eu lhe vi com Charlotte. Porque pode perdoá-la e me tratar com tanta arrogância? Eu nem mesmo entendo a importância de uma mentira tão boba. Rosas! Eu só queria agradá-la.

– Eu sei. Você não teve culpa. Eu me precipitei naquele dia. Charlotte errou, mas eu a perdoei.

– Então Anne, o que eu fiz de tão errado para merecer o seu desprezo?
– Nada. O problema está em mim. Eu sou errada. Não consigo superar o passado então não me pressione! Não me cerque, como está fazendo, tramando armadilhas com minha tia.

– Armadilhas? Anne eu não estou tramando nada contra você. Se ainda não percebeu, estou tentando entendê-la e agradá-la de todas as formas. Você teve dois anos para superar essa dor, e eu apenas um dia! Pois eu perdi um grande amigo e estou devastado, mas quando recebi aquela carta pela manhã, não tive dúvidas e vim ao seu encontro. Escondi toda a tristeza para poder vê-la. Eu realmente achei que você também queria me ver, e eu só entrei nesta loja com você, pois precisava saber o porquê de tanta hostilidade. Eu precisava olhar em seus olhos uma última vez e saber se fui tão tolo em acreditar que um dia pudesse gostar de mim.

Ele parou e respirou fundo. Estava nervoso e isso o deixava bonito. A tensão entre nós aumentava a cada segundo, e eu me sentia completamente idiota pelo o que eu havia dito. Ele esperava uma resposta, mesmo sem ter feito perguntas, e eu esperava poder respondê-lo.

– Eu fiz de novo. Acabei de me desculpar pelo o outro dia e cometi o mesmo erro. Fui injusta. Minha tia planejou tudo.

– Com as melhores das intenções, tenho certeza.

– Ainda defende? Todas que tentam ajudá-lo terminam por fazer o contrário.

– A verdade sempre prevalece no final.. Aliás, discordo de algo que disse e não posso ignorar.

– O quê? – perguntei curiosa.

– Não me pediu desculpas, apenas admitiu seu erro.

– Apenas? – Repeti surpresa. – Qual a diferença?

– Há muita diferença. E eu ficaria muito feliz em ouvir.

– Está brincando com fogo.

– Não tenho dúvidas disso. – Disse abrindo um largo sorriso.

Eu não podia ter raiva dele. Eu entendia o que ele estava sentindo. No fundo de seus olhos azuis, havia uma dor profunda. Ele era sincero e doce. A tensão havia desaparecido e a conversa fluiu. Ele me contou sobre peças que assistiu, e sobre lugares bonitos que visitou, enquanto minha tia olhava cada tecido da loja. Após sairmos, Marcony nos acompanhou à costureira, onde minha tia deixou suas compras e encomendou alguns vestidos. Ficamos do lado de fora esperando por ela, que não demorou muito.

– A minha tia está vindo. É hora de ir.

– Foi uma tarde agradável. Pelo menos para mim

– Para mim também foi.

– Então espero encontrá-la mais vezes entre as sedas importadas.

– Se não estivesse lá, eu teria morrido de tédio.

– Anne, nós temos que nos apressar se quisermos chegar até a casa da família Pezzini ainda hoje. Marcony, foi ótimo encontrá-lo. Ficaremos esperando uma visita sua.

– Eu irei assim que possível. Dê lembranças a todos por mim.

– Eu darei. Irei na frente, enquanto se despedem.

Esperei minha tia se afastar e olhei no fundo de seus olhos.

– Eu sinto muito, Marcony.

– “Sinto muito” ainda não é o mesmo que pedir desculpas.

– Eu sinto muito pela sua perda. Por Fausto. – Ele ficou sério.

– E eu também sinto muito pelas suas. Desculpe-me se fui rude mais cedo.

– Você é sempre um cavalheiro.

Ele beijou minha mão e eu entrei na carruagem. Mais uma vez, refém daquele desconfortável e nauseante balanço, vi Marcony ficar cada vez mais distante de mim. Mais não conseguia me livrar da estranha sensação que ele estava mais perto do que nunca. A frieza que havia me dominado por tanto tempo, aos poucos estava indo embora, e eu temia isto. Eu não queria ser enganada por emoções traiçoeiras. E, no entanto, queria encontrar o amor. Eu ainda não sabia que o amor pode ser a mais perigosa das armadilhas.

Notas finais
Alguém reparou que Anne não foi ao cemitério neste capítulo? O.o
Já os pensamentos dela...
Espero que todos tenham gostado. Por favor, deixem seus comentários.
:)