Uma Família Feliz...

10 Ecos do chuveiro


A sessão tinha sido pesada.

Bella falara pouco.

Jacob aumentara a medicação.

Alice dirigia de volta para casa em silêncio, observando a cunhada pelo canto do olho.

— Você quer passar lá em casa antes? — Alice perguntou com cuidado.

— Não — Bella respondeu seca. — Eu quero ir pra casa.

A palavra “casa” já não significava abrigo.

Significava teste.

Quando o carro parou na garagem, Bella saiu antes mesmo de Alice desligar o motor.

A porta estava destrancada.

Ela entrou.

Silêncio.

Então… o som.

Água.

O chuveiro ligado no andar de cima.

O coração dela acelerou.

Edward não deveria estar no escritório?

Ela subiu as escadas devagar.

— Edward?

Realidade: silêncio, apenas o som da água.

Na mente dela:

— Já vou, amor…

Mas a voz não era só dele.

Era feminina.

Suave.

Rindo.

Bella congelou.

O nome surgiu na cabeça como um veneno antigo:

Tânia Denali.

A antiga colega de faculdade.

Bonita. Confiante. Sempre flertava.

Sempre parecia à altura de Edward.

A mente da Bella começou a projetar imagens.

O vapor do banheiro.

Corpos colados.

Risadas abafadas.

Mãos na pele.

Ela sentiu o estômago virar.

— Edward?! — gritou.

Na realidade, passos rápidos no quarto ao lado.

Edward tinha acabado de chegar do escritório, deixado a pasta na cama e entrado no banheiro para tomar banho.

Ele desligou o chuveiro ao ouvir o grito.

— Bella?

Mas, na mente dela, o que ela ouviu foi:

— Espera… ela chegou…

O mundo perdeu contorno.

Ela entrou no quarto.

O banheiro estava com a porta fechada. Vapor escapando por baixo.

Na penteadeira, uma tesoura esquecida da última vez que Alice ajudara com alguns ajustes em roupas do bebê.

A imagem na cabeça dela ficou insuportável.

Ela pegou a tesoura.

A porta do banheiro abriu.

Edward apareceu, ainda molhado, enrolando a toalha na cintura.

Sozinho.

Mas Bella não via isso.

Ela via a traição.

Via a humilhação.

Via Tânia escondida atrás dele.

— Sua mentirosa! — Bella gritou, mas não sabia se falava com ele ou com a mulher invisível.

Edward arregalou os olhos ao ver a tesoura.

— Bella, amor, o que você está fazendo?

— Onde ela está?!

Ele não entendeu.

— Quem?!

— A TÂNIA!

O nome saiu rasgado.

Edward percebeu.

Não era raiva comum.

Era surto.

Ela avançou.

Não com intenção clara de matar.

Mas com desespero.

Com pânico.

Ele segurou o pulso dela antes que a tesoura chegasse perto demais.

A luta não foi cinematográfica.

Foi caótica.

Desesperada.

Cheia de choro.

— Solta! — ela gritava. — Eu ouvi vocês!

— Bella, não tem ninguém aqui!

Ela olhava por cima do ombro dele como se alguém estivesse escondido.

— Eu ouvi ela gemendo!

Ele conseguiu girar o corpo dela, segurando os dois pulsos com firmeza, mas sem machucar.

A tesoura caiu no chão.

Ela começou a bater no peito dele com os punhos livres.

— Você me odeia! Você quer outra! Você quer alguém normal!

Ele a puxou para um abraço forte.

Ela tentou se soltar.

— Me solta! Eu vi!

— Não tem ninguém, Bella! Não tem ninguém! — a voz dele quebrou.

Ela começou a chorar.

O tipo de choro que vem do fundo da alma.

A luta saiu do corpo e virou colapso.

Ela escorregou nos braços dele.

— Eu ouvi… eu juro que eu ouvi…

Ele estava tremendo agora também.

— Amor… você está ouvindo coisas que não estão acontecendo.

A frase era perigosa.

Mas era verdade.

Alice apareceu na porta do quarto, pálida.

Ela tinha ouvido os gritos.

Viu a tesoura no chão.

Viu Edward segurando Bella como se ela fosse se desfazer.

Alice começou a chorar em silêncio.

Depois

Bella estava sentada na cama, abraçando os próprios joelhos.

Edward vestiu uma camisa rapidamente e se ajoelhou na frente dela.

— Amor… olha pra mim.

Ela levantou os olhos.

Havia medo ali.

Mas também lucidez parcial.

— Eu estou ficando pior, não estou?

Ele fechou os olhos por um segundo.

— A gente precisa de mais ajuda.

Ela não gritou dessa vez.

Não acusou.

Só perguntou:

— Você vai tirar meus filhos de mim?

Ele segurou o rosto dela.

— Eu vou garantir que você fique viva pra continuar sendo mãe deles.

Silêncio.

Longo.

Pesado.

Ela começou a tremer novamente.

— Eu achei que você estava com outra.

— Eu estava sozinho.

— Eu ouvi ela…

— Eu sei que você ouviu.

Ele não disse “não era real” de novo.

Ele apenas disse:

— Mas eu estava sozinho.

A Decisão

Carlisle foi chamado.

Renee chegou meia hora depois.

Jacob também.

A palavra “internação” voltou à mesa.

Mas agora não era só recomendação.

Era necessidade.

Jacob foi direto:

— O episódio de hoje indica que os pensamentos intrusivos estão evoluindo para distorção perceptiva. Isso é perigoso para ela e para vocês.

Bella escutava.

Diferente das outras vezes.

Sem gritar.

Sem negar.

Apenas cansada.

— Quanto tempo?

— Algumas semanas. Para estabilizar medicação. Terapia intensiva. Ambiente seguro.

Ela olhou para Edward.

— Você vai me visitar?

Ele caiu de joelhos na frente dela.

— Todos os dias.

Ela assentiu.

Uma lágrima escorreu.

— Eu não quero ser assim.

Ele encostou a testa na dela.

— Você não é isso.

Mas naquela noite, pela primeira vez, Edward dormiu com medo real de que o amor não fosse suficiente.

E, pela primeira vez, Bella aceitou ajuda.