Uma Garota Sombria
3 Cada vez mais errado
Notas iniciais
Já era final de tarde. Estava ficando com fome, eu não tinha trago comida suficiente. Eu devia voltar para casa e enfrentar minha tia Elissandra, que devia estar furiosa. Eu não queria surpresas. Não queria novidades. Só um sermão rápido, e sem muitas palavras duras em consideração àquele aniversário.
O cemitério não ficava muito longe. Logo eu estaria em casa. Eu já havia feito esse percurso tantas vezes... Mas aquelas palavras soavam em minha mente, tentando me amedrontar.
“- Eu sempre te encontro.”
“- O que quer dizer com isso?”
“- Que é perigoso andar sozinha por ai.”
Então, ouvi um barulho vindo do meu lado direito, e fiz o resto do percurso correndo.
Quando cheguei em casa, minha tia estava sentada na poltrona vermelha, com um livro nas mãos. Minha tia era uma mulher elegante. E muito bonita. O tempo tinha sido generoso, como ela costumava falar. Já tinha quase 40 anos, mas parecia muito mais jovem. Tinha um rosto delicado, com algumas marcas de expressão. Seus cabelos cacheados geralmente estavam presos, mas eram lindos. Ela sempre falava de forma calma e severa. Eu a admirava. Quando me viu, deixou o livro sobre uma mesinha, e veio em minha direção.
- Você estava no cemitério. – Falou calma. Mas era óbvio que estava furiosa.
- Sim.
- Não foi uma pergunta. Você praticamente mora lá! – Ela parou, e esperou eu dizer alguma coisa. – Não vai dizer nada?
Eu abaixei a cabeça.
- Como quer arranjar um casamento assim?
- Eu não quero!
- Eu temo por você, Anne. Uma moça tão nova que age desta maneira. Você precisa se casar antes que seja tarde de mais. Precisa parar de usar essas roupas. O que as pessoas vão dizer de você?
- Vão dizer que eu estou de luto.
- Faz anos que eles se foram, minha pequena Anne. Você precisa aceitar.
- Eu aceito.
- Eles não vão voltar.
- Eu sei.
- Então, se comporte da maneira adequada e não me envergonhe. Não quero que digam que eu e minha falecida irmã não lhe ensinamos nada. Ela, coitada, tão doente, não teve tempo... Mas eu, bem que tentei, todos dessa casa são prova disso. – Ela parou e respirou fundo. Ela sempre fazia isso quando queria ganhar tempo para pensar no que falar. — Eu vou ser direta, Anne. Eu convidei os Longatto para virem aqui amanhã, e eles irão trazer seu filho. Jovem, bonito, e interessado em você. Eu vou lhe emprestar uma roupa e você...
- Eu não quero!
- Não tem o que não querer. Eu não vou decidir por você e casá-la com qualquer um! Eu poderia fazer isso, mas não, eu estou tentando ser compreensiva com você, minha sobrinha. Ninguém disse que você está à procura de um marido explicitamente e não ficará mal falada se eu trouxer várias famílias para almoçar aqui. Eu sempre fui tão sociável. – Ela sorriu. — Você conhecerá vários rapazes. Isso se você quiser. Por que duvido que não queira o filho dos Longatto. É uma família tão respeitada, e...
- Tia, por favor, chega. Eu não quero conhecer ninguém, não estou à procura de marido. E não me importo de ficar mal falada. Isso não importa para mim.
- E o que quer então? O que deseja para a sua vida? Essa casa precisa de um homem. O dinheiro que seus pais deixaram não vai nos sustentar por muito mais tempo.
- Então vamos cortar gastos. Temos tantos empregados...
- Anne, você não entende nada sobre isso. Sobre dinheiro, gastos e comércio. Você não sabe como é difícil. Eu faço o que posso, mas... A única maneira é arranjando um bom casamento.
- Mas por que agora?
- Por que se não for agora, não vai ser nunca. – E abaixando a voz, continuou a falar perto do meu ouvido. — Agora, você esta no auge de sua beleza e juventude. E ainda não te chamam de bruxa! Quando começarem, não vai ter homem que queira vir pra essa casa, Anne!
Na verdade, ela estava se esquecendo da senhora Venere. Ela é uma antiga amiga da família. E bota antiga nisso. Ela foi amiga da minha avó, que nunca cheguei a conhecer. Ela vinha nos visitar ás vezes, e ficava tomando chá com minha tia na sala, fazendo fofocas e reclamando da vida. E quando me via, falava o quanto eu parecia um bicho do mato, ou que eu era uma bruxa.
Não sei exatamente por que chamá-la de amiga da família, já que nem minha tia a considera uma amiga. Ela parece gostar das fofocas, mas vive falando que só a recebe por educação, e para manter as aparências, é claro. A senhora Venere é uma antiga amiga da família Castellammare, e minha tia sempre diz que é muito bom ter uma amiga assim. Mas do jeito que ela é chata e arrogante, eles também só devem receber ela por educação. Mas que mundo estranho, não?
- Eu não me esqueci da senhora Venere, se é o que está pensando. Mas enquanto ela não começar a espalhar a opinião dela por aí, está tudo certo. Mas a velha não guarda nada por muito tempo. Você sabe como ela é... E como ela fica quando te vê. E eu me preocupo tanto, minha pequena Anne... Estou ficando velha, e tenho você, essa casa e ainda duas crianças para cuidar. Você não pensa em mim? Por que eu penso em você. Seja uma boa garota, e se comporte amanhã. É tudo o que eu te peço. Por tudo o que eu já fiz por você e pela sua família. Não vá para o cemitério amanhã. Almoce conosco. Por favor, Anne. Não me faça passar essa vergonha.
- Tudo bem tia. Eu almoço com vocês, mas... Eu não posso ser uma pessoa que eu não sou.
- Anne, você não é uma garota triste. Você está triste, mas vai passar. Todo o sofrimento vai passar. Você terá um bom marido, e filhos! Muitos filhos, quantos quiser!
- Eu não quero! Não quero marido, e filhos!
- Não fale isso. Algum empregado ouve e arruína sua vida. Nunca fale isso na frente de um homem. Eles vão pensar que você é uma mulher descompromissada e vulgar, que não quer uma família!
- Mas eu não quero, tia!
Ela respirou fundo, desapontada.
- Vá dormir Anne. E fale o mínimo possível amanhã. – Ela me deu um abraço carinhoso.
- Boa noite, tia.
- Boa noite, Anne.
Quando eu já estava no meio da escada, eu me lembrei de uma coisa importante. Com toda aquela conversa de casamento, eu havia me esquecido.
- Tia.
Ela já estava perto da poltrona vermelha.
- Fale Anne.
- Você... Não mandou nenhum empregado ir ver se eu estava mesmo no cemitério?
- Não, eu não mandei ninguém. Por que Anne?
- Não, nada tia, eu só queria saber.
- Eu sabia que você estava bem. – Ela deu um leve sorriso.
- Boa noite tia.
Andei apressada para o quarto. Quem quer que tenha me seguido, não foi uma ordem de minha tia. E eu não sabia se devia temê-lo. Mas amanhã eu descobriria quem era ele.
Uma bandeja com o meu jantar estava me esperando como sempre. Eu estava com fome. Com dúvidas. Com medo. Mas o que importava? Eu só tinha que causar uma boa impressão em um rico rapaz esnobe amanhã, e tudo estaria certo. Mas certo pra quem?
Para mim, tudo ficava cada vez mais errado.
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