Uma Estranha No Meu Quarto
44 Capítulo 37 - Xeque-mate
Notas iniciais
— Tio Carlisle, podemos brincar no Jardim?
Rolei os olhos internamente. Ambas as gêmeas me abraçaram pela cintura e ergueram a cabeça, esperando uma resposta. Eram sempre tão carinhosas comigo, como se tivessem esquecido que eu as sequestrei.
— Claro amores, podem ir.
Elas beijaram meu rosto e correram até a porta do meu esconderijo, numa animação e gritaria de doer os tímpanos. Definitivamente eu detestava crianças, mas enquanto elas fossem necessárias ao ritual não havia muito a ser feito, a não ser fingir gostar delas.
Que morram novamente por lá!
Sentia o olhar de Alana em minhas costas. Ela voltara para mim, e no princípio tudo foi como antes. Exceto pela expressão tensa que as vezes ela demonstrava em seu rosto e os gestos mecânicos, que não condiziam mais com a mulher apaixonada com a qual eu convivia. Alana não tinha voltado por minha causa e sim para proteger as meninas de mim. E após uma semana de fingimento seu objetivo se tornara claro.
Ela claro, achava que eu ainda não tinha percebido, no entanto sempre que eu interagia com as garotas sentia a apreensão emanando de seu espectro e seu rosto se tencionar. Restava saber se ela tinha vindo somente pelas meninas ou também por Roosevelt. Seu ar pensativo e distante vez outra sugeria que ela ainda pensava em meu irmão.
Me aproximei sorrateiramente de minha possível espiã e a enlacei pela cintura, focando seus olhos lindos e traiçoeiros. Já imaginava algo desse tipo, afinal ela tinha concordado em vir comigo de primeira. Foi fácil demais para acreditar. Beijei o topo da cabeça de minha esposa, a lembrança do seu cheiro pairando em minha mente. De toda forma ela ainda estava ali comigo e por enquanto era suficiente.
— Depois que revivermos, você voltará a me amar?
As palavras escaparam de minha boca antes que eu pudesse impedir. Alana ergueu os olhos e a imagem de uma folha em branco me invadiu a mente. Não haviam nada neles, nenhum traço de emoção ou mesmo sinal de algum brilho.
— Que bobagem Carlisle, eu te amo.
Suspirei. Sua voz trêmula e instável confirmava todas minhas suspeitas.
— Não subestime minha inteligência, Alana. — Sussurro ao pé do seu ouvido, incapaz de conter minha frustação. — Eu vou reconquistar você, nem que seja daqui mil anos.
Nem que eu tenha que te manter presa por mil anos, nem que eu tenha que te torturar até vencer pelo cansaço e ferrar todo seu psicológico.
— Logo iremos reviver juntos. Ter uma nova casa, em um novo país. — Tirei uma mecha de cabelo do seu rosto e a prendi na orelha. — Eu jamais a trocaria por aquela menina como Roosevelt fez. A loira.
Alana se afastou de mim com uma nova expressão: Um misto de ódio e mágoa que ela logo fez questão de esconder. Fechei minhas mãos em punho, controlando a vontade de lhe socar o rosto. Bastava falar de meu irmão e a folha em branco ganhava cor.
Ela passou quinhentos anos com ele, claro que Roosevelt a afetava. Mas vê-la com ciúmes de outro deixava afetava meu psicológico, o qual eu lutava todos os dias para controlar.
Ela ergueu o queixo, com um semblante arrogante.
— Ele não me trocou. A loira namora o mediador.
— Mas ele queria...
Alana baixou a cabeça e deitou em meu ombro, derrotada. Dei graças por seu ângulo de visão não revelar meu sorriso. Aos poucos eu envenenaria sua mente contra ele e só restaria a mim em seu coração.
Quando consegui ficar sério ergui seu rosto e tomei seus lábios. Alana correspondeu de forma fria e calculada, sem a metade de seu antigo entusiasmo por mim. Mesmo assim, ergui seus pés do chão e a carreguei pela escada espiral que levava até o quarto. Ela somente abraçou meus ombros e se deixou ser carregada.
Sequer alcancei a porta e pude ouvir o toque fraco do celular na escrivaninha. Parei no meio do batente e nos encaramos. Eu com o semblante surpreso e ela com o semblante aflito, provavelmente esperando por notícias ruins de seu ex-marido.
Theodoro me dera esse celular. Para emergência, ele disse. Devido ao meu estado minha voz não se propaga na linha, e eu não gosto desse tipo de aparelho. No entanto por saber que eu posso ouvi-lo, ele me deu mesmo assim.
Fico estancado no chão. Para ele me ligar às quatro e meia da manhã algo extremamente grave havia acontecido. Mil possibilidades rondam minha mente e é Alana quem me traz de volta ao presente, ansiosa.
— Você não vai atender?
— Vou sim.
Coloco ela no chão e encaro seu rosto. Alana tenta disfarçar a curiosidade desviando os olhos, mas sei que está louca para saber. Contudo com a suspeita dela ser uma espiã não posso permitir que saiba de nada que acontece entre mim e meus aliados, não enquanto não tiver certeza de suas reais intenções. Abro a porta e pego o celular na cômoda, beijando sua testa amavelmente.
— Por que não me espera aqui no quarto enquanto atendo?
Ela fica desapontada, mas assente. Deixo Alana no quarto e praticamente corro até o térreo com o aparelho e seu barulho insistente e desagradável. Assim que chego à cozinha, aperto o botão verde com o dedo e a voz de Theodoro preenche o autofalante praticamente aos gritos.
— CARLSLE!! Por que não atendeu essa porra logo?!
Revirei os olhos. Ele ainda fica esperando minha resposta por um tempo, mas assim que se dá conta de que não posso responder ele suspira e abaixa o tom.
— Preciso que venha aqui no laboratório, aconteceu uma coisa gravíssima. Seu irmão...
Joguei o celular no chão e segundos depois apareci em sua sala, fazendo-o pular de susto. Imaginei o laboratório destruído, mas olhando rapidamente tudo parecia perfeitamente no lugar. Exceto pelo próprio Theodoro e as enormes olheiras roxas debaixo de seus olhos. Meu sócio parecia não ter tido uma boa noite de sono.
Sem qualquer tipo de cumprimento, ele apontou para a enorme TV na parede lateral, ligada porém sem emitir nenhum volume. Uma outra TV sob o suporte estava com seu vidro trincado, como se ele tivesse lançado algo sob tela. Era a única coisa destruída em todo o cômodo.
— Como deixou isso acontecer? Você não disse que tinha tudo sob controle? — Seu tom de voz vai subindo enquanto ele fala. — Falei que seu deslumbramento por aquela vagabunda ia resultar no seu fracasso!
— Que caralhos você está dizendo? — Franzo o cenho confuso. Não tenho a menor ideia do que ele está falando. — Se refira a minha esposa assim de novo e eu mato você.
Tomo um longo fôlego; matar meu sócio e mediador seria um sério problema. Por mais que eu disfarçasse, a essa altura eu estava dependente dele para me comunicar com outras pessoas das quais tenho contato e ele tem ciência de sua importância. No entanto, o que ele não sabe é que para mim ele ainda não era insubstituível. Ninguém além de Alana tem minha genuína atenção.
— OLHA PARA A TV, PORRA!
Obedeço, pois em nossos quase quatro anos de sociedade nunca o vi tão alterado e me surpreendo ao ver a imagem da loira namorada do mediador preenchendo metade da tela. A matéria está quase no fim, mas ainda consigo ler a chamada que diz “Sequestro de corpo em empresa científica”. Esfrego os tímpanos frustrado, já imaginando a face conhecida e triunfante do mentor.
Porra, ele conseguiu.
— Tem ideia do quanto isso é ruim? — Theodoro me indaga arqueando uma sobrancelha. — Você disse que seu irmão não era um problema imediato. — Não respondi, estava tão surpreso quanto ele. — Quatro homens não identificados! Claramente foi ele quem organizou o sequestro com a ajuda do mediador, aquele adolescente infantil do qual subestimamos. Pelo jeito o rapaz é melhor do que pensávamos, afinal..
Christian. Em algum momento ele se meteu em meu caminho e até agora eu o desprezara. De fato, não via ele como uma ameaça. Mas se ele conseguiu roubar o corpo da Becker, ele é mais perigoso do que eu imaginava. Suspirei, esperando que Theodoro me culpasse mais uma vez.
— Quando essa moça reviver, a primeira coisa que ela fará é entregar o livro para o papai estudar. Tínhamos a droga de um acordo, Carlisle! Não sabemos nem a localização desse mediador.
Reprimo minha raiva impedindo que ela transparecesse. Ele estava certo. A moça loira iria desaparecer com o livro e pouco me importaria se Theodoro tivesse seus planos frustrados, mas a ausência do objeto me prejudicava pessoalmente.
— Eu sei que temos um acordo, eu tenho trinta vezes sua idade e não preciso que um merda como você me recorde de meus compromissos...
Nos encaramos com hostilidade, mas ficar discutindo com o cientista a minha frente não traria nada bom. Ignorando-o, caminho até a janela espelhada de sua cobertura e encaro a cidade sonolenta abaixo dos vinte andares, sentindo o gosto amargo da derrotar pairar em minha garganta.
Tenho as crianças e Alana comigo, estou prestes a completar a meta de quinhentos assassinatos e ainda assim, estou perdendo para meu irmão presunçoso. Soco o vidro blindado com raiva.
— Que inferno! Se ao menos eu soubesse para onde Roosevelt levou essa menina...
Imagens de Alana arrumando sua mala no dia em que eu a levaria ao médico me veem a cabeça. Quando Roosevelt queria uma coisa ele era imbatível, como... a família de nosso pai. Em poucos minutos ele havia decido seu destino, convencido ela a me deixa e a enviando para a casa de...
Olho Theodoro e vejo-o franzir o cenho. O sorriso estampado em minha face se alarga ainda mais.
— Ora Carlisle, o que foi?!
— Reúna sua equipe. Eu sei onde o corpo da menina está..
E com ele, uma nova oportunidade de conseguir o livro. Theodoro sai da sala apressado e fico parado em sua sala, com um plano fresquinho em minha mente.
Eu ganhei meu irmão, dessa vez eu ganhei.
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