Uma Garota Sombria
11 Caixões e caixinhas de madeira
Notas iniciais
Por horas, fiquei ali sentada, vendo coisas antigas e ouvindo histórias. A senhora Venere me contou sobre seu marido, suas filhas, seus genros e contaria sobre seus bisavôs se de vez em quando minha tia não a interrompesse. Entre os papéis achei uma foto de uma menina, entre duas mulheres, segurando uma boneca.
– Quem são essas?
– Não reconhece? Essa garotinha é sua mãe. E essa é minha mãe, sua avó. Ela era linda... – Falou minha tia melancólica. – Eu tenho uma foto parecida com essa.
– Eu era uma grande amiga de sua avó, menina. Uma mulher sábia.
– Ela se parecia com minha mãe. É uma pena não a ter conhecido. – Lamentei.
– Eram muito parecidas mesmo. – Minha tia passou os dedos pela foto carinhosamente.
– E quem é essa moça? – perguntei.
– É minha tia. Valentina. Ela era muito próxima a minha mãe, mas depois de sua morte nunca mais a vi. Ela saiu da cidade, e nunca mais soube dela.
– Então ela não sabe sobre a morte de meus pais?
– Creio que não. Talvez nem esteja viva. Ninguém sabe para onde foi, nem sequer disse adeus.
– A verdade é que ela não era muito certa do juízo. Nunca foi. – Falou a senhora Venere com desprezo.
– E ninguém foi em busca dela?
– Ninguém. Foi abandonada pelo marido e não teve filhos. Não tinha muitos amigos também. Eu e sua mãe já tínhamos muitos problemas. Foi uma época muito difícil. – Ela colocou a foto junto com as outras que estavam na mesinha. – Já está tarde. É melhor ir se deitar.
Tentei disfarçar o alívio.
– Boa noite tia Elissandra. Boa noite senhora Venere.
– Boa noite, querida.
– Boa noite.
Ao me levantar, meio tonta de sono, tropecei e derrubei uma das pilhas de caixinhas. Várias coisas se espalharam no chão. Entre elas, algumas fotos.
– Desculpem-me.
– Parece um bico do mato essa sua sobrinha, quanta bagunça!
– Eu ajudo a arrumar.
– Está tudo bem, Anne. Nãos e preocupe. – Eu me abaixei para guardar as coisas. Coloquei alguns papéis e broches antigos em uma das caixas. Tudo estava empoeirado. Tentei ser rápida, não queria que minha tia percebesse que uma delas estava quebrada. Provavelmente foi guardada com muito cuidado há vários anos e estava intacta até um minuto atrás. Eu era um desastre!
Uma foto amarelada foi parar perto dos pés da senhora Venere. Ela a pegou sem que eu percebesse.
– Ah... Essa foto. Vejam! Não contei sobre meu falecido cunhado, Augusto Castellammare? – Ela fazia questão de falar seu sobrenome.
Eu levantei o rosto e olhei em sua direção.
– Sim... De uma família distinta e muito respeitada. – Respondeu minha tia. Era o que a senhora Venere queria ouvir.
Eu cheguei mais perto da foto. O rosto que ela apontava era familiar. Era uma foto muito antiga, mas eu o reconheci! Nunca poderia esquecer ou confundir aquele rosto. Nem o seu doce e suave beijo.
– Esse é o seu cunhado? – perguntei assustada. Não era possível.
– Não... Esse é o filho dele. Está muito bonito nesse retrato.
– Ah, seu sobrinho. – Fiquei aliviada. Por um momento achei ter conhecido um fantasma. Pior, me apaixonado por um.
– Sim, Ryan Castellammare.
– Já está tarde Anne. Amanhã a senhora Venere lhe contará mais histórias. Ela dormirá conosco essa noite.
– Ele mora na cidade? – Perguntei sem me preocupar em esconder meu interesse.
– Morava. Ele morreu há muitos anos atrás, menina. Ryan era um bom rapaz. Uma perda terrível! Até hoje sou muito amiga da família Castellammare, vocês sabem. Tornaram-se parte da minha família.
– Não é possível...
– O que quer dizer? – Perguntou a senhora Venere desconfiada.
– É terrível!Tantas... Mortes. É tão triste... Minha tia tem razão, é melhor eu ir dormir. Já está tarde.
Subi as escadas correndo, ainda ouvindo os resmungos daquela velha. Fechei a porta do meu quarto, apavorada. Estava em pânico. O homem que havia me beijado era o sobrinho da senhora Venere. Um homem morto!
Lavei o rosto e me olhei no espelho. Buscava em minha mente a chave que desvendaria todos os segredos que me cercavam. Tentava encontrar respostas que acalmassem aquela garota assustada, naquele confuso reflexo. Mas eu estava totalmente perdida.
“A escuridão me dominava. Seguia algo sem saber o motivo. Eu não questionava a noite, eu a venerava. O meu instinto me levava ao meu destino e eu não o temia. Os meus pés descalços estavam feridos, mas não podiam parar. Algo sobrenatural me chamava. Uma voz hipnotizante dizia meu nome. Eu não sabia se era o fim ou o começo. Eu não sabia quem eu era. Não conhecia outro lugar senão aquele. Eu era uma completa página em branco. Uma garota vazia. Uma desconhecida, sem memórias e emoções. A palavra amor não me lembrava ninguém.”
Acordei com frio. O céu estava nublado e eu não queria me levantar da cama. Queria ficar encolhida para sempre, protegida pelas cobertas. Infelizmente eu já havia me recordado da noite anterior e não havia como fugir daquilo. Eu só poderia estar louca em achar ter visto um fantasma... Tocado uma alma. Como explicar o que aconteceu? Talvez a senhora Venere tivesse se confundido. Aquela era uma foto muito antiga. Ou talvez eu estivesse esquecido seu rosto.
“Meus escudos estavam espedaçados. Estava desprotegida e completamente só.”
Enquanto vestia meu vestido, cantarolei algumas canções. Estava melancólica. Comecei a ouvir o barulho da chuva, e a me lembrar de dias tristes. Dias inesquecíveis... Infelizmente.
“Eu sabia que não podia perdê-lo. Sabia também que já o tinha perdido. Me sentia nua em meio a uma tempestade.”
Desci para o café da manhã sentindo uma sensação ruim. O meu corpo tremia por causa do frio, e eu definitivamente não queria sair de casa. Mas a vida é cruel.
– Anne! – Era a voz da minha tia. – Ainda bem que já está pronta.
A minha tia estava com um longo vestido preto bordado. Seu semblante era triste e preocupado.
“Eu gritava com todas as forças que me restavam. Estava desolada. O desespero transbordava dos meus olhos.”
– Para onde vamos? – Falei assustada
– Para um enterro. Fausto se foi querida, ainda não sei ao certo o que aconteceu. A carta só chegou agora. Estamos atrasadas.
– Fausto? Que tragédia!
– Desculpe-me despejar essa notícia assim em você, mas a verdade é que eu também estou atordoada.
“As lágrimas inundaram meus olhos.
– O que aconteceu? Bina, me conte, o que aconteceu?”
– Eu não sei se devo ir. Eu só o vi algumas vezes ainda criança, e... – Charlotte!
– Anne, você deve ir.
– NÃO! Não... – Senti um aperto no coração. Ela o amava.
– Ele e Marcony eram amigos de infância.
“São amigos há anos! Isso não é ótimo?”
– Eu sei, eu sei...
– Pela primeira vez em muito tempo você está vestida adequadamente. Temos que prestar nossos pêsames.
– É horrível!
– Eu sei. Ele era um belo rapaz. Marcony deve estar arrasado.
“Se quer viver, menina, tem que ir a muitos enterros.”
O que Charlotte fez foi errado, mas eu não queria que ela sentisse uma dor tão profunda. Também sentia por Marcony. Tia Elissandra se aproximou e me abraçou carinhosamente. Em poucos momentos eu podia ver e sentir suas fragilidades. Seus medos eram um segredo. Às vezes achava que eles tinham desistido de habitá-la. Eu não sabia ao certo se eles se escondiam nela, ou se ela se escondia deles. Em anos, pouco vi suas lágrimas. Era torturante vê-la daquele jeito.
Durante todo o enterro ela ficou ao meu lado. Charlotte estava diferente. Seus olhos estavam distantes, talvez perdidos em outro lugar. Definitivamente ela não era a mesma. Aquela era uma nova Charlotte.
“-É melhor levá-la para casa!
– Ela tem o direito de se despedir.
– Está fora de si!
– Coitadinha.
– Está órfã. “
Marcony estava sempre rodeado de pessoas tentando consolá-lo, mas eu sabia que tudo o que ele desejava era estar sozinho. Ele não chorava, mas em seus olhos eu via lágrimas angustiantes.
“Todos estavam em silêncio, apenas alguns choros baixinhos e alguns sussurros. Ninguém se importava de verdade.”
– Não foi falar com Marcony ainda.
– Eu sinto muito por ele, mas não há nada que eu possa lhe dizer.
– Acho que deveria estar ao lado de seu futuro marido.
– Quem somos nós para desvendar os mistérios do tempo? Não há como prever o futuro.
– O que insinua minha sobrinha?
– Não sei se me casarei com ele.
– Pensei que estivesse tudo certo entre vocês.
– Estava.
– Ele lhe disse alguma coisa que lhe ofendeu?
– De certa forma.
– Então essa é a hora certa de perdoá-lo.
Talvez ela estivesse certa. Tia Elissandra conhecia as pessoas. Conhecia as palavras. Mas eu simplesmente não sabia como ir falar com ele. Eu não sabia nada sobre aquele homem.
“As pessoas se aproximavam como se pudessem ter algo para dizer, mas a verdade é que não tinham. Eu não queria vê-las nem fingir educação. Queria que me soltassem e que desaparecessem! Que parassem de falar besteiras, eu não era mais uma criança! Deus não quis levá-lo. Ele foi tirado de mim por um monstro. Aquilo não era justo comigo e eu estava furiosa! Eu tinha o direito de estar.”
Charlotte estava isolada. Apenas eu e Marcony sabíamos de seus sentimentos por Fausto. Eu não sabia até aonde sua família a conhecia. O olhar de Charlotte se encontrou com o meu e eu fui em sua direção. Era devastador vê-la naquele estado. Queria poder fazer algo. Abracei Charlotte e enxuguei suas lágrimas. Eu a perdoava e ela me entendia. Éramos amigas de novo, e nem sem sequer foi preciso usar palavras. Era um acordo feito pelo olhar. Um consenso sincero.
“Seu caixão foi colocado na cova e as pessoas começaram a lhe jogar rosas. Era dor demais para uma garota suportar. Eu me agachei e todos se afastaram. Era um momento solene. Todos queriam ver a pequena órfã se despedir. Eu sabia que a maioria daqueles olhos entediados queria um espetáculo. Peguei um punhado de terra e me levantei. As lágrimas escorriam sem parar. Fechei os olhos e lentamente fui abrindo a mão. Sussurrei um “Eu te amo” tão baixo e discreto que ninguém além de meu pai pôde ouvir. Nem mesmo eu.”
Charlotte segurou minha mão.
– Anne, não sei o que fazer!Ele é tudo o que eu sempre quis, desde garota!
– Eu sei. Eu sinto tanto minha amiga! – Estava segurando as lágrimas, mas era difícil vê-la chorar.
“Eu vou conquistar Fausto, você verá! – Ela deu um risinho. – Eu já posso até imaginar. Nós quatro almoçando juntos e nossos filhos correndo no jardim.”
– O que vai ser de mim agora? Ele era meu futuro, meu sonho! Agora é impossível.
– Não é o fim. Agora parece que é, mas...
– Eu nunca vou esquecer esse dia. Essa dor.
Charlotte chorou em meus ombros. A chuva estava fina e constante. Minha tia trouxe um guarda chuva e eu o dividi com ela. Fomos caminhando entre as lápides, em direção a fazenda. Aos poucos fomos nos afastando da floresta, do enterro, e do barulho. Tudo foi ficando para trás, exceto a dor. Ela estava exausta.
Charlotte tropeçou em seu longo vestido negro e caiu no chão. Seus sapatos não eram adequados para um cemitério, mas eu não lhe disse nada. Apenas lhe ajudei a se levantar. Senti a terra molhada em seus braços e estremeci.
“Fui embora me forçando a ficar de pé, tentando me controlar. Quando perdi todos de vista, caí no chão em prantos. Meu coração ameaçava parar. Ainda me lembro da grama molhada em contato com meu corpo. Eram dias chuvosos.”
– Estou toda suja!
– Pode ir para minha casa, eu lhe empresto um vestido.
– Obrigada. Estou tão... Perdida. Frágil.
O chuvisco em contato com minha pele me fez começar a tremer. Estava muito frio. O guarda chuva estava no chão, quebrado.
– Desculpe Anne. Sua tia ficará chateada?
Eu não pude responder. Eu estava paralisada. Na minha frente, uma lápide que eu nunca havia reparado. Por quantas vezes eu já havia passado por ela? O meu corpo inteiro tremia e não era de frio. Com a respiração irregular, me aproximei daquelas letras que se misturavam em minha mente. A minha visão ficou turva e a última coisa que vi antes de perder a consciência foi aquele nome cravado na pedra. Um nome que nunca esquecerei.
Ryan Castellammare.
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